Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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CADERNO DA CIDADANIA >

A visita que virou um circo

Por Ligia Martins de Almeida em 21/02/2013 na edição 734

Nos últimos dias os jornais têm falado muito de uma cubana em visita ao Brasil. Conhecida blogueira, Yoani Sánchez despertou a ira de extremistas no Nordeste, onde elogiou a liberdade de manifestação e comentou que estava acostumada com agressões. Acabou – suprema ironia – andando com escolta no país que se orgulha de uma recém-conquistada democracia. Por sorte, alguns políticos de Brasília saíram em defesa dela, dizendo que não é da nossa tradição maltratar os visitantes.

Delicada, educada e simpática, a cubana de 37 anos merecia um tratamento melhor dos extremistas de esquerda e, da imprensa, um qualificativo mais adequado do que “blogueira”. Merecia, no mínimo, ser chamada de jornalista ou escritora, já que seu texto – o blog Generación Y merece ser lido – é da melhor qualidade. Ela própria recomendou aos seus opositores que lessem o que escreve para descobrirem que ela não é financiada pelos Estados Unidos e muito menos uma traidora de Cuba.

Yoani se negou a falar do Brasil porque não quer repetir o erro das pessoas que ficam uma semana em Cuba e tentam explicar o país a ela, conforme afirmou ao Estado de S. Paulo (19/2/). Em suas crônicas diárias, escreve sobre os problemas da educação, da saúde, da pobreza, mas também fala de cachorros, de teatro e de mulheres, dando, aos leitores de fora de Cuba, um retrato realista de sua terra.

Entre especulações sobre conspirações governamentais cercando a visitante, proteção policial e manifestações, a autora do Generación Y continua conhecendo o Brasil que a fascinou na chegada pela rapidez da internet. E a imprensa segue acompanhando seus passos.

Melhores momentos

O primeiro dia, segundo a Folha de S.Paulo (19/2):

“Recebida sob protestos em Recife, Salvador e Feira de Santana nesta segunda-feira (18), Sánchez afirmou que em Cuba as manifestações contrárias ao governo são repelidas com truculência pelas autoridades. ‘Contra o governo, os protestos não duram um minuto. Quem é contra é agredido e torturado’, contou a blogueira. Sánchez também negou que recebe financiamento de grupos ligados a grandes meios de comunicação e falou sobre o que chama de ‘Reforma Raulista’. ‘Eu creio que a direção esteja correta, com melhoras econômicas. O problema é a velocidade e a profundidade não são suficientes para o que necessita a nação e a velocidade é desesperadora’, afirmou. Perguntada se era de esquerda ou direita, ela respondeu: ‘Eu sou por Cuba, não creio mais em definições de direita ou esquerda, pois sou pelo século 21, um governo não pode dizer que é de esquerda com ações retrogradas. Sou pró-Cuba’, completou.”

O segundo dia, pelo jornal Estado de S. Paulo (20/2):

“A chegada de Yoani ao Congresso foi marcada por tumulto. Na Câmara dos Deputados, alguns parlamentares a aplaudiram e outros protestaram contra a interrupção da votação de uma medida provisória que estava ocorrendo no momento. Houve bate-boca entre os parlamentares. Ela chegou a subir no palanque, mas não falou aos presentes. Logo em seguida, a comitiva da blogueira deixou o plenário e seguiu para a sala dos trabalhos da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.”

A pergunta que Yoani deve estar se fazendo, a essa altura, é se os manifestantes não têm nada melhor a fazer do que defender um regime político que não conhecem. Quando gritaram com ela na Bahia, respondeu com um sorriso. Sorriso que repetiu em Brasília onde, certamente, ninguém teve tempo de contar que do lado de fora do Congresso Nacional havia gente protestando contra o presidente do Senado – e que em algumas fotos tiradas lá dentro estão parlamentares condenados por corrupção e outros sob investigação. De sua visita ao Brasil, Yaoni declarou que vai levar a lembrança do pluralismo político. E disse que os cubanos e brasileiros são iguais – a não ser pela liberdade, que os cubanos não têm.

Tem razão a jornalista cubana ao dizer que no Brasil temos liberdade. Pena que aqueles jovens que protestavam contra ela conheçam pouco da história recente do país, quando a censura e o medo eram parte da nossa realidade. E por isso não dão valor ao direito de dizer o que pensam. Nem mostram respeito por uma pessoa que luta pelo direito de poder dizer o que sente. A mídia, felizmente, está fazendo a sua parte, mostrando o circo em que se transformou a viagem de Yoani Sánchez ao Brasil.

Tomara que a imprensa ainda possa registrar bons momentos de Yoani no país, com direito a conversas tranquilas, passeios descontraídos e a civilidade que a jornalista certamente sonhava encontrar por aqui.

***

[Ligia Martins de Almeida é jornalista]

 

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