Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA SEGMENTADA

Ainda não há uma revista gay brasileira

Por Leandro Colling em 09/10/2007 na edição 454

No texto ‘Em busca da normalidade, Sui Generis e o estilo de vida gay’, publicado e disponível no site da revista Gênero, Marcus Lima analisa várias edições da extinta revista dirigida ao público gay e, entre outras coisas, conclui:




‘Nas variadas `falas´ que identificamos nos artigos de Sui Generis, expressas nos editoriais, nas imagens dos ambientes freqüentados e produtos a serem consumidos, constatamos uma imagem `ideal´ de homossexual, quer seja, o gay bem resolvido psicologicamente, assumido publicamente e bem sucedido profissionalmente. (…)


O estilo de vida gay seria, ainda, prerrogativa dos homossexuais bem sucedidos. Embora não encontremos definições explícitas e precisas desse estilo gay que a revista difunde e racionaliza, pudemos, em nossa empiria, registrar algumas características dele. Vestir-se segundo padrões de requinte e contemporaneidade, o que implica roupas produzidas com tecidos e cores menos convencionais; adquirir conhecimento e ser exímio na profissão escolhida, visto que, dessa forma, não se daria brecha para o preconceito no ambiente de trabalho; ter relacionamentos saudáveis, que implica monogamia, sexo seguro e praticado entre gays, exclusivamente; exercitar o corpo nas academias de ginástica, de modo a construir um tipo físico que se oponha ao sujeito frágil e delicado produzido pela representação heterossexual e ‘dar pinta’, mesmo que apenas em `estado d´alma´.’


Indício das influências


Com o fim da revista Sui Generis, o público gay ficou praticamente apenas com a G Magazine, que prioriza o nu masculino e, nos últimos anos, na tentativa de conquistar mais uma parcela do público, passou a publicar artigos (a exemplo dos bons textos de João Silvério Trevisan e de outros colunistas que representam parcelas da comunidade gay, como os ursos, lésbicas e travestis, por exemplo) e algumas matérias sobre comportamento. Apesar disso, a G Magazine, devido à ênfase ao sexo, acaba também limitando a sua atuação e abrangência.


Por isso, a comunidade gay aguardava o lançamento de uma publicação, o que ocorreu em setembro. Junior, uma nova revista dirigida ao público gay do Brasil, foi criada pelo dono do site Mix Brasil, André Fischer. Depois de ler a primeira edição, nas bancas ao preço de 12 reais (possivelmente o maior preço de capa das revistas locais), passei a me perguntar: será que a revista é mesmo dirigida aos gays brasileiros? Tendo a pensar que não, pois a revista trata excessivamente de pessoas e manifestações culturais de outros países. Além disso, os brasileiros retratados pertencem a uma ínfima parcela da comunidade gay masculina, branca e bem sucedida financeiramente.


Fischer oferece, no editorial, um claro indício sobre as suas influências: a revista Out norte-americana e a francesa Têtu, ambas direcionadas ao público gay dos seus países.


Um pedido de perdão


Ou seja, ao ler (quer dizer, o mais apropriado seria ver, pois quase não há textos nas 116 páginas) a primeira edição de Junior, podemos concluir exatamente o que Marcus concluiu sobre a Sui Generis.


Em praticamente todos os textos existem referências ao fato da fonte freqüentar academias de ginástica, usar produtos para a pele, roupas de determinadas grifes e freqüentar determinadas festas. E mais: quase todas as fotos são de pessoas brancas, a começar pelo loiro da capa. A única exceção fica por conta de uma foto da campanha das cuecas Calvin Klein (a verdadeira cueca de todos os gays!), com o ator Djimon Hounsou. Ou seja, negro não é fonte, mas serve como objeto de fetiche. Coisa velha! Vai ver que não existem gays negros e pobres no Brasil.


Para contrabalançar um pouco a ênfase na questão do corpo, um artigo do antropólogo francês Stéphane Malysse parece servir mais como um pedido de perdão pela revista endeusar o culto a determinado tipo de corpo. No entanto, a ênfase contrária é tão grande que o texto não alcança tal propósito, caso ele exista.


Carão é a cara da Junior


Além disso, jornalisticamente, a revista é muito ruim. Não há nenhum texto que sequer se aproxime de uma reportagem. As oito entrevistas em estilo pingue-pongue seguem o mesmo nível de superficialidade dos demais textos. O ator Carlos Casagrande, que representou um gay (?) na novela Paraíso Tropical, é elogiado. Ou seja, é exatamente dentro da heteronormatividade que a revista, que se diz gay, trabalha. É a total vitória do discurso heterossexual, como tenho apontado em minhas análises sobre os personagens gays nas telenovelas brasileiras (ver aqui).


A diferença é que aqui vemos, novamente, o discurso da heteronormatividade (muitas vezes, homofóbico) sendo reproduzido também por meios de comunicação dirigidos ao público gay. E, como se não bastasse, o texto que se apresenta como uma ‘reportagem’ ensina os gays a fazer o conhecido carão (segundo o dicionário Aurélia, citado na revista, carão significa ‘pose, esnobação, presunção’). Ora, o carão é a cara da Junior.


Conclusão: a rigor, ainda não temos uma revista gay brasileira ou, pelo menos, ainda não temos um meio de comunicação que contemple a diversidade de nossa comunidade gay. Até quando?

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Professor universitário e pesquisador do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, da Facom/UFBA)

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/07/2009 Maria Aparecida Silva Rosa

    Meu nome é Maria Aparecida sou natural de Areal ters Rios Rj e procuro pelomeu pai Nilton Oliveira da Rosa minha mae Antônia Silva Rosa fugiu comigo e meus 2 irmao Mario Oliveira da Rosa e MAria das Graças da Silva Rosa ha mais de 40 anos atras desde entao perdemos o contato com ele que era fotografo e residia na cidade de Areal hoje a minha irmão está com cancer em fase termi8nal e seu maior desejo é ter noticias do meu pai por isso peço por favor me ajudem a encontra-lo ou ter noticia de algum familiar que possa nus esclarecer um segredo que minha mae esconde porque nus separar do nosso pai Aguardo uma resposta de vcs por favor me ajudem morro em Araguari Mg meu tel 0343246-4373

  2. Comentou em 18/11/2007 Marcus Assis Lima

    O Leandro está corretíssimo. Esse tipo de preconceito é o pior, pois velado, sutil…. E essa situação que ele descreve, da orfandade dos gays brasileiros por publicações sérias , também procede. Inclusive, já verificava isso em minha dissertação e em artigo sobre a história da imprensa homossexual no Brasil, disponível na Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação .

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