Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

Cafeteira, um manual de instrução

Por Deonisio da Silva em 08/07/2008 na edição 493

‘Antes de utilizala (sic) pela primeira vez, lave-a somente com agua (sic).’


Estou lendo as instruções da nova cafeteira que comprei. O redator cometeu dois erros na frase inicial. Adiante escreve: ‘Aconselhamos lavar sua cafereira (sic) somente com água’. Agora acertou ‘água’ e errou ‘cafeteira’. Continua: ‘Na lavagem, não utilize bom-bril (sic)’. Errou até bombril.


Fico pensando: depois que inventaram os corretores eletrônicos, aumentaram os erros de português em todos os lugares. Na imprensa, na mídia, nos editais, nos avisos, na publicidade, nos e-mails, nas bulas de remédios e até nas instruções de como usar uma simples cafeteira.


O redator deve pensar que o usuário é ainda mais imbecil do que ele, pois adverte: ‘Nunca utilize a cafeteira sem água’. Fico pensando, pois é o que mais fazemos à medida em que envelhecemos: será que ocorreria a alguém encher a caldeirinha de pó de café e levá-la ao fogo?


‘Exija-o sempre’


A seguir, aparecem os seguintes erros: ‘abrila’, em vez de ‘abri-la’; ‘orificios’, em vez de ‘orifícios’, ‘superficie’, em vez de ‘superfície’; ‘superioe’, em vez de ‘superior’; ‘reposiçaõ’, em vez de ‘reposição’ etc. E outro aviso incorreto: ‘Manter afastado do alcance das crianças’. O assunto era a cafeteira. Então, deveria ser ‘afastada’.


A fabricante dessa cafeteira é uma indústria italiana muito conhecida. Olhem como se apresenta em português: ‘X è lider hà 50 anos no mercado com a famosa Y. Graçias aos segredos de produçao, Y éinsuperàvel para obter verdadeiro café à italiana.Y è original sorrente se cràz imprimido o homenzinho com bigodes. Exija-o sempre’.


O redator deve ter pretendido dizer o seguinte: ‘X, que produz a famosa Y, lidera o mercado de cafeteiras há cinqüenta anos. Graças aos segredos de produção, Y é insuperável para obter café à italiana. Y é original somente se traz impressa a figura do homenzinho com bigodes’. ‘Imprimida’ é forma que também pode ser aceita, mas é menos usual. E certamente não é o homenzinho que está impresso, é a figura dele! Quanto ao aviso ‘exija-o sempre’ é dispensável. Alguém aí vai sempre exigir um homenzinho?


Besteirol em vários idiomas


Os redatores das mesmas coisas nas outras línguas deixam indícios das sutis complexidades de cada uma delas.


Eis amostra do espanhol: ‘X desde hace 50 años en el mercado, [vírgula fora de lugar, atrapalhando o sujeito] es la fabrica [sem acento] de cafeteras para uso doméstico más importante del mundo’. Ao deslocar o ‘más importante del mundo’ para o final do período, o redator deixou uma terrível ambigüidade: é o uso doméstico ou a fábrica de cafeteiras que merece o epíteto de ‘mais importante do mundo’? Soa divertido, mas isso é coisa nossa, de brasileiros, o aviso que segue: ‘X es la original únicamente si lleva stampado el hombrecito de bigotes’.


O inglês, como sempre, foi mais objetivo: ‘The `litte man´, appearing on every Y, is your garantee of the genuine article’. O italiano: ‘Y è originale solo se porta impresso l’Omino coi baffi.’


O francês, que chama sogra de ‘belle-mère’, avisa que ‘la garantie de sa qualité est le Père Moustache imprimé sur une de ses huit facettes’. E o redator acrescentou que o café expresso é ‘pour famille’. Foi o único que lembrou o que tanta falta faz no café: a família por perto. E ainda avisou que a cafeteira tem oito faces!


Deus-mercado em todos os lugares


A força do mercado que tirou o açúcar do café, sob ameaças diversas, retirou-nos também do convívio familiar (quantas refeições por semana você faz com a família?), esculhambou a língua portuguesa e aumentou artificialmente vários preços para poder aumentar os juros, sob a desculpa de combater a inflação. Se juro alto resolvesse, a inflação no Brasil seria sempre zero, pois aqui são praticadas as taxas mais altas do mundo.


Quanto ao patrimônio público que é a língua portuguesa, à semelhança de outros patrimônios do povo, poucos se preocupam com ela. O produto vende? Então que todos os outros valores se lasquem.


Evito o verbo que até crianças de pré-escola hoje pronunciam sem pudor algum e que encontramos tanto na versão latina da Bíblia, na pena de São Jerônimo: Et recordabor foederis sempiterni, diz Deus a Noé, depois de salvar apenas Noé e sua família do dilúvio: ‘E recordarei nossa aliança eterna’.


O deus-mercado está em todos os lugares. É paradoxal como Jeová. Antes ou depois de cada graça alcançada, nos enche de porradas. Em simples manuais de instruções, comete vários crimes de lesa-língua. E se lesa a língua, o que não fará de nós?

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Escritor, doutor em Letras pela USP, professor e vice-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro) e autor, entre outros, dos romances Avante, Soldados: Para Trás (1992), Os Guerreiros do Campo (2000) e Goethe e Barrabás (2008)

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