Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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CADERNO DA CIDADANIA >

Alice na periferia do capitalismo

Por Carlos Azevedo em 26/05/2009 na edição 539

‘Quem quer dinheirooooo?! Quem quer dinheirooooo?!’

O repetido grito de Sílvio Santos ecoa infinitamente no tedioso programa dominical. Frenéticas, como num esdrúxulo harém midiático, as mulheres se agitam, tentando chamar a atenção. Querem ser escolhidas para que o ‘comunicador’ estoure ovos de galinha nas suas cabeças. Tudo por dinheiro.

O filme vencedor do Oscar Quem quer ser milionário? parece caminhar no mesmo terreno em que o veterano brasileiro já trabalha há bastante tempo. Como numa espécie de show do milhão, vence quem responder corretamente todas as perguntas do todo-poderoso apresentador.

Desses dois universos midiáticos bem semelhantes, Índia e Brasil, pescamos algumas notícias recentes, veiculadas em jornais. Destacamos duas meninas, uma brasileira e outra indiana, duas Alices perdidas na periferia do capitalismo.

A primeira, a pequena atriz Rubina Ali, de nove anos, que interpretou a personagem Latika quando criança no filme Quem quer ser milionário? e que recentemente, segundo o site britânico de notícias News of the World, foi posta à venda pelo pai por 200 mil libras (R$ 647 mil). ‘Essa é uma criança especial agora. Ela não é uma criança qualquer, é uma criança vencedora do Oscar’, justifica o pai, Rafiq, morador de uma favela de Mumbai.

Infância rima com infâmia

A segunda é a pequena e irreverente Maísa Alves, apresentadora do Sábado Animado, que após mexer no cabelo do apresentador e dono do SBT Sílvio Santos comenta sem a menor cerimônia: ‘É peruca! Ele usa peruca!’ Enquanto isso, no intervalo, nos comerciais, a pequena atriz vende sandálias infantis, brinquedos e outros produtos associados à sua imagem. Com um contrato de fazer inveja aos brasileiros que ganham um salário mínimo, Maísa parece dizer o que quer no ar, ao conversar com o patrão Sílvio Santos. ‘Por que você não namora a Hebe, Sílvio?’

Separadas, miséria e esplendor, essas duas pequenas Alices não vivem em países maravilhosos, habitam a periferia do capitalismo em crise. Perderam o assombro e a ingenuidade da Alice original de Lewis Carroll (1832-1898), que ao seguir o Coelho Branco passa a vivenciar um mundo mágico no qual animais falam e outras coisas estranhas acontecem. A caminho das Índias, os dois contraditórios países se unem para além da óbvia tela da novela das oito. As duas meninas midiáticas são mercadorias vivas sem infância. No ‘maravilhoso’ e midiático mundo da ilusão, a palavra infância rima perfeitamente com infâmia.

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Jornalista e professor de Comunicação Social, Universidade Estadual da Paraíba

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