Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > TERÇA-FEIRA, 5/10

Biógrafo do Monde diz que Sarkozy tenta intimidar fontes

05/10/2010 na edição 610


Leia abaixo a seleção de terça-feira para a seção Entre Aspas.


 


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 5 de outubro de 2010


 


FRANÇA


Luís Eblak


‘Sarkozy quer intimidar fontes da mídia’


A disputa do governo francês com o jornal ‘Le Monde’ tem como pano de fundo uma estratégia do presidente Nicolas Sarkozy de desencorajar funcionários públicos de falar com a imprensa.


A declaração é de Patrick Eveno, professor da Universidade Paris 1 e ‘biógrafo’ do diário -é autor do livro ‘Histoire du journal Le Monde’, de 2004 (história do jornal ‘Le Monde’).


Há um mês, o jornal acusou o serviço de inteligência francês de ter espionado e punido a fonte de uma série de reportagens sobre corrupção.


‘Já que não se pode atacar os jornalistas, é preciso dissuadir os funcionários de falar com os repórteres, mostrando que se pode puni-los. O intuito é pressionar fontes potenciais’, disse. A seguir, leia os principais trechos da entrevista, concedida à Folha por e-mail.


Folha – O ‘Monde’ acusa o governo de violar a lei sobre sigilo de fontes. Como o sr. avalia esse episódio?


Patrick Eveno – A lei indica claramente: ‘Não se pode atentar direta ou indiretamente contra o sigilo de fontes sem que um imperativo preponderante do interesse público (terrorismo ou espionagem) justifique’. Além disso, esse procedimento deve ser feito sob direção de um juiz, o que não ocorreu.


Como está a relação imprensa e democracia na França?


Para a Corte Europeia dos Direitos Humanos, a imprensa é ‘o cão de guarda da democracia’. A corte considerou a proteção de sigilo de fontes como uma ‘pedra fundamental’ do jornalismo, já que ‘a ausência desta proteção dissuade um grande número de fontes com informações de interesse geral [de falar com jornalistas]. Está claro o que foi pensado pela operação da polícia e do governo: já que não se pode atacar os jornalistas, é preciso dissuadir os funcionários de falar com eles, mostrando que se pode persegui-los e puni-los. O intuito é pressionar fontes potenciais.


O objetivo do governo é enfraquecer o jornalismo?


Não conheço os objetivos do governo, mas é evidente que ele procura controlar a comunicação sobre seus atos e palavras [na mídia], para limitar os efeitos sobre a opinião dos cidadãos.


Como é a relação Sarkozy-imprensa em relação aos governos anteriores?


É consideravelmente deteriorada. Após ter tentado, no começo de seu governo, seduzir jornalistas, dominar a agenda midiática e controlar a imprensa com seus ‘amigos’ dirigentes, a realidade política e a incapacidade de Sarkozy de resolver os problemas dos franceses conduziram a situação a uma fase de tensão. Ela é, sem dúvida alguma, mais violenta do que foi com os antecessores, porque Sarkozy concentrou todos os poderes e se expôs demasiadamente à mídia. Mas a relação imprensa-presidente sempre foi tensa na França, uma vez superado o curto período de ‘estado de graça’ pós-eleição. Os franceses esperam muito de seu ‘monarca’ republicano, que acreditam poder satisfazê-los. Na verdade, não pode. A imprensa faz eco às decepções com o presidente e, assim, este culpa a imprensa por sua imagem ruim na opinião pública… Quando não se gosta da mensagem, acusa-se o mensageiro.


É o caso mais grave da história da imprensa francesa?


É, sim, um caso grave, mas já houve outros: o poder procura sempre controlar a imprensa e os informadores da mídia. Em 1973, o ministro do Interior fez escutas ao ‘Canard Enchaîné’ [jornal semanal]. Em 1985-86, a célula antiterrorista da polícia pôs escutas telefônicas contra Edwy Plenel [na época, no ‘Monde’]. Nestes casos, eles agiram sobretudo para intimidar as fontes potenciais [dos jornalistas].


 


 


Reportagens apontaram doação ilegal


A disputa com o ‘Le Monde’ é causada por reportagens acusando Sarkozy de ter se beneficiado de doações irregulares da empresa de cosméticos L’Oreal. Segundo o ‘Monde’, o assessor do governo David Sénat, sua fonte, teve o sigilo telefônico quebrado e foi punido pelo governo.


 


 


TODA MÍDIA


Nelson de Sá


Mercado arisco


No topo das buscas no Google News no fim do dia, primeiro com ‘Wall Street Journal’, ‘Real fecha mais fraco conforme mercados reagem ao segundo turno’. E depois com o site MarketWatch, ‘Real escorrega conforme resultados eleitorais são ponderados’. Mas as duas reportagens ouviam de ‘atores do mercado’, executivos de fundos, que na verdade ‘os mercados estão tranquilos’, até ‘inabalados’.


Mais uma hora e veio a explicação nas manchetes de G1, Valor Online, Reuters Brasil, ‘Governo eleva Imposto sobre Operações Financeiras de aplicação de estrangeiro em renda fixa’. Os mercados teriam se adiantado e deixado o real.


De todo modo, o ‘Financial Times’, em reportagem à noite sobre ‘os limites do carisma’ de Lula, ouviu ‘analistas’, executivos de fundos, que ‘alertam que a corrida política pode causar volatilidade’.


NAS CAPAS


No ‘WSJ’ de papel, ontem, com foto de Dilma Rousseff e longa reportagem, ‘Faltou um degrau para liderar o gigante em ascensão da América Latina’. No ‘FT’, ‘Golpe eleitoral: Rousseff não consegue dianteira forte no Brasil’. E no ‘Le Monde’, ‘Brasil: Dilma Rousseff em posição de força para segundo turno’. No título interno, ‘Os brasileiros se negam a dar um cheque em branco a Dilma Rousseff’


CHAVE PARA O FUTURO


Em título do argentino ‘Clarín’, sobre Marina Silva, ‘A Obama do Brasil’. O britânico ‘Guardian’ celebrou o ‘Avanço para a agenda ambiental’.


No espanhol ‘El País’, ‘Marina Silva, chave para o futuro do Brasil’, sobre seu peso no segundo turno. No ‘FT’, ‘Candidata verde pode ter papel de fiel da balança [kingmaker] no Brasil’. No canal de notícias France 24 , com vídeo, ‘Ecologista se apresenta como árbitra do segundo turno’.


No ‘Le Monde’, ‘Marina Silva detém as chaves da eleição no Brasil’. O jornal deu ainda o perfil ‘Marina Silva, a antiga discípula’, cuja ‘história lembra aquela de Lula’. Descreve uma ‘personalidade complexa, politicamente progressista e socialmente conservadora’, que tornou meio ambiente ‘um dos grandes temas da campanha’.


ASSÉDIO


Na escalada do ‘Jornal Nacional’, ‘A importância estratégica do apoio de Marina Silva e do PV’. Na manchete do UOL ao longo da tarde, ‘Serra elogia Marina e fala em afinidade com o PV’. E à noite, ‘Dilma elogia Marina e diz respeitar a sua decisão’. Na manchete da Folha.com, em suma, ‘Serra e Dilma tentam se aproximar de Marina’.


No blog de Guilherme Barros no iG, ‘em relatório preparado para clientes, o banco espanhol Santander avalia que uma das principais expectativas é com relação ao apoio da candidata Marina Silva’. Até o primeiro turno, descreve o relatório, ‘a perspectiva era de uma posição neutra, porém devemos esperar uma comunicação oficial’.


ASSÉDIO 2


No G1, ‘Aécio é pessoa-chave no segundo turno, diz Serra’. E até na escalada do SBT, ‘Serra se aproxima de Aécio por mais votos em Minas’. No velório de seu pai, Aécio se pôs ‘à disposição’


Mulheres Manchete na BBC Brasil, com foto de Marina e Dilma, ‘Maioria vota em presidente mulher, mas bancada na Câmara cai’. Só foram eleitas 44 deputadas, contra 50 em 2006.


Debates sem fim Segundo o blog Radar, no próximo domingo já tem Dilma e Serra na Band. E nos dias 25 e 28 a Record e a Globo fazem os seus. E a Rede TV! negocia mais um, no dia 17


 


 


TECNOLOGIA


Twitter e Skype fazem troca na presidência


O presidente-executivo e fundador do Twitter, Evan Wil- liams, anunciou que deixará o cargo para cuidar da estratégia do produto. Ele será substituído pelo chefe de operações da empresa, Dick Costolo. Também houve troca no comando do Skype, com Tony Bates, ex-Cisco, substituindo Josh Silverman como presidente-executivo da empresa.


 


 


Google faz parcerias para sistema de TV


Dentre os parceiros, estão a rede varejista da internet Amazon e o canal de televisão NBC. O Google TV foi anunciado em maio, mas ainda não está disponível. O serviço vai permitir que pessoas acessem a web e usem-na em suas telas de TV.


 


 


TELEVISÃO


Laura Mattos


Eleição aumenta a força do projeto de cotas na TV paga


As mudanças no Congresso, decididas no domingo pelos eleitores, deverão aumentar a força do projeto de lei que cria cotas de programação brasileira na TV paga.


Chamado de PLC 116/10, já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e atualmente tramita no Senado. O único senador que havia se declarado contrário a ele, Antônio Carlos Jr. (DEM-BA), que assumiu a vaga do pai, ACM, termina agora seu mandato e deixa o Congresso.


Além disso, o deputado Walter Pinheiro (PT-BA), um dos principais defensores do projeto, foi eleito senador.


Foi reeleito o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), atual presidente da comissão onde o PLC 116 tramita (Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Inovação). A eleição também definiu que seguirá no Senado o atual relator do projeto, Demóstenes Torres (DEM-GO). Ambos defendem o projeto da TV paga.


Outra mudança deverá movimentar a política das TVs. Jandira Feghali (PC do B-RJ), que foi autora do projeto que obriga as TVs a exibir programação regional e estava fora da Câmara, foi eleita.


AMÉM


Lauro César Muniz, autor da Record, questiona hoje, no ‘Provocações’ (Cultura), de Abujamra (de costas), o fato de a TV Globo investir em novelas e séries espíritas


BBB no Congresso Eleito deputado federal pelo Rio, Jean Wyllys (PSOL), vencedor do ‘BBB 5’, conta à Folha que continuará com um projeto para a televisão. É um programa que envolve uma parceria entre a ESPM-RJ, onde é professor de teoria da comunicação, e o Canal Brasil. O piloto (teste) foi gravado no primeiro semestre deste ano e se chama ‘Memória Curta’.


Lado BBB O caído ‘Busão do Brasil’ não conseguiu para sua final, no dia 19, show com Claudia Leitte, garota-propaganda do Guaraná Antarctica, patrocinador do reality. A cantora respondeu para a Band que não tinha vaga na agenda.


À francesa O jornalista Marcos Uchôa será correspondente da Globo em Paris.


Oscar da TV Fernando Meirelles comemora o fato de ‘Som & Fúria’, dirigido por ele para a Globo, ter sido indicado na categoria de melhor série internacional para o Emmy. ‘Nada mal. É o prêmio mais importante do Emmy’, comentou à Folha. Os indicados foram anunciados no domingo. Lilia Cabral está na lista por ‘Viver a Vida’.


Ratinho Apesar do constrangedor resultado de DNA de Christian Pior, o ‘Pânico’ teve 11 de média anteontem (dados preliminares do Ibope da Grande SP; cada ponto equivale a 60 mil domicílios).


Perna de pau Um e-mail oferece, por adesão de R$ 39,90 e sem assinatura, acesso a 10 mil canais, de vários países. E aceita cartão de crédito.


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 5 de outubro de 2010


 


TELEVISÃO


Keila Jimenez


Cinco debates disputam agenda do mês


Band, SBT, Record e Globo já anunciam datas acertadas para promover, cada uma, o seu próprio debate entre os dois finalistas à Presidência da República. A RedeTV!, que ainda não tem reserva confirmada na agenda de Dilma e Serra, garante confiança na negociação de uma vaga para o dia 17. O primeiro encontro será neste domingo, pela Band. O SBT assegura seu cardápio para o dia 22, uma sexta-feira. A cena mal terá esfriado quando, dali a três dias, na segunda-feira, 25, os dois candidatos voltam a apertar mãos, então já nos estúdios da Record. O debate na Globo, como reza a tradição, será o derradeiro: está marcado para sexta-feira que antecede o pleito, 29 de outubro.


26 pontos foi a média do Fantástico, recheado de cobertura eleitoral, anteontem, na Grande São Paulo. Na Band, o tema rendeu 5 pontos entre 17 h e 22h45


‘A Marina foi um produto orgânico, vamos dizer’: do jornalista Alexandre Garcia, no Jornal Hoje, ontem, defendendo que a candidata do PV não é um produto de marketing


O diretor Daniel Filho fará homenagens cheias de simbolismo no seriado As Cariocas, que estreia na Globo no dia 19. Uma delas é a participação da atriz Miriam Pérsia no elenco do episódio A Vingativa do Meier.


Miriam foi uma d’As Certinhas do Lalau, as moças que estampavam a coluna de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, autor do livro que inspira a série.


Mesmo eleito deputado estadual no Rio, com mais de meio milhão de votos, Wagner Montes marcou sua volta ao comando da edição carioca do sangrento Balanço Geral, da Record, para a próxima segunda-feira.


Chaysued, finalista do Ídolos, mais Sophia Abrãao, Lua Blanco e Micael Borges obedecem a instruções de Roberto Bomtempo em aulas de expressão corporal. O time encarna a versão nacional da banda Rebelde, com novela homônima da Televisa, coproduzida pela Record.


A direção da Globo se recusou a bancar uma 2.ª temporada de Som & Fúria, coprodução com a O2 Filmes, de Fernando Meirelles, mas festejou a indicação da série ao posto de finalista ao Emmy Internacional. A lista foi anunciada ontem.


O enredo de L Word, série vista em mais de 40 países – cuja versão em reality estreia no GNT nesta quinta, às 23h30 -, rendeu livro-divã por aqui: a jornalista Adriana Agostini lançou pela Editora Malagueta Lésbicas na TV: The L Word.


Com 11 pontos de média no Ibope da Grande São Paulo, o Legendários de Marcos Mion bateu no sábado seu recorde na Record.


R$ 42,4 milhões foi o que Olympikus pagou para brilhar no Top de 5 segundos do futebol da Globo em 2011. O pacote garante presença no Jornal Nacional, Jornal da Globo, Tela Quente, Supercine, A Grande Família e nas novelas das 6 e das 9.


 


 


MERCADO EDITORIAL


Ubiratan Brasil


Frankfurt: a feira é da argentina


Com a presença de Cristina Kirchner, presidente da Argentina, será oficialmente aberta hoje a 62.ª edição da Feira de Livros de Frankfurt, o maior evento do mercado literário do mundo. E a presença não é simbólica: a Argentina é o país convidado deste ano, o que significa ter o privilégio de ocupar um pavilhão nobre, montado à semelhança de um labirinto em homenagem a um de seus maiores nomes, Jorge Luis Borges.


Até domingo, 6.930 exibidores de todo o mundo estarão fazendo negócios, atividade principal da feira. O número, porém, é 5% inferior ao do ano passado – segundo o diretor-geral Juergen Boos, o motivo é que a Argentina trouxe uma delegação menor que a China, nação homenageada em 2009. O Brasil vai ocupar o pavilhão em 2013, com a obrigação de não repetir o constrangimento de 1995, quando o estande nacional foi ocupado por um show de mulatas.


‘Embora o próximo ano seja decisivo para montar nossa estratégia, nessa edição já vou oferecer mais títulos nacionais, aproveitando o interesse pela literatura latina’, comenta Cassiano Elek Machado, editor da Cosac Naify. Segundo ele, a feira de Frankfurt 2010 será mais importante que o habitual para fechamento de negócios, uma vez que o vulcão islandês Eyjafjallajokull atrapalhou sensivelmente a Feira de Londres, no primeiro semestre. ‘O resultado é que muitos acordos serão fechados agora.’


De fato, como de hábito, o evento alemão é um enorme balcão de negócios. Embora a crise econômica ainda deixe vestígios (editores do leste europeu resolveram não arriscar e deixaram de ir), agências de escritores como a famosa Wylie oferecem um cardápio interessantíssimo, como os novos livros de Martin Amis, Orhan Pamuk e Kiran Desai, além de uma obra de David Bowie, a primeira de uma série criada para explorar seu processo criativo.


Como mineradores, os editores buscam a pepita de ouro, aquele título que poderá estourar mundialmente. E, neste ano, a agência Conville & Walsh promete oferecer um dos grandes hits da temporada: um livro escrito por ex-alunos de Anne Frank. Intitulado The Classmates of Anne Frank (Os Colegas de Anne Frank), o livro traz sete depoimentos, capitaneados pelo organizador, Theo Coster, que também filmou um documentário.


Conteúdo. Já a revolução digital, que dominou a feira do ano passado, continua em pauta, mas, segundo Juergen Boos, o foco estará mais no conteúdo. ‘Estamos mais interessados em apresentar autores e editores que a tecnologia.’


É o que realmente interessa. ‘A experiência mais avançada que vi de um livro de arte no formato digital lembrava o antigo CD ROM’, conta Machado, da Cosac Naify. ‘O livro em papel, especialmente nesta área, ainda domina e até apresenta inovações.’


Ele tem cerca de 60 reuniões agendadas, rotina que marca todos os editores brasileiros presentes à feira. ‘A diferença é que, neste ano, os encontros com alguns agentes literários serão cruciais no que diz respeito à contratação de direitos digitais para determinados títulos importantes publicados anteriormente’, comenta Roberto Feith, da Objetiva/Alfaguara. ‘Virtualmente, todos os contratos para novos títulos já incluem os direitos digitais, mas alguns antigos, não.’


Segundo ele, em muitos casos, os direitos digitais têm sido contratados sem maiores problemas, mas, em outros, os agentes têm se mostrado hesitantes, inseguros ou com exigências descabidas. ‘Os encontros olho no olho vão ser importantes para esclarecer pontos de vista, negociar e desobstruir esses entendimentos.’


 


 


‘Não somos apenas filhos de Borges e Cortázar’


Uma visibilidade mais cristalina e realista – eis a expectativa do escritor Alan Pauls em relação à consequência que pode provocar a presença da Argentina na Feira de Frankfurt. Sobre isso, ele respondeu, por e-mail, as seguintes questões.


Qual o impacto da presença argentina na Feira de Frankfurt?


Algo de visibilidade, acredito. Seria interessante que, a partir dessa feira em Frankfurt, deixasse de se acreditar que todos os escritores argentinos são filhos de Borges e Cortázar. Já sobre os efeitos reais sobre a circulação da literatura, sou mais cético. Com esse formato de ‘feira’, acredito que a de Frankfurt funciona como uma sorte de paroxismo publicitário: durante cinco dias se concentra todo o interesse, atenção e curiosidade que se esperava distribuído ao longo do ano, com mais sutileza, rigor e paciência. A feira é uma overdose de antibiótico. A circulação da literatura estrangeira opera com uma lógica bem mais homeopática, acho.


As tentativas do governo Kirchner de tentar controlar a mídia são preocupantes?


É preocupante qualquer política oficial que concentre seu imaginário de conflito em apenas um adversário, um único rival, e reduza a complexidade do conflito político à lógica especulativa de guerra. Dito isso, o conflito entre governo e certos grupos midiáticos tem servido, entre outras coisas, para incentivar um debate vital, há muito esperado na Argentina e que não acontecia ou por pressão dos meios ou por aliança entre os meios e o poder vigente: o papel da indústria midiática na produção de verossimilhanças políticas. É incrível que um país como a Argentina, onde absolutamente todas as instituições estiveram ou estão sob suspeita, os meios despontem como sentinelas da verdade e garantidores da decência. Como se eles mesmos não fossem parte decisiva dos processos de corrupção, de clientelismo, de aliança mafiosa, de lobby etc., sobre as quais supõem-se que eles informam.


A literatura argentina foi provavelmente a mais vigorosa da América Latina do século 20?


Não gosto de rankings. Sei que é uma literatura vital, plural, dinâmica, que se renova com fluidez, que tem a vantagem de ter ficado mais ou menos imune ao boom do realismo mágico dos anos 1960 e 70 (fenômeno que colocou certa literatura latino-americana no mercado internacional mas que também a sufocou, disciplinou e a formatou de maneira brutal) e que se mantém fiel a uma tradição crítica.


A atual geração de escritores revela-se forte para não ficar à sombra de figuras como Borges?


Ele foi mesmo um peso para os autores nascidos até os anos 1940, sobretudo por razões políticas. Era difícil relacionar-se com um escritor que havia pensado absolutamente toda a literatura e cuja vida pública era marcada pelo conservadorismo político mais recalcitrante. Nesse contexto, o parricídio parecia uma solução. Os escritores da minha geração – e os que nos seguem – não temos esse problema. Logo nos demos conta de que escrever como Borges era impossível. Mas podíamos ler como ele. Borges nos ensinou a ler, a repaginar a literatura com liberdade, humor, impertinência.


Você teme o futuro digital?


A ‘morte do livro’ não é um horizonte, nem uma ameaça, ou uma fatalidade: é um gênero como qualquer outro. Ou melhor, um subgênero do Apocalipse Cultural, que deveria ocupar uma coluna fixa em todos os grandes jornais do mundo. Há livros sobre a morte do livro como houve filmes sobre a morte do cinema e quadros fantásticos sobre a morte da pintura. Minha opinião é que os mesmos jornalistas que hoje enchem páginas de cultura sobre a morte do livro deveriam ganhar tempo e preparar, eles mesmos, os suplementos que exaltam seu renascimento. O livro não morre: é a forma zumbi por excelência.


 


 


Ariel Palacios


Livreiros portenhos comemoram as vendas


No ano que vem os argentinos recordarão com um frio na espinha os dez anos da maior crise econômica, social e política de sua História, o ‘colapso’ de 2001. Na época, milhões de argentinos de classe média despencaram para a classe baixa, tornando-se 60% dos pobres. Desesperados por sobreviver, deixaram de lado qualquer gasto que não fosse essencial. Os livros novos passaram a ser um elemento de luxo.


Milhares de pessoas tiveram de vender suas bibliotecas, acumuladas ao longo dos anos. Simultaneamente, as livrarias estavam às moscas, enquanto as casas editoriais tentavam vislumbrar a luz no fim do túnel. A saída para isso foi exportar para os países hispano-falantes da região, que não haviam sido afetados pela crise.


No entanto, o país recuperou-se da crise e exibiu um crescimento persistente não visto desde o início do século 20. Os livreiros portenhos costumam afirmar: ‘A indústria do livro é a primeira que cai durante uma crise… e é a primeira que se recupera quando a situação se reverte.’


Em 2009, os últimos dados do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Econômico Metropolitano (Cedem) registraram 22.600 títulos de livros na Argentina com uma tiragem de 88 milhões de exemplares. O número de títulos foi levemente inferior a marca de 2008, de 97 milhões de unidades, que havia sido o melhor ano desde a crise de 2001. Mas, apesar disso, 2009 mostrou que o crescimento continua, já que foi um ano de melhor desempenho do que 2007, quando a produção foi de 82 milhões de livros.


Gripe. Os especialistas do setor afirmam que a queda em 2009 pode ser atribuída à crise internacional e seus efeitos na Argentina, além da gripe suína, que reduziu a ida das pessoas às livrarias. Para 2010, a expectativa é de maior crescimento.


Em 2009, a tiragem em média por cada edição foi de 3.900 unidades, o equivalente a 8% a menos do que em 2008. Do total publicado, 84% corresponderam a novidades editoriais.


Nos últimos anos consolidou-se a tendência do predomínio da impressão de livros dentro do país. Em 2009, 93% dos exemplares foram impressos na Argentina, volume maior do que na década de 90, quando a proporção de livros que saíam das gráficas argentinas era de 80%.


No entanto, apesar do crescimento, o setor está de olho na pirataria de livros. Segundo a Câmara Argentina de Publicações (CAP) ao redor de 20% dos best-sellers foram pirateados em 2009. A CAP alerta para a ‘consolidação desse fenômeno que ameaça a estabilidade da indústria editorial’.


Honra. A Argentina – país que celebra neste ano os 200 anos do início do processo da independência – é a convidada de honra da feira do livro de Frankfurt. O país enviou a este evento internacional um total de 48 editoras e 55 escritores argentinos, entre os quais Guillermo Martínez, Juan Gelman, Martín Kohan, Alan Pauls, Pablo de Santis e Ana María Shua.


O pavilhão argentino, de 2.500 metros quadrados, tem o formato de um labirinto dos contos do escritor Jorge Luis Borges (1899-1986). O escritor também será homenageado com o lançamento de um selo comemorativo na Argentina e na Alemanha.


A presidente Cristina Kirchner participará da inauguração da feira. Além disso, o argentino-israelense Daniel Barenboim embalará o dia da abertura da feira com um concerto de piano.


A Argentina conta com 548 editoras que empregam 7.800 pessoas. Em toda a Argentina existem 2.411 livrarias, o equivalente a uma a cada 15 mil habitantes. O número de sebos (incluindo feiras ambulantes de livros) é um mistério, mas calcula-se que seja superior a 10 mil em todo o território argentino.


 


 


 


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