Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CADERNO DA CIDADANIA > O MURO, 20 ANOS DEPOIS

Antes do Muro de Berlim

Por Alberto Dines em 08/11/2009 na edição 562

A entusiasmada rememoração da queda do Muro de Berlim ora em curso contrasta visivelmente com a parcimônia, quase penúria, das lembranças sobre o início da Segunda Guerra Mundial. Separados por um intervalo de meio século, o início da maior catástrofe dos últimos 500 anos (1939) e o desabamento do Muro de Berlim (1989) fazem parte do mesmo processo.


Diferentes e igualmente sanguinárias – uma quente, incandescente, a outra erroneamente chamada de ‘fria’ –, as duas guerras que compõem o Século das Ideologias o abreviaram decisivamente: no lugar de cem anos, apenas 73. A centúria começou atrasada, em 1918, quando acabou a Primeira Grande Guerra e terminou em 1991 quando, depois do Muro, ruiu toda a Cortina de Ferro.


Neste panorama contínuo, ininterrupto e extraordinariamente dinâmico, não fazem sentido festejos parciais para valorizar momentos ou porções. Envolvida ainda pela brutalidade e pelo luto, a Segunda Guerra Mundial em geral é mantida como um impreciso pano de fundo. Não consegue sequer funcionar como advertência de que o nazi-fascismo está morto, mas não enterrado. Mais recente, a Queda do Muro está na lembrança de muita gente, foi um evento, tem o seu folclore, virou cult.


Daí os retumbantes equívocos que produziu. Nestes dias é imperioso lembrar o tropeço do pensador norte-americano Francis Fukuyama que, tomado pela euforia com os acontecimentos em Berlim, proclamou o ‘fim da História’. Para ele, a derrota do socialismo e o triunfo da dupla capitalismo-democracia burguesa significavam o início de um período harmonioso, sem conflitos, reprise da ‘dourada era de segurança’ (expressão usada por Stefan Zweig para designar o fin-de-siècle 19).


Poder de mutação


O fim do Muro de Berlim representou o lance final da disputa entre os dois vencedores da Segunda Guerra Mundial (os aliados ocidentais e o império soviético), mas neste confronto não deve ser minimizada a tenacidade do povo alemão em purgar os seus pecados, assumir as suas culpas e assegurar a extinção do nacional-socialismo.


Hitler foi, de certa forma, o pai da Guerra Fria: sua carreira política começou logo depois da Primeira Guerra quando participou de um curso no exército alemão para a formação de líderes antibolcheviques. Entrou para o Partido dos Trabalhadores Alemães, de direita, com a missão de mostrar que o comunismo era uma invenção judaica para dominar o mundo. Juntou as duas paranóias (anti-semita e anticomunista) e com elas tomou conta da Alemanha, grande parte da Europa e tocou fogo no mundo.


Benito Mussolini, mestre-escola e jornalista panfletário, era um inflamado socialista, de esquerda. A Itália nem de longe se comparava ao poderio alemão. Mas ainda nos anos 1930, o fascismo de Mussolini teve fortíssima penetração no mundo latino-europeu, latino-americano, eslavo e quase tomou conta da Áustria se Hitler não mandasse assassinar Engelbert Dollfuss.


A derrubada do Muro de Berlim não acabou com o veneno que o gerou. Este é um dado que não deve ser esquecido: o fascismo tem uma incrível capacidade de mutação. Outro dado que não pode ser ignorado é aritmético: o idolatrado ‘fim da História’ durou apenas 12 anos.


Ferramenta única


Em 11 de setembro de 2001, sem pedir licença a Fukuyama nem a seus mentores na Casa Branca, introduziu-se no cenário mundial um poderoso e até agora imbatível protagonista: o terrorismo islâmico. Logo em seguida, no final de 2008, o sempiterno capitalismo exibiu toda a sua fragilidade quando uma das bolhas que periodicamente fabricava o arrastou para o brejo. De onde ainda não saiu, apesar do esforço dos estatísticos.


O Muro de Berlim foi derrubado com martelos e picaretas – uma festa. Mas antes dele a humanidade entrou em colapso – um horror. Esta moeda, como todas, de qualquer valor, tem duas faces.


A transmissão de informações e a capacidade de armazená-las constituem a mais preciosa faculdade da nossa espécie. A memória tem sido uma ferramenta fundamental para a sobrevivência do ser humano. Lembrar é vital. Lembrar fragmentos pode ser mortal.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/11/2009 Paulo de Allmeida

    Vocês näo viveram na pele os horrores da tortura comunista que as pessoas da Alemanha Oriental viveram, daí é fácil subestimar a dor vivida pelos outros com o pretexto estranho de que ainda existe dor no mundo… O mundo ainda é um grande hospital, mas só um insano pode escrever que a queda do muro de Berlim näo sanou muitos horrores para muita gente, e que eles näo têm o direito de uma ‘entusiasmada rememoração’. Lamentável!

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