Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

Aspectos científicos da distribuição de água no planeta

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 25/11/2008 na edição 513

A CartaCapital nº 522 publicou uma longa matéria sobre as conseqüências ecológicas da irresponsabilidade humana no manejo da água. No texto ‘De oásis a deserto’, que foi originalmente publicado no semanário The Observer, Julette Jowit cita Marq de Villiers, renovando assim o interesse na obra do mesmo.

Quem quiser compreender os conflitos que pipocam aqui e ali por causa do recurso natural mais importante para a vida que o próprio petróleo, não pode deixar de ler o livro Água, de Marq de Villiers.

O livro é dividido em quatro partes e dezoito capítulos. No primeiro, o autor trata dos principais aspectos científicos que se referem à distribuição da água no planeta. No segundo, como estamos influenciando o ciclo hidrológico em razão do aproveitamento racional das fontes de água doce para atividades agrícolas e industriais. No terceiro, são abordados os desdobramentos políticos referentes ao acesso e aproveitamento da água, os conflitos locais, regionais e internacionais que estão surgindo e, em alguns casos, se tornando crônicos. A última parte cuida das soluções possíveis num tempo em que a carência de água se torna um problema tão dramático quanto o abastecimento de petróleo.

Áreas inabitáveis ou inviáveis

Villiers afirma que o ciclo hidrológico…

‘…é a forma como a água circula pelos sistemas da terra, de uma altura de 15 quilômetros acima do solo para uma profundidade de cerca de cinco quilômetros. É um sistema químico quase estável e auto-regulável, que transfere a água de um `reservatório´ para outro em ciclos complexos. Estes reservatórios incluem a umidade atmosférica (nuvens e chuvas), os oceanos, rios e lagos, os lençóis freáticos, os aqüíferos subterrâneos, as calotas polares e o solo saturado (a tundra ou as áreas alagadas). O ciclo é o processo de transferência da água de um estado, ou reservatório, para outro, através da gravidade ou da aplicação de energia solar, ao longo de períodos que variam de horas a milhares de anos.

O sistema todo funciona somente porque mais água se evapora dos oceanos do que retorna para ele diretamente na forma de chuva ou de neve. Esta diferença cai na terra sob a forma de chuva ou neve, e esta é a diferença que torna nossa vida possível, pois quando a chuva cai, ela o faz em forma de água doce. Há uma renovação não só quantitativa, mas também qualitativa: o processo purifica a água de suas impurezas e a devolve potável, uma água utilizável pela biota, na qual estamos incluídos’.

A longa citação foi necessária. Ela nos ajuda a aceitar duas outras verdades: a quantidade de água disponível é muito grande, porém limitada; a distribuição de água não é uniforme porque o ciclo hidrológico é diferente em diferentes áreas do planeta. Portanto, à medida que exploramos um manancial de água, ele se torna escasso. Em razão da complexidade do ciclo hidrológico, a escassez pode demorar horas, dias ou milhares de anos para deixar de existir. Em conseqüência, à medida que as cidades aumentam e a industrialização se intensifica, algumas áreas podem se tornar praticamente inabitáveis ou economicamente inviáveis em razão da carência de água.

Movimentações populacionais

Preocupados com a carência de água, alguns ecologistas limitam-se a denunciar o abuso e lutar pela preservação ou pela gestão racional deste recurso. Outros, como Villiers, preocupam-se também com o acesso das populações mais carentes à água e, conseqüentemente, não aceitam a privatização das empresas que tratam e distribuem o líquido vital para a vida. Entretanto, somos obrigados a registrar aqui que não é a própria carência de água que coloca em risco a estabilidade das sociedades humanas, mas as movimentações populacionais que a escassez de água pode provocar.

É distorcido o enfoque que os ecologistas dão á questão da escassez de água. Em suas teorias, eles sugerem que alguns ecossistemas, grupos populacionais ou a própria espécie humana correm risco de extinção. Entretanto, do ponto de vista geológico, as extinções são e sempre serão corriqueiras. Além disto, em razão das características do ciclo hidrológico, tão bem descrito por Villiers, toda vez que a água se tornar escassa numa região ela se acumulará em outra, que se tornará assim um nicho ecológico propício à vida.

Desde que começou a se desenvolver, a espécie humana lida com a carência de duas maneiras: ou a mesma é suprida por meio de um artifício tecnológico ou superada por intermédio da movimentação populacional. As primeiras sociedades humanas eram nômades e algumas delas permanecem nômades até hoje (como os beduínos, os ciganos etc.). Grandes movimentações humanas ocorreram durante a construção e queda do Império Romano e a colonização do Novo Mundo. Em maior ou menor escala, as movimentações populacionais ocorrem também em razão de guerras civis ou entre nações. Portanto, no centro das preocupações ecológicas está, na verdade, a preservação de um determinado tipo de civilização: a civilização ocidental baseada em agrupamentos humanos estáveis e sedentários.

Colapso da estrutura político-econômica

Raros são os ecologistas que percebem a lógica perversa de sua preocupação excessiva com a preservação deste modelo de civilização. As sociedades humanas ocidentais que conhecemos existem há alguns séculos e produziram apenas desequilíbrios dramáticos. As desigualdades dentro das sociedades são permanentes; as que existem entre as nações dos hemisférios norte e sul são grotescas. A crise da água, portanto, pode representar uma excelente oportunidade para a humanidade resolver alguns dos mais graves conflitos que perduram desde o século 19.

À medida que milhões de pessoas forem literalmente obrigadas a se deslocar de cidades em razão da carência de água, conflitos sociais que hoje são latentes se tornarão concretos, possibilitando a destruição de estruturas sociais injustas. O sofrimento e a violência serão inevitavelmente distribuídos de alto a baixo em toda a pirâmide social, igualando pobres e ricos. É bem provável que muitas pessoas que hoje são ricas se tornem pobres em razão da desvalorização de suas propriedades e empresas devido à carência de água em regiões intensamente povoadas. De qualquer maneira, todos serão obrigados a disputar em condições de igualdade novos espaços com os contingentes populacionais sedentários ou em movimento.

As movimentações populacionais poderão acarretar, ainda, um colapso da estrutura político-econômica em escala continental e global. Bom para o planeta, na medida em que áreas degradadas terão a oportunidade para se regenerar. Bom para os contingentes populacionais historicamente á margem do processo político, que poderão criar novas formas de organização e atuação política.

Um novo mundo

Não são descartadas novas ondas migratórias para regiões do Novo Mundo e da África em que a água é abundante. Apesar de traumático, esse processo ajudará a criar novas civilizações a partir da fusão de culturas diferentes e separadas por oceanos há séculos. As gritantes desigualdades sociais na América Latina serão colocadas à prova caso novas ondas migratórias ocorram.

Villiers está entre os que admitem a possibilidade de que as guerras pelo controle de mananciais de água se tornarão mais freqüentes e intensas. Nenhuma novidade sobre o sol. As sociedades humanas sempre guerrearam por isto ou aquilo.

O mito de uma convivência pacífica entre as nações parece cativar os ecologistas. Também parece cativá-los o mito de que os Estados que hoje são militarmente poderosos estarão sempre em condições de subjugar outras nações para controlar recursos naturais essenciais. Na verdade, a escassez de água atingirá primeiramente os países mais industrializados do hemisfério norte, produzindo fragmentação política, econômica, social e militar dos mesmos. A decomposição dos impérios industrializados do hemisfério norte pode acabar sendo tão intensa que daqui a um século os EUA não estarão em condições de realizar campanhas militares distantes, tornando o mundo mais seguro e pacífico para os habitantes do hemisfério sul.

Poucos duvidam que a crise mundial se avizinha. Marq de Villiers também admite esta hipótese. Em razão da mesma, o mundo como conhecemos poderá ser destruído. Nos estertores deste velho mundo industrializado, dividido, violento e injusto, um novo mundo começará a ser construído. Mãos à obra.

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Advogado, Osasco, SP

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