Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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CADERNO DA CIDADANIA >

Carlos Eduardo Lins da Silva

03/03/2009 na edição 527

‘O carnaval é uma das chaves para entender o Brasil, como bem explicaram alguns de seus grandes intérpretes, como Jorge Amado e Roberto DaMatta. Sua própria desfiguração, apontada nestas páginas no domingo por Janio de Freitas, provavelmente reflete as que o próprio país vem sofrendo. Como o Carnaval é o território da licença, esta coluna escapa um pouco de suas características habituais e se constitui hoje de anotações esparsas feitas durante o ‘reino de Momo’.

É natural e inevitável que os jornais se enxuguem nos feriados longos por falta de acontecimentos geradores de notícias quentes. Mas, se diminuem os fatos, aumenta o tempo disponível do leitor e, por lógica, deveria crescer proporcionalmente o material oferecido a ele para poder fazer reflexão calma.

Por isso, é incoerente o encolhimento do Mais! nessas ocasiões. Seu leitor teve quatro dias livres. Deveria ter tido à disposição mais textos para ajudar a preenchê-los bem, não menos.

Também é errado não publicar suplementos como Folhinha, Vitrine e Folhateen. Eles não dependem de notícias do dia, como o corpo do jornal. Se é compreensível que editorias como Brasil e Dinheiro encolham em feriados prolongados, nada explica por que o mesmo deva ocorrer com suplementos frios. Ao contrário, deveriam crescer para compensar o leitor pela perda no resto.

A cobertura das atividades carnavalescas em si foi previsível e preguiçosa. Todos os lugares-comuns de todos os anos se repetiram. As fotos de sempre de mulheres quase ou totalmente despidas, as fofocas habituais sobre celebridades em camarotes, os comentários corriqueiros dos desfiles de escolas de samba. Não espanta que apenas três leitores tenham mandado mensagens ao ombudsman para comentar esse material.

Irrelevâncias mil imperaram. Duas vezes, na capa de sábado e em Folha Corrida de segunda, foto e texto informaram que uma cantora obscura havia desfilado um mês após dar à luz. E ainda sobrou vulgaridade, como dar como título de texto-legenda de foto de exuberante passista quase nua a expressão ‘abundância no enredo’.

A redução da equipe de jornalistas e o clima de relaxamento que caracterizam esses feriados se fizeram sentir em falhas que denotam desleixo inaceitável para quem paga o mesmo preço por produto que deveria manter mínimo padrão de boa qualidade diária.

De paginação confusa, em que páginas com numeração ímpar ficaram à esquerda e par, à direita do leitor, a textos descuidados, como o da manchete de terça, o jornal claudicou diversas vezes, em demonstração de desrespeito pelo seu consumidor.

As pequenas e grandes tragédias na cidade e no Estado continuaram a ocorrer, inclusive enchentes típicas da época. Não choveu três dias sem parar, como pede a marchinha, mas o suficiente para provocar grave acidente no parque da Aclimação, muitos alagamentos e, desgraçadamente, mais mortes.

A Folha pouco alterou o que vem sendo seu padrão de baixo espírito crítico em relação às autoridades públicas responsáveis por atenuar os efeitos da natureza. Só ontem elevou o nível de cobrança da Prefeitura de São Paulo por sua inação nesses casos.

Mas ainda não buscou respostas para o aumento no número de desabamentos de construções e deslizamentos de terra, nem cobrou dados sobre quais são as áreas de maior risco em São Paulo.

Na quarta-feira de cinzas, o ombudsman sofreu os efeitos da ressaca da repercussão do editorial do dia 17 que se referiu à ditadura militar brasileira. O total geral de reclamações nos dez dias foi de 174.

Na terça, em saudável demonstração de respeito ao debate, publicou-se artigo de editor que critica o editorial. Na quinta, os dois leitores que haviam recebido resposta que considerei inadequada da Redação a suas manifestações tiveram cartas publicadas sem contestação. Espero que o espaço do ‘Painel do Leitor’ não volte a se assemelhar ao de ringue de boxe.

Também na quarta, a primeira página da edição nacional deu excerto de coluna que criticava o presidente da República por nada ter feito para impedir as demissões na Embraer, embora desde dezembro se soubesse delas.

Se de fato desde dezembro se sabia das demissões, a crítica ao presidente também se aplica ao jornal, que nada publicou sobre o assunto, exceto uma nota de cinco linhas em 12 de dezembro, na qual o presidente da empresa classificava a possibilidade de demissões ‘especulação pura’.

A presença da ministra Dilma Rousseff no Carnaval do Recife deu o mote para a Folha voltar a assunto que já estava batido e cuja repetição é injustificável jornalisticamente: a cirurgia plástica a que ela se submeteu.

Desde a primeira notícia em 24 de dezembro até as três fotos na página A4 de domingo para mostrar de novo seus efeitos (após menção a ela na primeira página de sábado), a plástica de Dilma foi tema do jornal 32 vezes. Ou seja: dia sim, dia não em dois meses, o jornal tratou disso.

Políticos do sexo masculino passam por plásticas, tingem cabelo e bigode, fazem implantes capilares. Não me recordo de o jornal ter tornado esses artifícios masculinos seu assunto recorrente como no caso da ministra.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 1/3/09.

PARA LER

‘Carnavais, Malandros e Heróis’, de Roberto DaMatta, Rocco, 1998 (a partir de R$ 33,25) – uma das mais completas, lúcidas e originais interpretações do Brasil a partir de ‘rituais nacionais’, entre eles o Carnaval

PARA VER

‘Orfeu Negro’, de Marcel Camus, 1959 (a partir de R$ 39,90) e ‘Orfeu’, de Carlos Diegues, 1999 (disponível para locação) – duas releituras do mito grego de Orfeu ambientados no Carnaval carioca, uma de 50 anos atrás, outra de dez, permitem perceber os contrastes que ocorreram na vida brasileira nesse período

ONDE A FOLHA FOI BEM…

Faculdades particulares

Manchete de quinta foge do ramerrame habitual e trata de maneira crítica assunto em que geralmente o jornal não costuma ir fundo: a situação do ensino superior privado no país

…E ONDE FOI MAL

Orçamento americano

Dimensão histórica da proposta orçamentária de Obama, que pode reverter 28 anos de conservadorismo econômico, não recebe tratamento editorial compatível

Samba na edição

Noticiário sobre economia americana tem sambado nas edições, dia em Mundo, dia em Dinheiro, dia em ambos, para a confusão do leitor’

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