Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Bolhas assassinas
na Rua do Muro

Por Alberto Dines em 30/09/2008 na edição 505

Madeira e terra bem socados, quatro metros de altura, no entanto apodreceu. A paliçada já não servia para defender o entreposto holandês dos ataques dos ingleses e índios.


O nome, Rua do Muro, permaneceu. Um século depois, final do 18, adornada com plátanos em cujas sombras reuniam-se os mercadores, ganhou outra função: centro de negócios.


Wall Street, símbolo da pujança americana, emblema do empreendedorismo sem limites, sofreu na segunda-feira, 29 de setembro, um dos seus mais sérios abalos. O tranco levará algum tempo para ser devidamente avaliado e quantificado, mais grave foi o estrago na infalibilidade do sistema. O motor do progresso mundial nos últimos 200 anos foi derrubado por uma das bolhas que passou a criar com incrível velocidade nas últimas décadas.


Frenagem à vista


Qualquer que seja o caminho a ser adotado depois da rejeição ao pacote de salvamento do mercado financeiro americano, uma coisa já é certa: a velocidade do processo econômico será drasticamente reduzida. As ‘ondas’ estão desacreditadas, a própria idolatria aos modismos ficou de repente démodé diante das dimensões das incógnitas. O culto às novas tendências e com ele a facilidade de fabricar um boom será obrigatoriamente revisto e refreado.


A chamada indústria da mídia foi duplamente derrotada: acreditou numa das suas falácias – a expansão incontrolável da indústria da construção civil nos EUA – e, arrastada por ela, será obrigada a abrir mão da sua fascinação com a ficção científica. O futurismo desbragado que domina os congressos de comunicólogos (inclusive aqui em Pindorama) deverá ser recolhido. Os consultores, seus mecenas, assim como o patronato novidadeiro, precisarão rever seus delírios. Ao menos moderá-los.


O jornalismo digital mostrou as suas limitações na própria cobertura da débâcle. Isso ficou ainda mais visível nos portais de notícias brasileiros na segunda (29/9).


Do meio da tarde (quando o pacote de salvamento foi rejeitado pela Câmara dos Representantes) ao início da noite (com o desabamento na Bolsa de Nova York), até a madrugada de terça (quando as bolsas orientais recomeçaram a funcionar), nossos ciberjornais ficaram patinando nos mesmos títulos e nas mesmas informações.


Pasmaceira digital


Mais de oito horas de pasmaceira numa mídia que os futurólogos e mercadólogos prometiam tornar eternamente renovável e excitante.


De nada adianta estimular a sede de informações se o veículo não tem condições de saciá-la. Sem jornalistas não se faz jornalismo. A mudança da periodicidade diária para a periodicidade contínua não poderá materializar-se sem um aumento substancioso no contingente de profissionais experientes e ágeis. A propalada hegemonia do jornalismo ‘além-papel’ será confirmada somente quando as redações forem abastecidas permanentemente, ao longo do dia, todos os dias da semana, com informações capazes de atender às exigências do público.


Ao planejar o ataque terrorista às torres do World Trade Center, Osama bin Laden pretendia liquidar o capitalismo. O que os seus aviões-bomba não conseguiram em 11/9 foi alcançado em com relativa facilidade em 29/9 por uma das bolhas assassinas produzidas nas vizinhanças da Rua do Muro.

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