Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > QUINTA-FEIRA, 29/1

Circulação de jornais cresce 5% no Brasil

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 29/01/2009 na edição 522

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 29 de janeiro de 2009


 


MERCADO
Folha de S. Paulo


Circulação de jornais aumenta 5% no país


‘A circulação média diária de jornais no Brasil no ano passado cresceu 5% na comparação com 2007, de 4,14 milhões de exemplares para 4,35 milhões de exemplares, segundo o IVC (Instituto Verificador de Circulação), empresa que audita a circulação de jornais no país.


O crescimento nas vendas de jornais em 2007 e 2006 havia sido de 11,8% e 6,5%, respectivamente. Apesar de a expansão em 2008 ser menor que a dos últimos dois anos, o crescimento do mercado de jornais no Brasil tem sido maior do que a média mundial -a circulação média diária no mundo subiu 2,57% em 2007, segundo a Associação Mundial de Jornais.


Entre os principais jornais do país, a Folha registrou maior crescimento na comparação com todos os seus concorrentes diretos.


A circulação média diária da Folha cresceu 2,87% no ano passado sobre 2007. A circulação de ‘O Estado de S. Paulo’ subiu 1,82%, e a de ‘O Globo’, 0,38%, de acordo com o IVC.


Na categoria de jornais populares, o mineiro ‘Super Notícia’, que custa R$ 0,25, obteve expansão de 27,02% em relação a 2007. O jornal ‘Agora São Paulo’, do Grupo Folha, registrou crescimento de 0,17% no período e continua, em sua categoria, líder em circulação média diária (83.400 exemplares no ano passado) em relação aos principais concorrentes paulistas. O ‘Diário de S. Paulo’ registrou queda de 3,41% na circulação em 2008, que recuou para 70.009 exemplares.


Murilo Bussab, diretor de Circulação da Folha, diz que o crescimento do mercado de jornais ‘está claramente influenciado pelos jornais populares e pelos regionais’. ‘E isso parece refletir o desenvolvimento econômico do país em 2008’, completa.


Segundo ele, na categoria dos jornais populares, a circulação média diária no ano passado subiu 11,8% em relação a 2007 e, na categoria dos regionais, 10,4%. ‘O crescimento do ‘Super Notícia’ foi ‘anormal’ comparado com todos os outros jornais, pois teve um modelo de preço extremamente baixo e promoções agressivas para abrir o mercado de Belo Horizonte.’


A Folha, segundo o IVC, é a primeira colocada do ranking de jornais do país, com 7,17% de participação de mercado e circulação média diária de 311.287 exemplares no ano passado. Em segundo lugar vem o ‘Super Notícia’, com 6,98% de participação e venda média diária de 303.087 exemplares. Em seguida estão o jornal ‘Extra’, do Rio, com 6,62% de participação; ‘O Globo’, com 6,48%, e ‘O Estado de S. Paulo’, com 5,67%, aponta o IVC.


Ricardo Costa, diretor-geral do IVC, diz que a venda de jornais está diretamente ligada ao poder aquisitivo da população e que o Brasil tem potencial para expandir esse mercado.


O consumo diário de jornais no país a cada mil habitantes é de 53 exemplares, segundo a Associação Mundial de Jornais. No México, esse número é de 148 exemplares. Nos Estados Unidos, de 241, e, no Reino Unido, de 335 exemplares. ‘Esses dados mostram que existe grande espaço para aumentar as vendas de jornais no Brasil. E vejo que os jornais têm feito um grande trabalho para melhorar cada vez mais os seus produtos’, afirma Costa.


Para Bussab, o desempenho do setor em dezembro do ano passado já mostra desaceleração em relação à média do ano. ‘Isso indica que, para 2009, a expectativa deve ser de um mercado mais estável. Não deverá haver retração por efeito da crise, mas, sim, estabilização num patamar já elevado comparado com os últimos anos.’’


 


 


Lucro do dono do ‘NYT’ recua 47,5% no 4º trimestre


‘O New York Times Company, grupo proprietário, entre outros, do jornal de mesmo nome e que recentemente recebeu um investimento de US$ 250 milhões do bilionário mexicano Carlos Slim, lucrou US$ 27,5 milhões no quarto trimestre do ano passado, queda de 47,5% na comparação com o mesmo período de 2007. A queda, segundo a empresa, foi provocada pela perda de receita com publicidade. No ano, o grupo terminou com prejuízo de US$ 57,8 milhões e contratou o banco Goldman Sachs para explorar a venda de sua participação no time de beisebol Boston Red Sox, um dos mais famosos dos Estados Unidos.’


 


 


Folha também lidera lista dos mais admirados


‘Maior pontuação em atributos como conteúdo editorial, atendimento comercial e independência editorial levaram a Folha a conquistar, em 2008, a liderança no ranking ‘Veículos mais Admirados’ do país, uma publicação do jornal ‘Meio & Mensagem’.


O IPM (Índice de Prestígio de Marca) da Folha foi de 67 pontos. ‘O Estado de S. Paulo’ ficou em segundo lugar, com 65 pontos. Seguem ‘O Globo’, com 48 pontos; ‘Valor Econômico’, com 46 pontos, e ‘Gazeta Mercantil’, com 40 pontos.


Atributos


Os atributos que mais contribuíram para a Folha liderar o ranking de jornal de maior prestígio do Brasil foram conteúdo editorial (73,4 pontos), atendimento comercial (62,3), competência de profissionais (68,3), eficácia (74,1) e independência editorial (56,3).


Feita pela internet no segundo semestre de 2008 com profissionais do mercado publicitário que assinam o jornal ‘Meio & Mensagem’ ou estão cadastrados no M&M Online, a pesquisa, desenvolvida pela Troiano Consultoria de Marca e aplicada pelo Instituto Qualibest, contou com 1.613 questionários respondidos e válidos.


O IPM é calculado pela frequência com que um determinado veículo é associado a cada atributo. A seleção de jornais do país foi feita com base em indicadores de circulação, análises de consultores do mercado de marketing e propaganda e também a partir de resultados de edições anteriores da pesquisa.


Marcelo Salles Gomes, vice-presidente-executivo do grupo Meio & Mensagem, diz que a escolha da Folha como líder de jornais em prestígio ‘é um reconhecimento do mercado publicitário em relação ao trabalho que o jornal vem desenvolvendo nos últimos anos’.


Para ele, o IPM revela a imagem que as pessoas têm dos veículos de comunicação. ‘Ao conquistar a maior pontuação, a Folha mostra que é parceira dos anunciantes e que tem uma atitude próxima do que o mercado publicitário quer e que aceita inovações’, diz Gomes.’


 


 


PROPAGANDA
João Roberto Vieira da Costa


Publicidade, crise e novas demandas sociais


‘A INDÚSTRIA de alimentos decidiu não mais fazer propaganda de alimentos para crianças abaixo de seis anos de idade e vai investir na publicidade educativa para seus pais.


A medida se antecipa a eventuais restrições impostas pelo governo brasileiro a esse tipo de publicidade, em sintonia com ações semelhantes adotadas por governos do mundo todo. Tal decisão ocorre num momento em que muitos se apavoram com as possíveis repercussões da crise econômica global no negócio da propaganda e reforça a ideia correta de que, diante de dificuldades novas, são necessárias novas soluções.


Tradicionalmente, em face de crises de grande envergadura, governos apelam para soluções econômicas ortodoxas. Desta vez, não se limitaram a isso. Seguem alguns exemplos.


– O governo brasileiro anunciou recentemente o Plano Nacional de Combate às Mudanças Climáticas, com impacto desde os grandes empreendimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) até o dia-a-dia de quem desperdiça água lavando calçadas.


– Ao mesmo tempo, o governo da Coreia do Sul anunciou o investimento US$ 38,1 bilhões na proteção do meio ambiente e na geração de energia sustentável para ajudar o país a superar as condições de baixo crescimento. O plano foi chamado de ‘New Deal Verde’.


– O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou um projeto de mais de US$ 700 bilhões para recuperar a economia americana e, dentre os diversos focos, o plano prevê alto investimento na geração de energia limpa.


E, como num prenúncio desse movimento na esfera privada, o economista Jeffrey Sachs, em artigo publicado em novembro passado, argumentou com excesso de razão que o que será cobrado da indústria, a de automóveis, por exemplo, serão saídas mais inovadoras -não a inovação que torna um carro ainda mais veloz, mas a que o faz mais econômico, menos emissor de gás carbônico.


Seu artigo colocou o dedo na ferida de um dos fundamentos da crise: não é o excesso de consumo puro e simples, mas é o excesso de consumo ruim. É como se o mundo não apenas se fartasse de comer ou de beber, mas ainda o fizesse com comida e bebida de má qualidade.


Há anos a pauta da sociedade civil em todo o planeta vem incorporando temas que antes eram secundários, como as bandeiras ambientais, sociais, igualitárias. Mais recentemente, os governos foram obrigados a institucionalizar conquistas e demandas sintonizadas com essas pautas.


E, por último, empresários e grandes corporações vão sendo sensibilizados por essa agenda, seja pelo impacto econômico da exigência dos consumidores, seja pela força das ideias ou da regulação legal.


Exemplos práticos desse processo no mundo empresarial podem ser vistos na internalização da sustentabilidade por algumas corporações, como Vodafone, Panasonic e Natura, que assumiram tanto no conteúdo de sua comunicação quanto na essência dos seus produtos esse conceito. Mas ainda são poucas.


Diante de uma situação tão indeterminada como a que vivemos atualmente, o engajamento nessa agenda pode ser o rumo a um porto seguro. Como vimos pelo descrito acima, a sociedade se movimenta, os governos regulam e, finalmente, o empresariado assume a nova agenda. Mas, infelizmente, em alguns segmentos essa situação nem sequer se completou.


No que diz respeito ao mundo da propaganda e da publicidade, essa mentalidade ainda não se espraiou. Tanto que a indústria de alimento, ao mudar suas estratégias, foi obrigada quase a treinar suas agências para fazerem propaganda responsável.


Poucas vezes vemos lideranças do setor publicitário empenhadas em identificar a importância dessa agenda, seja para o interesse geral da sociedade, seja para a consolidação das marcas que representam.


Na maioria das vezes, quando palavras como sustentabilidade, meio ambiente e responsabilidade social são utilizadas, aparecem como recursos retóricos, e não como tentativa real de fazer um esforço de internalização pelas marcas do vigoroso conteúdo daquelas palavras.


Nós dizemos que, diante da crise, a velha propaganda realmente precisa ser repensada. Não vai bastar o preço baixo, o produto mais ‘soft’, o modelo mais colorido. Tudo precisará ser mais amigável com o planeta, mais preocupado com as pessoas, menos poluente.


E a propaganda não só precisará estar preparada para comunicar isso, mas, desde hoje, seus criativos, seus diretores de planejamento, seus sócios e seus atendimentos devem internalizar o esforço de convencer seus clientes, privados ou públicos, de que o futuro é esse.


JOÃO ROBERTO VIEIRA DA COSTA , administrador público, é sócio-diretor da agência de publicidade NovaS/B. Foi secretário-adjunto da Cultura do Estado de São Paulo (1993/1994), chefe de Comunicação Social do Ministério da Saúde (1997 a 2001) e secretário de Comunicação de Governo da Presidência da República (2001/2002).’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Como no Brasil


‘Fim do dia e a Bovespa disparou nas manchetes dos portais, por conta da Petrobras. Antes e já por alguns dias, agências de Dow Jones a Xinhua e Mercopress noticiam a mais nova descoberta da estatal, agora de gás, em dois blocos no pré-sal.


Mas o que mais ecoa da Petrobras é a confirmação do investimento no pré-sal, desde o anúncio por aqui, com repercussão por agências, ‘Financial Times’ etc. Ontem, o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, deu entrevista ao site e canal Bloomberg detalhando planos e, em especial, meios de financiamento.


O plano de investimento, registre-se, foi louvado ontem pelo artigo ‘Petrobras faz grande aposta’, do editor de economia da ‘BusinessWeek’; pelo editorial ‘Explore como o Brasil’, do Investor’s Business Daily; pela análise ‘Petrobras: uma luz brilhante para as companhias de serviço de petróleo’, no site Seeking Alpha; e pela análise ‘Brasil enfrenta a recessão com investimentos’, da organização Americas Society.


ADEUS, JUROS ALTOS?


A Bloomberg postou ontem a longa análise ‘Brasil dá adeus às altas taxas de juros’ (kisses high rates farewell). Diz que foram ‘mina de ouro para investidores de renda fixa’ por anos, com retorno recorde no mundo, e agora ‘estão a um passo de se tornarem coisa do passado’. O corte pelo Banco Central, semana passada, ‘é mais do que uma simples resposta à recessão global’ e ‘significa que o país enfim começa a se livrar da mais alta taxa mundial’. Dá razões econômicas e políticas, a começar da pressão sobre o ‘politicamente esperto’ Henrique Meirelles.


‘PARTY MONSTER’


A CNBC entrevistou ‘o monstro das festas’ Nouriel Roubini, em Davos, onde ‘ele é como uma estrela de rock’. Ele não desapontou: ‘Nós temos que nacionalizar formalmente os bancos’, nada de paliativos mais


‘ESQUERDISTAS DO MUNDO’


Como prenunciado, diante da crise capitalista, cresceu a cobertura do Fórum Social Mundial em Belém, que agora rivaliza e até supera, como no espanhol ‘El País’, aquela sempre dada ao Fórum Econômico Mundial em Davos.


Mas a agência britânica Reuters ainda despacha textos com enunciados tipo ‘Energizados pela crise, esquerdistas do mundo se reúnem’. E a agência chinesa Xinhua parece também perdida, como em ‘Sociólogos [sic] se encontram no Brasil para discutir a ordem político-social mundial’.


BRICS VÊM AÍ


A Rússia vivia ontem um dia de distensão militar com os EUA, com gestos de boa vontade de parte a parte, mas prossegue a busca de novas alianças pelos russos. Como destacou a agência Itar-Tass, o chanceler Sergei Lavrov anunciou ‘uma cúpula de grande escala dos Brics em São Paulo’, no meio do ano.


IRÃ TAMBÉM


EUA e Irã, ontem, também trocavam palavras de boa vontade, mas o secretário americano de Defesa, Robert Gates, tratou de declarar em depoimento no Senado -e a BBC destacou- que Teerã tem ‘atividades francamente subversivas em partes da América do Sul e América Central’ e já ‘preocupa’.


RAIZ


Saem aos montes os livros sobre a eleição de Barack Obama, em especial quanto ao papel da mídia. Em ‘Como Obama Venceu’, o editor do site Editor & Publisher avalia que as campanhas ‘jamais serão as mesmas’ -e concentra o foco nas ações de ‘netroots’, com a mobilização democrata de raiz, via internet, até chegar ao impacto dos programas de humor


OU VIÉS


O livro que vem provocando maior controvérsia, porém, não se volta às novas ferramentas ou aos novos personagens midiáticos, descobertos na campanha -e sim à denúncia do ‘tórrido romance’ de Obama com a grande mídia ou ‘mainstream media’, escrito por Bernard Goldberg, hoje comentarista da Fox News. No título, ‘Um Caso de Amor Babão’


REAÇÃO EXTREMA


Rush Limbaugh, radialista de extrema direita, já saiu a campo contra Obama e a aproximação de republicanos com o democrata. A diferença é que líderes republicanos, desta vez, responderam.


DIA APÓS DIA


E segue o acúmulo de más notícias sobre o ‘New York Times’. O próprio jornal e outros destacavam ontem a queda no faturamento do quarto trimestre: 47,5%, em relação ao ano anterior.’


 


 


TRIBUNAL
Folha de S. Paulo


Juiz julga improcedente ação contra a Folha


‘A Justiça julgou improcedente a ação na qual a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) pedia indenização por danos morais da Folha em razão do editorial ‘Intimidação e má-fé’, publicado na Primeira Página em 19 de fevereiro de 2008. Cabe recurso da decisão.


O editorial relatava que bispos da igreja tinham desencadeado ‘uma campanha movida pelo sectarismo, pela má-fé e por claro intuito de intimidação’ contra a Folha e outros jornais após a publicação, em 15 de dezembro de 2007, da reportagem ‘Universal chega aos 30 anos com império empresarial’, de Elvira Lobato -que conquistou o Prêmio Esso de Jornalismo no ano passado.


Na sua ação, a Iurd alegava que ‘alguns membros’ da igreja ingressaram ‘voluntariamente’ com ações ‘por se sentirem atingidos pelas ofensas’ do jornal. A igreja também acusava a Folha de ‘demonstrar toda a sua intolerância religiosa’ e de utilizar o ‘poder que possui por meio do jornal’ para ‘propagar falsas informações e ofender ostensivamente a autora’ [a Igreja Universal].


Em sua defesa, a Folha argumentou que, com a publicação do editorial, nada mais fez do que cumprir o seu dever de informar. Sustentou ainda que a Constituição brasileira protege e considera inviolável não apenas o direito de informação, mas também o direito de livre expressão do pensamento.


Na sua sentença, o juiz Dimitrios Zarvos Varellis, da 11ª Vara Cível de São Paulo, julgou que ‘a ação é improcedente’, porque ‘certamente a autora não sofreu dano algum derivado da conduta da requerida’.


O magistrado argumentou que ‘no texto em questão o jornal não ataca a autora, e de modo algum’, e não faz ‘nenhuma referência deselegante à requerente’. O juiz sustentou ainda que a Folha ‘manifestou seu repúdio ao preconceito religioso que, fique bem claro, realmente não existe no editorial’.


Diante disso, Varellis condenou a igreja a arcar ‘com o pagamento das custas e despesas processuais desembolsadas pela requerida, devidamente atualizadas, bem como de honorários advocatícios’.


Já foram ajuizadas 107 ações de indenização movidas por adeptos da Universal contra a Folha. Todas as 66 sentenças foram favoráveis ao jornal.’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Anunciantes surpreendem TVs em janeiro


‘As redes de TV vão fechar janeiro declarando receitas até 30% superiores às do mesmo mês de 2008. O resultado surpreendeu as emissoras, que esperavam retração, por causa da crise econômica mundial.


‘Foi um janeiro muito bom’, diz Henrique Casciato, diretor comercial do SBT, festejando um crescimento de 14%.


Segundo o executivo, setores como o automobilístico e o varejo (Casas Bahia, por exemplo) anunciaram acima das expectativas. Higiene e limpeza, entretanto, decepcionaram.


A Globo também terá boas lembranças de janeiro. Já vendeu todos os espaços comerciais de ‘BBB’. Para suprir a demanda, o reality show está tendo intervalos de até cinco minutos e meio. Só de merchandising, vai faturar mais de R$ 40 milhões. Há também cotas de patrocínio (R$ 54 mi) e os intervalos (não disponível).


A Globo ainda finaliza o balanço de 2008, mas já sabe quanto foi o faturamento total da rede (incluindo afiliadas): R$ 9,5 bilhões. As cinco emissoras próprias da família Marinho arrecadaram R$ 7,2 bi.


Isso quer dizer que a Record, apesar da alta no Ibope, é ainda muito pequena no comercial. A Rede Globo fatura mais de cinco vezes o que arrecadam todas as emissoras da Record (R$ 1,780 bilhão). O SBT (sem afiliadas) faturou R$ 700 milhões.


CONFISCO 1


Antes do início de ‘Big Brother Brasil’, J.B. de Oliveira, diretor-geral do reality, confiscou todos os óculos escuros que os participantes carregavam em suas malas. ‘O telespectador não vê os olhos do cara’, justifica. Óculos foram um recurso muito usado nas edições anteriores. Alemão, vencedor em 2007, não tirava os dele.


CONFISCO 2


Boninho também impediu a entrada de pinças e pranchas para alisar cabelos. Mas está oferecendo chapinhas, para compra ou locação, no ‘supermercado’ que abre às segundas na casa-confinamento.


FÔLEGO


‘Caminho das Índias’, depois de marcar 31,5 pontos no Ibope na segunda, subiu para 35,3 anteontem.


SUBLIMINAR


No capítulo de segunda-feira de ‘Caminho das Índias’, uma lata de refrigerante, de marca fictícia, apareceu em destaque na mesa de Rosane Goffman. A Globo nega que tenha sido uma forma de informar aos anunciantes uma oportunidade de merchandising.


CARREIRA 1


‘BBB’ está fazendo a alegria da Globo também no pay-per-view. A Sky informa que já vendeu mais de 90 mil pacotes, 20% a mais que em 2008, a preços que variam de R$ 87 a R$ 102. A Net vendeu outras 50 mil assinaturas (dado parcial).


CARREIRA 2


A Sky está transmitindo o pay-per-view de ‘BBB’ em dois canais (e não quatro, como a Net). A operadora diz que esse é o modelo que funciona.’


 


 


Ivan Finotti


Ficção retrata subida ao Everest de 1982


‘Apesar da história previsível, a minissérie ‘Everest’, produzida pelo canal de TV paga A&E, traz um acompanhamento detalhado de como funciona uma expedição ao ponto mais alto do mundo, na fronteira entre o Nepal e o Tibete.


Não se trata de um documentário, mas da adaptação de uma expedição canadense realizada em 1982, quando se estapearam alguns integrantes; adoeceram outros; alguns voltaram vivos; outros, mortos. Ou seja, nada de diferente da maioria das histórias de alpinistas levadas para TV ou cinema.


São os primeiros canadenses a chegarem ao topo, e o fato de alguns deles não levarem o projeto tão a sério confere à história de ‘Everest’ aquela simpatia normalmente reservada aos amadores despreparados que, às vezes, superam os profissionais cheios de técnicas.


A minissérie -que será apresentada em duas partes de uma hora e meia cada uma, amanhã e sexta- conta com a aparição do ‘barrado no baile’ Jason Priestley no início do primeiro episódio e a participação de William Shatner, o eterno capitão Kirk de ‘Jornada nas Estrelas’.


Nenhum deles compromete, mas também não acrescenta muito ao programa, que, no mais, é bem produzido, com locações no Canadá e no Nepal.


EVEREST


Quando: amanhã e sábado, às 22h


Onde: A&E


Classificação: não informada’


 


 


EUA
Sérgio Dávila


Um czar na cultura


‘Sem dinheiro oficial, não há cultura. Ao menos, um certo tipo de cultura, aquela que passa ao largo do consumo de massa da indústria do entretenimento, ainda mais em tempos de crise. Tal máxima, tão presente na realidade da produção desse setor em países como o Brasil e regiões como a América Latina e a Europa, começa a se tornar verdade também nos EUA.


Era questão de tempo para que o derretimento da economia atingisse o mundo cultural norte-americano. Começa a atingir. Em média, as doações a fundações culturais tiveram queda de 30% a 35% em 2008 na comparação com 2007, de acordo com cálculos de Melissa Berman, consultora da Rockefeller Philanthropy Advisors.


‘As [fundações culturais] que tinham fundos investidos com Bernie Madoff simplesmente desapareceram’, diz Berman, referindo-se ao investidor norte-americano que deu calote de US$ 50 bilhões na praça. Sofrem desde museus, que realizaram cortes entre 5% e 20%, de acordo com levantamento do ‘Art Newspaper’ nos 50 maiores, até orquestras e óperas -para ficar nas grandes, a Metropolitan Opera de Nova York eliminou 10% dos salários; a de Los Angeles reduziu 25% dos gastos; e a de San Francisco diminuiu o número de apresentações.


Mesmo áreas consideradas ‘à prova de recessão’ registram os primeiros golpes, como Hollywood, que viu a bilheteria nos EUA e no Canadá cair de 1,4 bilhão de ingressos vendidos em 2007 para 1,36 bilhão em 2008, e a Broadway. Nesse ambiente, ganha fôlego um projeto da classe artística de criação no governo Obama do cargo de ‘czar da cultura’.


Seria o equivalente norte-americano ao brasileiro ministro da Cultura, um responsável pelo setor com acesso direto ao presidente, inexistente na atual estrutura do Executivo dos EUA. O mais próximo seria o presidente do National Endowment for the Arts (NEA), fundo federal de apoio às artes com orçamento anual de US$ 145 milhões (ou R$ 333 milhões) -o do MinC brasileiro é de R$ 1,35 bilhão. O posto é político, e o sucessor do indicado por George W. Bush ainda não foi anunciado pelo democrata.


Mas não é o suficiente, defendem os representantes de um setor que responde por cerca de 6 milhões de empregos e injeta US$ 167 bilhões na economia dos EUA todos os anos, segundo números do grupo de lobby Americans for the Arts. Um ‘czar da cultura’ cuidaria de assuntos como incluir, no pacote de estímulo econômico de US$ 825 bilhões do governo, uma fatia para a cultura.


Abaixo-assinado


O principal defensor do novo cargo é o músico Quincy Jones, que levou abaixo-assinado com 200 mil nomes ao novo presidente no dia da posse. A ideia foi vista com simpatia pela Casa Branca, e uma decisão deve sair nas próximas três semanas.


Além de mais ligado ao meio cultural do que seu antecessor, o novo presidente é pródigo em ‘czares’. Desde que assumiu, já deu posse a dois, do meio ambiente e da regulação financeira, e fala em mais alguns, entre eles da indústria automotiva e da intervenção econômica.


O pedido de Jones ganhou o apoio de William Ivey, ex-presidente do NEA, que coordenou a área de cultura do governo de transição e avaliou que houve um descuido do setor nos oito anos de Bush. ‘Se a tarefa [de recuperação] requer a consideração de uma nova agência governamental -um departamento de assuntos culturais com nível ministerial-, que seja’, escreveu ele.’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 29 de janeiro de 2009


 


TECNOLOGIA
Renato Cruz


Mais baratos, netbooks ganham mercado com a crise


‘A indústria de computadores se prepara para uma queda nas vendas este ano, aqui e em todo o mundo. Entretanto, os netbooks, micros portáteis menores e de baixo custo, devem vender mais. E por dois motivos. Primeiro, por serem um tipo de produto razoavelmente novo, com vendas relativamente modestas no ano passado. Depois, pelo preço reduzido e pela portabilidade, que atraem quem já tem outro computador.


A Positivo Informática foi pioneira no País, com o lançamento da linha Mobo em maio de 2008. Ontem, a taiwanesa Asus, a primeira no mundo a apostar comercialmente nos netbooks, anunciou a fabricação local de dois modelos do seu Eee PC. A montagem dos micros foi terceirizada para a Visum, de Curitiba. A Dell planeja lançar um modelo no País nas próximas semanas e a HP, dois modelos, provavelmente em abril. A Itautec espera entrar nesse mercado até o fim do trimestre e outras fabricantes também preparam lançamentos no Brasil.


‘Muitas famílias das classes B, C e D já têm desktops (computadores de mesa)’, afirmou John Chen, gerente-geral da Asus no Brasil. ‘Acreditamos fortemente que o Eee PC pode ser o primeiro laptop para eles.’ Segundo o executivo, que chegou há 10 meses ao País para iniciar a operação local da Asus, a crise pode ajudar o crescimento dos netbooks, num momento em que pessoas e empresas buscam máquinas mais baratas.


Nem tudo o que é possível fazer num PC pode ser feito num netbook. Jogos mais recentes, por exemplo, que exigem muita memória e processamento, não rodam no netbook. Mas o laptop barato funciona bem em atividades mais comuns, como textos, planilhas de cálculo, apresentações, navegação na internet e correio eletrônico. Os netbooks não têm drive de CD e DVD, mas permitem a conexão de leitores externos, além de pen drives e outros dispositivos de memória.


No ano passado, foram vendidos somente 150 mil netbooks no Brasil, segundo a consultoria IT Data. ‘Esse número representou 3,5% dos computadores portáteis vendidos’, disse Ivair Rodrigues, diretor de Estudos de Mercado da consultoria. Para este ano, a previsão é que cheguem a 7% do total dos notebooks. E a projeção para as vendas de portáteis é de crescimento em 2009, apesar de ser esperada uma queda nas vendas totais de PCs, que incluem máquinas de mesa e laptops.


Cerca de 60% dos netbooks comprados no Brasil em 2008 chegaram ao País via contrabando, de acordo com a IT Data. As opções legais eram a Positivo e a Asus, ainda via distribuidor. Com os lançamentos de netbooks previstos para os próximos meses, esse quadro deve mudar.


‘O consumidor hoje busca mais comodidade do que capacidade de processamento ou memória’, apontou Ribeiro. ‘No desktop, o consumidor está olhando primeiro o tamanho do monitor e se tem recepção de TV. O netbook é atrativo por ser mais leve e fácil de carregar – ele pode ser levada numa bolsa sem chamar a atenção do ladrão.’


O netbook foi uma evolução da idéia do professor Nicholas Negroponte, um dos criadores do Media Lab, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), de desenvolver laptops de US$ 100 para crianças. Negroponte fundou a organização sem fins lucrativos One Laptop per Child, para fornecer essas máquinas para governos, enquanto empresas como a Asus levaram o conceito para o mercado de consumo.


Recentemente, a revista The Economist publicou uma matéria sobre os netbooks e citou a Lei de Moore. Gordon Moore, cofundador da Intel, previu em 1965 que o número de componentes em um chip dobra em 18 ou 24 meses. Até agora, a indústria aproveitou a tendência para oferecer, a cada período, um computador duas vezes mais potente, pelo mesmo preço. Os netbooks são uma indicação de que os consumidores preferem um computador igual, mas pela metade do preço.


RAIO X


Netbook: Trata-se de um computador portátil menor e mais barato. Ele tem menos memória e capacidade de processamento do que os laptops convencionais, mas funciona bem nas tarefas mais comuns, como textos, navegação na internet e correio eletrônico. Apesar de não ter leitor de CD e DVD, aceita a conexão de dispositivos externos de memória


Vendas: No Brasil, foram vendidos no ano passado somente 150 mil unidades, segundo a IT Data, o que representou 3,5% do total de portáteis’


 


 


REDE GOSPEL
Rodrigo Brancatelli e Bruno Tavares


Igreja tem emissora de TV em sede irregular


‘Instalada em um galpão com reboco aparente, sem molduras nas janelas, com cara de abandonado, a sede da emissora de TV Rede Gospel está há dois anos e meio com a documentação irregular e nunca passou por vistoria do Corpo de Bombeiros, como determina a legislação municipal. O imóvel fica no número 1.410 da Avenida Lins de Vasconcelos, na região central, a cerca de 300 metros da Igreja da Renascer em Cristo cujo teto desabou há menos de duas semanas e matou nove mulheres. Voltada para o público evangélico neopentecostal, a TV pertence à Fundação Evangélica Trindade, administrada pela Renascer.


Espécie de púlpito eletrônico do casal de líderes da Igreja, Sonia e Estevam Hernandes, a sede da Rede Gospel abriga desde julho de 2006 os estúdios do canal e os arquivos de fitas de vídeo. Pelo menos 40 pessoas trabalham diariamente no local. Segundo o advogado José Fernando Cedeño de Barros, nomeado há dois anos interventor judicial da Rede Gospel depois de denúncias do Ministério Público (MP), o imóvel não tem saída de emergência e muito menos janelas. ‘Trata-se de uma verdadeira tumba’, diz. ‘Do ponto de vista jurídico, a Fundação Trindade, tentáculo da Igreja Renascer, não encontra a mínima condição de funcionamento: ausência de documentação fiscal ou, na melhor das hipóteses, documentação fiscal irregular, balanço inexistente e contas com saldo negativo.’


No primeiro semestre do ano passado, depois de um pedido do MP, a Justiça de São Paulo determinou que o Corpo de Bombeiros fizesse uma inspeção de emergência. O Estado obteve um ofício da Polícia Militar que exemplifica a condição do imóvel – em resumo, a Fundação Trindade nunca obteve auto de vistoria dos bombeiros nem elaborou projeto técnico para conseguir as autorizações necessárias para o funcionamento dos estúdios. ‘Em razão da anterior ocupação ser de um comércio de veículos e atualmente ser uma Fundação Evangélica, com grande número de concentração de pessoas, sem o devido projeto técnico, o responsável deve adequar os equipamentos necessários de prevenção e proteção a combate de incêndios’, diz o documento. ‘Até que se adote tal providência, a edificação estará irregular perante esta corporação.’


A edificação continua irregular até hoje perante os bombeiros, pois ainda não obteve auto de vistoria. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Coordenação de Subprefeituras confirmou que não há licença de funcionamento para o endereço. Segundo a Assessoria de Imprensa da Renascer, ‘já houve adiantamento de várias medidas necessárias para a aprovação do auto de regularização. Detectores de fumaça, pinturas de sinalização, extintores bem localizados, tudo já está instalado e em funcionamento; falta, contudo, um ou outro detalhe, pequeno. Assim, será possível chamar a vistoria’.


Ainda de acordo com a assessoria, em novembro do ano passado, a Rede Gospel entrou com os primeiros documentos nos bombeiros, mas ainda não concluiu o processo. Esse não é o único problema da Fundação Trindade. Em setembro de 2007, a Justiça decretou a intervenção da entidade e o afastamento de seu presidente, Estevam Hernandes Filho. Na opinião do juiz Marco Aurélio Costa, da 2ª Vara da Família, há indícios de que a Fundação Trindade se converteu no ‘grande motor propulsor de arrecadação de dinheiro de fiéis da Renascer’.


Na ação penal, o juiz também afirma que ‘é exposta a ligação íntima da Fundação com outras empresas, todas conexas com a Igreja Renascer, o que a coloca na condição de instrumento utilizado pelos seus dirigentes para a consecução de seus propósitos delituosos’.’


 


 


FOTOGRAFIA
Antonio Gonçalves Filho


O olhar brasileiro


‘O fotógrafo piauiense José Araújo de Medeiros (1921-1990) não foi certamente o primeiro fotojornalista brasileiro, mas foi com ele que nasceu um modo especial de ver as minorias étnicas do Brasil. Algumas das primeiras fotos que documentam um ritual de iniciação de filhas-de-santo num terreiro baiano de subúrbio foram feitas por Medeiros como profissional da revista O Cruzeiro, para a qual trabalhou de 1946 a 1961. É justamente esse o período das principais imagens expostas, a partir de hoje, na mostra Candomblé, no Instituto Moreira Salles (IMS) em São Paulo. Ela traz o ensaio fotográfico homônimo, realizado entre 1951 e 1956, imagens de personalidades que fizeram o Brasil ingressar na modernidade (Tom Jobim, Oscar Niemeyer), raros registros antropológicos de tribos indígenas e paisagens do Rio de Janeiro, onde Medeiros fixou residência em 1939.


Candomblé nasceu de um ensaio fotográfico publicado pela O Cruzeiro em setembro de 1951, com texto do repórter Arlindo Silva – criticado, na época, por estudiosos da religião africana, entre eles o sociólogo francês Roger Bastide, que reconheceu apenas as fotos de Medeiros como ‘documentos vivos’ para o entendimento do ‘estado de erê’ (estado em que a consciência do fiel do candomblé entra em contato com o mundo mítico do orixá). Candomblé virou livro em 1957, reunindo 65 fotografias feitas no terreiro de Oxóssi, num subúrbio ferroviário de Salvador. É este mesmo livro que está sendo lançado com novo projeto gráfico e um conjunto de 13 fotografias não incluídas na seleção original, escolhidas entre as 236 imagens de candomblé existentes na coleção do IMS.


O acervo de Medeiros tem 20 mil fotogramas e foi incorporado à coleção do IMS em 2005. É um conjunto de históricas imagens de tribos indígenas (caiapós, xavantes), presidentes (Juscelino, Vargas), pintores (Guignard, Portinari), líderes políticos (Luís Carlos Prestes), escritores (Graciliano Ramos, Jorge Amado), músicos (Tom Jobim, Dorival Caymmi), cineastas (Arnaldo Jabor) e atrizes (Cacilda Becker, Maria Della Costa) – enfim, uma espécie de súmula dos anos 1950 e 1960. O fotógrafo deixou O Cruzeiro em 1961 para montar a própria agência, Image, com Flávio Damm e Yedo Mendonça. Damm, num texto para o portal Photos, em 2004, lembrou que Medeiros foi o responsável pela mudança da cara do fotojornalismo ‘capenga’ que se praticava na revista sob comando do ‘sensacionalista’ Jean Manzon – de resto, um bom fotógrafo, embora parceiro profissional de David Nasser e funcionário do DIP, o órgão de propaganda da ditadura Vargas.


Segundo Flávio Damm, Medeiros foi sempre um contestador, um homem que, longe do engajamento partidário, adotou uma posição política clara sobre as minorias brasileiras. Como tinha certo prestígio junto a Frederico Chateaubriand, sobrinho de Chatô, usou O Cruzeiro para publicar reportagens sobre índios e negros, numa época em que o modelo da sociedade brasileira era o caucasiano – de preferência americano com olhos azuis. Como a revista era um sucesso editorial (mais de 300 mil exemplares em 1951, data da reportagem sobre o candomblé) e apostava em reportagens especiais, Medeiros viajava por todo o Brasil e assinava as melhores publicações de fotografia. Assim, é um equívoco pensar que tivesse um olhar ingênuo sobre os objetos fotografados. Sua opção pelos deserdados e o modo de fotografá-los passa necessariamente pela lente social de Walker Evans (1903-1975), que registrou os efeitos da grande Depressão americana nos anos 1930.


Foi esse olhar que permitiu a Medeiros ingressar na carreira cinematográfica (como fotógrafo de A Falecida, de Leon Hirszman, em 1965) e assinar a fotografia de alguns dos melhores filmes rodados entre as décadas de 1960 e 1980 – ele foi o fotógrafo de A Opinião Pública (1967), Xica da Silva (1976), Chuvas de Verão (1981), Memórias do Cárcere e do filme nigeriano Cry Freedom (1981), de Ola Balogun. Pelos temas desses filmes – a realidade dos suburbanos cariocas, a história de escravos, aposentados, presos políticos e líderes populares africanos – é possível conhecer um pouco mais desse piauiense sapateador, nascido em Teresina e companheiro inseparável das expedições do sertanistas irmãos Villas-Boas, que deixava enlouquecidos ao ensinar suas canções preferidas (Nature Boy, entre elas) aos índios.


Mas o embrião desse interesse antropológico nasceu mesmo com o trabalho da revista O Cruzeiro. Após a publicação de uma reportagem assinada pelo cineasta Henri Georges-Clouzot (1907-1977) na revista Paris-Match, em 1951, Les Possédées de Bahia (As Possuídas da Bahia), os editores da revista O Cruzeiro acharam que Medeiros seria o homem certo para dar uma resposta à eurocêntrica visão do diretor de As Diabólicas. Medeiros, com a ajuda de um motorista de táxi de Salvador, localizou um terreiro, pagou pelos animais que seriam sacrificados no ritual documentado nesta página e, na hora, teve de enfrentar a ira dos orixás. O cabo do sincronismo do flash se rompeu e ele teve de ajustar o anel do obturador de sua Rolleiflex para enfrentar a escuridão do terreiro. E venceu. Sua luz, como disse Glauber Rocha, era uma luz brasileira. Nem as trevas podiam com ela.


Serviço


José Medeiros. Instituto Moreira Salles – IMS. Rua Piauí, 844, 1.º andar, Higienópolis, 3825-2560. 13 h/ 19 h (sáb. e dom. até 18 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 5/4. Abertura hoje, 19h30, com relançamento do livro Candomblé’


 


 


 


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