Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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CADERNO DA CIDADANIA >

Afinal, a gente precisa mesmo de jornalista?

Por Guilherme Azevedo em 14/04/2015 na edição 846

A pergunta que o título deste texto coloca é também a que me coloco com regularidade e alguma dramaticidade muitas vezes, ao longo dos dias, muitos dias, na verdade desde o princípio. Sou jornalista de formação, com diploma, e constantemente questiono minha utilidade para o mundo. Tenho alguma? Precisam de mim? Precisamos de jornalistas? Para quê? Para quem?

Provavelmente não chegarei a uma conclusão assim bem-acabada, porque, de coração, não acredito em conclusões bem-acabadas. Nem mesmo acredito em conclusões. Não é tudo tão fluido, tão incerto, tão imprevisível, tão mutável, para a gente fechar assim de pronto um diagnóstico preciso, já ir concluindo, confirmando aquela velha opinião formada e ignorando a própria ignorância? Sempre tive profundo pavor dos homens de certezas; ou, vá lá, admito, até um pouquinho de inveja tenho deles, porque os homens de certezas parecem ser mais fortes e sofrer menos do que aqueles que duvidam e se angustiam. Espero, então, compartilhar aqui algumas dúvidas, alguns pensamentos sobre a natureza do jornalista e do jornalismo. Meu lugar de fala é o de quem trabalha com jornalismo e comunicação há vinte anos e só conheceu a profissão de jornalista em crise, desde o início. Não minimizo, contudo, a gravidade da atual crise do jornalismo como o conhecemos, bancado majoritariamente por empresas ou grupos de comunicação.

O jornalista imprescindível, o que é?

Se nossa hipótese for a de que precisamos de jornalistas para viver melhor em sociedade, é importante descrever, caracterizar ou ao menos contornar mais ou menos esse profissional supostamente imprescindível, do modo como eu o entendo, humildemente. Do ponto de vista de sua atividade, de sua contribuição mais objetiva, o jornalista realiza tarefas meio de mediador, meio de incentivador de relações e diálogos, meio de organizador e difusor de informações e narrativas, meio de contextualizador de passados, presentes e futuros. Para que exerça esse trabalho com plenitude, o jornalista, na minha opinião, precisa de uma formação digamos mais formal, acadêmica, mesmo. Sou a favor do conhecimento formalizado, de estudos direcionados, da prática da reflexão continuada sobre a profissão, da discussão organizada de suas características e impactos sociais, e isso tudo um bom curso universitário pode oferecer. Sou favorável ao diploma de jornalista, mas não como garantia de mercado ou instrumento corporativista, para formar e proteger uma categoria. O diploma deveria ser, antes de tudo, o atestado de qualidade de um profissional. A faculdade, sim, encurta caminhos e estimula uma discussão teórica importante para a prática do futuro profissional.

É preciso dizer também que a faculdade, sozinha, não garante o nascimento de bons profissionais. Há jornalistas diplomados que não estão aptos a atuar como comunicadores, simplesmente porque lhes faltam, na ausência de palavras melhores, vocação e talento. Ao passo que noto essa vocação e talento, essa facilidade de comunicar e relacionar dados e pessoas, em quem medrou longe de uma carteira universitária do curso de jornalismo. Por isso, apoio o jornalismo cidadão. Todos, com diploma de jornalista ou não, somos capazes de contar uma boa história com precisão e riqueza de detalhes e fazer uma reflexão equilibrada e profunda sobre fatos do dia a dia, e as novas mídias digitais vieram para nos colocar em igualdade de condições de comunicar. É um sonho realizado, é um ganho social a multiplicação de pontos de vista e de narradores.

Insisto no tema da vocação. Os que têm mais chances de se dar bem como jornalistas, como comunicadores, inclusive do ponto de vista financeiro, são aqueles cujos traços de personalidade, de inteligência, de afetividade são naturalmente afeitos aos modos da profissão. Há, sim, espaço para os tímidos, para os menos falantes, eu sou um deles, embora não seja exemplo para ninguém. A gente vai ser comunicadora, jornalista, porque é assim, e não é assim porque a profissão exige. Questões técnicas à parte, acredito que a condição das condições seja mesmo gostar de gente. Ser jornalista, ser comunicador é amar o ser humano, é amar mesmo o próximo, se encantar pelo mundo do outro, que não é, de verdade, um mundo à parte. Até assusta perceber como o mundo do outro é na verdade o nosso, o meu mundo. Nos tornamos protagonistas apenas quando entramos em relação, como já notaram e ensinaram estudiosos do diálogo e da relação, com Martin Buber e Paulo Freire à frente. Claro que a técnica, o conhecimento das regras, das formas e de tudo o mais importam para um trabalho benfeito, mas não são condição primordial nem exclusiva. Conta, sobretudo, a capacidade de amar e também de gerar empatia, incluindo aqui, naturalmente, o leitor, nosso parceiro de conhecimento, nosso irmão. Portanto, quem aderiu ao jornalismo em busca de alguma forma de status e/ou ganho financeiro tende a ficar atrás na profissão daquele que entrou nela por paixão, por necessidade existencial de expressão. Quem adula chefes e poderosos não sobe também? Pode ser. Mas a consciência desse profissional, ou a vida mesma, será que não cobra, um dia, o preço? Os antigos diziam que jornalismo é sacerdócio, acho que estou com eles, talvez reduzindo um pouco essa feição meio religiosa da profissão.

Ver além

Outro aspecto que considero importante nesse profissional que supostamente julgamos imprescindível é a capacidade, na verdade a obrigatoriedade, de ir além do mero relato factual. As plataformas digitais, como um todo, universalizaram o acesso à informação mais imediata, ao acontecimento bruto, a bancos de dados de todos os tipos. Isso é excelente, em termos de pesquisa e de atualidade. Porém, para que possamos andar bem no mundo, sabermos em que momento mais ou menos da história da nossa humanidade nos encontramos, termos algumas intuições que nos permitam situar presentes e planejar futuros, exigimos um pouco mais daqueles que anseiam por nos ajudar nessa tarefa. Do jornalista será cobrado um conhecimento mais profundo dos assuntos sobre os quais fala ou escreve. Uma formação mais ampla, mais atenta, mais cuidada é necessária. Isso, provavelmente, virá de um sem-número de cursos extras e especializações, de livros, palestras, viagens etc., um processo contínuo que levará uma vida.

Me junto também àqueles que não abrem mão da proximidade de jornalistas e profissionais mais experientes. A experiência tem um valor inestimável para esse jornalismo e esse jornalista que consideramos indispensáveis. Vêm dos mais velhos uma sabedoria e um conhecimento absolutamente essenciais e insubstituíveis e únicos, sem os quais não há conhecimento válido, não há jornalismo. Eles contribuirão com prudência, bom senso, conhecimento histórico, com a assertividade e a objetividade que só a prática ao longo dos anos pode proporcionar. Nos orientarão pelos melhores caminhos, para que não nos percamos durante a busca. As redações por aí, contudo, as empresas jornalísticas de modo geral, abriram exatamente mão dessa experiência e profundidade e o resultado é o que vemos: um jornalismo frágil e raso que pouco ajuda na tarefa de saber e compreender o mundo. Valorizemos os cabelos brancos.

Capaz de relacionar

Também como consequência da disponibilidade farta e instantânea de informações sobre acontecimentos das mais diversas naturezas, uma nova atitude se pede dos jornalistas. É preciso estabelecer relações entre os fatos e não apenas enumerá-los ou descrevê-los, como se fossem uns isolados dos outros, como se uma coisa não estivesse de certa forma relacionada com a outra. É uma nova postura, compreensiva, que o jornalista de que não abro mão precisa. Um esforço consciente e firme para juntar as pontas dos fios que formam esse louco tecido que colocamos no corpo, chamado realidade. É preciso ver além, ver de olhos fechados, sentir a realidade, tateá-la, cheirá-la, saboreá-la, em busca de sentidos recônditos. O bom jornalista é aquele capaz de ver as múltiplas relações existentes entre fatos que só na aparência não dialogam ou se excluem, de estabelecer comparações entre situações só aparentemente incomparáveis e oferecer algo melhor, mais refletido, mais profundo. O mundo é cada vez mais complexo e diverso e exige esforços cada vez maiores na tarefa de compreendê-lo. Não há espaço para amadorismos nem para simplificações, em nome da relevância que o jornalista e o jornalismo que se querem imprescindíveis devem manter.

A relação com o leitor/telespectador/público também se reconfigura no novo contexto informativo do mundo, do ponto de vista do jornalismo que se quer essencial. Seremos companheiros na aventura de conhecer o mundo, eu e você. Não é o jornalista mais dono de nenhuma verdade (na verdade nunca foi); é um homem, uma mulher que também tateia no escuro e precisa da parceria do leitor, do público para, de mãos dadas, encontrarem sentidos. Ao jornalista, portanto, não cabe mais aquela certa petulância, certa arrogância tão tristemente reconhecível ao longo dos anos, nas principais redações e empresas jornalísticas desse nosso país ainda tão injusto e desigual também na comunicação. E vou escrever aqui com alegria imensa, com euforia: adeus, arrogantes jornalistas!, morram! vocês fizeram um mal danado para a profissão e para o mundo! Essa horizontalidade crescente na relação entre jornalistas e leitores é condição mais propícia e profícua para o conhecimento de qualidade.

Leitor corresponsável

Se o público dispõe agora de um status novo no mundo informativo, precisa fazer valer esse direito com responsabilidade e contribuir com profissionalismo. O bate-boca sem fim dos debates nas redes sociais digitais, em que poucos ousam duvidar de si mesmos e considerar a opinião alheia (como todo mundo hoje tem opinião sobre tudo, meu Deus!), não faz jus ao novo paradigma midiático. O leitor é parte fundamental desse processo de conhecer o mundo e precisa participar de forma efetiva e produtiva. Como dizem os muros por aí, na cidade, com toda razão, mais amor, por favor! Menos ódio, menos incompreensão, menos dicotomia, menos dialética! Mais compreensão, mais complexidade, por favor! Mais proposição, menos situação ou oposição. Criar ambientes propícios para o debate sério e responsável, propor temas, lançar campanhas generosas, possíveis soluções é um caminho mais digno para o jornalismo. Ser do contra, ou ser a favor, exclusivamente, pouco ou nada ajuda.

Sou daqueles ainda que apreciam um bom texto ou um bom discurso; acredito, sinceramente, que o jornalismo bom também cumpra uma função estética importante. Precisamos de beleza para viver. Um texto jornalístico bem escrito, com belas palavras, literário no melhor sentido, escrito com emoção, depoimento pessoal, ajuda a melhorar o mundo, também. O bom texto jornalístico é capaz de multiplicar sentidos, de dar dimensão mais humana e complexa à vida. Acho que o jornalista que se quer insubstituível pode almejar algo mais para si: ser um artista da informação, um jornalista-poeta, avesso a qualquer abordagem convencional e pouco inspirada do mundo. Com linguagem apurada, emoção e criatividade, sempre! Abaixo a caretice, os burocratas da informação.

A presença de um jornalista com algumas dessas características é muito desejada por mim. Eu preciso dele bem perto. Preciso de sua companhia na dura tarefa cotidiana de nos sabermos gente, vivermos e, ainda por cima e depois de tudo, morrermos. Me dê a tua mão, jornalista, que te dou a minha.

***

Guilherme Azevedo é jornalista

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