Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

‘Assistimos na televisão uma produção pasteurizada e massificada’

13/04/2004 na edição 272

Adriana Rattes entende tudo de cinema. Afinal, ela é uma das fundadoras e diretoras do Grupo Estação de Cinema, que há 20 anos vem exibindo filmes dos mais variados estilos, formatos e países para o público carioca, em especial para crianças e adolescentes.

Segundo Adriana, existe uma rica produção mundial voltada para o público infanto-juvenil, mas que é desconhecida por questões de financiamento e distribuição. ‘Na realidade, é a produção cinematográfica norte-americana que ocupa boa parte da mídia internacional, dominando aproximadamente 95% de todo o mercado mundial. Somente uma política de incentivo de nossas produções, a médio prazo, será capaz de reverter este quadro.’

Triste constatação. Pois além de ser diversão, Adriana tem absoluta certeza de que o cinema também é um importante e eficaz veículo de formação e de educação. ‘A melhor maneira de aprender é se divertindo. A minha maneira de ver o mundo e como me coloco nele foram direcionados pelas experiências cinematográficas que eu tive ao longo da vida. Acho que é o poder que tem a arte. Para mim, o cinema tem dois significados: janela e espelho. Janela porque abre a visão das pessoas e espelho porque permite que elas também possam se ver nele.’

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Como está o mercado cinematográfico voltado para crianças e adolescentes?

Adriana Rattes – Arriscaria dizer que o mercado cinematográfico para crianças e adolescentes encontra-se na mesma situação do mercado cinematográfico adulto. Há uma forte presença do cinema comercial americano em todas as mídias, ocupando cerca de 95% de todo o mercado mundial. A produção de TV acaba acompanhando esta mesma tendência. Assistimos na televisão uma produção pasteurizada e massificada. Mas, ao mesmo tempo, existe, sim, uma rica produção voltada para crianças e adolescentes e uma produção que não é feita para eles, mas que poderia ser perfeitamente consumida. Quando reclamamos que não temos acesso à riqueza e à diversidade da produção audiovisual mundial, estamos falando da falta de uma política, a médio prazo, que dê conta desta produção e distribuição.

Qual seria a receita de uma produção cinematográfica voltada para o público infanto-juvenil?

A.R. – A experiência que temos de exibir produções de qualidade para as crianças mostra que o trabalho é possível, mas que deve ser sistemático. Nem sempre é fácil no início. Se as crianças e os adolescentes passam grande parte da vida vendo uma mesma coisa, eles ficam condicionados a um determinado olhar. Mas se você oferece desde cedo um leque de produtos, eles compram a idéia com muita facilidade. Na história do Grupo Estação, temos um filme emblemático que se chama ‘Um dia, um gato’ que exibimos na década de 80 e que depois recompramos os direitos para o Brasil. É um filme produzido para crianças e adultos. É a história de um gato que, quando tira os óculos, passa a enxergar as pessoas pelas cores dos seus sentimentos. Quem é invejoso fica amarelo. Quem está apaixonado fica vermelho. Com isso, o gato transforma a cidade numa grande confusão. Os adultos querem matar o gato, e as crianças, protegê-lo. É um filme emblemático que mostra que um longa-metragem voltado para criança também pode ser dirigido aos adultos. E mostra que uma produção para criança não precisa ser simples ou se enquadrar em uma determinada fórmula.

Paulo Emílio Salles Gomes, um dos maiores críticos de cinema do país, dizia que o cinema é a melhor diversão. Você acha que também pode ser instrumento de educação?

A.R. – Acredito que a melhor maneira de aprender é se divertindo. A minha maneira de ver o mundo e como eu me coloco nele foram direcionados pelas experiências cinematográficas que eu tive ao longo da vida. Acho que é o poder que tem a arte. Certamente, além de diversão, o cinema é educação, é formação. Acho que é a melhor forma de se fazer cinema. Quando criamos o Grupo Estação, demos início ao projeto Oficina Cine-Escola. Em primeiro lugar, a idéia era passar filme para a garotada, mostrando que a produção audiovisual é muito mais rica do que se vê na TV e nos cinemas comerciais. Em segundo, formar platéias para o cinema brasileiro. Mostrar que é possível fazer cinema no Brasil e que o cinema, que se faz no país, é bom e de qualidade. E, em terceiro lugar, que o cinema pode e deve servir de apoio curricular às escolas. Trabalhamos junto aos professores as possibilidades de explorar cada filme com os estudantes. Não nos preocupamos se o filme que estamos passando é independente, experimental, alternativo ou de arte. Nos preocupamos em passar filmes de qualidade. Escolhemos aquele filme que tem algo a dizer e diz de forma que privilegia a arte. O cinema tem dois significados: espelho e janela. Janela porque abre a visão das pessoas. Espelho porque permite que as pessoas também se vejam na tela.

Qual a importância da realização da 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes?

A.R. – É importante e é mais do que urgente. Hoje o grande instrumento que temos para formar nossos filhos e jovens é a mídia. Eles passam mais tempo com ela do que com a família. Adoraria que tivéssemos no Brasil uma TV e uma produção cinematográfica mais diversificada. Não precisamos educar nossas crianças por meio de produtos importados. Nada contra. Tem muita coisa interessante e de qualidade. Mas é preciso que as crianças saibam que elas também podem se ver na tela e no cinema. Seja o menino da rua do lado, a história de uma criança do interior do Amazonas ou uma lenda do nosso folclore. É preciso, portanto, que este evento discuta a questão do fomento, da distribuição e da responsabilidade de quem conduz as políticas públicas deste setor para que daqui a alguns anos possamos ter um meio de produção e de distribuição mais democrático e aberto.

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