Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
Menu

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & POLÍTICA

Brioches ao povo

Por Luiz Paulo Costa em 04/03/2008 na edição 475

Dois fatos permeiam o noticiário e os comentários jornalísticos nos últimos dias: a renúncia de Fidel Castro e a aprovação de Lula. Sobre o primeiro fato, esperado, apressado pela doença, a ilha pode vir a acelerar a transição econômica já em curso e desembocar na conseqüente abertura política. Estive em Cuba nos idos de 1995 e já se iniciava a abertura econômica provocada pela perda de 70% do comércio exterior com a extinção da URSS.

O esforço era para não perder os índices sociais de primeiro mundo conquistados através de um regime político que se tornou cada vez mais anacrônico com a universalização da democracia. Vi, no entanto, o carinho do povo cubano para com Fidel. Mais que socialismo, ali existe fidelismo. E ele pode ser ainda importante neste período em que deve se intensificar a transição econômica e acelerar a transição democrática.

Sob certo aspecto, a aprovação de Lula pode ser comparada ao apoio popular a Fidel. E o que existe em comum entre os dois é o perfil autoritário. O de Fidel, forjado na resistência às ações dos Estados Unidos. A coesão social interna a qualquer custo era fundamental para manter o projeto político. Lula governa o Brasil como se fosse o dono do país sem ameaça alguma. Mas a todo instante evidencia este perfil. Agora mesmo alardeia que não tem tempo para CPI.

Lula nunca teve tempo para o exercício da democracia representativa. É lerdo para as tarefas de governo. Sempre quer ir para a galera. E como a oposição está aprendendo a ser oposição dentro de um regime democrático, a política na acepção da palavra e da prática acaba sendo a grande ausente e as decisões acabam sempre beneficiando pequenos grupos de interesses econômicos e políticos.

Personalidades ditatoriais

Quando Lula se compara a Getúlio Vargas é a voz de seu subconsciente. E aí não dá para falsear a verdade. É fato. São personalidades comparáveis. Lula é hoje o Getúlio do período do Estado Novo, ou seja, da velha ditadura, mas sem todo o instrumental ditatorial e sem a vontade política de Getúlio. Vargas também pensava que era o dono do país. Tanto que, eleito para ser o presidente da República, não conseguiu conviver com a estridente ‘banda de música’ da UDN e se suicidou.

É bem verdade que em 1954 tentava-se o golpe que o suicídio conseguiu adiar por dez anos. Hoje não existe mais ambiente para golpistas. E o PPS, DEM, PSDB, mesmo em momentos de lucidez oposicionista, estão longe de serem uma ‘banda de música’, tão desafinada anda a oposição na democracia à brasileira.

Com um governo eleito para mudanças, que manteve e até aprofundou a mesma política econômica que encontrou e a rede de proteção social que também encontrou diversificada em vários programas, unificando-os amplificados no ‘Bolsa Família’, a aprovação não decorre, pelo menos em grande parte, da sensatez governamental.

A aprovação de Lula é mais resultado das semelhanças com as popularidades de personalidades ditatoriais, como as de Fidel e de Getúlio, do que com o desempenho de um governo exercido por subalternos (que a maioria entende com o conhecimento e consentimento do presidente), cujas mazelas provocam a indignação da maioria absoluta da população brasileira. Enquanto isto, Lula e dona Marisa distribuem brioches ao povo.

******

Jornalista, São José dos Campos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/03/2008 Edmilson Fidelis

    Sr. Luis Paulo Costa, pode até ser que o Sr. consiga reconhecer personalidades autoritárias. Eu, infelizmente não tenho este dom. Tenho que me basear pelas atitudes que vejo e por um longo tempo. É falha minha? Talvez. Já cheguei a pensar que todos nós temos um ditador enrustido em nossa personalidade. Será?
    Mas pelo que vejo o Sr. não consegue distinguir outros distúrbios comportamentais. Talvez por já ter um preconceito contra determinadas pessoas. Enganou-se quando me taxou de raivoso, mal-humorado e petista da tropa de elite. Na realidade sou até bem-humorado e nem um pouco raivoso. Posso ser petista, mas não da tropa de elite. Sou mero simpatizante. Gosto de dar minhas opiniões. Gosto de avaliar bem as coisas. Admitir que não estamos no pior dos mundos não é igual a admitir que estamos no melhor. Consigo ver os erros tanto quanto os acertos. E não me envergonho de admitir ambos. Quanto a afirmação de Lula sobre a vontade de baixar a reforma tributária por decreto, desculpe-me, mas não posso deixar de apóia-lo. Desde que isto seja somente uma vontade que não se concretize. E duvido que não haja um presidente que não tenha vontade semelhante. Afinal posso afirmar que ouço falar de reforma tributária desde não sei quanto tempo atrás. Acontece que democraticamente todos admitem que ela é necessária, mas ninguém democraticamente a implementa. Coisas da democracia. Fazer o quê?

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem