Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

As bravas jornalistas mexicanas

Por Wladir Dupont em 18/03/2008 na edição 477

A cineasta e documentarista mexicana María del Carmen de Lara, uma das mais premiadas da América Latina, dedicada em denunciar os sofrimentos das mulheres de seu país, sobretudo as mais pobres, volta agora sua atenção para um assunto raramente explorado no cinema: as agressões à liberdade de expressão no México, manifestadas na crescente e assustadora violência assassina contra jornalistas, com vergonhosa impunidade dos criminosos e certa indiferença ou, no mínimo, estranha lentidão das autoridades judiciais.

A documentarista anunciou, semanas atrás, haver iniciado um novo documentário sobre o tema, com destaque para o caso de duas jornalistas de ampla e respeitada trajetória: Lydia Cacho e Carmen Aristégui.

O caso de Lydia é mais antigo: numa série de matérias, depois transformada em livro (Los demonios del Edén, Grijalbo, México, 2005), ela denunciou as barbaridades perpetradas por dois poderosos empresários; um do ramo têxtil, Kamel Nacif, outro do setor hoteleiro, Jean Succar Kuri, donos de uma rede de pornografia e prostituição infantil em nível nacional e turismo sexual em Cancún. Os dois, com estreitas ligações nas altas esferas do poder político e empresarial mexicano, como revelam longas e debochadas gravações de conversas telefônicas.

Práticas repugnantes

Processada por difamação, Lydia recebeu antes um aviso ao ser seqüestrada no estado de Puebla, ficando detida longas horas e padecendo todo tipo de ameaças, incluindo espancamento e estupro – abusos milagrosamente não consumados. Foi presa em Puebla porque o governador local, Mario Marín, era amigo de Nacif e atendeu a um pedido deste, por telefone, para dar um ‘pequeno corretivo na moça’.

O trabalho de Lydia como jornalista e ativista de direitos humanos, com ênfase nas questões femininas, tem sido reconhecido e premiado mundialmente, mas a Suprema Corte de Justiça determinou, numa decisão tão surpreendente quanto revoltante, não haver provas suficientes da existência, no México, de uma rede de pornografia e prostituição infantil na extensão e profundidade denunciadas pela jornalista. Mais ainda: as gravações de conversas dos acusados, falando em castigá-la com um estupro, tampouco serviam de prova de que eles queriam de fato agredi-la de alguma forma.

Mesmo assim, caso arquivado, abalada com o desfecho de todo esse sujo rolo mas incansável em sua determinação, Lydia roda o México e o mundo dando palestras e participando de conferências sobre os maltratados direitos femininos mexicanos, o que inclui práticas repugnantes, até com garotinhas de cinco anos. Escreveu também um novo livro, Memorias de una infamia (México, Grijalbo, 2007) relatando suas desventuras com os mafiosos da prostituição infantil no México.

Excessiva independência

Conhecida por seu estilo de pensar e falar rápido ao microfone, Carmen Aristégui revelou-se, nos últimos dez anos, uma das mais contundentes jornalistas mexicanas, com passagem pelo rádio, TV e jornais, invariavelmente fazendo, como repórter, analista e âncora, denúncias e revelações delicadas sobre o poder e suas ramificações nos negócios do país, não omitindo nem mesmo o sinistro narcotráfico.

Por onde passou, Carmen deixou alguma marca além de seu talento e competência profissional, se indispondo, por causa de um jeitão destemido e independente, com colegas, chefes e patrões. Mas, por esse mesmo motivo, o não se deixar levar pela retórica oficial ou partidária, ou mesmo por interesses patronais, tem ganhado também grande prestígio no meio profissional, além de prêmios nacionais de jornalismo.

Nos últimos três anos, a jornalista mantinha um programa diário noticioso na W Radio, de propriedade do poderoso grupo Televisa, agora associado, em suas estações de rádio, a outro gigante multimídia, o espanhol Prisa, dono do jornal El País e da editora Santillana/Alfaguara, que detém 30% da empresa.

Em janeiro passado, Carmen, convocada pela direção da emissora, ouviu uma desconcertante proposta de reformulação de cláusulas de seu contrato e mudanças na orientação editorial de seu programa, condições que ela, obviamente, não aceitou e o assunto acabou em seu desligamento da emissora. Ficou claro para a jornalista que as mudanças tinham mesmo o objetivo de, contrariando seu estilo e reputação, forçá-la a uma saída. Para Televisa/Prisa, ela se tornara uma voz incômoda, inconveniente.

Contudo, como no episódio de Lydia Cacho, no de Carmen Aristégui também, aparentemente, falaram interesses mais altos da República, no sentido de conter um pouco uma das tendências mais vigorosas do atual sistema político mexicano, que é a liberdade de expressão, um ‘liberou geral’ que o poder não consegue frear. Acontece que a empresa espanhola tem como representante no México um cunhado do presidente Felipe Calderón, Juan Ignacio Zavala, que teria manifestado o desagrado dos sócios europeus com a excessiva independência de Carmen, prejudicando os negócios e as boas relações entre os dois países.

Calar um jornalista

Era preciso, então, tomar alguma providência e Carmen teria sido escolhida como um ótimo exemplo devido à sua popularidade como jornalista tenaz e provocadora. Segundo alguns conselheiros mais próximos do atual presidente, o conservador Calderón, ‘não se deve nem se pode exagerar nesse papo de liberdade de escrever e publicar o que se quer’.

No documentário agora iniciado, a cineasta María del Carmen de Lara vai incluir depoimentos não só das próprias jornalistas mencionadas, como de figuras importantes, sobretudo o veterano e influente Miguel Ángel Granados Chapa, colunista político do jornal Reforma, grande conhecedor da imprensa mexicana e suas mazelas.

Quanto a Carmen Aristégui, ela deixou o grupo Televisa mas continua com sua coluna semanal na página de opinião do diário Reforma e um programa diário de entrevistas, em espanhol, na CNN, no qual aborda, por enquanto com total autonomia, conversando com gente importante, os vários aspectos da vida mexicana – arte, cultura, política, economia.

A cineasta María del Carmen de Lara resume seu objetivo ao abordar um tema tão explosivo: ‘Acredito que quando se cala um jornalista, também se cala a voz da sociedade, e isso configura uma violência… Estou indignada com o que aconteceu a Carmen e a Lydia e, no meu campo de atividade, luto para denunciar esse tipo de arbitrariedade’.

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Jornalista e escritor, ex-correspondente de Veja no México

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