Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > QUESTÃO RACIAL

Anotações sobre um gesto pós-racial

Por Muniz Sodré em 17/06/2008 na edição 490

Nunca a grande imprensa brasileira falou tanto sobre a questão racial quanto agora. De algum tempo para cá, o tema comparece em editoriais, artigos, crônicas, reportagens, dando ou não seguimento a acontecimentos significativos, como a ida de um grupo de intelectuais ao Supremo Tribunal Federal para entregar um manifesto contra as cotas que favorecem negros nas universidades.

As posições favoráveis e contrárias já são mais ou menos conhecidas (embora não tanto as motivações profundas dos opositores). Mas uma notícia que pode ter passado despercebida é capaz de lançar uma luz nova sobre o assunto: a atriz Marília Pera convidou o ator negro Lázaro Ramos para um dos papéis principais da peça The Vortex, que será encenada no Rio. O personagem a ser vivido por Lázaro é, no texto, branco, de família tradicional inglesa (O Globo, 9/6).

O notável do fato é que, até agora, o universo ficcional brasileiro tem obedecido ao cânone da verossimilhança sócio-histórica. Este pode ser exemplificado da seguinte forma: um fictício presidente da República não seria jamais interpretado por um negro (em peça, drama televisivo, cinema, filme etc.) por infringir a regra do verossímil, que apontaria para a evidência (meia-evidência, na verdade…) de que nunca houve um primeiro mandatário negro no Brasil. Ora, se se trata de ficção, por que atender aos requisitos da realidade histórica? A televisão norte-americana tem dado uma resposta singular à questão, ao colocar um negro como presidente da República numa série policial (24 Horas). Agora, é a vez de Marília Pera romper o cânone.

O corner do binarismo

A iniciativa da atriz é de natureza ‘pós-racial’. Primeiro, tem implícito o pressuposto – corretíssimo – de que raça só existe uma: a humana, distribuída numa miríade de cores ou fenótipos, dos claros aos escuros. Depois, a escolha obedece apenas a critérios técnicos de adequação do ator ao personagem, e não à verossimilhança fenotípica. Um ser humano de carne e osso vai viver um outro, feito de imaginação e papel, no teatro. Lázaro Ramos já havia sido protagonista do filme O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, sem que tenha sido levantada em qualquer passagem do roteiro a questão da cor da pele. Aos olhos do espectador, um homem, simplesmente um homem, relaciona-se com outros em proximidade, desracializado.

Há uma coincidência singular entre o fato referente à peça inglesa e o momento histórico em que o negro-mestiço Barack Obama é indicado como candidato do Partido Democrata à presidência da República dos Estados Unidos. ‘Negro-mestiço’ para nós, ‘negro’ para o sistema classificatório norte-americano (onde vige a one drop rule, ou seja, uma gota de sangue negro define racialmente o sujeito), Obama merece, assim como Lázaro Ramos, o epíteto de ‘pós-racial’. Isto quer dizer que não racializou a sua campanha, apesar das tentativas dos adversários no ring das primárias, de levá-lo ao corner do binarismo racial.

Análises e soluções diferenciadas

Tudo isso pode soar aos desavisados como base argumentativa contra as cotas no Brasil. Não é bem assim. Um artigo do cantor e compositor Martinho da Vila (O Globo, 10/6) no dia seguinte ao da notícia da peça também traz luz para o assunto. Martinho conta de seu espanto, na primeira viagem aos Estados Unidos, ao ver estampados em cartazes, nas ruas e em lugares de destaque, as imagens de negros socialmente proeminentes. Espantava-o o grau de visibilidade pública de cidadãos uma vez descritos pelo escritor Ralph Ellison como ‘homens invisíveis’. Isto não se dá por acaso, nem por pura e simples graça do poder: os negros, com todas as suas contradições internas, empenharam-se durante gerações na luta por direitos civis igualitários.

Ora, dirão, esse binarismo radical que ensejou a luta por direitos mais civis nos Estados Unidos não é o caso brasileiro. O que é a mais absoluta verdade e contraria a que se apliquem aqui, sem mais nem menos, critérios válidos para a realidade norte-americana, tal como a ‘regra da gota única de sangue’. Mas da mesma maneira não se pode invocar o ‘pós-racialismo’ de Obama para dizer que o Brasil já dispõe há muito da fórmula agora encontrada pelo candidato democrata. São realidades diferentes, que induzem a análises e soluções diferenciadas. A boa saúde mental e cívica recomenda uma pausa nos reflexos especulares do centro do Império.

‘Relação social de raça’

Uma pausa dessas pode servir para pensar que possivelmente o gesto pós-racial da atriz Marília Pera tenha sido ‘sobredeterminado’ (uma múltipla determinação, em que o fenômeno Obama pode até ter tido algum peso) pela conjuntura sócio-político-cultural que a temática das cotas suscitou no Brasil.

Desde o Prouni, ganhou foro público a questão da cidadania de segunda classe, de sua exclusão sistemática das oportunidades historicamente concedidas aos que já nascem ‘cotados’ ou ‘patrimonializados’ pela cor socialmente valorizada. Mas as cotas de agora – recurso, para mim, provisório – representam uma estratégia de visibilidade mais forte, esta que os Estados Unidos de algum modo já obtiveram, sem, entretanto, resgatar a maioria negra de seus bolsões de pobreza, nem diminuir esse mal-estar civilizatório que é a discriminação racial. O conceito científico de raça acabou, mas não acabou a ‘relação social de raça’, isto é, o senso comum atravessado pelo imaginário racialista.

Visibilidade valorizada

Os intelectuais que, em jornais ou na academia, formaram um ativo bloco orgânico para pregar contra as cotas, não desconhecem o fato de que a cidadania, conceito eminentemente político, nasce no solo da visibilidade dos membros de uma comunidade: o sujeito visível tem voz pública; o invisível, não. O escravo grego não podia ser cidadão porque não dispunha do ‘capital’ de visibilidade suficiente (naturalidade da língua, da fratria etc.) para falar na ágora.

A decisão sobre quem pode ou não falar, ser visto e ocupar os lugares do privilégio, é de natureza estética, no sentido radical desta palavra. Na raiz, estética e política coincidem. Uma política de cotas não implica que se acredite na existência de raças, e sim que as diferenças estético-fenotípicas têm conseqüências para a igualdade dos cidadãos. Sobre a branquitude da paisagem eurocêntrica projeta-se alguma ‘colorização’ de espaços – fonte do espanto de Martinho da Vila, ponto de partida de uma visibilidade valorizada.

Não se pode realmente acreditar que as cotas venham resgatar a situação socioeconômica dos escuros e desfavorecidos, nem resolver o problema da introjeção histórica dos estereótipos racistas. O exemplo do pós-racialismo é algo de fato desejável, pode ser uma meta. Mas não é algo que esteja aí à disposição dos interessados, como uma espécie de fruto natural gerado pela suposta boa consciência daqueles que dizem temer a ‘racialização’ da sociedade brasileira. Em termos coletivos, será o resultado de lutas e cotas em que venham a envolver-se também empresas e outras instituições pertinentes, além do Estado. A visibilidade valorizada é um começo razoável.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/11/2009 luciano josé de Freitas

    recentemente no jornal da record, em mais um capítulo da guerra declarada entre esta emissora e a globo, houve a denúncia de que uma reportagem do fantastico deturpava o conteúdo de uma entrevista sobre desvio de dinheiro de igrejas para outros fins que não obras de caridade e de construção da propria igreja. acompanhei a resposta do entrevistado (com meu modesto inglês) e constatei que era fato! durante a dublagem o reporter ‘colocou palavras na boca do entrevistado’. não tomo partido de nenhum dos dois lados dessa ‘guerra’, mas abusar da inteligência do espectador, na expectativa de que ele não seja capaz de entender o que ocorre é uma indignidade. o que será que pensa um ‘profissional de imprensa’ desses???

  2. Comentou em 23/06/2008 Marco Antônio Leite

    Senhor Magela, segundo vossa tese os negros não galgam um banco Universitário no quesito medicina em função de não alcançar a pontuação necessária. Senhor, o que ocorre de fato é que os negros não participam do processo devido à falta de dinheiro para bancar uma matéria extremamente cara. Não é falta de pontuação, mas o negro é marginalizado socialmente, essa é a questão fundamental para dificultar o acesso do negro no meio Universitário. Ou não? Caro Magela, seu comentário é racista e preconceituoso, haja vista tratar o negro como bronco?

  3. Comentou em 21/06/2008 Ana Costa

    No artigo é dito que o conceito científico de raça acabou, será? Há tendências em pesquisas cientícas do projeto genoma e neurológicas, após a possibilidade de ver o cérebro em funcionamento, neo-eugênicas. Há um processo de medicalização muito forte e os que querem provar que negros são inferiores como na ciência do século XIX.
    Só para lembrar, leiam em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u337682.shtml
    ‘Uma entrevista do biólogo James Watson, 79, com declarações racistas anteontem a um jornal britânico atraiu uma enxurrada de críticas de cientistas, sociólogos, políticos e ativistas de direitos humanos.
    Watson, ganhador do Prêmio Nobel (1962), por ter descoberto a estrutura do DNA juntamente com Francis Crick, em 1953, afirmou ao jornal britânico ‘The Sunday Times’ que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e, em razão disso, se declarou pessimista em relação ao futuro da África.’
    Esta declaração foi no ano passado, 2007.

  4. Comentou em 19/06/2008 José Roberto F. Militao

    Concordo com a argumentação do mestre Muniz Sodré, apenas ressaldo que para boas políticas de Ações Afirmativas que, mesmo nos EUA, já não se admitem cotas raciais, basta que sejam promovidas políticas públicas de inclusão das vítimas de discriminações históricas: mulheres, afrodescendentes, homosexuais, deficientes, latinos etc.

    A boa experiência dos EUA deixou de fazer a inclusão pela ´raça´ e passou a fazei-lo através da garantia de deveres da diversidade humana.

    A crítica que deve ser feita é para que o Estado não acolha na ordem jurídica o conceito de ´raça estatal´, o que viria institucionalizar a ´crença social em raças´, com o que, deixa de ser ´crença´ e passa a ser fato jurídico relevante. De fato, é possível e recomendável fazer-se políticas com Ações Afirmativas inclusivas sem o recurso a leis raciais.

  5. Comentou em 19/06/2008 Claudio Roberto Basilio

    Só elogia a ‘situação brasileira’ aqueles que desconhecem completamente o racismo brasileiro… Mas é fácil preferir o ‘racismo brasileiro’ ao ‘racismo americano’ principalmente quando não se é vitima nem de um e nem de outro

  6. Comentou em 19/06/2008 Cláudio Roberto Basilio

    A cegueira – para não falar negacionismo – de alguns diante do racismo brasileiro é algo que só não é chocante por que infelizmente é a regra aqui nesse ‘maravilhoso-pais-mulatinho’. Mas talvez as pessoas que afirmam que o Brasil não seja racista estejam certas eu esteja equivocado … Afinal de contas não faltam Baracks Obamas na política brasileira… As novelas globais têm protagonistas de pele escura desde e a época em que o ‘Dr. Roberto’ fundou a emissora… As nossas faculdades estão apinhadas de pretinhos, mulatinhos e outros quetais, principalmente em cursos como Medicina e Direito… E ninguem por aqui é parado pela Polícia apenas por causa da cor da pele. Nessas horas que eu chego a conclusão que racistas são aqueles que querem acabar com todas as coisas lindas que eu acabei de citar e que fazem parte do cotidiano brasileiro.

  7. Comentou em 18/06/2008 Marco Antônio Leite

    Isso é pura bobagem ser isso, aquilo ou aquilo outro, o importante é que somos isso que somos, ou seja, humanos. Porém, nem todos são humanos, alguns estão mais para broncos do que para ser humano. Ou não?

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