Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & PODER

Antônio Carlos Tórtoro

22/03/2005 na edição 321

‘Numa de suas palestras, o jornalista Mino Carta, editor-chefe da revista Carta Capital e um dos fundadores das revistas Veja e ISTOÉ – das quais saiu devido à mudança da linha editorial delas – disse que, ‘no Brasil, os fatos são mostrados como melhor convém àqueles que estão divulgando a notícia. Hoje em dia parece valer mais um gordo contrato publicitário do que a verdade dita sem censura, sem meandros, doa a quem doer. Por que não se diz a verdade?’ .

Para Mino Carta , os donos da mídia parecem acreditar naquilo que eles mesmos mandaram seus repórteres escrever.

‘Nunca entendi por que grande imprensa. Eu a considero anã’ , declarou ele, conseguindo traduzir em poucas palavras a subserviência da mídia nacional ao poder.

É terrivelmente preocupante que, por motivos pessoais, o proprietário de um determinado jornal resolva cortar o nome de determinadas pessoas dos releases que lhe são enviados. Fico a pensar: quantos nomes e fatos não estarão sendo cortados por motivos particulares? Quantos fatos não estarão sendo censurados simplesmente porque o autor do texto ou o promotor do evento é amigo do dono, ou da mulher do dono, ou, enfim, é alguma coisa de quem manda no jornal?

É muito preocupante quando alguém que nem jornalista é, mas que, por algum motivo, chegou ao comando de um jornal, afirma que, nos textos enviados ao seu jornal, a menção a nomes de empresas foge totalmente ao fim dos textos que devem ser publicados e que esses são cortados, vez que essas menções atrapalham a sua área comercial?

Qual será o fim de um texto sob o prisma de um diretor industrial de um jornal? Um texto perderia a sua finalidade caso seu conteúdo trouxesse para a comunidade uma informação sobre o papel cultural e cidadão de uma determinada empresa? E se a empresa em questão fosse uma grande anunciante do seu jornal? Poderia? O mesmo texto passaria a ter um fim?

Isso é fundamentalismo midiático.

Enquanto algumas pessoas vendem a própria alma, e abrem mão de princípios para continuarem tendo espaço/colunas nessa imprensa anã, eu ainda consigo dar vazão à minha indignação e continuo acreditando na liberdade de imprensa, assegurada no parágrafo IV do artigo 5º. da Constituição que garante a todos o acesso à informação, graças às exceções existentes na mídia ribeirãopretana.

O artigo 220 complementa o direito à liberdade de imprensa: ‘ A manifestação de pensamento, a criação , a expressão e a informação , sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer ( repito: qualquer ) restrição’ .

Será que o artigo 220 da nossa Constituição não pegou, como se costuma dizer, para alguns jornais que insistem em afirmar, da boca para fora – mas negando nas suas páginas – que a comunicação é a essência da liberdade e da democracia as quais comungam e defendem?

Palavras, palavras, vãs palavras.

Mino Carta tem toda a razão e a Ordem dos Velhos Jornalistas tem a palavra.

(*) Presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras’



POLÍTICA CULTURAL
Jamil Chade

‘‘Propriedade intelectual tem de ser flexível’’, copyright O Estado de S. Paulo, 18/03/05

‘O ministro brasileiro da Cultura, Gilberto Gil, alerta que metade do mercado de CDs no Brasil é ocupado por produtos falsificados. Segundo ele, porém, o problema da pirataria não deve ser tratado apenas como uma questão de controle e fiscalização, mas necessitaria ser entendido como um ‘fenômeno mais complexo’.

Para o ministro, a pobreza e a falta de acesso da população às novas tecnologias e produtos também deveriam ser levados em conta na avaliação da pirataria.

O tema é alvo de uma verdadeira pressão por parte do governo dos Estados Unidos, que chegam a ameaçar o Brasil com sanções caso a pirataria continue crescendo no País.

Apesar de admitir que sua própria gravadora se queixa cada vez mais do aumento da pirataria, Gil acredita que as leis de propriedade intelectual precisam ser flexíveis para ‘garantir a continuidade da criatividade’ e para que essas inovações sejam ‘compartilhadas’.

Falando em Genebra após reuniões na Organização das Nações Unidas, o ministro lembrou do exemplo do software livre como uma forma de garantir um maior acesso da população à uma inovação tecnológica.

‘Leis de propriedade intelectual podem ser uma barreira à criatividade se não foram flexíveis’, afirmou.

Gil esteve em Genebra ontem para tentar convencer outros países a apoiarem o projeto da criação do Centro Internacional de Indústrias Criativas, em Salvador (BA). O centro teria a função de estabelecer estratégias para que esse setor possa se desenvolver e beneficiar os países mais pobres.

‘Todos os países concordaram que precisamos de um centro como esse que propomos’, afirmou. No total, Gil esteve reunido com 18 governos.

INDÚSTRIAS CRIATIVAS

As indústrias criativas incluem os setores de música, fotografia, artes comerciais, cinema e várias outras áreas que já representam 7% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. A previsão é de que o setor irá crescer em todos as regiões e representará 10% do PIB mundial nos próximos anos.

Na Inglaterra, por exemplo, a indústria cultural já é a maior empregadora do país, com 1,3 milhão de pessoas envolvidas. Já os países emergentes, apesar de todo o talento de seus artistas, não conseguem potencializar a cultura para gerar renda e empregos.

O projeto do centro tem como objetivo ajudar esses países a tirar proveito desse setor e será lançado oficialmente entre os dias 18 e 20 abril, em um evento em Salvador.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) já se mostrou interessado no projeto. Gil, porém, admite que por enquanto não há uma definição sobre o financiamento para o projeto e que a idéia inicial será a de mobilizar recursos que já existem em diferentes países para o setor.

A iniciativa ainda envolve vários órgãos da ONU e a idéia é de que o centro comece a funcionar em 2006.

‘A indústria criativa pode ser oportunidade para países em desenvolvimento’, afirmou Gil. O Brasil exporta US$ 200 milhões por ano em programas de TV, o que representa 30 mil horas de programação. No total, o setor da cultura no País já representa 10% do PIB nacional.’



Folha de S. Paulo

‘‘Vamos criar os campinhos de várzea da cultura’’, copyright Folha de S. Paulo, 21/03/05

‘Alheio à saraivada de balas que atingiram o Ministério da Cultura em 2004 por conta da polêmica Ancinav, um legítimo hippie da década de 70 arquitetava a entrada do Brasil em uma nova era. Não a de Aquário, mas a digital.

Coordenador do setor de políticas digitais do MinC, o ex-produtor de Mutantes, Novos Baianos, dos lendários festivais de Wight, Glastonbury e de Águas Claras, Claudio Prado, 61, tem posições pouco ortodoxas quando o assunto é a crise atual da indústria fonográfica (‘a pirataria é um apêndice do monopólio’), o impasse nas discussões sobre TV digital (‘há uma nova lógica, e há uma lógica antiga que quer se manter do jeito que está’) e a própria dinâmica dentro do Ministério da Cultura (‘ainda se compra papel carbono no MinC’).

Entre os projetos de que participou nos últimos quase dois anos, desde a criação da Coordenadoria de Políticas Digitais, no início de 2003, esteve o lançamento nacional das licenças alternativas de direito autoral Creative Commons e a criação dos Pontos de Cultura, um dos braços do programa Cultura Viva, que promoverá a doação de ‘kits de cultura digital’ -computadores, câmeras de vídeo e ilha de edição- para 262 projetos aprovados pelo MinC em setembro do ano passado.

Na semana passada, o programa, que conta com verba de R$ 37 milhões, firmou uma parceria com o Ministério das Comunicações para que os conteúdos produzidos nos Pontos de Cultura sejam também distribuídos via internet, rádios e TVs digitais.

Leia a seguir, trechos da entrevista de Prado à Folha.

Folha – Que importância você vê nos Pontos de Cultura?

Claudio Prado – O que a mágica digital permite é que um moleque que está lá num estúdio nos Bororos ou na periferia de São Paulo, onde tiver um Ponto de Cultura, grave um negócio dele e disponibilize [na internet] no mesmo lugar que o [Gilberto] Gil. O Ponto de Cultura democratiza a idéia de estúdio e de rádio. Onde tiver um pequeno kit multimídia, no Piauí, haverá um embrião de um estúdio que pode ir ao ar em Tóquio. Se vai ao ar ou não, isso é outra questão, mas certamente os chicos sciences da vida vão aparecer nesses lugares, os talentos vão passar por ali. Estamos criando os campinhos de várzea da cultura.

Folha – E como fazer o brasileiro trocar a bola pelo computador?

Prado – Eu acho que a dificuldade está muito mais no raciocínio de que você precisa aprender tudo o que não sabe para poder chegar a isso. E não é assim. Se você enfiar o negócio lá, é fácil: aperta o botão e gravou. É muito mais fácil nesses lugares do que num lugar onde o cara está iniciado. Nossa idéia é a autonomia, cada ponto tem que ser dono do seu processo. O equipamento é doado, e também vamos doar a capacitação, que gera a autonomia dele e do vizinho dele. Não estamos montando um sistema que está preso a uma pirâmide e vai depender de capital federal para manutenção.

Folha – Como implantar isso, considerando que o acesso à internet no país ainda é escasso?

Prado – Temos um convênio com o Ministério das Comunicações para que cada Ponto de Cultura tenha uma antena de satélite, o que não é ideal, mas é uma alternativa para certos lugares onde outras formas de acesso não são possíveis. Mas, por trás disso tudo, existe uma luta no sentido de que exista uma política pública de banda larga no Brasil. E não acredito que essa política pública possa nascer de outro lugar que não do governo. É ele que tem que fazer e, obviamente, tem que fazer.’



O Estado de S. Paulo

‘Gil reúne seus antecessores em ‘colegiado de afetividade’’, copyright O Estado de São Paulo, 18/03/05

‘Ao seu estilo, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, instituiu na terça-feira o Conselho Informal de Afetividade e Consultas dos Ex-Ministros da Cultura. A idéia surgiu na comemoração dos 20 anos de criação do MinC.

O atual ministro recebeu para um almoço no restaurante O Convento, em Brasília, seis de seus antecessores – Aloísio Pimenta, Hugo Napoleão, Ipojuca Pontes, Sérgio Paulo Roaunet, Jerônimo Moscardo, Luiz Roberto Nascimento.

O ministro fundador José Aparecido de Oliveira não compareceu por causa de problemas de saúde e o ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, não aceitou o convite de Gil, dizendo já ter um compromisso marcado anteriormente. O escritor e acadêmico Antônio Houaiss e o economista Celso Furtado, já mortos, são os outros dois nomes que comandaram o MinC.

Segundo a assessoria de Gil, durante o encontro os ex-ministros trocaram experiências e debateram os rumos da Cultura no País – com espaço para muitas histórias, entre fatos pitorescos, propostas e lances políticos que marcaram suas passagens pela pasta.

O ex-ministro Aloísio Pimenta lembrou que quando assumiu a recém-criada pasta levou um índio para A Voz do Brasil. O diretor do programa oficial do governo não gostou da idéia, alegando que não poderia transmitir uma fala em língua estrangeira. Estrangeiros somos nós, disse o então ministro.

Receber os antecessores ‘no plano da afetividade’, era um desejo de Gilberto Gil, figura conciliatória por natureza, desde que assumiu o MinC, em janeiro de 2003. Com esse colegiado – que vai operar de maneira informal -, o ministro pretende promover a troca de idéias e consultas mútuas entre os que conheceram de muito perto a situação da cultura no País.

Entre rasgações de seda e afins, Gil recebeu diversos elogios sobre sua atuação à frente do MinC. Ipojuca Pontes, por exemplo, disse que Gil conduz a pasta com ‘uma alegria dionisíaca’ e lamentou o fato de não ter tido condições históricas de exercer o cargo ‘com tanto brilho’.’



MEIO AMBIENTE & MÍDIA
Carlos Tautz

‘Grandes reportagens só dependem de ousadia’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/03/05

‘Grandes reportagens, que já deram o tom da imprensa, são uma espécie em extinção. Ainda mais quando o assunto são fenômenos ambientais, como aqueles retratados pela National Geographic, que acontecem em freqüência e velocidade diferentes daquelas exigidas pelos meios de informação. Principalmente pela tevê, que possui uma dinâmica comercial rápida em contraste com a parcimônia dos ciclos naturais.

Contar uma estória de fundo sócio-ambiental, portanto, leva tempo e custa dinheiro, uma combinação que costuma ser mortal para os projetos de investigação jornalística que demorem e exijam recursos humanos qualificados. Para serem realizados, eles contam apenas com a vontade individual dos jornalistas sensíveis à centralidade e à atualidade do problema sócio-ambiental.

A saída que muitos encontram, aqueles melhores profissionais, os que não se contentam com os limites estreitos do mercado, quase sempre é publicar seu trabalho sob a forma de livro-reportagem, agora que jornais, revistas, rádios e tevês progressivamente abdicam de dar aos temas de maior relevância o tratamento aprofundado que deve caracterizar o papel social histórico da imprensa.

Há saídas para manter a tradição e cumprir esse papel. Cito como exemplo uma reportagem do jornalista Marques Casara sobre a mineração no Amapá, publicada pelo Observatório Social. É exemplar daquele tipo de reportagem que, se depender das empresas de comunicação em sua crise atual, dificilmente seria feita.

Outra mostra da existência de alternativas é o projeto Mar Sem Fim, de João Lara Mesquita, ex-diretor da Rádio Eldorado de São Paulo, Paulina Chamorro, que apresentou durante bom tempo o programa Terra, Ar e Mar na mesma rádio, e Fernando Sampaio, da VTF Produções. Eles vão transformar em produto jornalístico o axioma ‘do Oiapoque ao Chuí’, utilizado para descrever a imensidão do território e, no caso, da costa brasileira.

O Mar Sem Fim, de acordo com o release que a Paulina distribuiu, ‘é uma série de TV que percorrerá de veleiro os oito mil quilômetros da costa brasileira levantando os aspectos socioambientais. Saindo do Oiapoque, município no extremo norte do Brasil, no estado do Amapá, com objetivo de chegar ao Chuí, no Rio Grande do Sul, a equipe mostrará povos, situações e vegetações ainda pouco conhecidas no Brasil’. A série irá ao ar todos os domingos, a partir do dia 3 próximo, às 17:30, pela TV Cultura.

Esses trabalhos mostram que há um naipe de jornalistas que não perde a capacidade de ousar. Como costuma dizer o Alberto Dines, um jornalista histórico (dirigiu o Jornal do Brasil no início da década de 1960, quando esta empresa orientava a imprensa brasileira, e que hoje edita o Observatório da Imprensa), esse tipo de jornalista chega mesmo a criar os empregos onde consegue cumprir seu papel social e alcançar a realização pessoal de ter feito um trabalho de relevância social.

Acredito que há saídas para a volta das grandes reportagens, mesmo diante da eterna sucessão de crises da imprensa e principalmente dos meios que se dedicam à cobertura de fenômenos sócio-ambientais. Estes se encontram em dificuldades ainda maiores.

Só no futuro poderemos saber se há espaço para as grandes reportagens retornarem aos meios tradicionais. Mas, desde já, no momento em que as empresas de comunicação continuam imersas na crise estrutural do seu sistema de financiamento, iniciativas como os livros-reportagens e as séries de tevê no estilo da grande reportagem mostram que ela dependerá de apenas duas coisas para sobreviver: da imaginação e da ousadia dos jornalistas. (*) Jornalista.’

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