Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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CADERNO DA CIDADANIA >

Blogs e reportagens em processo

Por Cremilda Medina e Marcia Blasques em 10/06/2009 na edição 541

A polêmica sobre o blog da Petrobras e a divulgação da coleta de informação junto às fontes da empresa por parte da imprensa brasileira, acrescidas das respostas oficiais, gera uma pertinente reflexão: o processo de produção da reportagem pode ser difundido na internet e exposto ao mercado e à sociedade? Uma questão oportuna para recorrer a dois flancos – autoria no jornalismo e interatividade contemporânea nas mídias digitais.


Na história do jornalismo houve um esforço das sociedades urbanas e industriais, do século 19 para o século 20, no sentido de formar profissionais com competência técnica, compromisso ético e inovação estética para narrar os acontecimentos de relevância social. Nesse percurso, as tecnologias disponíveis tiveram um papel muito importante, pois proporcionaram um alcance cada vez mais amplo para distribuir a informação de atualidade. No entanto, não se podem omitir dois outros fatores: por um lado, a consciência de que era emergente a implantação de escolas superiores de jornalismo; por outro lado, a mobilização democrática de grupos organizados para debater a responsabilidade social do jornalista.


Esta difícil trajetória legou à contemporaneidade uma produção jornalística que reflete a pluralidade das narrativas. As mais tradicionais, que remontam aos pais fundadores, se expressam no jornalismo informativo ou noticioso e na opinião dos comentaristas, críticos e editorialistas. Mas séculos de maturidade profissional atestam um aprofundamento da notícia, que veio a constituir a reportagem. Já se atribuíram várias qualidades, estudadas nas escolas de jornalismo dos anos 1960 em diante, traduzidas em adjetivos como reportagem interpretativa, investigativa, literária.


De uma perspectiva abrangente, não importa o adjetivo e, sim, o substantivo jornalismo, na sua plenitude possível como narrativa densa, tensa e humanizada do que se passa no mundo. A pauta pode estar radicada na investigação dos poderes constituídos, nas histórias de vida dos protagonistas sociais, no embate da vida cotidiana, no front das guerras, das lutas fratricidas ou no imaginário da esperança por melhores dias. Esse reportar a vida dando-lhe sentidos constitui a matéria simbólica da mediação autoral do jornalista.


Essência do ofício


Estaria essa autoria ameaçada pelas atuais condições tecnológicas? A indagação está presente nos centros de pesquisa da comunicação social. O caso da Petrobras vem muito a propósito. A edição de sábado (6/6) da Folha de S.Paulo cobriu o fato de a empresa ter lançado o blog Fatos e Dados, com a finalidade de se contrapor à CPI (hoje em fase de instalação) e às matérias que repercutem as possíveis denúncias que constarão da pauta da comissão de inquérito. O que provocou a oposição das empresas jornalísticas é o fato de o blog pôr no ar as reportagens em processo.


O Estado de S. Paulo de terça-feira (9/6) dá destaque, na primeira página, ao repúdio já formalizado pela Associação Nacional dos Jornais diante da divulgação de matérias em andamento. A ANJ considera ‘canhestra’ a tentativa de intimar jornalistas, mas a Petrobras persistirá na ação da mídia digital, sem atentar para ‘a atitude que quebra o caráter confidencial que deve ter a correspondência entre jornalistas e as fontes oficiais’. O petroblog se propõe, no entanto, criar um espaço de transparência.


A Ordem dos Advogados do Brasil veio a público, numa tentativa de arbitrar as duas posições: a Petrobras pode garantir a transparência e a publicação de suas matérias jornalísticas (produzidas por seus profissionais de comunicação), sem ferir o princípio de exclusividade que, segundo o presidente da OAB, Cezar Britto, faz parte da essência da atividade jornalística. Na blogosfera, as opiniões se dividem: Sérgio Leo argumenta contra a ação do blog da Petrobras, enquanto Luiz Carlos Azenha lista dez motivos que poderiam levar os jornalistas a não atacarem a ação da empresa.


Será essa a essência do fazer jornalístico, apenas uma questão de exclusividade no mercado da informação? Talvez o foco da polêmica possa ser deslocado para o processo da reportagem e o lugar da autoria nas mídias tradicionais e nas novas mídias. E aí estamos diante de saudáveis e democráticas interrogações.


Papel intransferível


Outras empresas e instituições já se apropriaram de ferramentas da chamada web 2.0 para divulgar informações e dados que julgavam de seu interesse. A celeuma em torno do caso foi criada pela ação inédita da Petrobras ao divulgar perguntas e respostas de entrevistas não ‘trabalhadas’ pelo crivo jornalístico. Uma matéria-prima bruta que, segundo as empresas jornalísticas e vários profissionais, não deveria ser lançada ao público antes da hora.


Mas a variedade de informações e dados disponíveis na web, para qualquer usuário com o mínimo de experiência de internet, já é há tempos uma variável com a qual os jornalistas precisam trabalhar. Não é a toa que blogs mantidos por jornalistas aumentam em número e em importância. O mesmo acontece com empresas e outras instituições, que encontram na rede de computadores uma maneira rápida, eficiente e relativamente barata para conseguir a divulgação de idéias e produtos.


O pulo do gato talvez esteja nessa palavra: divulgação. A publicação das entrevistas pelo petroblog antes da finalização da reportagem não diminui, dificulta ou altera o trabalho e a responsabilidade do jornalista. É só lembrar que a identidade do repórter – seja ele do meio impresso, eletrônico ou digital – vai muito além da mera divulgação dos fatos: o fazer jornalístico passa pela questão da autoria da reportagem, ou seja, pela capacidade de criar narrativas que articulam os significados da realidade vocalizados por fontes diversas.


O papel intransferível do jornalismo se consagra quando os profissionais são capazes de apurar informações, muitas vezes ocultadas, colher interpretações e só então compor a reportagem digna da autoria.

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Respectivamente, jornalista, pesquisadora e professora titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, autora de A arte de tecer o presente, narrativa e cotidiano (Summus Editorial, 2003) e outros doze livros, organizadora de 43 coletâneas; e jornalista, doutoranda da ECA-USP, onde pesquisa a questão da interatividade e da autoria na internet

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