Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > GUATEMALA

Atentado à dignidade humana

Por Cesar Vanucci em 05/09/2011 na edição 658

“Um crime contra a humanidade!”(Álvaro Colom, presidente da Guatemala)

Colho num canto de página de jornal, um desses espaços reservados para o despejo de calhaus, como se diz no jargão jornalístico, informação estarrecedora. Apoquenta-me bastante a forma indesculpavelmente “discreta” adotada pela mídia para divulgá-la. Os feitos narrados tiveram impactos extremamente perversos na vida de inocentes de comunidades comprovadamente desprotegidas. Gente arrolada, pela arrogância e prepotência dos “senhores do mundo”, como cidadãos de terceira classe. Alvejados impiedosamente em sua dignidade humana.

Mas de que notícia se está mesmo a falar? Desta aqui: “Comissão especial constituída pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou à chocante conclusão de que pelo menos 83 cidadãos foram mortos em experiências médicas secretas, promovidas por órgãos governamentais norte-americanos na Guatemala.” Aconteceu na década de 40. O relatório a respeito explica que, aproximadamente 5.500 guatemaltecos foram submetidos a exames e, desses, um total de 1.300 acabaram sendo infectados deliberadamente com doenças venéreas no curso de um programa de cunho alegadamente “científico”, elaborado e coordenado pelo National Institute of Health, agência vinculada ao Departamento de Saúde estadunidense.

Pressentimentos sombrios

O programa teve desdobramentos entre os anos 1946 e 1948. Os “pesquisadores” norte-americanos, chefiados por um “cientista” de nome John Cutler, usaram cobaias humanas, vários deles portadores de doenças mentais, para apurar se a penicilina, recém-descoberta, poderia ser empregada na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. A ação “científica” consistia na inoculação de bactérias de blenorragia e sífilis nos elementos “selecionados”, na maioria prostitutas. As “cobaias” foram estimuladas a manter relações sexuais com soldados, detentos, doentes mentais, por aí. Os “pesquisadores” acompanharam cuidadosamente a “evolução” dos experimentos, com vistas a compor um alentado acervo de “informações úteis” que pudessem vir a orientar ações terapêuticas futuras em ambientes sociais “mais refinados”, povoados obviamente por cidadãos de primeira classe.

O presidente Obama, dias atrás, apresentou um pedido formal de desculpas ao presidente da Guatemala, Álvaro Colom. Este, por sua vez, depois de classificar o apavorante incidente de “crime contra a humanidade”, ordenou que fosse feita por cientistas guatemaltecos uma outra investigação.

Fica difícil pacas entender o comportamento indiferente, distante, da mídia em relação a assunto tão sério. A desnorteante história lança, também, no ar uma pergunta repleta de sombrios pressentimentos: a experiência levada a cabo pelos “cientistas malucos” teria ficado adstrita única e exclusivamente ao território da Guatemala, ou acabou se estendendo também a outras regiões, igualmente desguarnecidas na época, do vasto “quintal” latino-americano?

***

[Cesar Vanucci é jornalista, Belo Horizonte, MG]

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