Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

ABI, um século de defesa da liberdade

Por Lilia Diniz em 09/04/2008 na edição 480

O centenário da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), comemorado na segunda-feira (7/4), foi o tema do Observatório da Imprensa exibido na terça (8/4) pela TV Brasil e TV Cultura. Criada menos de duas décadas após a proclamação da República, a instituição lutou pela liberdade desde os primeiros anos, envolvendo-se em causas como a anistia de jornalistas, a campanha pelas eleições diretas e o impeachment do presidente Fernando Collor. Participaram o programa, no estúdio do Rio de Janeiro, o presidente da ABI, jornalista Maurício Azêdo, e a também jornalista Ana Arruda Callado. O historiador Marco Villa esteve no estúdio da TV Cultura, em São Paulo.


Alberto Dines comentou os temas relacionados à mídia que tiveram destaque na semana. O jornalista abordou a abertura de um inquérito específico sobre o vazamento de informações sigilosas sobre despesas do presidente Fernando Henrique Cardoso: ‘Se a providência não demorasse tanto, seria desnecessário delimitar o escopo do inquérito’. Outro tema foi a cobertura do assassinato da menina Isabella Nardoni, ocorrido em São Paulo dia 29 de março. Mesmo o caso correndo sob segredo de justiça, um promotor comentou suas suspeitas com jornalistas e um juiz determinou a quebra do sigilo. O segredo dos laudos periciais foi mantido, mas o conteúdo destes ainda é passado para os meios de comunicação, mostrando a atração de autoridades pelos ‘holofotes da mídia’.


Outro assunto da seção ‘Mídia na Semana’ foi a conclusão do inquérito de um júri britânico sobre a morte da princesa Diana e seu namorado, Dodi Al-Fayed. Em 1997, o carro em que estavam chocou-se com uma pilastra em um túnel em Paris, causando também a morte do motorista do veículo. De acordo com o veredicto, o condutor e os paparazzi que perseguiam a princesa foram negligentes. Dines também comentou o lançamento do livro do jornalista Eugênio Bucci sobre os problemas para enfrentar o jornalismo chamado de chapa-branca quando era presidente da Radiobrás. ‘Bucci venceu a parada e permaneceu no cargo ao longo do primeiro mandato do presidente Lula. Sinal de que o ‘jornalismo público’ não será problema, enquanto for defendido com firmeza e convicção’, disse.


No editorial, Dines comentou que a demissão do jornalista Luiz Lobo, editor-chefe e âncora do telejornal Repórter Brasil, da TV Brasil, é um assunto grave e que foi imediatamente encaminhado ao Conselho Curador da emissora. Dines também comentou a não renovação do mandato do ouvidor da Folha de S.Paulo, o jornalista Mário Magalhães. O ombudsman não aceitou que o boletim diário de críticas deixasse de estar disponível na internet, conforme queria a direção do jornal. Para Alberto Dines, o jornal cumpriu com o seu papel ao publicar a extensa despedida de Mário Magalhães e as cartas de protesto dos leitores, mas ‘o resto da grande imprensa assiste calada ao retrocesso em matéria de transparência’.


A ABI como defensora das liberdades


‘A ABI não é propriamente uma entidade de classe, corporação profissional, é uma instituição a serviço da democracia, portanto guardiã do interesse público. Neste ano dos 200 anos da imprensa, os 100 da ABI incorporam-se a um monumento político e cultural que vem sendo construído todos os dias tantos pelos jornalistas como por seus leitores’, sublinhou Dines, no editorial [ver íntegra abaixo]. A reportagem exibida antes do debate contou a história da associação.


Para o cartunista Ziraldo, a ABI é fundamental na defesa da liberdade de expressão. O diretor cultural da instituição comentou que a sinuca instalada na sede da associação era ponto de encontro não só de jornalistas, como também de artistas e intelectuais. O compositor Villa-Lobos, por exemplo, era assíduo freqüentador do bilhar. O café e bar Vermelhinho, que durante anos funcionou em frente à ABI, também foi citado como local de reunião de intelectuais. O jornalista Milton Coelho da Graça, que fez parte do conselho da associação, disse que a ABI pode ser encarada como uma ‘casa de tolerância no bom sentido’, pois aceita diversas correntes culturais, políticas e ideológicas. O professor Fernando Pamplona avaliou que a instituição era um pólo de atração nos anos de 1950, pois nada ocorria fora do centro do Rio de Janeiro, onde estava localizada.


O jornalista Sérgio Cabral, que elogiou a gestão de Maurício Azêdo, disse que não entende por que historicamente o número de filiações de jovens é baixo. Cabral lembrou que quando entrou para a ABI, com cerca de 20 anos de idade, a associação era ‘lugar dos coroas’. Havia a Ordem dos Velhos Jornalistas, um grupo de repórteres veteranos e bem humorados que freqüentava a sede da instituição. Atualmente, Sérgio Cabral faz parte do conselho deliberativo da casa e contou que, entre amigos, se compara aos antigos jornalistas: ‘Hoje a Ordem dos Velhos Jornalistas somos nós’.


Wilson Figueiredo, jornalista, destacou a técnica de Herbert Moses — que presidiu a ABI por mais de três décadas — em lidar com autoridades do Estado Novo. O comentarista de política Villas-Bôas Corrêa afirmou que a ABI foi exemplar na posição cívica de defesa dos jornalistas por um órgão de classe.


República Velha e anos 1930


No debate ao vivo, Maurício Azêdo disse ter sido ‘comovente’ a cerimônia ocorrida na noite de segunda-feira (7/4), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, para celebrar o centenário. Inúmeras personalidades participaram da comemoração, como o vice-presidente José Alencar e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. A festa incluiu apresentações da Orquestra Sinfônica Brasileira e o músico Paulinho da Viola: ‘Tivemos uma noite memorável’, comentou.


Dines pediu para o historiador Marco Villa traçar um panorama do contexto político no qual a ABI foi criada. Villa explicou que as primeiras décadas da República foram difíceis para a imprensa. Um dos primeiros atos do marechal Deodoro da Fonseca, em dezembro de 1889, pouco depois da proclamação, foi instituir a censura e suprimir a liberdade de imprensa. Anos depois, na gestão do presidente Afonso Pena, a imprensa continuava sendo atacada, com periódicos empastelados e jornalistas assassinados. Para o historiador, a imprensa e a liberdade durante a República Velha foram atingidas não só no Rio de Janeiro, como também nos outros estados. Com a Revolução de 1930, quando jornais foram fechados, a imprensa também ficou ameaçada. Durante os primeiros 40 anos, a ABI teve o importante papel de denunciar as violações à liberdade de imprensa.


A instituição nasceu parecendo um sindicato, na opinião de Ana Arruda Callado, mas se transformou e hoje representa os jornalistas em sentido mais amplo, englobando também os donos de jornal. O fundador da ABI, Gustavo Lacerda, era, para Ana Arruda, um excelente jornalista, nas que não tinha status dentro das redações de jornal. Ana destacou que atualmente a ABI tem um papel fundamental na defesa da liberdade de pequenos jornais, constantemente atacados e pressionados.


Maurício Azêdo comentou que enfrenta dificuldades para divulgar as atividades da ABI nos principais jornais, como por exemplo o ciclo de cinema que a diretoria de Cultura realiza. ‘Não temos encontrado nos meios de comunicação a divulgação necessária’, criticou. Azêdo afirmou que deseja estabelecer parcerias para a veiculação das informações sobre as iniciativas da instituição.


A relação com os regimes ditatoriais


Durante o regime político autoritário do presidente Getúlio Vargas, de 1937 a 1945, a relação da ABI com o governo foi ‘próxima e perigosa’, na avaliação de Marco Villa. Herbert Moses, que presidiu a instituição por mais de 30 anos e comandou a construção da sede própria da associação – em terreno cedido pelo governo, na década de 1930 – livrava os jornalistas da prisão, mas era ‘chapa-branca’, na opinião de Ana Arruda. Outro presidente citado foi Prudente de Moraes Neto, um dos articuladores do golpe de 1964. Para a jornalista, ele foi um homem conservador, mas democrata, tendo sido um presidente exemplar na luta contra o terrorismo de Estado que se instalara no país.


Para Azêdo, há radicalização nas análises da relação da ABI com Vargas. O jornalista ressaltou que Vargas estabeleceu a regulamentação da profissão de jornalista, a jornada de trabalho de cinco horas e o piso salarial para a categoria.


Perfil dos participantes


** Ana Arruda Callado é jornalista, escritora e professora universitária. É doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e preside o Conselho Estadual de Cultura. Foi vice-presidente da ABI no mandato 2001/2002 e em seguida foi eleita para a presidência do Conselho Administrativo.


** Maurício Azêdo, jornalista há mais de 50 anos, é presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Advogado formado pela Faculdade de Direito da antiga Universidade do Estado da Guanabara, foi conselheiro do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro.


** Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, é doutor em história social pela USP. Já publicou vários livros, entre eles ‘Jango, um perfil (1945-1964)’.


***


Uma instituição a serviço da democracia


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV nº 456, no ar em 08/04/2008


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


A grande imprensa está noticiando com destaque a demissão do jornalista Luiz Lobo, editor-chefe e âncora do telejornal Repórter Brasil da TV Brasil. O assunto é grave e foi imediatamente encaminhado ao Conselho Curador da TV Pública.


Mas a grande imprensa está passando ao largo de um assunto igualmente grave: a não renovação do mandato do ouvidor da Folha de S.Paulo, Mário Magalhães, que não aceitou a supressão de uma de suas funções: o boletim diário de críticas através da internet.


Dois pesos e duas medidas: a Folha evidentemente publicou no último domingo a longa e detalhada despedida do seu ouvidor e vem publicando nestes dois dias as cartas de protesto de seus leitores. Mas o resto da grande imprensa assiste calada ao retrocesso em matéria de transparência.


A mídia privada acha que tem o direito de resguardar-se do olhar da sociedade e além desta modéstia funciona uma espécie de solidariedade empresarial que mantém longe do conhecimento público as suas mazelas. Voltaremos ao assunto.


O centenário da Associação Brasileira de Imprensa não é uma festa somente para aqueles que estão envolvidos com o jornalismo, sejam profissionais ou empresários. É uma festa de uma instituição pública criada nos primeiros anos da República quando os papéis políticos e os poderes ainda não estavam definidos.


A ABI não é propriamente uma entidade de classe, corporação profissional, é uma instituição a serviço da democracia, portanto guardiã do interesse público. Neste ano dos duzentos anos da imprensa, os cem da ABI incorporam-se a um monumento político e cultural que vem sendo construído todos os dias tantos pelos jornalistas como por seus leitores.

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