Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > FOLHA DE S. PAULO

Carlos Eduardo Lins da Silva

13/01/2009 na edição 520

‘A cobertura que a Folha está fazendo do confronto entre Israel e Hamas motivou 136 leitores a se dirigir ao ombudsman para manifestar-se sobre ela. É o maior número de mensagens recebidas sobre um assunto em quatro meses.

A maioria foi em reação a textos opinativos: 24 ao de João Pereira Coutinho, 11 à coluna de Sérgio Malbergier na Folha Online (ambos favoráveis a Israel) e 16 à de Clóvis Rossi (crítico dos israelenses).

Não há muito que o ombudsman possa fazer quando o leitor se dirige a ele para se queixar de opiniões de que discorda. O ombudsman historicamente não trata da opinião de colunistas ou mesmo do jornal.

Porque opinião é uma questão parecida com religião. É muito difícil provar que uma é ‘certa’ e outra ‘errada’. É algo que entra no terreno das convicções, dos valores pessoais.

O ombudsman tem de se ater aos aspectos técnicos do jornalismo, ao factual, ao comprovável, ao verificável, para não cair nesse terreno pantanoso das opiniões.

Desde que o jornal assegure que os vários lados em disputa tenham sua posição publicada de maneira mais ou menos equilibrada, ele estará cumprindo sua tarefa de fomentar o debate público. Creio que a Folha tem agido desse modo nestas duas semanas.

Alguns leitores pediram a minha opinião. Na condição de ombudsman, minha opinião sobre os fatos é irrelevante. Revelá-la publicamente, inclusive, atrapalharia o meu trabalho porque qualquer crítica técnica que eu fizesse depois disso poderia ser interpretada como se eu estivesse me valendo dela como instrumento para favorecer a minha posição individual.

Depois das opiniões, as fotos de crianças foram o ponto lembrado por maior número de leitores: 31, dos quais apenas 3 defenderam a sua publicação. Já tratei desse aspecto na semana passada e mantenho minha posição de que, por enquanto, o jornal tem agido dentro de parâmetros aceitáveis, sem descambar para a morbidez ou sensacionalismo.

Além da manutenção do apartidarismo, o melhor da cobertura do conflito tem sido a atuação do seu enviado especial. A correspondência de guerra é uma das mais difíceis tarefas do jornalismo, especialmente quando uma das partes limita a mobilidade dos repórteres, como faz o governo israelense, que os impede de entrar em Gaza.

Mas o correspondente pode, como o da Folha tem feito, oferecer ao leitor uma perspectiva que lhe interesse de fato, por conhecer bem a maneira de pensar do seu público e por trazer informações que dizem respeito ao Brasil e a brasileiros.

O melhor correspondente, como mostra Evelyn Waugh no genial romance indicado abaixo, é aquele que escreve como se redigisse cartas para a família, alertando-a para os pontos que ele sabe que vai chamar sua atenção.

A cobertura não está livre de falhas. É incompreensível e injustificável a ausência de textos dos correspondentes do jornal nos EUA. As iniciativas diplomáticas brasileiras têm sido bem noticiadas mas pouco analisadas. Até sexta, só um artigo de fundo e nenhuma entrevista de fôlego tentaram destrinchá-la. Não se tem dado, a meu ver, a importância devida ao papel do Irã nesse conflito. A edição tem sido desleixada no que se refere a remissões a outras páginas do jornal onde o assunto é tratado fora das do noticiário.

No geral, no entanto, o jornal tem feito um bom trabalho neste caso.

***

Hitler, Churchill, Obama, Lula e a relação entre físico e política

Adolf Hitler tinha 1,73 m e 78 kg. Winston Churchill era mais baixo (1,70 m) e muito mais gordo (mais de 100 kg). Vistos à distância, sem camisa, o alemão causaria impressão mais favorável que o inglês à maioria das pessoas.

É plausível afirmar que a maioria das pessoas também daria a Churchill avaliação bastante superior à de Hitler como líder nacional nos anos 1940.

Não há relação razoável entre forma física e desempenho político, administrativo ou de qualquer outra espécie que seja de interesse público.

Na terça-feira, no entanto, a seção Folha Corrida teve a ideia de editar, juntas, fotos do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, e do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em passeios à beira-mar vestidos apenas com calção de banho.

O leitor Fábio Henrique Gomes considerou a comparação ‘ridícula’. Disse ler a Folha há décadas e não lembrar de ‘algo tão grotesco por sua inutilidade e preconceito’. Concordo.

Há muitas razões para o jornal exercer o seu direito (e dever) de criticar o presidente da República. Sua aparência física não está entre elas.

PARA LER

-’Furo! – Uma História de Jornalistas’, de Evelyn Waugh, tradução de Roberto Perosa, Companhia das Letras, 1989 (a partir de R$ 10 em sebos) A mais divertida e inteligente história sobre correspondentes de guerra da literatura

-’Jornalismo e Desinformação’, de Leão Serva, editora Senac, 2001 (a partir de R$ 30,02) Reflexões sobre o papel da imprensa em situações de conflito internacional a partir da experiência do autor como correspondente de guerra na ex-Iugoslávia

-’O Americano Tranquilo’, de Graham Greene, tradução de Cássio de Arantes Leite, Globo, 2007 (a partir de R$ 22,40) Grande romance inspirado pela própria vida do autor, que foi correspondente de guerra no Vietnã nos anos 1950

PARA VER

-’Promessas de um Novo Mundo’, de Justine Arlin, Carlos Bolado e BZ Goldberg, 2001 (disponível para locação) Crianças palestinas e israelenses falam sobre sua vida em Jerusalém (indicação da leitora Cláudia Guimarães)

-’Paradise Now’, de Hany Abu-Assad, 2005 (a partir de R$ 12,90) Magnífica ficção sobre dois amigos palestinos recrutados para um ataque como homens-bomba em um atentado em Telaviv

-’Free Zone’, de Amos Gitaï, 2005 (a partir de R$ 39,90) A história da viagem de uma americana judia de Jerusalém à Jordânia, onde seu taxista vai cobrar uma dívida de uma palestina

PRÓ-MEMÓRIA

Tema a ser retomado

Caso Igor Ferreira, promotor acusado de ter matado a mulher, foragido desde abril de 2001

DE QUEM É O PAINEL?*

Cartas do leitor 60

Cartas do noticiado 1

Centímetros do leitor 474

Centímetros do noticiado 11

Centímetros de boas festas 40

*De 03/01/09 a 09/01/09

ASSUNTOS MAIS COMENTADOS DA SEMANA

1. ISRAEL E PALESTINOS

2. TEMAS DE ESPORTE

3. CRISE ECONÔMICA

ONDE A FOLHA FOI BEM…

PAINEL DO LEITOR

Desde que o placar sobre a seção começou a ser publicado, esta foi a semana em que ela chegou mais perto de ser o que deve

NÚMEROS COM SENTIDO

Na quinta, reportagem sobre congelamento do Orçamento de São Paulo trata cifras enormes como é preciso, com comparações que lhes dão sentido para o leitor

…E ONDE FOI MAL

COLUNISTAS

Colunistas e colunas ‘desaparecem’ do jornal, que não informa ao leitor nada sobre seu paradeiro

VÍDEO PARA PRISIONEIROS

Notícia da sanção de projeto de lei que permite videoconferência para presos, tema que mereceu destaque por semanas, sai escondida em pé de página na sexta’

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