Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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CADERNO DA CIDADANIA >

Aldo Rebelo levantou uma lebre no Congresso

Por Deonisio da Silva em 22/01/2008 na edição 469

Narradores e comentaristas de futebol deram, ao longo de décadas, uma preciosa lição de língua portuguesa. Aceitaram os inevitáveis neologismos de um esporte cujo berço foi a Inglaterra, mas adaptaram os vocábulos estrangeiros. Nas seções dos jornais – ‘Há Cinqüenta Anos’ –, é possível rastrear as alterações havidas na viagem das palavras.

Assim, goal virou gol; goal keeper, depois keeper, quíper e, por fim, goleiro.

Beque chegou a ser escrito backbacck e backs nas revistas A Cigarra e Fon-fon – até consolidar-se como beque, ao ser acolhida esta forma pelo Dicionário Aurélio, já na década de 1970.

Mais tarde, foi substituído pelo espanhol zaguero, depois adaptado para o português zagueiro, desdobrado em quarto-zagueiro e zagueiro-central.

Há apenas algumas décadas, foram introduzidas as variantes ala e lateral, de que são exemplos lateral-direito e lateral-esquerdo. O ala, provável contribuição do técnico Cláudio Coutinho, mudou a designação de lateral porque ele queria que os laterais avançassem e os pontas recuassem para ajudar a defesa, invertendo posições, como Zagalo – hoje Zagallo, por opção própria – já tinha feito na Copa de 1958.

Mídia não era arrogante

Hoje, é comum que os narradores digam que o time tal vai jogar com dois volantes, mas nos primórdios do futebol foi apenas um e era conhecido como center-half. O centroavante já foi center-forward quando os cinqüentões de hoje eram meninos.

Sou a favor de que seja discutido o projeto do deputado Aldo Rebelo. Algo tem que ser feito para coibir os abusos, para sinalizar que a língua portuguesa tem dono, que não são os gramáticos, mas o povo.

O Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, que não pode ser considerado ortodoxo em matéria de gramática da língua portuguesa, cada vez que vem ao Brasil espanta-se com a enxurrada de neologismos dispensáveis, às vezes em estado bruto, sequer adaptados à língua portuguesa. As empresas aéreas, por exemplo, continuam escrevendo ticket em vez de tíquete ou bilhete.

Alguns podem objetar que não foi necessária lei alguma para que as adaptações fossem feitas no futebol. É verdade, mas naquele tempo a mídia não era arrogante e, humilde, pelo menos no campo do futebol, ia acolhendo os registros populares.

Já não se aprende a ler…

Hoje o quadro é diferente. A mídia já tentou impor play-offs em vez de semifinal e final, tão brasileiras, por influências do tênis, que, aliás, já foi grafado tennis.

Há exemplos da ditadura da mídia em outros campos, tal como song book, na música, em lugar da bela palavra, genuinamente portuguesa, cancioneiro.

Há também outras distorções. Os telejornalistas já não nos desejam os tradicionais cumprimentos de bom-dia, boa-tarde ou boa-noite, mas apenas variações ridículas do exagero, tomado como medida usual. Assim, ótimo dia, excelente tarde e excelente noite entraram como insolentes curingas nesse estranho torneado da nova língua portuguesa que querem nos impor. Naturalmente, em inglês dirão good morning, pois a língua inglesa respeitam!

E que faz a escola? Ensina a língua portuguesa com métodos e bibliografias que estão levando ao rebaixamento e ao descalabro em que nos encontramos: já não se aprende a ler nem a escrever nas primeiras séries do ensino fundamental.

Foi neste contexto que surgiram os colunistas especializados em língua portuguesa. Alguns deles se dizem professores, mas também neste caso a designação é problemática.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

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