Bolhas assassinas na Rua do Muro | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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CADERNO DA CIDADANIA > SETEMBRO NEGRO

Bolhas assassinas
na Rua do Muro

Por Alberto Dines em 30/09/2008 na edição 505

Madeira e terra bem socados, quatro metros de altura, no entanto apodreceu. A paliçada já não servia para defender o entreposto holandês dos ataques dos ingleses e índios.


O nome, Rua do Muro, permaneceu. Um século depois, final do 18, adornada com plátanos em cujas sombras reuniam-se os mercadores, ganhou outra função: centro de negócios.


Wall Street, símbolo da pujança americana, emblema do empreendedorismo sem limites, sofreu na segunda-feira, 29 de setembro, um dos seus mais sérios abalos. O tranco levará algum tempo para ser devidamente avaliado e quantificado, mais grave foi o estrago na infalibilidade do sistema. O motor do progresso mundial nos últimos 200 anos foi derrubado por uma das bolhas que passou a criar com incrível velocidade nas últimas décadas.


Frenagem à vista


Qualquer que seja o caminho a ser adotado depois da rejeição ao pacote de salvamento do mercado financeiro americano, uma coisa já é certa: a velocidade do processo econômico será drasticamente reduzida. As ‘ondas’ estão desacreditadas, a própria idolatria aos modismos ficou de repente démodé diante das dimensões das incógnitas. O culto às novas tendências e com ele a facilidade de fabricar um boom será obrigatoriamente revisto e refreado.


A chamada indústria da mídia foi duplamente derrotada: acreditou numa das suas falácias – a expansão incontrolável da indústria da construção civil nos EUA – e, arrastada por ela, será obrigada a abrir mão da sua fascinação com a ficção científica. O futurismo desbragado que domina os congressos de comunicólogos (inclusive aqui em Pindorama) deverá ser recolhido. Os consultores, seus mecenas, assim como o patronato novidadeiro, precisarão rever seus delírios. Ao menos moderá-los.


O jornalismo digital mostrou as suas limitações na própria cobertura da débâcle. Isso ficou ainda mais visível nos portais de notícias brasileiros na segunda (29/9).


Do meio da tarde (quando o pacote de salvamento foi rejeitado pela Câmara dos Representantes) ao início da noite (com o desabamento na Bolsa de Nova York), até a madrugada de terça (quando as bolsas orientais recomeçaram a funcionar), nossos ciberjornais ficaram patinando nos mesmos títulos e nas mesmas informações.


Pasmaceira digital


Mais de oito horas de pasmaceira numa mídia que os futurólogos e mercadólogos prometiam tornar eternamente renovável e excitante.


De nada adianta estimular a sede de informações se o veículo não tem condições de saciá-la. Sem jornalistas não se faz jornalismo. A mudança da periodicidade diária para a periodicidade contínua não poderá materializar-se sem um aumento substancioso no contingente de profissionais experientes e ágeis. A propalada hegemonia do jornalismo ‘além-papel’ será confirmada somente quando as redações forem abastecidas permanentemente, ao longo do dia, todos os dias da semana, com informações capazes de atender às exigências do público.


Ao planejar o ataque terrorista às torres do World Trade Center, Osama bin Laden pretendia liquidar o capitalismo. O que os seus aviões-bomba não conseguiram em 11/9 foi alcançado em com relativa facilidade em 29/9 por uma das bolhas assassinas produzidas nas vizinhanças da Rua do Muro.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/10/2008 Ivo A. Auerbach

    “A bancarrota de um sistema financeiro global que penaliza os países pobres”. Quem afirmou isso? Será que foi algum desses “iluminados” que têm explicação prá tudo? Ou será que foi algum comunista? Algum socialista, talvez. Não!! Quem fez essa afirmação foi o mega-especulador George Soros, que ficou conhecido como o investidor que quebrou o banco da Inglaterra, apostando contra a libra esterlina, em 1992, e ganhou 1 bilhão de dólares em um único dia! Ora, se um ícone do capitalismo, que conhece os meandros de um sistema viciado, afirma que esse sistema fracassou, quem sou eu para duvidar disso?

  2. Comentou em 01/10/2008 Julio Valerio Neto

    Sobre futurologia…
    Ha cerca de um ano, um comentarista economico da Rede Globo publicou no Estadao um artigo em q dizia q os pilares do capitalismo iriam garantir um futuro sem par para o mundo ocidental, que as ilusoes de outros sistemas economicos eram coisa do passado que o mercado vencera…
    Não havia uma linha sobre a crise financeira q ja começava a se delinear no horizonte…
    Creio q ele era um entusiasta do mercado de capitais.

  3. Comentou em 30/09/2008 dante caleffi

    Muro por muro, o das Lamentações,tem se mostrado mais útil.

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