Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > QUINTA-FEIRA, 8/11

Câmara censura foto do travesti Rogéria

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 08/11/2007 na edição 458

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 8 de novembro de 2007


HERÓIS
Luciana Nunes Leal


O dia em que uma foto parou a Câmara


‘A foto do travesti Rogéria seminu, usando apenas camisa, gravata e salto alto provocou o maior rebuliço no fim da tarde de ontem, no Salão Negro da Câmara. Ao encontrar a imagem de Rogéria entre os 24 pôsteres da exposição Heróis, do fotógrafo Luiz Garrido, a chefe do setor de Relações Públicas da Câmara, Sílvia Mergulhão, chamou a atenção dos organizadores. Segundo Sílvia, a foto não poderia ser exposta, sob pena de a Câmara ser processada com base nos artigos 17 e 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que tratam da integridade física, psíquica e moral dos menores de idade.


Foi aí que começou a confusão. O chefe de gabinete da Diretoria-Geral da Casa, Pedro Pelegrini, pediu à curadora da mostra, Karla Osório, que retirasse a foto, mas ela argumentou que não poderia censurar uma peça da exposição e, nesse caso, todas as fotos seriam retiradas. Uma solução provisória e inusitada resolveu parcialmente o impasse: a foto de Rogéria foi escondida em uma espécie de cabine, montada com um tapume de madeira. Na entrada, um aviso aos visitantes: ‘Por determinação da Câmara dos Deputados, esta cabine acolhe a fotografia de Rogéria, cuja exibição aberta ao público não foi permitida.’


‘Vai me desculpar, é um seminu artístico, não é uma ofensa nem uma violação ao estatuto. Mas vamos explicar o que aconteceu e vai ficar mal para a Câmara. Se tivesse considerado com naturalidade, passaria batido’, disse Karla. ‘Essa foto tem mais de dez anos, já foi exposta em vários lugares e isso nunca aconteceu’, disse, surpreso, o fotógrafo Luiz Garrido.


Mas Pelegrini ainda não está convencido de que a cabine resolve o problema. ‘Um croqui da exposição deveria ter sido enviado antes à Câmara e não foi. Fomos surpreendidos com uma foto artística, bonita e tudo, mas temos centenas de crianças que visitam a Câmara, de seis, sete anos de idade. Aqui não é o local adequado para exibir a foto’, afirmou o chefe de gabinete, que prometeu levar o problema ao diretor-geral, Sérgio Sampaio. ‘Eles devem ter outras fotos, até mais bonitas. O biombo chama ainda mais atenção da criança. Vou defender a tese de que a foto seja retirada e, se não for, que a exposição seja cancelada.’


Fora da cabine, a exposição mostra retratos de personalidades que vão de Fernando Collor, Armando Falcão e Antonio Carlos Magalhães a Tom Jobim, Cauby Peixoto e o craque Didi, passando por Betinho, Zagallo e o presidente Lula fumando um charuto, envolto numa nuvem de fumaça.’


 


INTERNET
O Estado de S. Paulo


Estudante antecipa no YouTube massacre em escola na Finlândia


‘REUTERS, NYT E ASSOCIATED PRESS – Helsinque – Um estudante de 18 anos usou ontem uma pistola calibre .22 para assassinar cinco meninos, duas meninas e a diretora de uma escola de Tuusula, a 50 quilômetros de Helsinque, capital da Finlândia. O assassino, o garoto Pekka-Eric Auvinen, anunciou o massacre em um vídeo intitulado Jokela High School Massacre (‘O Massacre do Colégio Jokela’), colocado horas antes no site YouTube.


Em seguida, o atirador tentou se matar com um tiro na cabeça, mas os policiais ainda conseguiram levá-lo com vida para um hospital da região. Cerca de três horas depois, no entanto, Auvinen morreu. ‘Ele era um garoto comum de uma família comum’, afirmou Matti Tohkanen, chefe da polícia local, que confirmou a existência das imagens na internet.


Nos últimos meses, Auvinen postou cerca de 80 vídeos, mas nenhum tão macabro quanto o último, de 1min 17s, que misturava uma foto da escola e outras duas de um garoto segurando uma pistola. A trilha sonora era a música Stray Bullet, da banda alemã de rock industrial KMFDM. Músicas da mesma banda foram colocadas na internet por Eric Harris, um dos garotos que realizaram o massacre de Columbine, nos Estados Unidos, em 1999.


No perfil do usuário dos vídeos postados por Auvinen havia frases como ‘já tive o bastante’, ‘estou disposto a morrer pela minha causa’ e ‘não quero fazer parte desta sociedade’. Todos os vídeos postados por ele foram retirados do ar logo após o massacre.


A tragédia chocou a Finlândia, um país que tem um dos menores índices de morte por armas de fogo do mundo. Nos últimos dez anos, houve apenas quatro esfaqueamentos em escolas, nenhum com vítimas. A última tragédia nacional havia acontecido em 2002, quando um jovem se suicidou ao explodir uma bomba em um shopping de Helsinque, matando outras seis pessoas.


Apesar das semelhanças com outros massacres, como o de Columbine, de Erfurt, na Alemanha, em 2002, e de Virginia Tech, em abril, a tragédia de ontem tem alguns componentes locais. O inverno nórdico isola completamente os jovens finlandeses uns dos outros. A maioria vive em pequenas cidades, distantes umas das outras, e gastam boa parte do tempo no caminho para a escola. A depressão clínica é comum e a taxa de suicídio, alta.


Às vésperas do inverno, os estudantes quase não vêem a luz do dia. Entram e saem da escola na escola na escuridão da noite. Freqüentar a casa dos amigos de colégio é um luxo reservado para o verão. Assim, a amizade torna-se virtual. A internet, principalmente o site YouTube, é o substituto da televisão, hábito reservado para as pessoas mais velhas. Cerca de 75% dos finlandeses usam a internet.


O país, sede da Nokia, uma das maiores fabricantes de celulares do mundo, tem uma das tarifas de telefone mais baratas da Europa. ‘Na Finlândia, crianças de 6 anos já freqüentam a escola com seu celular. Isso mostra como o mundo virtual se tornou, entre os finlandeses, um substituto do contato humano’, disse o psicólogo Sven Christianson, professor da Universidade de Estocolmo.


De acordo com ele, a tragédia de ontem tem uma receita explosiva: um garoto, que já vivia em um ambiente inóspito, que foi isolado ainda mais pelos colegas de escola. Christianson lembrou ainda que, apesar de o número de homicídios por armas de fogo na Finlândia ser muito baixo, o país tem uma das populações mais armadas do mundo.’


 


Mariana Della Barba, com Reuters


Vídeo torna-se ferramenta de auto-afirmação


‘Se antes os assassinos escreviam cartas ou enviavam mensagens a jornais para se expressarem, hoje, eles publicam vídeos caseiros na internet. Foi o que aconteceu com o sul-coreano Cho Seung-hui, que em abril matou 32 pessoas na Universidade Virginia Tech, nos EUA. Pouco antes de perpetrar o massacre, ele enviou uma série de vídeos para rede de TV NBC. A cena repetiu-se ontem, quando o finlandês Pekka-Eric Auvinen, de 18 anos, publicou no site YouTube uma gravação anunciando o tiroteio na escola, poucas horas antes de colocá-lo em prática.


‘Para quem queria atenção e visibilidade, como o jovem finlandês, a internet – pelo número de pessoas que atinge e pela velocidade – é o meio ideal’, diz o sociólogo e psicólogo pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Renato Alves. ‘Com a diferença de que, na internet, a relação é despersonalizada, não importa quem recebe essa mensagem.’


Desde o massacre na Virginia Tech, sites que reúnem vídeos caseiros vêm sendo criticados por permitirem a divulgação de gravações violentas. ‘É de se questionar o fato de o YouTube não ter tirado o vídeo do ar antes ou pelo menos ter acendido uma luz amarela, fazendo um alerta em relação a seu conteúdo’, diz Alves. O site tirou todos os vídeos publicados por Auvinen horas após o crime.


Co-autor do livro Violência na Escola – Um Guia Para Pais e Professores, Alves diz que a internet também é o local escolhido por esses jovens para demonstrar que algo está errado.


‘Ele (Auvinen) foi anunciando homeopaticamente o que iria fazer. E um dos sinais que ele deixou foram os vídeos online.’ Nos posts colocados na internet pelo finlandês, havia homenagens aos atiradores responsáveis pelo massacre de Columbine, ao terrorista americano Unabomber e ao vilão Max Zorin, da série 007.


No caso de Cho também foram identificados conteúdos violentos em algumas de suas redações para aulas de inglês. Nos dois episódios, os sinais não foram percebidos a tempo. ‘Esses jovens sofrem hoje de uma certa invisibilidade, principalmente nas escolas, entre os professores e colegas’, afirma Alves. ‘Num mundo cada vez mais cheio de cobranças e disputas como o que vivemos, os jovens sente a necessidade de se auto-afirmarem, de serem destaque. E alguns acabam obtendo isso da maneira mais destrutiva possível.’


E a escola não é escolhida aleatoriamente para ser o palco de tiroteios. Segundo o sociólogo, ‘é um local que pode abrigar todo tipo de aversão, onde ocorrem brincadeiras de mau gosto que traumatizam. E isso causa transtornos para quem faz as provocações e para quem sofre com elas.’


A internet também pode influenciar jovens a criar uma realidade paralela e até viver nela. ‘Por telefone, você tem uma referência, ainda que mínima, de quem é a outra pessoa. No espaço virtual não, você pode inventar a personalidade que quiser, num mundo sem vínculos com o que o cerca’, diz Alves.’


 


TV DIGITAL
Gerusa Marques


Costa vê campanha contra a TV digital


‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou ontem na Comissão de Defesa do Consumidor, na Câmara, que está havendo uma campanha ‘insidiosa, na tentativa de evitar que a TV digital seja um sucesso no País’. Ele criticou a indústria de televisores que, segundo ele, pretenderia colocar no mercado uma caixinha conversora (set top box) dos sinais digitais por R$ 700, valor considerado muito alto.


Costa levou à comissão vários aparelhos, entre eles um DVD e um iPhone, celular multimídia que recebe imagens de TV. Segundo o ministro, o iPhone custa, nos Estados Unidos, o equivalente a R$ 500. ‘Se o iPhone custa R$ 500, como a caixinha vai custar R$ 700?’, questionou, dizendo que o iPhone é um aparelho mais complexo.


Ele contou ter feito uma pesquisa na internet e identificou, no exterior, o set top box por US$ 70 (cerca de R$ 120). ‘Tem alguém querendo ganhar dinheiro. Isso é um caso de polícia, é um caso de CPI.’


Segundo o ministro, no início da implantação da TV digital, serão vendidas caixinhas simples que não poderão custar mais que R$ 200. ‘Mais do que isso é abusar da boa vontade dos brasileiros.’ Costa disse que, mais adiante, serão oferecidos set top boxes mais sofisticados, que permitirão a interatividade e, nesses casos, poderão vendidos por R$ 500 no Brasil.


O ministro reafirmou que a TV digital começará a operar no País em dezembro, na cidade de São Paulo, mas pode chegar a Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte em fevereiro de 2008. O cronograma inicial previa que a TV digital chegaria a estas cidades em julho do ano que vem. Ontem, Costa disse que ela estará nas demais capitais até meados de 2008, começando do Sul para o Norte.


O ministro informou aos deputados que o governo já tornou disponível, há oito meses, recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) de cerca de R$ 450 milhões para financiar empresas nacionais que queiram desenvolver conversores, mas até agora não apareceram interessados.


O set top box é usado para converter o sinal digital em analógico e permite que o telespectador continue a utilizar o aparelho de TV que tem em casa. A caixinha vai melhorar a qualidade de imagem, mas para ter imagem e som com tecnologia digital e em alta definição é preciso que o televisor seja digital. O sinal analógico vai continuar a ser distribuído até 2016.


Costa não descartou a possibilidade de o governo facilitar a compra dos conversores, com financiamento de instituições financeiras como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Mas não disse quando isso seria posto em prática. ‘Estamos buscando caminhos para popularizar o acesso.’’


 


Ponto adicional não será cobrado


‘A partir de abril de 2008, as operadoras de TV por assinatura não poderão mais cobrar pelo ponto adicional de recepção do sinal. A proibição, que consta do novo regulamento de direito dos usuários aprovado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) no mês passado, só foi divulgada ontem durante audiência pública na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara em que se discutiu a qualidade dos serviços de TV por assinatura.


O superintendente de Comunicação de Massa da Anatel, Ara Minassian, disse que, pelo novo regulamento, as empresas só podem cobrar para instalar o segundo ponto e não para fornecer a programação, que já é paga pelo assinante. Atualmente, existem no País 5 milhões de clientes de TV por assinatura, incluindo TV a cabo, via satélite e via microondas terrestres (MMDS).


Em 11 de novembro, quando divulgou as novas regras em uma nota, a Anatel disse que o ponto adicional poderia ser cobrado.’


 


PESQUISA
Marili Ribeiro


‘Estadão’ é o jornal mais admirado do País


‘O jornal O Estado de S. Paulo ficou em primeiro lugar, pelo quinto ano consecutivo, na pesquisa ‘Veículos Mais Admirados: o Prestígio da Marca’, realizada pela Troiano Consultoria da Marca, com apoio do Instituto QualiBest.


A pesquisa é feita com os leitores da publicação Meio & Mensagem, especializada em publicidade. Em oito anos de pesquisa, esta é a sexta vez que o Estado fica na liderança entre os 20 jornais avaliados.


Assim como nos últimos três anos, o Estado também foi o veículo de comunicação que atingiu o maior Índice de Prestígio da Marca (IPM), levando-se em conta todos os veículos avaliados: jornais, revistas, emissoras de rádio, canais de televisão fechada e aberta, além da internet. O jornal alcançou 68 pontos dos 100 possíveis no índice usado na pesquisa.


Nos outros segmentos, as lideranças ficaram com: Globo (TV aberta), com 63 pontos; Veja (revista), 55 pontos; CBN (rádio), 50 pontos; Google (internet), 46 pontos; e GNT (TV paga), com 44 pontos.


Para o diretor de Marketing e Mercado Leitor do Grupo Estado, Antonio Hércules Jr, o fato de o jornal ocupar novamente o primeiro lugar na pesquisa dos veículos mais admirados é um reflexo do trabalho dos profissionais que fazem o dia-a-dia do grupo. ‘Isso confirma que nossas equipes, da redação à área comercial, estão acertando em suas atuações’, diz.


O fato de o portal Estadao.com ter subido uma posição em relação à pesquisa anterior – agora ocupa o sexto lugar entre os dez veículos mais admirados na internet – é, para Hércules, uma demonstração de que as mudanças que vêm sendo feitas estão agradando. ‘A pesquisa foi feita em agosto e já reflete as últimas inovações implantadas no portal este ano.’ A Rádio Eldorado, também do Grupo Estado, foi a segunda colocada entre as rádios mais admiradas.


CREDIBILIDADE


Para chegar aos resultados, a Troiano Consultoria desenvolveu uma metodologia própria. Na pesquisa, são considerados nove quesitos, com diferentes pesos para cada categoria. No caso dos jornais, por exemplo, o quesito de maior peso é a credibilidade.


O organizador do estudo, Jaime Troiano, avalia que as marcas dos veículos têm importante papel na decisão de mídia – quando as agências de publicidade, por exemplo, definem onde vão publicar os anúncios. De acordo com Troiano, o processo que leva a essa decisão vai muito além dos aspectos técnicos, como os números de circulação. ‘A reputação de um veículo não se traduz apenas em variáveis numéricas’, diz.


OS MAIS ADMIRADOS


Jornal: ‘O Estado de S. Paulo’


Revista: Veja


TV Aberta: Globo


TV Paga: GNT


Internet: Google (Estadao.com.br, 6.º lugar)


Rádio: CBN (Rádio Eldorado, 2.º lugar)’


 


CONSCIÊNCIA NEGRA
Valéria França


Painéis resgatam negros ilustres, ‘branqueados’ pela história


‘No mês de novembro, as ruas paulistanas viram uma galeria a céu aberto, ao receber imensos retratos de brasileiros negros, que marcaram a história do País. Eles serão instalados em 20 prédios públicos e particulares, como o Teatro Municipal e o Instituto Itaú Cultural, em forma de banners de 5 metros de altura. Os primeiros retratos começaram a ser instalados ontem. A foto da compositora Chiquinha Gonzaga – que escreveu, entre outras canções, a marchinha Ó, Abre Alas – foi pendurada na Sala São Paulo, no centro, e a do engenheiro Teodoro Sampaio, fundador da Escola Politécnica, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista.


Essas mesmas fotos ainda serão espalhadas em 20 CEUs da capital, 11 pontos de atendimento do Poupatempo e 20 terminais de ônibus. A iniciativa é da secretarias de Cultura do Estado e do Município, que lançam a campanha Mês da Consciência Negra. As fotos ficam expostas na cidade até o final do mês.


Além de mexer com a cara da cidade, elas podem provocar polêmica, já que algumas das personalidades não são reconhecidas como afrodescendentes pelas famílias. ‘É o caso de Nilo Peçanha, que tinha mãe negra, mas a família nega a raiz africana’, diz Dagoberto José Fonseca, professor de antropologia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Araraquara. Ele pesquisou cerca de 100 nomes de brasileiros negros importantes, que serviram de base para a escolha dos 20 finalistas. ‘Quando entreguei a lista, avisei que era polêmica.’


O fluminense Nilo Peçanha, elegeu-se vice-presidente de Afonso Pena em 1906 e, quatro anos depois, com a morte do presidente, assumiu seu posto. Na gestão de Peçanha, suas fotos foram retocadas para não transparecerem os traços marcadamente negros. ‘Nunca soube que Nilo Peçanha era negro’, diz o governador José Serra. ‘Para mim foi uma surpresa. Também não tinha idéia, até por ser de uma área distante da minha, que a Sociedade Brasileira de Psicanálise foi fundada por Virgínia Leone Bicudo, uma mulher negra.’


Fonseca explica que a sociedade brasileira promoveu e promove uma espécie de branqueamento da cultura negra. ‘Chiquinha Gonzaga, por exemplo, foi interpretada no seriado da TV Globo pela atriz Regina Duarte, a namoradinha do Brasil’, lembra. ‘Existe um jeito bem brasileiro de estabelecer o processo cromático. O Brasil sempre quis ser europeu, mas não é. Os portugueses que chegaram aqui eram miscigenados.’ Pelos critérios da exposição da Secretaria da Cultura, até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que tem uma avó negra, poderia estar ali pendurado num prédio.


Uma forma escolhida por colégios particulares para mudar o jeito brasileiro de encarar a participação dos negros na sociedade foi inserir o assunto na grade. ‘Este ano, os alunos estão estudando a cultura africana antes da chegada dos europeus na África’, diz Onofre Rosa, coordenador pedagógico da Colégio Bandeirantes, no Paraíso, zona sul. A escola chegou a discutir se fazia algo especial para o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. ‘Achamos que poderia gerar preconceito e optamos por dar mais informações sobre o assunto o ano todo e não num dia só.’’


 


ARTE
Camila Molina


A honorável sra. Ono


‘Feminista? Surrealista? Transgressora? Zen? Performática? Eterna viúva? Qual é a melhor faceta dessa inquieta senhorinha japonesa chamada Yoko Ono? Ela está em São Paulo e, claro, aos 74 anos, não pára de ‘causar’. Hoje, pretende ‘aprontar’ uma de suas performances no palco do Municipal e, no sábado, inaugura uma abrangente retrospectiva no CCBB


A produção artística de Yoko Ono é muitas vezes eclipsada por sua figura. A viúva do ex-Beatle John Lennon (assassinado em 1980) é artista multifacetária: nascida em Tóquio, em 1933, tem uma produção na área das artes plásticas desde a década de 1950 e, ainda, é nome também da área musical – em entrevista ao Estado, ela se gabou de ter seus dois últimos álbuns, lançados em 2007 – Yes, I’m a Witch e Open Your Box – na ‘lista dos top 10’. Mas agora, em São Paulo, tem-se a oportunidade de mergulhar um pouco mais em suas criações artísticas. Hoje à noite, às 21 horas, ela realiza a performance Uma Noite com Yoko, no Teatro Municipal, e no sábado ela inaugura no Centro Cultural Banco do Brasil a exposição Yoko Ono – Uma Retrospectiva, que, como diz o título, perpassa sua carreira por meio de uma seleção de cerca de 70 de suas obras, incluindo vídeos e registros de performances, criadas entre a década de 1960 e 2005.


Sobre a performance no Municipal, não é possível saber muito. ‘Se eu explicar em palavras o que fica? Performance é algo muito físico’, afirma Yoko. Mas sobre a mostra, que ficará em cartaz apenas em São Paulo, é possível conversar. A exposição, com curadoria de Gunnar Kvaran, crítico islandês e diretor do Astrup Fearnley Museum, em Oslo, já foi vista na cidade norueguesa em 2005.


Como diz o curador, a exposição se articula a partir de dois eixos: a reunião dos trabalhos da série Instructions for Paintings (Instruções para Pinturas), que a artista iniciou na década de 1950 e realizou até 1996, e os objetos. Sobre os Instructions, estão na mostra 36 deles, criados a partir de 1962. O trabalho, exibido nas paredes, são réplicas de papéis (porque a artista pedia que eles fossem destruídos depois de copiados) onde Yoko escreveu, em japonês, ‘como haikais’, diz Gunnar, instruções simples e poéticas para o público fazer (estão traduzidas). ‘É um trabalho que trata da arte no estado da idéia e que pede nossa colaboração’, diz o curador. Criadora, que se define como artista conceitual, Yoko produz muitas obras que pedem essa participação do visitante ou de outros artistas, como no trabalho Water Event (1971) apresentado aqui em versão de 2005 na qual participaram os brasileiros Cildo Meireles e Rivane Neuenschwander.


Estão também no CCBB o Add Color Painting (1960) – duas grandes telas em branco poderão ser pintadas – e Painting to Hammer a Nail (1961) – em que objetos martelados, quebrados, poderão ser reconstituídos pelo público. Já Wish Tree for Brazil, na entrada, é depositário dos desejos escritos pelo público e na grande instalação Morning Beams, que ocupa todo o hall do CCBB, há cordas e pedras que poderão ser colocadas em duas caixas, uma para os bons pensamentos, outra, para os maus. Está também a célebre obra Ceiling Painting (Yes Painting), que seduziu Lennon: ao subir uma escada branca de madeira, damos de encontro com a palavra ‘sim’.


Há também instalações que não pedem participação. Endangered Species, representa, em caixas, os últimos pensamentos de uma família carbonizada. Há uma carga surrealista, feminista e até violenta também em suas obras. Em Half-a-Room, tudo de um quarto está ao meio. Nos Blood Pieces (anos 80), objetos do cotidiano familiar, especialmente, feminino, fundidos em bronze, estão rajados de vermelho – o único masculino é uma camisa com uma bala no peito, menção à morte de Lennon.’


 


CONSPIRAÇÃO
Etienne Jacintho


Produção no exterior


‘A Conspiração Filmes terá uma filial em Hamburgo, na Alemanha. Um dos sócios da produtora, Leonardo Monteiro de Barros já está de malas prontas para comandar o novo escritório. ‘A idéia é realizar parcerias com produtoras européias principalmente da Alemanha e da Espanha’, conta Barros. Para ele, é mais fácil comercializar produtos em língua espanhola no exterior. A expansão na Europa deverá englobar filmes e também atrações para a TV.


Outro plano da Conspiração é encontrar parceiros para ter uma representação em Los Angeles, especialmente para produção de filmes em língua inglesa. ‘Mas vamos procurar trabalhar sempre com diretores, produtores e até mesmo com atores brasileiros’, afirma Barros.


Apesar do grande passo, o sócio da Conspiração explica que essa expansão não exclui a continuidade de trabalhos no Brasil. ‘Estamos aumentando nossos recursos no País’, fala. ‘Não é que não haja mais nada para fazer aqui, mas temos condições de expandir e essa é nossa intenção agora.’


A Conspiração lançará a segunda parte da série Mandrake, em parceria com a HBO, no dia 18, às 20 horas.’


 


DOCUMENTÁRIO
Patrícia Campos Mello


A 2.ª Guerra que ainda dói nos veteranos


‘No início do documentário The War, um veterano da 2.ª Guerra Mundial olha para a câmera e diz: ‘Eu não acredito nas chamadas guerras boas. Mas eu acho que existem guerras necessárias e guerras desnecessárias. E eu nunca questionei a necessidade da 2.ª Guerra.’


The War, o novo documentário de Ken Burns, começou a ser filmado bem antes da invasão do Iraque e não tem nenhuma mensagem política, diz o documentarista. Mas, para as 39 milhões de pessoas que acompanharam os episódios pela rede de televisão PBS, é inevitável a comparação entre a 2.ª Guerra, a chamada guerra ‘justa’, e o atual atoleiro do Iraque.


Para Burns, que ficou famoso com seus documentários primorosos sobre a história do jazz e da guerra civil americana, essa era simplesmente a última oportunidade para resgatar a memória da 2.ª Guerra. ‘Nos Estados Unidos, e certamente ao redor do mundo, estamos perdendo cerca de mil veteranos da 2.ª Guerra por dia’, disse Burns ao Estado. ‘Eu trabalho no ramo de memórias, e cada veterano que morre é como uma biblioteca incendiada, todas aquelas lembranças e histórias perdidas.’


Burns conversou com o Estado sobre The War, que deve se tornar a maior audiência da história da rede PBS, e seus planos para novos documentários.


Já foram feitos inúmeros documentários sobre a 2.ª Guerra Mundial – em que sentido The War é diferente?


Há vários documentários que focam em algum aspecto específico da guerra, uma batalha em especial ou narrativas do Holocausto. Alguns tentaram fazer um retrato amplo da guerra, apresentando o contexto mas não a visão íntima, enquanto outros que apresentam a visão íntima não contextualizam. Então nós queríamos fazer algo que juntasse os dois, uma ampla visão aérea da guerra, da perspectiva americana, ao mesmo tempo em que conseguíssemos retratos íntimos de seres humanos. Não estávamos interessados em ir atrás de histórias de generais famosos e políticos. Não são eles que lutam e morrem na guerra. Estávamos menos interessados em estratégias e táticas, que apenas atrapalham a compreensão do sofrimento que é o cerne das guerras. E também não estávamos interessados na obsessão tipicamente americana por armamentos, e sim no custo humano que essas armas impuseram. E, por fim, muitos documentários e livros acabam ficando fascinados pela malevolência do inimigo, os nazistas, e se dedicam a entender as dimensões do mal, mas muitas vezes essa tentativa de entender o mal se transforma em uma metástase, que é uma admiração pelos primeiros sucessos dos nazistas e sua superioridade bélica. Isso me causa repulsa. Nós decidimos que queríamos contar uma história de como é participar de uma batalha e que não usaríamos experts ou historiadores, e quem não estivesse na guerra ou esperando ansiosamente por alguém que estava, não participaria do filme. E agimos apenas como testemunhas desses jovens de então, que agora no final de suas vidas estavam contando sua história. Muitas vezes eles disseram mais do que jamais haviam dito para suas esposas e filhos, contando histórias horríveis de morte. Por todas essas razões, o filme é diferente. Trata-se de uma perspectiva americana – escolhemos quatro cidades (Waterbury em Connecticut.; Mobile, Alabama; Luverne, Minnesotta e Sacramento na Califórnia) e seguimos as pessoas dessas cidades. Por isso, ficamos muito surpresos quando fomos chamados pelo Festival de Cannes no ano passado, para exibir o documentário. Eu perguntei, simplesmente, qual episódio? E eles disseram – todos.


O festival de Cannes exibiu todos os episódios (sete episódios que duram 15 horas no total)?


Sim, foi o filme mais longo já exibido em Cannes. Estávamos um pouco tensos com a apresentação no festival, considerando a situação difícil em que os Estados Unidos se encontram no mundo de hoje. Fiquei com medo de as pessoas interpretarem de forma errada a nossa perspectiva americana, como parte da visão ingênua e míope dos americanos de sempre acharem seu papel mais importante do que o dos outros. Mas o público adorou, foi um enorme sucesso, os espectadores disseram – precisamos fazer isso em nossos países também, com nossos veteranos.


Analisando as histórias contadas pelos veteranos de seu filme, e comparando-as com os relatos dos soldados voltando do Iraque agora, o que podemos aprender com isso?


Muito. Eu chamei o filme de The War porque é assim que aquela geração se refere à 2.ª Guerra. Mas é claro – e não quero ser entediante aqui – que se trata de um filme universal sobre a guerra, apesar das particularidades de cada batalha. Algumas coisas que acontecem são iguais, sempre. O grande paradoxo da guerra, por exemplo. Quando sua vida está mais ameaçada e se pode morrer de forma violenta a qualquer momento, que é a experiência do soldado em combate, é aí que a vida fica mais real, e que a experiência de viver atinge o grau máximo… E começamos a ver que essa experiência de guerra reverbera e ecoa sobre várias coisas que estão acontecendo hoje. Mesmo sem que tivéssemos essa intenção, refletiu-se em Abu Ghraib, tortura de prisioneiros, maus tratos de civis, erros militares. Você começa a ver as guerras como uma série de frases declarativas: ‘Eu estava com medo, eu estava cansado, estava com frio, estava com calor, eu vi coisas horríveis, eu fiz coisas horríveis, eu perdi amigos.’ Três ou quatro semanas atrás estivemos em Washington DC, no Teatro Lincoln, e juntamos um de nossos veteranos com um veterano do Vietnã, um piloto que viu muita ação, e um jovem que acaba de voltar do Afeganistão e Iraque. Foi como se estivéssemos olhando para a mesma pessoa em fases diferentes da vida – o avô, o pai e o filho. À certa altura, o veterano do Iraque estava aos prantos ao ouvir o veterano da 2.ª Guerra dizer – eu me sinto um eco de você. Agora, respondendo à sua pergunta, o filme não tem nenhum elemento político em si, mas nós sabíamos que cada quadro do documentário iria refletir não apenas o que ocorreu no passado, mas também o que está acontecendo agora. História não é apenas uma curiosidade sobre acontecimentos do passado. É uma série de perguntas sobre o passado que nós fazemos no presente, perguntas calcadas nos nossos medos, esperanças e culpas do presente. Apesar de os veteranos compartilharem essa grande experiência que é viver uma guerra, há grandes diferenças entre a 2.ª Guerra e a atual Guerra do Iraque. Alguns dizem que aquela foi uma guerra justa, enquanto o atual conflito do Iraque não é. Algumas pessoas a chamavam de A Guerra Boa. A primeira frase do documentário é um veterano dizendo que não existe guerra boa, existe guerra necessária ou desnecessária. Ele disse essa frase antes de 11 de setembro, antes da invasão do Iraque. Nós começamos a fazer o documentário antes de tudo isso acontecer. E mesmo assim, muita coisa ecoa com a guerra do Iraque, que a grande maioria dos americanos considera desnecessária.


O sr. acha que é uma guerra desnecessária?


Não importa o que eu acho, porque minha visão política pessoal não está no filme. Mas sim, eu acho que se trata de uma guerra desnecessária. Mesmo assim, é importante notar que aquele veterano disse que a 2.ª Guerra era necessária antes de o conflito do Iraque começar, o que mostra a possibilidade de transcender a política. Se você consegue transcender a política do momento, temos uma coisa que vai durar, não vai se refletir apenas sobre a Guerra do Iraque, mas talvez sobre a próxima guerra, e a próxima, e a próxima.


Então o sr. não pensa em fazer um documentário sobre um tema mais atual, por exemplo o atual governo dos Estados Unidos, ou mesmo a Guerra do Iraque?


Não, eu preciso ter um distanciamento. Todos os meus filmes foram sobre história. É como se eu fosse um pintor e tivesse escolhido pintar paisagens em vez de natureza-morta, pintar com tinta a óleo e não aquarela. Eu trabalho com história, e para isso eu preciso do distanciamento que a passagem do tempo nos proporciona. Eu poderia facilmente fazer um documentário sobre a atual Guerra do Iraque, mas daqui a uns 15, 20 anos, no mínimo.


O sr tem uma produção muito eclética – desde guerra civil até jazz e beisebol. Quais são os temas de seus próximos documentários?


Já editei metade do documentário que estou fazendo sobre os parques nacionais dos Estados Unidos. Trata-se de uma batalha muito interessante entre as pessoas que querem guardar coisas para a posteridade, e aqueles que querem tirar tudo o que podem do momento. Também estou começando um documentário sobre a Lei Seca. Vamos atualizar nossa série sobre beisebol. E começamos a planejar uma série enorme sobre o Vietnã, porque agora, após tantos anos, já temos o distanciamento de que falei. Estou planejando também um documentário sobre a época de Franklin Delano Roosevelt.


Como você escolhe seus temas?


Eles me escolhem. Sou um arqueólogo de emoções. Não estou interessado em datas, fatos e acontecimentos do passado. Eles funcionam apenas como placas de trânsito. Eu estou interessado na cola emocional que faz com que os acontecimentos mais complexos grudem na nossa mente, mas também no coração. E isso não é sentimentalismo, nostalgia. A pieguice é inimiga de tudo o que existe de bom, ela pinta tudo com as tintas mais simplistas.Mas muitas vezes nós fugimos do sentimentalismo e caímos numa perspectiva racional que é limitante. Por isso, procuro sempre temas que me levem a emoções transcendentes.


Alguns críticos apontam que, ao focar nos relatos dos soldados, você acaba despolitizando a guerra…


Isso não importa. Na realidade, isso ajuda – permite que a questão política subsista dentro de um contexto maior. Tenho uma obrigação de incluir o lado político no documentário, mas transcendê-lo. E a política está presente ao longo do filme – há a questão da raça, dos convocados que se recusavam a ir para a guerra, da incompetência dos oficiais….


Na sua opinião, quais são os melhores documentários de guerra?


Eu vi tantos na minha vida…. Night and Fog (Nuit et Brouillard, documentário francês de 1955 sobre o Holocausto), The Sorrow and the Pity (Le Chagrin et la Pitié, documentário francês de 1969 sobre a resistência francesa e o colaboracionismo)e Shoa h(documentário americano sobre o holocausto, de 1985). Eu cresci assistindo a esses filmes, e pus na cabeça que não iria fazer nenhum documentário sobre guerra. Principalmente depois de fazer o documentário sobre a guerra civil americana, em 1990, não queria mergulhar de novo nessas histórias de gente matando gente. Mas, nos Estados Unidos, e certamente ao redor do mundo, estamos perdendo cerca de mil veteranos da 2.ª Guerra por dia. Eu trabalho no ramo de memórias, e cada veterano que morre é como uma biblioteca incendiada, todas as lembranças e histórias perdidas… por isso resolvi voltar ao tema da guerra.


Como está a audiência?


Sensacional. O número de telespectadores vai ultrapassar o que registramos no documentário A Guerra Civil, que foi o maior ibope da história da PBS. As resenhas têm sido ótimas, e as polêmicas também…


Já que o sr. mencionou, acadêmicos hispânicos fizeram um protesto porque não havia depoimentos de veteranos de origem hispânica no filme, eles afirmaram que o sr. havia menosprezado a atuação deles na Guerra. Aí o sr acabou incluindo relatos…


Olha, em vários de meus filmes, sempre inclui pessoas de origem hispânica. O problema é que, depois de 5 anos nessas quatro cidades americanans convocando veteranos a contarem suas experiências, nenhum hispânico se voluntariou. Também não há teuto-americanos ou franco-americanos no filme, se essa é a questão. De qualquer maneira, acabamos indo a duas outras cidades, que não faziam parte das quatro iniciais, e filmamos depoimentos de dois veteranos hispânicos. E a primeira coisa que eles disseram foi – nós não somos hispânicos, somos americanos. O que comprova meu argumento.


Qual foi a imagem mais difícil de conseguir, algum tesouro que o sr. encontrou, seja nos arquivos ou entre os guardados dos veteranos….


Essa é a melhor pergunta de todas. E mais difícil de responder. Nós tivemos o luxo de poder passar 6 anos vasculhando mais de 100 arquivos – a maioria dos pesquisadores não dispõe de mais do que algumas semanas. Nós encontramos fotos e filmagens que nunca tinham sido divulgadas, histórias que pais nunca haviam revelado para seus filhos. Há uma cena famosa de soldados americanos pousando na praia de Omaha, na qual o fotógrafo está olhando para trás, os soldados estão entrando na praia no meio das chamas, e um deles cai. São 3 ou 4 segundos de filme que estão em todo documentário que fala dessa guerra. Nós achamos esse filme, mas, depois de anos de pesquisa, achamos mais takes e reconstituímos a cena, que agora chega a 8 segundos e em vez de um soldado caindo, vemos três. Isso nos mostrou o que uma exaustiva pesquisa de arquivos pode produzir.


O sr. sabe quando o documentário será exibido no Brasil?


Ainda não sei, mas estamos conversando com emissoras (Canal Futura e TV Cultura). Os brasileiros tiveram um interesse muito grande pelos nossos documentários, principalmente o do jazz.’


 


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 8 de novembro de 2007


BANDA LARGA
Folha de S. Paulo


Larga e universal


‘FAZ SENTIDO a proposta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que pleiteia trocar a obrigação das concessionárias de instalar orelhões pela universalização das redes de banda larga para a internet. Os padrões mudaram. Orelhões tendem a ficar subutilizados, enquanto a conexão rápida com a rede de computadores se torna uma necessidade.


O país conta hoje com 35 milhões de telefones fixos em serviço -praticamente o mesmo número de 2003. A principal causa do fenômeno é a expansão da telefonia celular. Já há 112 milhões de aparelhos em operação, numa população de 190 milhões.


Outro fator que favorece os celulares é o custo de manutenção da linha fixa. A assinatura básica sai por cerca de R$ 40 mensais, contra zero de um móvel pré-pago -modalidade que concentra 80% do mercado.


A idéia, portanto, é aplicar cerca de R$ 1 bilhão, que as concessionárias deveriam investir em 8.461 postos de serviços de telecomunicações (conjunto de quatro orelhões e um terminal de acesso à internet), na ampliação da banda larga. Hoje contam com banda larga só 2.000 municípios que pareceram comercialmente rentáveis às operadoras. Se a proposta for aprovada, as concessionárias teriam prazo até 2010 para levar a rede até as 3.570 cidades restantes.


O projeto da Anatel parece um daqueles raros casos de consenso entre consumidores, concessionárias, agência e governo. Se tal unanimidade sobreviver à consulta pública à qual será agora submetida, deve ser aprovada sem delongas. Morar num município pequeno não pode ser motivo para que o cidadão tenha menor acesso às informações e às oportunidades da rede mundial de computadores.’


 


FECHAMENTO
Clóvis Rossi


Pesadelo no ar, agora no solo


‘SÃO PAULO – Depois de ler o noticiário sobre a BRA, não consegui dormir à noite. Suava em bicas, porque, para o dia seguinte (ontem, portanto), estava convocada reunião do Conselho Editorial. Meu pesadelo era ouvir um comunicado seco, tipo: ‘Bom, queridos companheiros, foi ótimo tê-los como colaboradores, mas estão todos despedidos, porque a partir de hoje, o jornal não circula mais, não edita um só mísero exemplar’. Paranóia? Um pouco (ou muito).


Mas também perfeitamente possível. Se a BRA pode baixar as persianas, demitir todo mundo e deixar um punhado de passageiros, no Brasil e em pelo menos três países (Espanha, Itália e Portugal), pendurados na escadinha (do avião) sem vôo, por que não uma empresa jornalística?


Seria até mais fácil. Afinal, apesar dos ardentes desejos de alguns, ainda não se criou uma Agência Nacional do Jornalismo Civil, ao contrário do que ocorre com a aviação, campo em que dizem haver uma tal Agência Nacional da Aviação Civil.


Se de fato existe, é motivo de controvérsias, a julgar por tudo o que aconteceu nos últimos muitos meses com a aviação, os aeroportos, os passageiros -enfim com aqueles todos pelos quais a Anac deveria se responsabilizar.


Que a, digamos, AeroDarfur um dado dia feche as portas, sem mais aquela, daria para entender. Países em guerra civil têm naturalmente dificuldades para controlar o que quer que seja.


Mas, num país no qual um ilustre acadêmico (Luiz Carlos Bresser-Pereira, artigo de segunda-feira nesta Folha) elogia a qualidade das instituições, não deveria ocorrer algo assim. É desrespeito demais.


É simplesmente impossível que uma empresa quebre da noite para o dia. Logo, a BRA vinha quebrando aos poucos, ao longo de meses. Onde estavam as autoridades que deveriam monitorar o setor? Voando? Pela BRA?’


 


INFORMAÇÃO
Carlos Heitor Cony


Os desafios da comunicação


‘RIO DE JANEIRO – Sempre achei poética a maneira de os índios e povos primitivos se comunicarem à distância: faziam um foguinho, abafavam a fumaça com um pano qualquer e erguiam ao espaço os símbolos que significavam alguma coisa preestabelecida. A mão-de-obra para esse tipo de expressão limitava as mensagens ao essencial e urgente.


Quando Marconi descobriu o telégrafo sem fio, muitos séculos depois da fumaça, sentiu necessidade de usar signos que economizassem as mensagens ao osso da questão. No alfabeto Morse, ficaram famosas três letras, SOS, que significavam ‘salvai nossas almas’ (‘save our souls’). Também podia ser ‘salve nossas peles’ (‘save our skins’). Dava no mesmo. Quem recebia a mensagem ficava sabendo que alguém pedia socorro. Mesmo que não pudesse atender, ficava informado de que alguém estava na pior.


Pulando da fumaça dos índios e de Marconi para a internet, vivemos hoje uma pletora de informações que nem sempre atendem ao desejo básico do ser humano de se comunicar. Oferta maior do que a procura, somos bombardeados por trilhões de caracteres e imagens que nos dão a cotação da juta no mercado de Melbourne, o tempo em Papua-Nova Guiné e a crise conjugal do presidente da França.


Vítimas e cúmplices desse excesso de informação, freqüentemente entramos em fossa quando temos necessidade de nos comunicar com o vizinho, o síndico do prédio, a Receita Federal, a mulher que amamos e os desafetos que detestamos.


Portais e sites estão à disposição de um número cada vez maior de pessoas que desejam se comunicar, embora sem nada de importante a comunicar, nem o final de uma batalha, como o herói de Maratona, que morreu após correr 42 quilômetros para dar uma notícia, nem o início do terceiro mandato do presidente Lula.’


 


TV PÚBLICA
Folha de S. Paulo


Cultura do país terá espaço no canal, diz Lula


‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse na noite de ontem, em discurso em evento do Ministério da Cultura, que a TV pública brasileira, em formatação pelo governo, será um instrumento de divulgação da cultura brasileira no país, que, segundo o presidente, sofre de perda de identidade. Segundo Lula, as manifestações artísticas e culturais tipicamente brasileiras ficam relegadas a 2º plano na mídia, especialmente na TV.’


 


HERÓIS
Fábio Zanini


Câmara censura nudez com cabine e aviso


‘Uma fotografia da travesti Rogéria, parte de uma exposição montada num dos salões da Câmara dos Deputados, teve sua visualização restrita ontem após uma determinação da direção da Casa. A imagem integra a exposição ‘Heróis’, do fotógrafo Luiz Garrido, 62. Ela mostra Rogéria vestida apenas de camisa social e gravata.


A coordenadoria de relações públicas da Câmara rejeitou a exposição aberta da imagem, citando o Estatuto da Criança e do Adolescente.


Os organizadores, para evitar a retirada da foto, improvisaram uma cabine, com uma entrada única, isolando-a. Na entrada, foi colocado um aviso: ‘Por determinação da Câmara dos Deputados, esta cabine acolhe a fotografia de Rogéria, cuja exibição aberta ao público não foi permitida’. A Câmara informou a decisão aos organizadores ontem pela manhã, segundo Carla Osório, diretora da exposição. ‘Isso é arte, não é uma violência. Para não retirar a foto, que faz parte de um conjunto, foi colocada a cabine. Só acho que fica muito mal para a Câmara’, afirmou Carla.


A exposição tem diversas fotos de personalidades, entre elas o arquiteto Oscar Niemeyer, o sociólogo Betinho, o ex-presidente Fernando Collor, o senador Antônio Carlos Magalhães e o técnico Zagallo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece fumando um charuto, enquanto o deputado federal Fernando Gabeira está numa foto de paletó, gravata, short e chinelo ‘A foto da Rogéria tem mais de dez anos, já foi exposta até em prédios públicos. Isso é um ranço da época da ditadura’, disse o fotógrafo.


A reclamação partiu de Silvia Mergulhão, diretora de relações públicas da Câmara. Ela citou os artigos 17 e 18 do ECA. Os artigos dizem que a criança tem o direito à ‘inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral’ e que ‘é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor’.


Segundo Silvia Mergulhão, o salão onde fica a exposição é ponto de passagem de muitas escolas que visitam a Câmara. ‘Não houve restrição nossa. O processo foi conduzido pela curadoria de forma equivocada. Essas fotos teriam de ser submetidas ao Ministério da Justiça antes de expostas, o que não foi feito’, disse ela. Segundo ela, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), não teve participação na decisão.


O fotógrafo Luiz Garrido pediu ajuda a Gabeira. ‘Estou tentando, nos bastidores, obter a liberação’, disse o deputado. Antes de ser surpreendido pela proibição de Rogéria, Garrido esteve no Palácio do Planalto. Foi recebido por Lula. Entregou ao presidente uma cópia da foto que clicara no início da década de 90, uma das peças da exposição com as quais a direção da Câmara não implicou.


Colaborou JOSIAS DE SOUZA, da Sucursal de Brasília’


 


Laura Mattos


‘Choquei porque sou honesta’, afirma Rogéria


‘Rogéria, nome artístico de Astolfo Barroso Pinto, 64, acha que tem mais é que ‘morrer de rir deste país’. Para ela, foi censura o fato de o Congresso ter decidido segregar da exposição a foto em que mostra seus pêlos pubianos. ‘Vocês da imprensa têm que cair de pau neles.’ Apesar do incidente em Brasília (leia texto nesta página), Rogéria, em entrevista à Folha ontem, por telefone, demonstrou o bom humor ácido que é uma de suas marcas, revelando que ‘jamais posaria de pau para fora, a não ser que recebesse R$ 50 milhões’. Leia abaixo trechos da conversa com Rogéria, transformista desde a adolescência, ex-maquiadora de TV, ex-vedete e um dos maiores ícones gays do país.


FOLHA – O que achou de o Congresso ter decidido colocar a sua foto dentro de uma cabine?


ROGÉRIA – Menina, acho muito engraçado, tenho que morrer de rir. Eles acabam dando mais publicidade para a foto.


FOLHA – Em sua opinião, é censura?


ROGÉRIA – É uma censura, sim. Quem tem que cair de pau neles são vocês da imprensa. Eu não posaria nua, de pau para fora, jamais, a não ser que me pagassem R$ 50 milhões para eu não me arrepender never [nunca]. Aquela foto é uma brincadeira com o Astolfo [Barroso Pinto, seu nome verdadeiro].


Fotografamos há cerca de três anos, e o Luiz Garrido [fotógrafo] nem achou que fosse fazer esse sucesso absoluto.


FOLHA – Acha curioso que o Congresso se incomode com essa imagem?


ROGÉRIA – É suspeito que o Congresso censure. Quando um cara tem consciência de sua masculinidade, esse tipo de coisa [a foto] não o afeta. Aí você coloca [no texto da reportagem] etc.


Se eu estivesse de pau de fora, seria um acinte, mas é uma coisa engraçada. O governo não é chegado à arte, ele é chegado a banalidades.


FOLHA – Você quer dizer os congressistas ou o governo?


ROGÉRIA – Os dois. E que não saia nenhum processo para mim [por essas declarações] porque esse pessoal é filho da mãe. Mas os brasileiros gostam de mim porque nunca fiquei dentro do armário, nunca neguei que fosse homem, nunca fiz plástica ou escondi a idade, sou autêntica. Esse pessoal [do Congresso] ficou chocado porque eu sou honesta.


FOLHA – Você foi vítima da censura no governo militar?


ROGÉRIA – Nunca. Uma vez um delegado de polícia quis encrencar comigo e pedi ajuda para a dona Marina, uma censora. Ela mandou ele me deixar em paz e continuei o meu trabalho.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Aos montes


‘Falando até em ‘segunda onda’, as manchetes dos sites financeiros atiraram a esmo para tentar explicar a queda nas bolsas. O ‘Wall Street Journal’ começou com petróleo, perdas ‘em massa’ da GM e o dólar que ‘derrete’, fechando em ‘preocupação sobre crédito’. ‘Um monte de notícia negativa’, resumiu investidor.


O petróleo que ‘testa o patamar psicológico dos US$ 100’ suscitou análise de que, mais do que as bolsas emergentes, ele vive ‘bolha’, no Market Watch. Mas também que vai bater em US$ 118 em 2008, no ‘FT’.


O dólar, com o francês Nicholas Sarkozy cobrando valorização e ameaçando até ‘guerra econômica’, em pleno Congresso dos EUA, desabou depois de líder chinês defender que suas reservas priorizem o euro.


BÓIA SOBERANA


Questionados pelos ‘países ricos’ em cúpula recente, os fundos soberanos -em geral de países emergentes- foram a ‘bóia’ e ‘mitigaram efeitos da crise de crédito’, destacou reportagem do ‘WSJ’. Agora não só o Brasil, mas o Japão fala em estabelecer o seu.


QUEM TEM DINHEIRO


A ação da PF nos bancos suíços correu mundo, com o ‘FT’ dizendo ser ‘nova prova da vontade do Brasil de parar o crime do colarinho branco’. Mas um dos executivos, diz o ‘Estado de S. Paulo’, gabou-se de que ‘quem tem dinheiro neste país não fica preso’.


PETROBRAS NÃO QUER


‘Petrobras fala em grandes investimentos’, saudou o ‘La Razón’, e ‘aceita as novas regras’, noticiou a Agência Boliviana de Informação. Lula veio depois e sublinhou que a Petrobras ‘tem que saber que é subordinada a seu acionista majoritário, que é o governo’, na Folha Online. Já o presidente da estatal avisou que não deve ampliar o gasoduto e só vai investir em novas áreas. ‘Todo campo atinge pico e declina’, disse à Reuters, do gás da Bolívia.


Ao fundo, agências sul-americanas trombetearam que a Câmara adiou a decisão sobre a Venezuela no Mercosul.


INFLAÇÃO DE COMIDA


Na manchete do site da ‘Gazeta Mercantil’, ontem, ‘Alimentos pressionam a inflação’, sobre frutas, feijão, batata e o IPCA divulgado.


E no ‘FT’, também ontem, o relatório da FAO, da ONU, prevendo maior alta de preço global -e ‘menos consumo’ pelos países mais pobres.


ONU E O ETANOL


O secretário-geral da ONU abriu a turnê sul-americana com entrevistas às agências. No relato da Reuters, elogiou os biocombustíveis do Brasil pelo efeito no aquecimento global e depois mencionou as ‘preocupações de segurança alimentar’. Na cubana Prensa Latina, o tom foi oposto.


ABAIXO DO RIO GRANDE


O Globo Online reproduziu entrevista de Hillary Clinton ao ‘Nashua Telegraph’, de New Hampshire. Em curta resposta sobre a região, criticou Hugo Chávez e comparou com os ‘ótimos trabalhos’ de Brasil e Chile. O primeiro ‘é exemplo de pioneirismo, de país auto-suficiente que tira da cana seu etanol. Podemos aprender’.


Prometeu não ‘ditar o que a América Latina vai fazer’. Mas José Luiz Fiori, da UFRJ, foi checar os programas de governo e, diz, a ‘estratégia imperial se mantém de pé’.


REVOLUÇÃO, 90


‘Comunistas de todo o mundo comemoram’, bradou o site Vermelho, do PC do B. No cubano ‘Granma’, ‘Lênin’ de manchete -e a opinião de que o mundo vive ‘o começo do começo do triunfo do socialismo’, com os ‘processos revolucionários cada vez mais radicais’ na Venezuela etc. E com ‘os processos reformistas no Brasil, Argentina’.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Explode a venda de futebol pela TV paga


‘Apesar da escassez de craques nos estádios brasileiros, a venda de futebol pela TV paga explodiu neste ano. A Globosat já registra um aumento de quase 40% no pay-per-view do Campeonato Brasileiro.


Até outubro, tinha vendido 383 mil pacotes da Série A do torneio, contra 280 mil em 2006. Deve fechar o ano com 400 mil pacotes. Para 2008, prevê crescer quase 50%, ultrapassando 550 mil assinantes.


O aumento das vendas do pay-per-view marca uma recuperação desse tipo de serviço, estagnado nos últimos anos. Sua recuperação contrasta com a queda de audiência sofrida neste ano pela Globo com as transmissões de futebol.


Segundo Elton Simões, diretor de canais pay-per-view da Globosat, a principal causa do crescimento é o novo formato de vendas. Até 2006, os pacotes eram vendidos por campeonato, individualmente. O assinante só podia comprar determinado torneio. Muitos esperavam os preços caírem.


Neste ano, as operadoras passaram a vender assinaturas mensais, de vários campeonatos, o que reduziu os preços para o assinante em até 30%.


O pay-per-view continuará crescendo em 2008, diz Simões, graças à digitalização da Net e à entrada de novos operadores, como a Telefônica. O número de jogos transmitidos pelo serviço também crescerá _a Série B, que hoje tem 60% das partidas na TV, terá 100%.


FERA DA BARRA 1 Autor de ‘Duas Caras’, Aguinaldo Silva anuncia uma reviravolta nos personagens de Dalton Vigh (Marconi Ferraço) e Alinne Moraes (Silvia). Vigh deixará de ser apenas mau caráter e assumirá o papel de arquivilão da trama das oito, que ainda não emplacou no Ibope.


FERA DA BARRA 2 Silva diz que, desde o início, Ferraço seria o antagonista, ‘um vilão em busca de redenção’. ‘Eu não ia transformar o Ferraço num vilão desvairado porque as pessoas andavam reclamando muito das vilanias nas novelas. Mas agora elas estão reclamando da falta de vilanias’, justifica Silva. O autor adianta que Silvia, no final da história, tentará matar o filho de Ferraço, ao perceber que o amado está mais interessado no menino do que nela.


BABADO Só se falava de Adriane Galisteu ontem no SBT. No início da tarde, ela mandou avisar que não iria apresentar o seu ‘Charme’, ao vivo, porque estava doente. Patrícia Salvador, ajudante de palco de Silvio Santos, foi convocada às pressas. A justificativa da ‘rebelde’ Galisteu não foi convincente.


ENQUADRAMENTO O ‘Roda Viva’ ganhará novos cenário e vinhetas em 2008. Mas o apresentador continuará o mesmo, o também presidente da TV Cultura, Paulo Markun.


LOS HERMANOS O SporTV resolveu investir na seleção argentina de showbol, futebol disputado em quadra sem laterais (a bola não sai). Comprou os direitos dos próximos jogos da equipe, que tem Maradona e Caniggia.’


 


ARTE
Fabio Cypriano


Em crise, 28ª Bienal não terá exposição


‘A 28ª Bienal de São Paulo, que será realizada entre outubro e dezembro do próximo ano, não terá uma exposição no formato usual e um andar inteiro do edifício projetado por Oscar Niemeyer ficará vazio durante os dois meses do evento.


O curador Ivo Mesquita foi anunciado, ontem, como responsável pelo projeto, denominado ‘Em Vivo Contato’, que prevê ainda um ciclo de conferências, uma praça, no térreo, para encontros e acontecimentos, como performances e concertos, e outro andar composto por uma biblioteca e um arquivo. Desde a primeira edição, em 1951, é a primeira vez que uma Bienal deixa de expor obras.


O processo de seleção do curador desta edição foi bastante tumultuado. Diversos curadores foram convidados a apresentar um projeto e se recusaram a entregar -entre eles Mesquita, que chegou a ser o responsável pela 25ª Bienal, e no centro de uma polêmica com o então presidente, Carlos Bratke, em 2000, saiu do posto.


Para a 28ª Bienal, apenas Marcio Doctors entregou um projeto para a instituição. Ao saber que havia sido o único, recusou-se a continuar no processo, mas, acatando um pedido do presidente da instituição, Manoel Francisco Pires da Costa, aceitou realizar um projeto em parceira com Mesquita.


Na última segunda, Doctors renunciou ao cargo, afirmando que o projeto proposto não seria cumprido na íntegra, pois ele teria um segundo momento, em 2010, com uma mostra que tivesse o vazio como tema.


‘Propusemos deixar o segundo andar vazio, no próximo ano, para simbolizar a crise pela qual atravessa a instituição’, disse Doctors à Folha.


Além do prazo exíguo para a organização da Bienal, diversos curadores não aceitaram participar em razão dessa crise. A atual presidência da Bienal esteve envolvida em várias polêmicas, neste ano, e chegou a assinar um ajuste de termo de conduta com o Ministério Público, por cometer irregularidades com a publicação ‘Bien’Art’ e a contratação de parentes de Pires da Costa.


Financeiramente, a Fundação também atravessa dificuldades, pois ainda não pagou grande parte dos gastos com a 27ª Bienal, realizada no ano passado, como os de transporte ou os honorários da curadora espanhola Rosa Martinez, além dos catálogos da mostra não terem sido publicados.


No projeto divulgado ontem pela Fundação Bienal, Mesquita, que se encontra no exterior, afirma que ‘faltando menos de um ano para a próxima edição, não é mais viável montar uma grande exposição nos moldes habituais’. Ainda de acordo com o projeto, ‘a Bienal precisa de um momento para reflexão, para sistematizar conhecimento e pertinência, uma vez que seu modelo original parece criticamente exaurido’.


Ironicamente, as galerias paulistanas que organizam a mostra ‘Paralela’, evento simultâneo à Bienal, já têm um curador, o mineiro Rodrigo Moura, e a exposição está sendo preparada. Contudo, sem uma exposição na Bienal, galeristas avaliam que o afluxo de curadores e colecionadores estrangeiros caia sensivelmente, colocando em questão a própria ‘Paralela’.’


 


DOCUMENTÁRIO
José Geraldo Couto


Coutinho questiona o real e a ficção


‘Pelo menos desde ‘Santo Forte’ (1999), Eduardo Coutinho chama sempre de ‘personagens’ os entrevistados de seus documentários. Com isso, o cineasta pretende chamar a atenção para o que existe de ficção na construção que cada indivíduo faz de sua própria imagem, sobretudo quando se expõe ao outro.


O mais interessante, como fica patente em seus filmes, é que essa parcela de ‘mentira’ não só faz parte da verdade de cada um, mas é componente essencial da sua identidade. Somos o que somos e o que imaginamos ou desejaríamos ser.


Pois bem. Em ‘Jogo de Cena’, Coutinho radicaliza e aprofunda essa idéia ao entremear mulheres ‘comuns’ (convocadas por um anúncio de jornal a contar suas vidas diante da câmera) com atrizes que encenam depoimentos filmados.


Produz-se então no espectador uma sucessão de estranhamentos. Primeiro, ele vê um punhado de mulheres desconhecidas, de várias idades e origens sociais, expondo-se cruamente, relatando seus dramas mais íntimos.


Aos poucos vão surgindo rostos conhecidíssimos (Andréa Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pêra) repetindo as mesmas histórias, com ligeiras variações de texto e entonação.


Intercaladas a essas encenações e a esses depoimentos ‘reais’, há explicações das atrizes sobre sua relação com as personagens, sobre suas dificuldades de encarnar seus papéis, sobre técnicas de interpretação etc.


Mas aí vem uma outra virada: as atrizes começam a falar, aparentemente, de si próprias, de suas vivências pessoais.


O que haverá de verdade nisso? O que haverá de mentira (deliberada ou inconsciente)? Onde está a fronteira entre o depoimento e a atuação, entre o que se revela e o que se constrói? Mais perturbador ainda é ver que duas mulheres desconhecidas contam exatamente a mesma história de vida. Qual das duas é atriz? Qual das duas fala a verdade? E se ambas forem atrizes?


Essas e outras perguntas instigam o espectador e iluminam ao mesmo tempo a condição humana (em especial a feminina) e a arte da representação. E Coutinho faz o que parecia impossível: um filme ainda melhor que os anteriores.


JOGO DE CENA


Direção: Eduardo Coutinho


Produção: Brasil, 2007


Com: Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra


Onde: pré-estréia hoje, às 19h, no Cine Bombril. Em cartaz a partir de amanhã no Bombril, no Espaço Unibanco e no iG Cine


Avaliação: ótimo’


 


LITERATURA
Eduardo Simões


Em livro, Pamuk constrói alegoria entre leste e oeste


‘Em 1985, então com 33 anos, o escritor turco Orhan Pamuk ainda não havia alcançado notoriedade internacional quando lançou ‘O Castelo Branco’, que sai agora no Brasil. Nele, Pamuk fez uma alegoria da relação entre Oriente e Ocidente, tema que marca quase toda sua obra, através de um recurso caro à literatura mundial: a figura do ‘Doppelgänger’, o ‘duplo’.


No romance, Pamuk retoma um personagem de seu segundo livro, ‘A Casa Silenciosa’, o acadêmico Faruk Darvinoglu, que, num prefácio, revela ter achado um manuscrito do século 17. O texto narra a história de um jovem italiano aprisionado por uma esquadra turca, levado a Istambul e feito escravo de um turco idêntico a ele.


Os personagens passam a trocar seus conhecimentos e visões de mundo ao ponto de o italiano se ‘orientalizar’ e de o turco se ‘ocidentalizar’.


‘O livro foi minha contribuição ao gênero, sendo que utilizo, de forma alegórica, o Ocidente e o Oriente como ‘duplos’, diz Pamuk à Folha, apontando aí referências a autores como Jorge Luís Borges (especificamente o conto ‘A História do Guerreiro e da Cativa’, de ‘O Aleph’), e Edgar Allan Poe (‘William Wilson’).


Pamuk, no entanto, ressalta que o livro não se limita à metáfora da relação ‘leste-oeste’. ‘Afora os elementos simbólicos, trata-se da história de dois indivíduos solitários que tentam se descobrir ensinando, um ao outro, tudo que sabem.’


Periferia


Orhan Pamuk esteve no Brasil em 2005, quando participou da Festa Literária Internacional de Paraty. Da literatura brasileira, conhecia obras de Clarice Lispector e de Machado de Assis, a quem considera bastante moderno e experimental para seu tempo. De sua passagem pelo país, lembra-se das andanças no Rio, que compara a Istambul. Além dos ‘contrastes entre a ruína e o moderno’, ambas teriam a mesma qualidade melancólica de quem vive na periferia do Ocidente.


Em 2006, Pamuk recebeu o Nobel de Literatura, tido como indicação da intelligentsia européia de apoio político ao escritor, que no ano anterior havia sido acusado pela Turquia de ofender a nação. Pamuk havia dito a um jornal que seu país fora responsável pelo genocídio de armênios e curdos.


O escritor, que viu o alcance de sua obra aumentar após o Nobel -segundo ele mesmo, de um número relativamente pequeno de traduções para mais de 50- lamenta que todo o episódio tenha feito com que jornalistas do mundo todo o vejam mais como uma figura política do que um autor de ficção -o ofício que reitera e descreve em discursos como o que fez ao receber o Nobel, presente em ‘A Maleta do Meu Pai’, também lançado agora no país.


Pamuk não se esquiva, no entanto, de comentar as ameaças da Turquia de invadir o norte do Iraque em retaliação aos ataques da guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdistão. ‘Tenho a esperança de que tudo se resolva pelos caminhos diplomáticos’, diz.


Temas como política e guerra não devem sair da agenda de Pamuk tão cedo, no entanto. Vencedor do prêmio da Paz na Feira de Frankfurt em 2005, antes mesmo de receber o Nobel, o escritor voltará à cidade em 2008, quando o evento homenageia a literatura turca. Pamuk, que lançará na Alemanha seu novo romance, ‘Museum of Innoncence’ (museu da inocência), espera que a feira coloque em debate questões como a censura e a conflituosa relação de seu país com os curdos.’


 


MÚSICA
Folha de S. Paulo


Maioria não paga por álbum do Radiohead na net


‘Desde que a banda inglesa Radiohead disponibilizou seu disco ‘In Rainbows’ na internet, pelo preço que o internauta quisesse pagar, só 38% dos que baixaram os arquivos pagaram por ele. Enquete com cerca de 2 milhões de internautas demonstrou que o preço médio pago pelos ingleses é de 6 libras (R$ 21). Norte-americanos desembolsaram em média US$ 8 (R$ 13,80).’


 


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