Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA URBANA

Alguns fios da teia da barbárie

Por Leila V. B. Gouvêa em 20/03/2007 na edição 425

É irrefutável que inúmeras questões, de diversa natureza, se entrelaçam na análise da escalada sem precedentes da violência e da barbárie a que assistimos no Brasil. Gostaria de convidar o leitor do OI à reflexão sobre algumas delas:

1. Educação – Um país que não investe em educação pública de qualidade, principalmente no nível fundamental – porta de entrada para uma sociedade do conhecimento (ou da ignorância…) – é uma nação sem projeto, perdida em meio às práticas de capitalismo selvagem, o regime do ‘salve-se quem puder’, cujos frutos mais amargos começam agora a aflorar de modo mais periódico e contundente no palco das cidades brasileiras. Nunca será demais lembrar o caso da República da Coréia que, em cinco décadas, adentrou o rol dos países desenvolvidos por via de uma revolução educacional sem tréguas – que estendeu o sistema de ensino para período integral; que atualizou, qualificou e valorizou decisivamente o trabalho docente (lá, um professor de nível fundamental deve ter, no mínimo, mestrado, quando não doutorado, e percebe salários em torno de US$ 5.000 mensais).

2. Educação – O que se esperava do governo de um partido que por duas décadas apregoou o resgate da dívida social secular brasileira era que iniciasse com uma revolução educacional com prioridade absoluta para o ensino fundamental – único instrumento verdadeiro e profundo de inclusão. Porém, o que vimos foi a ‘bolsa-esmola’ e, já adentrando o quinto ano de administração, o governo protelou até agora uma correção de rumo.

Crianças de rua

3. Descaso com crianças de rua – Uma sociedade letárgica e amortecida diante dos descalabros sociais – como o das crianças em semáforos das esquinas das cidades, quando deveriam estar em escolas; problema que se disseminou durante e após a ditadura militar e se agrava ano após ano – está, por sua omissão, cultivando a violência e a barbárie generalizadas, cujos frutos venenosos colhe agora com regularidade assustadora. Nem mesmo administrações municipais de ‘esquerda’ adotaram uma política de cadastramento dessas legiões de crianças de rua, com o indispensável desdobramento de sua reinserção escolar.

4. Criminalidade entre adolescentes e jovens – Tão chocante quanto assassinatos brutais de inocentes, como o do garoto João Hélio e de outras crianças e jovens nas últimas semanas, é constatar que boa parte de seus autores são igualmente adolescentes ou jovens que, num país civilizado, deveriam estar nos bancos escolares – e recebendo, não um arremedo de educação, porém ensino de qualidade e por um número de horas compatível com esse parâmetro. ‘A criança é pai do homem’, postula um antigo adágio. Pode-se argumentar que obviamente nem todos os adolescentes privados desse direito previsto na Constituição se tornam assassinos ou marginais. Porém, na sociedade da omissão e do salve-se quem puder, tais lacunas aprofundam o apartheid social, que contamina traumaticamente o ambiente nacional como um todo.

Arbítrio e desrespeito

5. Responsabilidade da mídia – A mídia, especialmente a TV, não pode se isentar de uma parcela de responsabilidade nos episódios de violência e de barbárie a que o Brasil assiste a cada dia. Publicidade, telenovelas e programas desconectados da realidade social brasileira, que em geral privilegiam o enfoque de ambientes e de personagens ricos, privilegiados e com todo tipo de facilidade na vida, contribuem para agudizar a percepção da desigualdade e para erigir padrões de consumo incompatíveis com os da esmagadora maioria da população. A resistência das grandes emissoras, que operam sob concessão pública, a acatar uma simples tabela indicativa de faixa etária para seus programas é simbólica de sua insensibilidade e de sua ganância, bem como de sua alienação em assumir uma parcela que fosse de um projeto de formação cívica, que o governo deveria lhes impor para além do entretenimento questionável.

6. Sistema prisional – Basta ler o jornal de cada dia para se ter noção do drama das prisões brasileiras, transformadas em depósitos infernais de presos, em multiplicadores de criminosos e em fábricas de novos crimes. Enquanto não se formular e implementar um programa de efetiva ressocialização dos encarcerados (via trabalho, educação, religião e outros meios), estaremos diante da falência de um modelo, diante da qual a reforma de leis punitivas e a extensão das penas serão inócuas. As realidades são por demais díspares, contudo ainda assim valerá lembrar o caso de um preso francês que, na década de 1970, se tornou filósofo durante o período de encarceramento, uma vez que o Estado francês mantém bibliotecas de qualidade (e celas individuais…) em suas prisões. Hoje, esse mesmo filósofo conta com inúmeras obras publicadas e se desloca em conferências por toda a Europa…

7. Flagrante arbítrio contra direitos – O mesmo governo que cuida tão empenhadamente em garantir ‘respeito a contratos’ para o grande capital, sobretudo bancos e empresas, acaba de violar as regras de rendimento da poupança e do FGTS, sem que sequer o presidente da República ou um de seus ministros viesse a público prestar esclarecimentos aos milhões de correntistas afetados. Descasos como esse não deixarão de sinalizar um ambiente econômico-social em que os direitos dos elos mais fracos da sociedade civil são desrespeitados em favor do ‘andar de cima’ – e quem duvida que o desrespeito, afinal, é sempre um dos nutrientes da violência?

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Pesquisadora em literatura e jornalista; São Paulo, SP

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