Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & MULHER

As jornalistas e o padrão de sucesso

Por Amanda Tenório Pontes da Silva em 16/02/2010 na edição 577

Os meios de comunicação têm sido duramente acusados de promoverem a divulgação do que seria o ideal corporal a ser conquistado pelas mulheres. No entanto, com a morte da jornalista Lanusse Martins, os olhares dos telespectadores ficaram voltados para quem produz a informação, como vêm se adaptando às novas exigências da sociedade, da qual também fazem parte e recorrentemente aparecem como modelos profissionais e pessoais a serem seguidos.


Desde o dia 8 de março de 1857, a ascensão das mulheres no mercado de trabalho tem sido inegável também no jornalismo, chegando aos mais altos cargos nas grandes empresas. Na mídia, a participação direta do sexo feminino se dá, assim como em tantas outras profissões, por meio de uma dura agenda de necessidades que prioriza a sua personificação dicotomizada – como produtoras de conteúdo midiático ou como receptoras através das leituras que fazem da informação.


Nesse contexto, a publicidade surgiu como espaço em que se poderia gerar uma especulação do que seria a verdadeira beleza feminina. Os produtos a serem vendidos ao longo da programação solidificaram-se diariamente na presença das apresentadoras e jornalistas, reprodutoras do pensamento feminino em ascensão. E a atualidade do conceito de beleza refletiu-se por todos os lados e está assustadoramente sendo acoplada à rotina metalingüística da atividade no país.


Manchete em revistas de celebridades


Manter-se equilibrada pode ser tarefa difícil quando se é bombardeada pelos mais variados prazeres da vida – quase sempre sem poder usufruí-los. Em ‘Contradições sobre a beleza feminina‘, publicado neste Observatório da Imprensa, Ligia Martins de Almeida parte do encontro paradoxal entre a exibição e a apologia ao biótipo físico alto e magro das modelos em desfiles da São Paulo Fashion Week.


Em terras tupiniquins, a altura média da brasileira, que geralmente oscila segundo fatores genéticos e sociais, está na faixa de 1,58m. Quanto ao peso, por haver uma grande variação a cada ano, suponho aqui que a tendência seja fatalmente engordar, inclusive as que estão inclusas na população mais carente e que, de acordo com nutricionistas e médicos, também exageram nos carboidratos e gorduras.


No meio da padronização do que seria considerado normal e extraordinário vindo de uma mulher moderna, tem se tornado freqüente a exposição da vida pessoal das jornalistas, que viram manchete em revistas de celebridades, pois segundo as publicações, elas são exemplos para as outras mulheres por suas atitudes bem sucedidas.


Assunto mais discutido é a moda


Sem julgar o mérito dos veículos de comunicação, adentrar pelo mundo da televisão pode começar pelo entendimento do conteúdo ao longo da programação e a distribuição das suas grades na faixa dos horários. Dessa forma, pode-se compreender a maneira de fazer jornalismo e o contrato espaço-temporal.


As atrações matinais, salvo raríssimas e maduras exceções, são compostas por programas de variedades e infantis. Acabou o tempo da culinária. O assunto mais discutido, sem dúvida, é a moda. Dicas de consultores e desfiles de lingerie criaram a aura de que os estúdios viraram espaços para autopromoção, seja da apresentadora, que geralmente se preocupa mais com os produtos de beleza que assina do que com sua postura profissional, como a ética do programa em si e sua relação com os patrocinadores.


Padrão volátil


Na tarde a frase de ordem é ‘entrar em forma’. As cápsulas, aparelhos de ginástica e dietas de semana, que, segundo as apresentadoras, as auxiliam, fazem o espectador acreditar que podem adquirir o corpo de atletas brasileiros que destinam décadas de vida ao esporte. A leitura de revistas femininas impressas e dos sites fofocas alicerçam matérias voltadas à nutrição, endocrinologia e dermatologia nos famosos.


No início da noite as atrações estão direcionadas a junção da beleza aos mais modernos dispositivos tecnológicos, onde temas como cirurgias plásticas e estéticas parecem garantir a longevidade. Antes de dormir percebe-se que a última cartada foi dada e a idade não pode ser empecilho para nada.


Lamento concluir o que parece ser mais consensual, ou seja, que ainda nos primórdios da profissão, nas faculdades de Jornalismo, as estudantes sejam divididas mediante o meio: televisão, rádio ou impresso, de acordo a aparência, em detrimento das que se encontram de fato mais bem preparadas. E o jornalismo e as mulheres saem novamente perdendo em nome de um padrão que tende a ser cada dia mais volátil, seguindo uma tendência que parece ser universal.

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Mestranda em Comunicação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa, PB

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