Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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CADERNO DA CIDADANIA >

Abuso infantil psicológico

Por Cláudia Rodrigues em 26/05/2009 na edição 539

No domingo, 17 de maio, a menina Maísa, apresentadora do SBT, foi chamada pelo apresentador Silvio Santos ao palco para sofrer humilhações. Segundo o apresentador, uma menina de seis anos, ao chorar, está se comportando como se tivesse dois meses de idade e fosse um bebezinho. Desolada, a garotinha pede desculpas por ter chorado na semana anterior e justifica que está magoada. Ele a chama de medrosa, ela se desespera e sai correndo, acaba batendo com a cabeça numa câmera e Silvio Santos então incita a platéia em coro a gritar: ‘Medrosa! Medrosa!’

A garotinha volta, diz que a cabeça está doendo, tenta explicar-se novamente, revela que gosta muito do patrão. Continua a humilhação, ela chama pela mãe, que não aparece, não acode, ela tenta sair do palco, retorna mais de uma vez e continua sendo humilhada. Antes de Maísa sair definitivamente de cena, Silvio Santos faz uma última ameaça: ‘Quando você casar, nenhum marido vai agüentar você’.

O caso foi levado ao Ministério da Justiça e ao Ministério Público Federal por duas fontes diferentes. No MPF, um advogado formalizou a denúncia contra o SBT. No MJ, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente encaminhou relatório sobre o caso.

Não dá para levar a sério a campanha da mídia contra o abuso sexual infantil num país em que o abuso psicológico é visto como normal, incentivado pela mesma mídia com requintes de sadismo coletivo.

Sadismo e falta de limites

Ficou claro que a menina, apesar de toda a dor e da humilhação por não ter direito, segundo o patrão, a chorar aos seis anos de idade, temeu perder o emprego e voltou várias vezes, sempre tentando se justificar e dizendo que adorava o patrão. Sádico, ficou óbvio que Silvio Santos é. Se fosse pedófilo, já teria o terreno todo pronto para cometer mais um crime porque o de submeter a pequena a constrangimento e humilhação ele cometeu.

Os pais da menina, onde estão nisso? Será que no contrato consta como direito do patrão abusar psicologicamente da menor em público?

Que sirva como exemplo para que as leis sejam respeitadas e, mais que isso, possamos retomar o debate que começou no ano passado com o caso Isabella Nardoni, sobre causas e conseqüências dos abusos de adultos sobre a frágil personalidade infantil. O debate morreu na praia, no ódio da platéia por aqueles adultos em questão, mas a corrida a favor dos direitos da criança a um tratamento digno e respeitoso evaporou em notas jurídicas sobre o caso.

Não parece boa a comparação? Parece exagero? Não é. Atrás do abuso sexual infantil, atrás das ‘palmadas inocentes’, dos crimes, do aumento de crianças deprimidas, do discurso vazio sobre limites infantis, está o sadismo e a total falta de limites de uma sociedade adulta doente, que vê a criança como brinquedo, objeto, sem o menor senso de humanidade.

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Jornalista e educadora somática, autora de Bebês de Mamães mais que Perfeitas, Centauro Editora, 2008

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