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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CADERNO DA CIDADANIA > ESTADOS UNIDOS

Advogado fala sobre o caso Sami Al-Haj

Por Repórteres sem Fronteiras em 27/05/2008 na edição 487

O advogado Clive Stafford-Smith concedeu uma entrevista, no dia 19 de maio de 2008 a Lucie Morillon, representante de Repórteres sem Fronteiras nos Estados Unidos da América, sobre o seu cliente Sami Al-Haj, operador de câmera sudanês do canal Al-Jazeera, detido durante seis anos na base norte-americana de Guantánamo, em Cuba. Stafford-Smith, que se deslocou aos Estados Unidos para testemunhar ante o Congresso, em Washington, aproveitou a ocasião para falar sobre o estado de saúde e o futuro profissional do seu cliente.


Sami Al-Haj foi acusado de dirigir um sítio online com ligações ao extremismo islâmico e de ser pago pela Al-Qaeda por ter tentado entrevistar Osama bin Laden. Apesar destas acusações, o jornalista não chegou a ser em nenhum momento formalmente incriminado.


‘[O exército norte-americano] acusava Sami Al-Haj de ser um suposto terrorista por este ter recebido uma formação do seu canal, Al-Jazeera. Os termos exatos eram: `O preso confessou ter sido ensinado pela Al-Jazeera a manejar uma câmera de filmar´, o que os militares consideravam como terrorismo’, afirmou Stafford-Smith. ‘Não existe nenhum tipo de fundamento jurídico. Eles inventavam novas acusações e nós demonstrávamos uma e outra vez que não passavam de disparates.’


Banheiro proibido


Stafford-Smith assegura que não lhe foi dada nenhuma explicação quanto à libertação tardia de Sami Al-Haj. Com efeito, as autoridades norte-americanas continuam a considerá-lo um terrorista. Ao longo da sua estadia em Guantánamo, os interrogadores pretenderam obrigar o operador de câmera sudanês a incriminar o seu canal, Al-Jazeera, acusada de receber financiamento da Al-Qaeda.


‘Trata-se, a meu ver, de uma agressão contra a Al-Jazeera. Como cidadão americano, considero esta ação deplorável, porque supostamente deveríamos defender a liberdade de expressão, e a Al-Jazeera é vista como o porta-estandarte da liberdade de expressão no Médio Oriente’, explicou Stafford-Smith.


O advogado também se debruçou sobre o estado de saúde de Sami Al-Haj, que teve de ser hospitalizado em Cartum devido a uma condição de extrema fraqueza, na seqüência da longa viagem de avião. A utilização do banheiro foi-lhe vedada durante as vinte horas do vôo, no decurso do qual o jornalista não abdicou da sua greve de fome. Sami Al-Haj efetuou todo o trajeto algemado e encapuzado.


‘Os médicos que o atenderam no Sudão temiam pela vida dele’, afirmou Stafford-Smith. ‘No entanto, conseguiu recuperar as forças nos dois ou três dias seguintes’.


Greve de fome


Para além das seqüelas resultantes das torturas padecidas em Guantánamo, os médicos da base haviam informado Sami Al-Haj de que sofria de um cancro mas que lhe seria impossível consultar um especialista. Porém, os exames realizados pelos clínicos sudaneses não indicaram nenhum indício de cancro.


No que diz respeito ao âmbito profissional, o advogado garantiu que o seu cliente não tinha por agora a intenção de visitar uma zona de guerra ou de conflito. Stafford-Smith revelou igualmente que a Administração norte-americana pressionara o governo sudanês para que este proibisse Sami Al-Haj de viajar ou de retomar a sua colaboração com a Al-Jazeera.


‘Ele preferiria passar mais dez anos em Guantánamo do que assinar um documento desse tipo’, afirmou Stafford-Smith. ‘Quando da libertação, um almirante foi ter com ele para convencê-lo a assinar um documento, mas o Sami respondeu que o seu advogado lhe aconselhara a não assinar nada.’


Quanto às acusações de tortura, rejeitadas pelo governo americano, Stafford-Smith asseverou que o seu cliente havia sido interrogado em cento e trinta ocasiões. Em cento e vinte delas, os militares tentaram obrigar Sami Al-Haj a admitir que a Al-Jazeera era uma organização terrorista. O advogado descreveu também os métodos de alimentação pela força utilizados contra os presos em greve de fome – os guardas introduziam um tubo estreito no nariz dos detidos. ‘Era um trato desumano’, sublinhou Stafford-Smith. Sami Al-Haj passou um total de 478 dias em greve de fome. ‘Lembrem-se das greves de fome dos militantes do IRA nos anos 80 – raramente ia além dos setenta dias.’


Apoio à libertação


Stafford-Smith sofreu na pele as acusações do governo americano, segundo o qual o advogado teria incitado três prisioneiros ao suicídio. ‘Julgo que é deveras repugnante sugerir que eu teria propiciado o suicídio dos meus próprios clientes.’


Questionado sobre o destino dos outros prisioneiros de Guantánamo, Stafford-Smith opinou que os riscos planetários são atualmente mais graves do que eram antes do 11 de Setembro. ‘Ninguém no seu perfeito juízo pode encarar-nos olhos nos olhos e afirmar que a prisão de Guantánamo contribuiu a fazer do mundo um lugar mais seguro.’


Segundo Stafford-Smith, ‘a prisão de Guantánamo será encerrada dentro em breve’. Mas, para o advogado, o verdadeiro problema são os 27.000 prisioneiros ainda detidos pelos Estados Unidos em prisões secretas e em condições ainda piores do que em Guantánamo.


Stafford-Smith aproveitou a entrevista para agradecer à Al-Jazeera, aos governos do Qatar e do Sudão e às organizações como Repórteres sem Fronteiras pelo apoio em favor da libertação de Sami Al-Haj.


***


Abaixo, o vídeo da entrevista dividido em duas partes:









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