Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > TROPA DE ELITE

A violência policial no cinema brasileiro

Por Fabíola Ortiz em 23/10/2007 na edição 456

‘Quando fiz o filme do ônibus 174, com o ponto de vista da violência do Sandro Nascimento e sua história de vida, me deu uma idéia: por que não fazer um filme do ponto de vista da violência policial, daqueles policiais que mataram o Sandro?’ Foi assim que José Padilha, diretor do filme Tropa de Elite, que atraiu um público de 180 mil espectadores só no fim de semana de estréia em São Paulo e no Rio de Janeiro, deu início ao debate com alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, promovido pelo Fórum de Ciência e Cultura da instituição.

Após a exibição gratuita do filme para os estudantes universitários, nesta última terça-feira, 16/10, o debate reuniu centenas de alunos no teatro de arena no campus da UFRJ para discutir com o diretor e os três autores do livro Elite da Tropa [do sociólogo Luís Eduardo Soares, André Batista e o ex-capitão do BOPE que atuou seis anos na corporação, Rodrigo Pimentel, que deu origem ao longa-metragem].

Tropa de Elite, que foi escolhido como filme de abertura do Festival do Rio 2007, em setembro, teve seu lançamento nas telas de cinema antecipado para 12 de outubro. O filme, que contou com um orçamento de dez milhões e meio de reais, uma das produções mais caras do cinema brasileiro, é sucesso de público e crítica.

Sinais claros de execução

O filme é narrado por um policial do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar. Para Padilha, o personagem capitão Nascimento acredita profundamente que a violência deve ser combatida com a própria violência. ‘O policial que integra o BOPE é um caso extremo de uma polícia que acredita na violência como solução.’

José Padilha explica que sua opção por mostrar o lado policial é que no Brasil não havia nenhum longa-metragem que abordasse esse ponto de vista – a exemplo de Carandiru, Cidade de Deus e 174, que apresentam outras realidades.

Luís Eduardo Soares, um dos autores do livro, considera que as polícias, em especial a do Rio de Janeiro, são as mais violentas do mundo. E apontou, como dados a título de comparação, que nos EUA a polícia é tida como a mais brutal e mata 200 pessoas por ano.

Segundo ele, dados de 2003 apontam que houve mais de mil mortes no estado do Rio com ‘sinais claros de execução pela polícia’. O sociólogo enfatiza os dados mais recentes de 2006 e 2007: no ano passado foram 1.600 mortes e este ano já chegamos a 1.400. Em cinco anos, mais de quatro mil casos de pessoas assassinadas.

Identidade selvagem

E destaca: ‘É inaceitável conviver com essas estimativas.’ Com o filme e o livro, Luís Eduardo Soares incita a mobilização da opinião pública para discutir a atuação da polícia e pôr em questão esses dados.

Rebatendo as críticas, o diretor afirma que nem o Sandro, nem o Nascimento, são heróis. Considerar algum deles como herói, é ‘simplificar o entendimento do filme’. Para ele, é preciso ser capaz de olhar e entender o discurso policial assim como o do Sandro retratado no documentário 174.

‘A minha idéia era fazer um filme que as pessoas debatessem’, disse Padilha. Ele considera que o BOPE é um batalhão treinado para a guerra, para a caça aos traficantes. O BOPE é retratado no filme ambientado em 1997. Na época, 120 homens compunham o batalhão, que hoje já tem mais de 400. ‘Se uma cidade que precisa ter esse tipo de polícia especial, isso é um sério problema. Não deveria existir uma polícia como essa, não resta a menor dúvida que ela precisa ser mais humana e respeitar a lei.’

Luís Eduardo Soares destaca que a sociedade tende a generalizar os policiais como se fossem os principais agressores. ‘Eles também são vítimas’, disse. E acrescentou: ‘O BOPE é como se fosse uma seita, há um processo de institucionalização da violência, o capitão Nascimento é fruto da construção de uma identidade selvagem.’

‘Politicamente inviável’

De acordo com o sociólogo, há dois grandes problemas na polícia: a corrupção e brutalidade. E sobre livro, ressalta que ‘há um processo histórico da política de segurança pública que está padronizando as atitudes rígidas. Os policiais são também vítimas, antes mesmo de serem apontados como algozes.’

Rodrigo Pimentel concorda e afirma que: ‘A polícia reproduz as violências, os preconceitos e a corrupção da sociedade carioca. A nossa sociedade é violenta, é corrupta e aceita o falso herói como o Nascimento. A polícia acaba fazendo uma réplica da violência desses valores sociais.’

José Padilha enfatiza que o filme não tem como pretensão demarcar uma posição político-partidária. E rebate mais críticas: ‘No 174, me perguntaram se eu era radical de esquerda; neste [Tropa de Elite], se eu sou radical de direita; isso seria politicamente inviável’, ironiza. De acordo com o diretor, há uma noção equivocada de que a arte deve sempre propor soluções e abordar toda a realidade – ‘Isso não é verdade’, afirma.

Descriminalização das drogas

‘O filme mostra que o usuário recreativo de drogas – aquele que não é viciado e pode escolher comprar ou não – sabe de quem está comprando [se referindo aos grupos armados nas favelas]’. Para ele, o filme questiona se aquele que consome drogas está financiando ou não grupos armados com o dinheiro pago pela droga.

Já Luís Eduardo Soares é mais contundente: ‘É claro que as drogas financiam as armas.’

O filme aponta para uma sociedade que coloca o consumidor numa situação complicada: ou ele compra de grupos armados e acaba financiando a violência urbana, ou não consome.

Esse debate suscita uma polêmica ainda maior: a descriminalização das drogas. Padilha se pergunta por que a droga tem que ser criminalizada e a bebida não.

Sobre isso, responde: ‘Sou a favor da descriminalização das drogas, as pessoas devem escolher o que elas fazem. Se eu quero comprar maconha, o que o Estado tem a ver com isso?’

Porém, o diretor de Tropa de Elite questiona se, com a descriminalização, a violência urbana diminuiria. ‘Tenho minhas dúvidas, toda vez que se combate o tráfico de drogas aumentam os seqüestros e homicídios.’

Piratear não é a solução

Mas não foi só pelas críticas e pela bilheteria que o Tropa de Elite virou um fenômeno. Ele também bateu o recorde da pirataria. Segundo pesquisa do Datafolha, só em São Paulo cerca de um milhão e meio de pessoas já assistiu ao DVD pirata. No dia 11 de outubro, foram apreendidos em todo o Brasil mais de 1 milhão de CDs e DVDs pirateados – Tropa de Elite representou 10% de toda a apreensão.

A cópia foi vendida pelos camelôs dois meses antes da estréia do filme, que ainda não tinha a versão final. Além do Rio e São Paulo, os DVDs piratas podiam ser comprados em grandes cidades como Brasília, Belo Horizonte e Salvador. Na internet, mais de 70 mil sites oferecem o filme para download.

Sobre o fenômeno que popularizou o filme, Padilha não nega que tenha ganhado mais projeção, mas mesmo assim considera a pirataria crime. ‘A pirataria envolve sonegação fiscal, não paga impostos, nem reconhece direitos trabalhistas ou dos consumidores. Eu sou a favor de um cinema mais barato, mas piratear não é a solução.’

Em resposta a uma sugestão da platéia de fazer um filme sobre os verdadeiros ‘chefões do tráfico’, Padilha garante que o próximo filme será sobre o Congresso Nacional. O roteiro está sendo escrito junto com o Gabriel, o Pensador.

******

Estudante de jornalismo da UFRJ, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem