Quarta-feira, 26 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº951

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA URBANA

Agir ou esquecer?

Por Thogo Lemos dos Santos em 13/03/2007 na edição 424

Mais uma vez, somos horrorizados pela brutalidade da violência cotidiana. Mas, logo esqueceremos o menino João Hélio, como já não causam reação os bebês jogados no lixo, os adolescentes queimados vivos nos aterrorizantes ‘microondas’, as chacinas ‘saneadoras’. Pior é a forte sensação de que não sabemos o que fazer, como assumiu corajosamente o professor e filósofo Renato Janine Ribeiro.

Intoxicados pelo ódio momentâneo e frente ao silêncio dos ‘experts’, sugerimos soluções simples para problemas tão complexos. Nossa indignação depende da proximidade física ou social com a desgraça do momento. Ao sofá, nos distraímos com o inferno cotidiano das periferias e seus vários ‘ninguéns’ sendo arrastados pela droga, pela miséria e pela desesperança. Pena que a certeza de estarmos protegidos pela tela da televisão ou pelos muros segue cada vez mais ameaçada.

Queremos vingança, como queremos duas justiças. Uma justiça branda, lenta e ineficaz para nós, para os iguais a nós e para os que, de dentro dos gabinetes, matam ou deixam morrer milhares, roubam-nos a dignidade e o futuro. Outra, imediata, atroz, vingativa para os diferentes de nós. Como diria Millôr Fernandes: ‘Para uns, liminares, para outros, eliminares’.

A mídia, mais uma vez, decidiu pela minimização, uma subversão do tipo ‘a parte pelo nada’, ao desviar a atenção da causa maior, a impunidade, suas causas e responsáveis para a discussão emocional sobre a maioridade penal. E nós apoiamos, certos de que os adolescentes pitbulls, os pilotos de rachas assassinos, os queimadores de índios seguirão intocáveis. Vagamos atordoados entre opções que parecem não poder coexistir.

Seguir a pauta

Defender a oferta de oportunidades, serviços públicos dignos e respeito aos direitos fundamentais bastam para rotular os ‘defensores de bandidos’. Seriam ações incompatíveis com medidas que devolvam à justiça o direito de usar esse nome, sem ser necessário institucionalizar a barbárie ou alimentar a selvageria já existente.

Já temos a pena de morte para-oficial a nos brindar com linchamentos, chacinas ou execuções sumárias de possíveis criminosos, políticos ou ativistas por polícias, milícias ou justiceiros. Devemos, apenas, atentar para as graves e irreversíveis falhas do sistema, algumas timidamente denunciadas pela imprensa. Mas, apesar do caos e até pela oportunidade que este traz, parece haver alguma luz nas trevas em que nos metemos.

Surge, ainda incipiente, a intenção de identificar causas no lugar de culpas, soluções frente a desabafos, responsáveis em relação aos falaciosos bodes-expiatórios. Nossa participação não pode simplesmente seguir a pauta dos telejornais. Comove, mas também surpreende, o comportamento das famílias vítimas dessas tragédias. Por isso, o nosso esquecimento e omissão são contrabalançados pela atuação dos parentes que, ao contrário da maioria, conseguem transformar ódio e vingança em esperança e trabalho.

É verdade, já temos com quem aprender.

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Médico, Uberlândia, MG

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