Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > TURQUIA

Assassinato de jornalista reacende ódios

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 23/01/2007 na edição 417

Em alguns países da Europa, o autoritarismo fica camuflado por uma falsa democracia apoiada em Constituições viciadas. Nestas, é vedada de todas as formas a liberdade intelectual e, em muitos casos, até com a radical eliminação física de quem se atreva divulgar a verdade.

A Rússia tem sido um país onde a repressão à liberdade de imprensa é mais exacerbada: há poucos meses foi assassinada a jornalista Anna Politkovskaja, que denunciava atos criminosos do governo contra as minorias, especialmente na Chechênia.

A Turquia, desde a antiguidade clássica, foi o enclave entre a Europa e Ásia e, por isso, de grande importância estratégica. Todavia, essa posição trouxe uma variedade de raças, que em parte se miscigenaram, mas ficaram algumas minorias étnicas, inicialmente discriminadas e depois odiadas pela maioria, o que levou ao terrível genocídio contra a população armênia, ocorrido nos primeiros anos do século passado e que aniquilou milhões de pessoas.

Extremistas ultra-nacionalistas

Depois veio a República, construída e consolidada por Mustafá Kemal, dito Atatürk (1881-1938), pai da Turquia e até hoje o grande ídolo nacional, mas, durante seu governo, não conseguiu eliminar os problemas étnico do país.

A Turquia de hoje nega o genocídio e, pelo artigo 301 do Código Penal, considera uma ‘ofensa à identidade turca’ qualquer citação à tentativa de eliminação dos armênios. Foi esse artigo que levou à condenação do escritor Orhan Pamuk, vencedor do prêmio Nobel, pois em uma entrevista no exterior ‘ousou’ falar do extermínio dos armênios por parte dos turcos.

Na quinta-feira (18/1), foi assassinado em Istambul, à porta do periódico que dirigia, Agos, o escritor e jornalista armênio-turco Hrant Dink, de 53 anos, cronista-símbolo dessa minoria. Seu semanário é uma publicação bilíngüe (turco e armênio), onde não media palavras em defesa de sua comunidade (80 mil pessoas), da qual se tornou um dos personagens mais influente, estimado e escutado.

Foi morto, segundo testemunhas, a tiros disparado de pouca distância por um indivíduo jovem, vestindo uma jaqueta jeans e um chapéu branco. Os investigadores seguem a pista dos extremistas ultra-nacionalistas de direita, que há algum tempo desencadearam uma venenosa campanha contra os jornalistas. O modus operandi lembra os atentados da ‘Brigada da Vingança Turca’. O grupo é considerado uma facção dos famigerados ‘Lobos Cinzentos’ – estes, com uma posição claramente de extrema-direita, ganharam fama nos anos 1980 com o atentado ao papa João Paulo II por parte de um dos seus membros, Ali Agca, e com a feroz luta contra as organizações marxistas. Muitos foram presos, mas liberados por um golpe militar. Assim, o grupo renasceu e vive até hoje colaborando com o governo contra armênios e curdos.

O dilema do governo turco

A brigada é o Hezbollah turco (nada a ver com o grupo libanês) e foram bons aliados dos serviços secretos turcos na campanha de eliminação dos ativistas pelos direitos humanos e dos curdos. Um pacto que também envolveu a máfia turca, a qual, trabalhando na sombra, sempre consegue fazer jogo duplo – com as autoridades e com os rebeldes.

Para as brigadas, o mais importante é a defesa da identidade turca, assim como a intangibilidade das fronteiras. Armênios, curdos e quem quer que ponha em discussão os princípios estabelecidos por Aratürk são inimigos que devem ser abatidos.

A tão almejada admissão na União Européia (UE) fica cada vez mais à distância quanto mais recrudesce no país o amordaçamento da mídia.

O assassinato de Hrant Dink é encarado pelos países da UE como um fator a mais para impedir a aceitação da Turquia. O governo, apesar das declarações do primeiro-ministro Tayyip Erdogan, denunciando o fato como um ataque à liberdade de expressão e prometendo punir os autores do ‘do odioso crime’, se vê entre duas situações antagônicas: a abertura total à liberdade intelectual e o convívio com ‘aliados’ terroristas do extremismo de direita.

‘Agora, eu sou o inimigo’

O povo está consciente desse conflito e sabe que o prejudicará. Por isso, no mesmo dia do assassinato milhares de pessoas desceram às ruas de Istambul em passeata de protesto gritando como palavra do ordem: ‘Somos todos armênios, somos todos como Hrant Dink.’

Em seu último artigo, Dink diz: ‘Me acusam de ter dito que o sangue dos turcos é venenoso. Não é verdade, mas agora eu sou o inimigo.’ A conclusão parece um triste presságio: ‘A memória do meu computador está cheia de mensagens de ódio e de ameaças. O 2007 me será um ano difícil, Quem poderá prever as injustiças que terei de afrontar?’

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