Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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CADERNO DA CIDADANIA >

Canabis, notícia e preconceito

Por Akhenaton Buarque em 04/08/2009 na edição 549

Faço parte do Coletivo CabeSativa e sou estudante da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). No dia 7 de julho, a Rede Globo veiculou uma matéria sobre o consumo de maconha na universidade. O fato é que a reportagem criminalizou estudantes e funcionários usando como base o depoimento de única pessoa – um suposto ex-aluno – excluindo o posicionamento da maioria da comunidade acadêmica que não sente o clima de medo e terror relatado pelo entrevistado. Além disso a reportagem acusou a existência de tráfico dentro da universidade, remetendo na fala da repórter a um recurso de edição em que um grupo de jovens que está consumido a erva é associado a outro grupo que passa uma sacola plástica que, na realidade, continha ração de peixe (os alunos mostrados são do curso de Engenharia de Pesca).

Não existem provas explicitas e contundentes para acusação de tráfico dentro da universidade. E a reportagem caracterizou o lugar como ponto de distribuição e consumo de maconha.

É preciso discutir esse tema sob o eixo da incoerência jornalística, apoiada na deturpação e a omissão da veracidade com que as informações são colocadas. Veja os vídeos a seguir:

** Em cima da hora (Globo News)

** Bom dia Brasil (Rede Globo)

** NETV (Rede Globo Nordeste)

A seguir, nossa reposta à reportagem:

Nós, os estudantes que compomos o coletivo cabeça ativa da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), cidadãos comuns deste grande Pernambuco ‘democrático’, vimos por meio desta manifestar a nossa preocupação com os desrespeitos à Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos cometido pela Rede Globo de Televisão.

Numa linha de notícia-espetáculo (sensacionalista), que vai se tornando comum na imprensa mundial e na brasileira em particular – sobretudo na TV – a reportagem da Globo montou uma matéria para caracterizar com as imagens e falas captadas, uma atmosfera de crime e medo ali existente, impunemente. A matéria deprecia, discrimina e criminaliza alguns alunos que foram facilmente reconhecidos (apesar do efeito usado na edição para não mostrar o rosto das pessoas), insinuando-os como traficantes e se apoderando da associação de senso comum maconha-vagabundagem.

Para as pessoas que fumam maconha e não oferecem nenhum risco à sociedade é construído um mundo cada vez falso onde não cabem senão como repetidores de uma moral que lhes é estranha. E o medo existe: medo de ser confundido com um bandido, medo de ser marginalizado, medo de ser preso, medo de ser descriminado.

Quem realmente estuda na UFRPE sabe que as praças do Centro de Graduação são espaços de sociabilidade, descanso e lazer, e quem quer estudar comumente procura as salas de estudo, a biblioteca ou até mesmo as salas de aula e não fazem como o suposto ex-aluno que afirma que ‘ali é um local propício pra gente poder estudar’. Isso fundamenta a conclusão de que o caráter abominável e ofensivo da reportagem descarta totalmente os princípios básicos do jornalismo e coloca um meio de comunicação, que é de concessão pública, contra alguns setores da sociedade devido a interesses específicos.

O Brasil é miscigenado, todos sabem, e muitas vezes temos orgulho. Tal miscigenação não se dá apenas na cor/raça, culinária etc., mas em todos os elementos que compõem a nação; e com a canabis sativa não é diferente: a erva tem sua história em nosso país, sedimentada em pilares nativos (índios), europeus e negros (escravos africanos) que tinham o hábito de cultivar e consumir a erva. No entanto, com a disseminação de grande parte da população indígena e a presença européia diminuída, o consumo da maconha fica mais evidente e vinculado à população escrava negra.

Em meados da década de 1920, o cultivo e consumo da maconha são proibidos no Brasil com justificativas criminais e interesses políticos e econômicos – sobre os quais não nos aprofundaremos neste momento. Porém, o seu uso já estava incorporado em nossa sociedade nas mais diversas camadas: pobres, ricos, intelectuais, artistas, políticos, estudantes etc. faziam e fazem uso da planta.

Assim, com esta breve introdução sobre a gama de elementos que podem ser introduzidos – e que foram omitidos, intencionalmente, nas matérias – nós, do Coletivo CabeSativa, chamamos à atenção a população interessada na temática (seja consumidor ou não) para discuti-la de modo justo e democrático.

Também, aproveitando a oportunidade, gostaríamos de chamar a atenção do maior número possível de pessoas, para uma outra temática de tamanha importância social: a veracidade e honestidade com que as notícias nos são colocadas.

O pressuposto da democracia é o direito a informação e decisão. E não podemos deixar que este direito ainda tão caro para nós brasileiros seja subtraído por uma classe dominante que por se achar dona dos maiores meios de comunicação – todos os canais de TV são concessões públicas – se vê no ‘direito’ de mentir, difamar, disseminar pânico e preconceitos em nome da audiência, do lucro e de seus interesses ideológicos.

******

Estudante da UFRPE e membro do CabeSativa, Recife, PE

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