Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

Bom exemplo de jornalismo para mulheres

Por Ligia Martins de Almeida em 09/12/2008 na edição 515

Saber tirar o máximo de uma informação oficial, transformando números em matérias consistentes, deveria ser a rotina das revistas. E é bom quando encontramos boas pautas, bem realizadas. É o caso, por exemplo, da matéria ‘A mulher negra continua em último lugar no Brasil’, da revista Claudia, que pode ser lida no site da revista. O resumo da situação da mulher negra está no primeiro parágrafo da matéria:

‘O `Retrato das desigualdades de gênero e raça´, divulgado em setembro pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que, se a cor se soma ao gênero feminino, o quadro se agrava: negras têm menos escolaridade que brancas, vivem situações de trabalho mais precárias e ganham, em média, 383,40 Reais – 32% do que recebem os homens – enquanto o salário das brancas (em média, 742,1 reais) vale 63% dos holerites masculinos. Na casa das negras falta muita coisa: 17% não têm geladeira, 77% ainda lavam a roupa à mão, 67% vivem sem telefone ou celular e 89% jamais tiveram um freezer. O perfil de ocupação desse grupo é um tantinho só diferente da atividade que exercia no tempo da casa-grande e senzala. As negras estão em massa na maior categoria profissional brasileira: são 80% das mulheres dentre os 6,8 milhões de empregados domésticos. Nessa relação pautada pela informalidade, apenas 27% das domésticas exibem registro em carteira com direito a férias e aposentadoria mínima do INSS.’

‘A pretinha pode te dar voz de prisão’

Resumo, aliás, que foi publicado por quase todos os jornais na época da divulgação do estudo. O grande mérito da revista foi ir além, procurando mulheres negras que conseguiram ‘virar o jogo’ e hoje são profissionais bem-sucedidas. Em entrevistas bem conduzidas, essas mulheres falaram – de forma mais franca do que é habitual em matérias sobre discriminação (sexual ou racial) – dos problemas que enfrentaram:

** ‘Quanto maior a evolução social e profissional, mais preconceito a negra sofrerá. A condição a tira do grupo dos iguais e a coloca num grupo de maioria branca. As pessoas associam negras a faxineiras, quituteiras, não a médicas, advogadas e escritoras’, afirma Neuza Maria, para quem o Brasil de hoje é um prolongamento da realidade vivida no período pré-abolição. O censo de 1872 mostra que as mulheres representavam 47% dos escravos. Agora são 50,1% da população negra e têm um pouco mais de escolaridade do que os homens negros. Mas, para Neuza, elas continuam ‘em último lugar na escala social e são as que mais carregam as desvantagens do sistema injusto do país’ (Neuza Maria Alves da Silva, 57 anos, primeira desembargadora negra do Brasil).

** Sueli Miranda mora num condomínio de classe alta em Brasília: ‘Somos os únicos negros do local. O preconceito ali é velado, mas existe, conta.’ Um dia, Sueli parou o carro próximo ao de uma mulher que, irritada, gritou: ‘Não sabe dirigir, não, pretinha?’ A policial devolveu: ‘Cuidado com o que fala, a pretinha aqui pode te dar voz de prisão’ (Sueli Miranda, 42 anos, policial federal).

Matéria confirma pesquisa

** ‘Ser negra é complicado. Entro numa loja e os vendedores não me atendem. Como acham que a negra não tem nada, me tratam com desprezo.’ Sem contar que os alunos de Lourdes deixam a aula assim que notam a cor da professora. ‘Ainda mentem que estão saindo porque já sabem cozinhar’ (Lourdes Matos, culinarista, 63 anos).

** ‘Não se encontra uma única negra com cabelo afro em cargo de chefia. No Brasil, o negro de sucesso acaba embranquecendo para ser aceito’ (Sonia Nascimento, advogada do Geledés – Instituto da Mulher Negra).

** ‘Durante vários anos, não havia negros na empresa, além de mim e do porteiro. Hoje, sou a única negra e a única mulher no cargo de executiva do grupo, que tem dez mil funcionários’ (Regina Zacarias, 54 anos, diretora de Recursos Humanos do Grupo Sílvio Santos).

Sem ser panfletária, a revista conseguiu, com esta matéria, mostrar que, apesar das juras de que o Brasil é um país que não tem preconceitos, a realidade diz o contrário. Pegar um monte de dados e transformar numa matéria com gente que confirma uma pesquisa é sempre uma bela maneira de fazer jornalismo e, neste caso, de prestar serviço às leitoras. Um exemplo que poderia ser seguido por outras revistas e jornais que gastam tanto espaço falando, por exemplo, de ‘celebridades’ que pouco têm a ver com o mundo real.

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