Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > INCLUSÃO DIGITAL

Comunicação, via de mão dupla

Por Carlos Antonio Silva em 23/11/2004 na edição 304

Referências

Adulis, Dalberto – coordenador de Comunicação da ABDL e assessor para Projetos especiais da Rits

Lima, Paulo Henrique. 2004, 'Sociedade da Informação: um tem de tod@s'

Mance, Euclides. 2000, p.24

Castells, Manuel (1998). Paper prepared for the UNRISD Conference on Information Technologies and Social Development, Palais des Nations, Geneva, 22-24 June 1998

Freire, Paulo. 1970, Ação Cultural para a Liberdade

Pimienta, Daniel – em entrevista concedida a Marcelo Medeiros, da Rets (http://arruda.rits.org.br/notitia1/servlet/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeSecao?codigoDaSecao=10&dataDoJornal=1098479099000)

Porto Digital (www.portodigital.org)

Tabuleiro Digital (http://twiki.im.ufba.br/bin/view/Tabuleiro/WebHome)

Democratizar o uso da informática a partir da criação de Centros de Informática em comunidades de baixa renda ou locais de fácil acesso aos moradores permite que entidades locais possam capacitar moradores/as, micro-empresários/as, estudantes e trabalhadores/as nas ferramentas oferecidas pela informática e abrindo assim um mundo de possibilidades.

Ultimamente, diversas instituições têm conseguido computadores através de variados caminhos – doações, financiadores etc. Porém qual o impacto desse aumento da acessibilidade ao mundo digital se não forem trabalhadas questões sobre a utilização desse espaço de uma forma ética e cidadã?

Não penso em censura, muito pelo contrário, mas acho importante explorar todas as possibilidades que o mundo digital nos abre, e não apenas tratar um espaço como esse de forma fria, sendo utilizado apenas para cursos profissionalizantes e coisas do gênero.

Existe a necessidade de tornar este centro tecnológico comunitário realmente da comunidade, um lugar onde moradores e moradoras possam participar de atividades livres como utilização de internet, jogos, elaboração de trabalhos particulares, pesquisas individuais ou em grupos e, claro, trabalhar a produção de conteúdo local.

Interesses compartilhados

Lembrando que o virtual termina no real, este é o momento em que as redes que trabalham com telecentros e/ou atuam com inclusão digital devem pensar no desafio de trabalhar de forma colaborativa para que resultados positivos possam ser alcançados. Para Castells (1998), uma rede é ‘um conjunto de nós conectados, e cada nó, um ponto onde a curva se intercepta. Por definição, uma rede não tem centro, e ainda que alguns nós possam ser mais importantes que outros, todos dependem dos demais na medida em que estão na rede’.

Um exemplo, entre alguns outros que poderia citar, de trabalho em rede de forma colaborativa e participativa é o do projeto Porto Digital – um projeto de desenvolvimento econômico que reúne investimentos públicos, iniciativa privada e universidades, compondo um sistema local de informação que tem, atualmente, 68 instituições – entre empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), serviços especializados e órgãos de fomento que agregam as iniciativas existentes no setor de TICs de Pernambuco – e promove a sua articulação em um plano muito mais amplo, maximizando os resultados dos esforços que anteriormente eram individuais e isolados.

A motivação para que este intercâmbio de informações ocorra em uma rede depende, segundo Adulis, da ‘percepção de que existam objetivos ou interesses compartilhados que possam ser alcançados através do processo de interação dos mesmos no âmbito da própria rede (networking)’.

‘Dizer a palavra’

Para isso seria necessário, conforme Adulis, que os objetivos das instituições que têm a intenção de trabalhar em rede sejam favorecer a circulação e a troca de informações, o compartilhamento de experiências, a colaboração em ações e projetos, o aprendizado coletivo e inovador, o fortalecimento de laços entre os membros, a manutenção do espírito de comunidade e a ampliação do poder de pressão do grupo.

Trago, novamente neste texto, o pensamento da importância de ser ‘transceptor’. Ser um transceptor é receber e doar – é ter a informação e a experiência e compartilhar com seus pares, com sua rede.

Na década de 1970, Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros, afirmou em seu livro Ação cultural para liberdade que ‘(…) o Terceiro Mundo (…) é o mundo do silêncio, da opressão, da dependência, da exploração (…)’. Esta afirmação de Freire nos faz pensar o quanto é extremamente necessário possibilitar à comunidade uma forma de ‘dizer sua palavra’ – ‘dizer a palavra’, afirma Freire, é ‘(…) o direito de expressar-se e expressar o mundo, de criar e recriar, de decidir, de optar (…)’.

Sem almofadas

Conforme Euclides Mance, ‘a idéia elementar de rede é bastante simples. Trata-se de uma articulação entre diversas unidades que, através de certas ligações, trocam elementos entre si, fortalecendo-se reciprocamente, e que podem se multiplicar em novas unidades, as quais, por sua vez, fortalecem todo conjunto na medida em que são fortalecidas por ele, permitindo-lhe expandir-se em novas unidades ou manter-se em equilíbrio sustentável. Cada nódulo da rede representa uma unidade e cada fio um canal por onde essas unidades se articulam através de diversos fluxos’ – o que nos transporta novamente para o desafio do trabalho em rede, o desafio da troca de conhecimentos, de que algumas funções tendem a ser mais difíceis nas redes, como a coordenação, a definição de responsabilidades e a alocação de recursos para alcançar os objetivos. Além disso, conforme Adulis, geralmente a mensuração e avaliação dos resultados alcançados também tende a ser mais difícil.

Para estas instituições que estão incluindo digitalmente moradores e moradoras das comunidades onde atuam, deixo aqui alguns pensamentos para serem trabalhados em conjunto: nesses novos pontos de acesso, todos e todas estarão se comunicando livremente? Trabalhando e mostrando para o mundo a sua cultura local? E mais: usuários e usuárias do local sabem de todas as possibilidades? Não há comunicação quando alguém está posto apenas na condição de receptor de mensagens. Nesse caso, ocorre apenas recepção de informação. A comunicação exige um processo ativo de exercer a palavra, de manifestar pensamentos, sentimentos e de lutar por direitos. O desafio de trazer a internet para o cotidiano das comunidades e desmistificar de uma vez este vasto mundo – que nem é tão vasto assim.

Um ótimo exemplo de ‘desmistificação’ da internet é o do projeto Tabuleiro Digital. Segundo os mantenedores do projeto, ‘o Tabuleiro Digital, tal como os tabuleiros de acarajé da cidade da Bahia, de Todos os Santos, espalha-se para proveito da comunidade universitária. O Tabuleiro Digital é reto, sem encostos, sem almofadas, projetado para uso rápido e ágil como o do tempo de comer um bom acarajé ou ler e responder meia dúzia de e-mails’. O projeto dos tabuleiros eletrônicos foi desenvolvido pelo arquiteto Eduardo Rosseti, mestre em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Ato de cidadania

Sempre bom lembrar que para que uma rede funcione ela depende, novamente citando Adulis, ‘de um processo de interação, discussão e construção coletiva que possibilite a identificação de interesses comuns, da missão e dos objetivos da rede e, finalmente, do delineamento de ações concretas a serem implementadas’. Ou seja, as entidades que começam agora a trabalhar com o maravilhoso processo de inclusão digital precisam identificar seus pontos de interesse comuns e ações concretas que possam ser realizadas, trazendo benefícios para cada um dos/as participantes.

Segundo Lima, ‘a democracia eletrônica, ou o uso das redes eletrônicas de computadores para a discussão democrática e participação, pode ser o entrave ou o futuro da Sociedade da Informação’.

O surgimento e a consolidação de uma ‘comunicação popular’ através da Internet demanda uma mudança cultural das próprias organizações que almejam capacitar seus locais de atuação.

De acordo com Pimienta, ‘dar acesso à rede não é somente disponibilizar soluções técnicas e financeiras. É também educar para a cultura de rede e permitir funcionar dentro de sua cultura e seu idioma. Parte essencial desta cultura é possibilitar a compreensão de que ser usuário não é somente consultar informação alheia. É também, e antes de tudo, produzir seus próprios conteúdos, que devem refletir sua língua e sua cultura. Ao mesmo tempo, a necessidade de pontes entre línguas e culturas é sentida e a rede é um lugar propício para criá-las na consciência de que o estabelecimento dessas pontes dentro de um marco de respeito mútuo entre culturas é a maior contribuição que pode ser feita à paz e à harmonia do mundo’.

Não podemos esquecer que a comunicação é uma via de mão dupla. Que a produção de conteúdo é um ato de cidadania.

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Coordenador de Redes da Rits.

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