Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

Café da manhã ou entrevista coletiva?

Por Alberto Dines em 23/12/2008 na edição 517

É a terceira vez que o presidente Lula reúne-se com os jornalistas credenciados no Palácio do Planalto para um brunch de fim de ano. A ‘tradição’ colou, compartilhada com igual disposição tanto por jornalistas como pela Presidência da República.


Café da manhã (simples ou americano) pressupõe uma conversa informal, sem declarações, tudo off. Isso em qualquer parte, menos no pedaço privilegiado do planeta chamado Planalto Central, onde o que é definido torna-se indefinido, o que é inequívoco fica equívoco e um café da manhã converte-se em autêntica entrevista coletiva com declarações, aspas, alguns acertos prévios e nenhum protocolo.


Prova disso foram as chamadas do dia seguinte (sábado, 20/12) com declarações contundentes atribuídas diretamente ao presidente da República e convertidas em manchete de primeira página.


A do Globo: ‘Lula: país não precisa de mais sete mil vereadores’. No Estadão o presidente também aparece claramente como fonte: ‘Lula diz que juros vão baixar no início do ano’.


A Folha de S.Paulo, ingênua, absteve-se de levar algum dos assuntos ventilados para a primeira página, destacou um deles na pág. A-4 e só mencionou que se tratava de um encontro de jornalistas com o presidente no quarto parágrafo. Errou duas vezes: primeiro porque aceitou um pacto com a fonte para não dizer tudo com todas as letras e, em segundo lugar, porque fiada nesse pacto não soube valorizar devidamente o teor das declarações como seria da sua obrigação.


À vontade


Se o café da manhã não era um café da manhã, por que razão jornais e jornalistas aceitaram disfarçar uma entrevista coletiva com outro nome? Não estariam traindo seus leitores fornecendo uma informação truncada?


Esse amor às ambigüidades que também pode ser visto como pavor de dar o nome aos bois é herança da velha cultura política latino-americana. Conveniente aos detentores do poder, mas rigorosamente inadequado para jornalistas em teoria comprometidos com a verdade.


Não é a primeira vez que a imprensa, sobretudo a grande imprensa, acerta-se com a Presidência da República para produzir um noticiário, digamos, atenuado ou simulado. A primeira vez foi na visita ao Vaticano, em 13 de novembro, quando os jornalões devidamente combinados mencionaram de forma oblíqua a assinatura de um acordo/concordata com a Santa Sé sem mencionar os seus termos, minimizando a sua importância e até escondendo eventuais óbices constitucionais [ver, neste OI, ‘Omissão da mídia sobre o acordo com o Vaticano‘].


Qual o inconveniente de assumir o verdadeiro nome e caráter da reunião? A imagem do presidente Lula como democrata não é favorecida quando melhora a estatística dos seus encontros formais com a mídia?


Sob o ponto de vista da civilidade e dos bons costumes é extremamente importante diminuir as áreas de atrito e tensão entre os poderes. É muito bom que o presidente sinta-se à vontade ao lado de jornalistas e que jornalistas sintam-se à vontade diante do primeiro mandatário. Mas sob o ponto de vista institucional, esse pool entre a fonte e os distribuidores da informação é descabido, nocivo e, no futuro, certamente indigesto.

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