Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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CADERNO DA CIDADANIA >

Aumenta número de assassinatos

Por Comitê de Proteção aos Jornalistas em 23/12/2006 na edição 413

A violência no Iraque custou a vida de 32 jornalistas em 2006, o ano mais letal para a imprensa em um único país documentado pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ). Em muitos casos, como no assassinato de Atwar Bahjat, uma das repórteres de televisão mais conhecidas no mundo árabe, insurgentes atacaram diretamente os jornalistas, segundo uma nova análise do CPJ.

Um total de 55 jornalistas morreu durante o cumprimento de seu trabalho no mundo em 2006, enquanto o CPJ continua investigando as mortes de outros 27 para determinar se estão relacionadas com seu trabalho jornalístico. Detalhes de cada caso, em inglês, figuram no site do CPJ. A cifra reflete um aumento em relação a 2005, quando 47 jornalistas foram mortos em represália direta por seu trabalho, enquanto outros 17 morreram em circunstâncias em que a relação com a profissão não estava clara. O CPJ, fundado em 1981, compila e analisa as mortes de jornalistas todos os anos.

Afeganistão e Filipinas, com três mortes cada um, ficaram em segundo lugar entre os países mais perigosos em 2006. Dois jornalistas morreram no cumprimento de seu trabalho na Rússia, México, Paquistão e Colômbia. Os quatro são países tradicionalmente perigosos para a imprensa, segundo o CPJ.

Seqüestrados e assassinados

No entanto, pelo quarto ano consecutivo, o Iraque esteve em uma categoria própria como o lugar mais letal para jornalistas. As mortes deste ano elevam para 92 o número de jornalistas que morreram no Iraque desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em março de 2003. Também, 37 assessores – intérpretes, motoristas e funcionários de escritório – foram mortos desde o princípio da guerra.

Somente quatro jornalistas morreram no Iraque, em 2006, como conseqüência de fogo cruzado ou atos de guerra, indica a análise do CPJ. Os outros 28 foram assassinados e a metade havia sido previamente ameaçada. Três foram seqüestrados e depois assassinados, conforme os indicadores do CPJ.

‘Este ano, as mortes no Iraque refletem a completa deterioração do tradicional status dos repórteres como observadores neutros em tempos de guerra’ ressaltou o diretor-executivo do CPJ, Joel Simon. ‘Quando este conflito começou, há mais de três anos e meio, a maioria dos jornalistas morria em incidentes de combate. Atualmente, os insurgentes freqüentemente atacam os jornalistas por supostas relações políticas, sectárias ou com o Ocidente. Esta tendência é alarmante porque, além da terrível perda de vidas, está limitando a cobertura de notícias do Iraque – e, ao mesmo tempo, nossa compreensão sobre um tema crucial’.

Números do horror

A ferocidade dos ataques no Iraque se viu refletida em 12 de outubro, quando pistoleiros mascarados atacaram os escritórios do novo canal de televisão por satélite Al-Shaabiya, em Bagdá. No total, 11 pessoas foram executadas, incluindo cinco jornalistas. Foi a agressão mais letal contra a imprensa desde a invasão, em 2003.

Estas são outras tendências sobre o Iraque que surgiram da análise do CPJ:

** Trinta dos 32 jornalistas assassinados eram iraquianos, seguindo uma tendência de dois anos, segundo a qual os jornalistas locais são o maior segmento de vítimas. Paul Douglas, cinegrafista da cadeia CBS, e o técnico de som James Brolan, radicados em Londres, foram os únicos jornalistas estrangeiros mortos no Iraque em 2006. Entre as vítimas iraquianas está Bahjat, correspondente do canal de televisão via satélite Al-Arabiya e ex-repórter da Al-Jazeera. O CPJ homenageou Bahjat postumamente, em novembro, com seu Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa.

** O assassinato corresponde a 61% das mortes de jornalistas no Iraque desde o início da guerra. A cifra de homicídios começou a aumentar há 20 meses e se acelerou durante o último ano. Incidentes envolvendo fogo cruzado e de combate haviam sido as causas mais freqüentes de mortes de jornalistas durante os primeiros anos da guerra.

** A cifra de 2006 aumentou 45% em relação às 22 mortes documentadas pelo CPJ em 2005.

** A guerra do Iraque é o conflito mais letal na história do CPJ. O Iraque ultrapassou o conflito civil argelino, na década de noventa, no qual 58 jornalistas foram mortos por seu trabalho.

** A cifra de 2006 no Iraque é a mais alta em um único país desde a fundação do CPJ, em 1981. Seguem-se, como anos mais letais, o de 2004, no Iraque, e de 1995 na Argélia. Um total de 24 jornalistas morreu durante estes dois anos.

Menos perguntas e menos riscos

No mundo, o assassinato foi a principal causa de mortes de jornalistas em 2006, dando conta de 85% dos casos (aproximadamente 11% deles morreram cobrindo combates e 4% em missões perigosas, como a cobertura de manifestações e protestos de rua). Segundo o CPJ, houve pouco progresso nas investigações da maioria dos casos, reforçando a pesquisa que indica que menos de 15% dos assassinatos de jornalistas resultam em processos judiciais.

Entre os jornalistas assassinados este ano se sobressai o caso da russa Anna Politkovskaya, proeminente repórter investigativa e dura crítica do presidente Vladimir Putin, que foi atingida por pistoleiros na entrada do edifício onde vivia em Moscou no dia 7 de outubro.

‘Quando uma jornalista mundialmente reconhecida é assassinada a tiros na porta de sua própria residência e os autores ficam livres, isso tem um efeito devastador sobre a imprensa. Como resultado, são feitas menos perguntas e menos notícias arriscadas são cobertas’, acrescentou Simon. ‘Seu caso mostra por que a impunidade é uma séria ameaça à liberdade de imprensa, não somente na Rússia como em nações como as Filipinas, Colômbia, México e Paquistão’.

Politkovskaya é uma das oito jornalistas mortas em 2006. Na nação asiática do Turcomenistão, a repórter Ogulsapar Muradova da Radio Free Europe/Radio Liberty morreu em uma prisão em setembro, em circunstâncias que ainda não foram explicadas. Muradova era crítica ao presidente Saparmurat Niyazov. Em julho, no sul do Líbano, um míssil israelense matou a jornalista free-lancer Laya Najib quando ela se dirigia em um táxi para cobrir a fuga de civis em direção ao norte.

Padrões estritos

Os países mais letais incluem locais tão diferentes como Filipinas e Afeganistão. Duas das vítimas fatais nas Filipinas eram comentaristas de rádio, continuando uma tendência documentada durante anos pelo CPJ. No Afeganistão, um país no meio de uma guerra, dois radialistas alemães figuram entre as três vítimas fatais.

Na América Latina, duas nações com uma longa história de violência contra a imprensa figuram na lista dos lugares mais perigosos para o jornalismo em 2006. Na Colômbia, dois jornalistas do interior que trabalharam em informes sobre as atividades paramilitares foram assassinados. No México, um repórter local que cobria a área de polícia foi assassinado na cidade oriental de Veracruz e um jornalista free-lancer norte-americano foi morto a tiros durante um conflito civil no estado de Oaxaca, no sul do país. O CPJ está investigando o desaparecimento de um jornalista mexicano no norte do país, além da morte de outros cinco jornalistas em circunstâncias que ainda não foram esclarecidas.

Na África sub-saariana, um jornalista foi morto em represália direta por seu trabalho durante o ano de 2006. Martin Adler, um fotógrafo sueco ganhador de vários prêmios, foi assassinado a tiros enquanto cobria, em junho, uma manifestação na capital da Somália, Mogadício.

O CPJ aplica padrões estritos para cada caso que inclui em sua lista anual de jornalistas mortos. Suas investigações indagam e verificam de forma independente as circunstâncias de cada morte. O CPJ considera que um caso está relacionado com o trabalho unicamente quando seu pessoal está razoavelmente seguro que o jornalista morreu em represália direta por sua função, em fogo cruzado ou durante uma missão perigosa.

Quando os motivos não estão claros, mas é possível que a morte do jornalista tenha relação com seu trabalho, o CPJ classifica o caso como ‘sem confirmação’, enquanto continua investigando. As listas do CPJ não incluem jornalistas mortos em acidentes – automobilísticos ou aéreos, por exemplo – a menos que o acidente tenha sido causado por alguma ação hostil (por exemplo, se o avião cai ou o automóvel se choca tentando fugir de um ataque). Outras organizações que utilizam critérios e metodologia diferentes citam cifras mais altas que as do CPJ.

A lista final de jornalistas mortos durante o ano de 2006 será publicada em 2 de janeiro. [Nova York, 20 de dezembro de 2006]

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O CPJ é uma organização independente, sem fins lucrativos, sediada em Nova York, que se dedica a defender a liberdade de imprensa em todo o mundo; www.cpj.org

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