Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > ANGRA DOS REIS

Baixou o Bush, do Katrina

Por Mário Magalhães em 12/01/2010 na edição 572

Avançava a contabilidade fúnebre no derradeiro dia de 2009 quando, no comecinho da tarde, perguntaram a um secretário municipal do Rio sobre o réveillon. Ele rasgou o sorriso e festejou na TV: ‘Mudou nada, tá tudo certo!’ Um repórter emendou, efusivo: ‘Com chuva ou sem chuva, a festa tem que continuar!’ Ao tripudiar da dor alheia, cunhou um desses enganos que degradam o jornalismo.

A conta dos mortos no estado na quarta e na quinta-feira (30 e 31 de dezembro) fecharia em 19, a maioria na capital, e quase a metade de crianças. Sobreveio a desgraça em Angra nos Reis na madrugada seguinte. O estado somava ontem 74 vidas abatidas desde o dia 30 pelo aguaceiro.

A crônica do dar de ombros lustrou-se com Sérgio Cabral. Na quinta, 31, sua assessoria informou que ele permaneceria na casa de veraneio em Mangaratiba.

Logo o infortúnio castigou sua vizinhança, a dezenas de quilômetros, em Angra. Nem por isso, na sexta, o governador moveu-se ao morro da Carioca e à Ilha Grande. Surgiu no sábado e cantou de galo: não é demagogo para estar onde quem deve agir nas primeiras 24 horas são os técnicos.

Abraçou o presidente Bush, ausente no furacão Katrina de 2005, e rejeitou o suor do prefeito Giuliani no 11 de setembro de 2001. Ridicularizou o aliado Eduardo Paes, que na quinta de manhã já visitava as vítimas na zona norte carioca, concedendo um descanso ao furor marqueteiro do dito choque de ordem. O mesmo prefeito cuja administração não foi capaz de identificar risco nos terrenos dos desabamentos e cujos desembolsos com publicidade dispararam, quem sabe à falta de outra prioridade.

Comando de ação e empenho coletivo

Cabral vangloriou-se: dobrou as áreas de conservação, para restringir novas edificações, e vai radicalizar essa política. Calou acerca do não cumprimento dos gastos previstos para combater inundações – notórias fontes de tragédias – na Baixada Fluminense e para prevenir calamidades no estado. Pareceu esquecer que no ano passado autorizou normas mais brandas para ocupar e construir em Angra, nas encostas em que deslizamentos matam.

A presença do governante não se destina a substituir o trabalho heróico de bombeiros e servidores da Defesa Civil, mas a demonstrar determinação pública em socorrer, amparar e prover meios de sobrevivência, ainda que o flagelo tantas vezes se origine da ausência do Estado. Encarna o comando da ação e estimula o empenho coletivo. Dá exemplo.

Nesse episódio, Cabral fez pelo menos um seguidor: até ontem à tarde, sua secretária de Assistência Social, Benedita da Silva, não fora vista em Angra.

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Repórter especial da Folha de S.Paulo

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