Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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CADERNO DA CIDADANIA >

Carta a uma dondoca

Por Deonisio da Silva em 23/02/2009 na edição 526

Querida Dondoca,


Estou cortando o cabelo ao lado da senhora, num salão mais freqüentado por mulheres do que por homens. Um romancista adora esses locais, são incríveis as histórias que ouve, húmus para seu ofício, não apenas nos livros, mas nas colunas para a mídia.


Sempre passo momentos muito agradáveis nos salões, onde diligentes profissionais aparam pelos e cabelos enquanto outros cabelos são, além de lavados, pintados. O meu é apenas cortado. Quem o salpicou de branco foram os anos, não os cabeleireiros e os barbeiros.


Fazendo a memória brotar enquanto aqui ao lado a senhora tagarela sem parar, recordo que hoje teria preferido, se possível, mandar o cabelo numa cestinha para ser cortado enquanto eu esperaria na universidade, tantos são os trabalhos que afligem um professor no começo do ano letivo.


E ainda tenho esta coluna para escrever. E preciso ainda concordar em ser homenageado em Santa Catarina como patrono da maior feira de livros de meu Estado natal. E ultimar as tratativas que me levarão à Feira do Livro de Ribeirão Preto, à qual não falto nunca! E dizer à Itália em que data posso estar em Nápoles para autografar Avanti, Soldati, Dietro-front! E dar um jeito de não me exibir muito por ter sido apresentado no mercado editorial da Europa por ninguém menos do que o Prêmio Nobel José Saramago.


Para a senhora, porém, eu não passo de um cabeludo a mais que, desgrenhado e silente, veio cortar o cabelo num salão de senhoras, em vez de ir a um barbeiro, como fazem quase todos os homens.


A senhora fala sem parar. Vejo – aliás, não vejo nada, estou cortando o cabelo e não posso virar a cabeça, pois a mulher pode cortar minha orelha – e ouço a senhora referir um exército de profissionais que a atendem.


Ficaram fora do salão, como cachorrinhos de estimação cuja entrada fosse proibida no recinto. Lá fora estão, pois, o motorista, o segurança e o professor de ginástica, que a senhora chama de personal trainer.


Aqui dentro estão as moças que lhe fazem as unhas (pés e mãos), os calcanhares (uma delas maneja certa maquininha que lhe tira os calos) e mais uma porção de serviços que nem sei se é de bom tom referir numa crônica.


A senhora há pouco falou em depilação dos sovacos – perdão, das axilas, a senhora jamais diria sovaco para axila, sua classe adora os eufemismos. Quem tem sovaco, é pobre; rico tem axilas!


Quase lhe ofereço novo trabalho. E neste caso a senhora poderia dispensar o outro profissional que já contratou para levá-la ao cinema, ao teatro, aos concertos, à vernissage, palavra que designa justamente o que ele faz: enverniza a senhora, deixa a senhora brilhando para atuar em qualquer conversa cultural que naturalmente não dure mais do que poucos minutos. A profissão dele é recente nas metrópoles.


Eu poderia ser seu tutor, seu professor particular, como os imperadores romanos tiveram os seus, como reis, rainhas, príncipes e princesas tiveram os deles. Poderia ser para a senhora o que foi Sêneca para Nero! A senhora aprenderia muito comigo, inclusive a falar mais baixinho, mais suave, num timbre delicado, tornando-se companhia agradável para todos. Em resumo, a senhora teria o que dizer e saberia como fazê-lo, não ficaria nessa conversa zen, isto é, ‘zen-sentido’, que agora a acomete.


Ah, o que é a solidão, minha senhora! A senhora desposou um varão que lhe deu tudo, menos a companhia dele mesmo! Onde ele estará agora é tema que não lhe interessa, desde que os cartões de crédito que a senhora passa sem cessar em todas as lojas tenham sempre os limites que a senhora precisa. A senhora comprará sempre tudo o que quer, não apenas o que precisa.


A senhora exala um perfume delicioso – deve ser caro; veste uma roupa bacana – sei o preço; calça uma sandália belíssima – deve ter custado uma grana; sua lingerie, nem quero imaginar, mas a senhora há pouco disse que comprou na Itália. Por mais 14 euros teria comprado naquele país também meu livro, uma história de amor entre inimigos, que este ex-cabeludo (a moça está concluindo seu trabalho) um dia escreveu.


Mas a senhora ainda não olhou para mim. Quando me despeço da dona do salão, ela me diz: ‘gosto muito de ler o senhor, livros ou artigos, tanto faz, sempre aprendo alguma coisa e me divirto’.


Então a senhora abre seu sorriso de mulher de importador de vinhos caros, vira-se para saber de quem estão falando, pergunta à moça que a atende ‘quem é ele?’, mas o homem que a senhora não viu desaparece a caminho do elevador.

******

Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século); www.deonisio.com.br

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