Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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CADERNO DA CIDADANIA >

Comunique-se

24/04/2007 na edição 430

TV CULTURA
Comunique-se

Markun é candidato único na FPA, 23/04/07

‘Tudo leva a crer que no dia 07/05, quando será realizada uma Assembléia Extraordinária, o jornalista Paulo Markun será eleito pelo Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta (FPA) o novo presidente da TV Cultura. Nesta segunda-feira, ele foi recebido pelos membros eletivos do Conselho. A apresentação faz parte de um processo da FPA. A candidatura de Markun, que até o momento não tem concorrente, já está referendada e foi indicada por 18 conselheiros.

Markun relatou o convívio histórico que tem com a FPA, desde os tempos de Vladimir Herzog, falou das diretrizes preliminares e se comprometeu a dialogar com funcionários e conselheiros, a fixar e dar continuidade às programações básicas da emissora e a manter a independência política da instituição.

Nunca na história da fundação houve mais de um candidato concorrendo ao seu cargo máximo, o que não siginifica que todos os 47 conselheiros apóiam os nomes de forma unânime. Se houver algum interessado em concorrer com o jornalista, este terá até o dia 30/04 para se apresentar ao Conselho e também relatar propostas.

Há poucos dias, Jorge da Cunha Lima, presidente do Conselho Curador da Padre Anchieta, confirmou ao Comunique-se que Markun provavelmente seria o único candidato à presidência da Fundação. Ele avaliou que o jornalista foi o único nome que conseguiu apoio em todos os setores presentes no Conselho Consultivo da Padre Anchieta.

Os conselheiros aproveitaram o encontro com Markun para eleger o que chamam de compromissos básicos com a Fundação. Estão entre eles a defesa em nível nacional da televisão pública, a independência política e editorial e a busca de recursos estáveis junto aos três níveis de governo: municipal, estadual e federal.’

MERCADO EDITORIAL
Marianna Senderowicz

RBS tem lucro líquido de R$ 85 milhões em 2006, 23/04/07

‘de Porto Alegre – Conforme informações divulgadas quinta-feira (19/04) pela própria RBS, suas emissoras de TV em Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC) somaram um lucro líquido de R$ 85 milhões em 2006, representando um aumento de 31% em comparação ao balanço de 2005. As informações foram publicadas no jornal Zero Hora, que, juntamente com os demais veículos diários impressos da rede, registrou lucro de R$ 23 milhões no ano passado.

As emissoras de rádio do Grupo também tiveram incremento no lucro entre 2005 e 2006, totalizando um aumento de 26% na comparação entre os dois últimos anos e atingindo, em 2006, lucro líquido de R$ 9,7 milhões. A rede, líder no mercado de comunicações da região Sul e maior grupo de comunicação multi-regional do Brasil, possui 18 emissoras de televisão aberta, duas locais, oito jornais diários, 26 rádios, dois portais de internet, uma editora, uma gravadora, uma empresa de logística, uma de marketing para jovens, operações orientadas para o agronegócio e uma fundação de responsabilidade social.’

BAND vs. ABRIL
Comunique-se

Editora Abril e Bandeirantes estão em guerra, 20/04/07

‘Uma série de matérias e colunas publicadas no final de 2006 nas páginas de Veja deflagrou uma guerra entre a Editora Abril e a Rede Bandeirantes. A semanal acusou a Gamecorp, produtora parceira da Bandeirantes e que tem Fabio Luiz Lula da Silva, filho do presidente da República, como um dos acionistas, de receber verbas publicitárias irregulares do governo federal. Em resposta, a emissora publicou diversas matérias acusando a Abril de irregularidades no processo em que vendeu 30% de suas ações para o grupo sul-africano Naspers.

Em editorial publicado no site da emissora em 29/11/06, a Bandeirantes se defende do que considera ‘uma campanha sórdida, mentirosa’, capitaneada pela Abril. Escreve que, uma vez que a editora nega espaço em suas páginas para respostas às acusações que faz, ‘não resta outra opção à Bandeirantes senão usar seus próprios veículos para se defender’. No mesmo dia o Jornal da Band veiculou uma matéria sobre os sócios estrangeiros da Abril e no mês que se seguiu voltou ao tema diversas vezes.

Em maio de 2006 a Abril vendeu 30% de suas ações ao conglomerado de mídia Naspers, da África do Sul, por US$ 422 milhões. Em matérias publicadas nesta semana no mesmo telejornal, a Bandeirantes aponta que a Editora Abril teria oferecido mais do que 30% do controle de fato da empresa ao grupo estrangeiro, o que é proibido pela Constituição. A MTV, que faz parte do grupo Abril, também possui ligações com a multinacional Viacom.

Concorrência

Tanto o editorial publicado pela Bandeirantes quanto funcionários das duas casas creditaram o início da contenda à concorrência entre a Play-TV e a MTV. Ambas disputam público na mesma faixa etária e a primeira, que entrou recentemente no mercado, passou a sistematicamente tirar audiência da segunda, instituída há anos.

As mesmas fontes apontaram o fato da Gamecorp produzir matérias para a Play-TV, aliado à participação do filho de Luiz Inácio Lula da Silva na empresa, como motivos principais para as críticas da Veja sobre a publicidade do veículo.

Empresa fantasma?

A reportagem do Jornal da Band teve acesso a alguns dos contratos firmados entre Naspers e Abril e, investigando-os, descobriu que uma das empresas que participou do negócio, a MIH, não existe no endereço indicado pelo documento. A reportagem prossegue e aponta que a empresa registrada com o CNPJ da MIH se chama Curundéia, a acusa de utilizar outro endereço falso e afirma que o número de telefone registrado como da empresa deveria estar no número 500 de uma rua que só vai até o 300.

O advogado da Bandeirantes Walter Ceneviva declarou à emissora que considera estranho o grupo de acionistas ter adquirido direitos políticos, como o direito de eleger membros do conselho administrativo da Abril, junto com a participação acionária dentro da empresa. Ao Comunique-se, Ceneviva lembrou que a presença de estrangeiros no conselho, que define as políticas da empresa, é aceitável até um limite, ‘que pode ter sido rompido neste caso’.

Hein Brand e Jim Volkwyn, ambos da MIH internacional, já fazem parte do conselho administrativo da editora. O uso da empresa fantasma no processo seria uma forma de passar o controle efetivo da empresa para acionistas estrangeiros num percentual acima do permitido pela lei. O único documento que a reportagem da Band não teve acesso foi o Sharehold Agreement, que define a divisão acionária do grupo e pode esclarecer a situação.

No processo que move contra a Abril por difamação devido às matérias sobre a Gamecorp, a Bandeirantes apontou as irregularidades nos contratos entre a editora e o grupo sul-africano e o juiz solicitou os documentos para análise. De todo modo, caso a justiça entenda que existem irregularidades no processo, uma investigação deverá ser aberta para apurar o caso.

Os procuradores do Ministério Público Federal envolvidos com o caso foram procurados pela redação do Comunique-se para esclarecer a possibilidade de uma investigação contra a Abril, mas não foram encontrados.

Respostas oficiais

A Bandeirantes afirmou que suas matérias são auto-explicativas e de interesse público. Disse também que elas seriam sua única manifestação pública sobre o assunto.

A Editora Abril se pronunciou por meio da nota que segue.

‘O Grupo Abril esclarece que são totalmente improcedentes e infundadas as acusações e imputações a seu respeito divulgadas pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação. A Abril buscará na Justiça a satisfação desse agravo contra a sua honra e o ressarcimento dos prejuízos decorrentes dessas ofensas. A empresa reitera que tem orgulho de sua independência editorial e credibilidade, e assume plena responsabilidade por tudo o que publica ou divulga. Seu compromisso foi, é e sempre será com a verdade, o interesse público, a liberdade de imprensa, a democracia e o desenvolvimento do Brasil e de suas instituições.’’

INTERNET
Bruno Rodrigues

Todos podem escrever, 19/04/07

‘Redação online não possui reserva de mercado. O que significa que não apenas jornalistas podem escrever para a web, mas todos aqueles que precisam elaborar textos para a Rede.

Sinto muito àqueles que acreditam que é necessária formação em Jornalismo para tornar-se um redator web (isto funciona – e bem – em outras mídias), mas na internet o canudo ficou em segundo plano.

Por que? Há dois motivos bem simples.

Em primeiro lugar, redação na Rede vai muito além de veículos informativos como jornais e revistas. Há sites de comércio eletrônico, de entretenimento, páginas financeiras, portais, blogs e até mecanismos de busca que utilizam, e bastante, o trabalho de redação. Nestes ambientes, o que vale mesmo é o talento, e muitíssimas vezes o conhecimento sobre algum assunto específico.

O outro motivo que coloca o canudo em segundo lugar no pódio é a necessidade. São administradores de empresas, economistas, engenheiros, técnicos em informática e até médicos que se vêem obrigados, no dia-a-dia das empresas, a lidar com a redação online, seja incluindo conteúdo em sites intranet ou alimentando sites internet.

Em resumo, escrever para a web é possível e acessível a todos – e basta pensar só um pouquinho para perceber que este ímpeto de liberdade é nada mais, nada menos, que a filosofia de toda a internet.

Abaixo estão as categorias de webwriters que estão invadindo o mercado de redação online, e estarão no topo em pouco tempo.

• Profissionais de Humanas, em geral – Estão mudando de área para mergulhar no webwriting. Nesta categoria está, principalmente, um número considerável de pessoas que migraram do mercado de Letras e estão fazendo belíssimos trabalhos.

• Jornalistas da Velha Guarda – São profissionais – diplomados ou não – que têm experiência de sobra e mente aberta o bastante para perceber que existe, sim, uma maneira especial de trabalhar a informação para a web, e batem uma bola redondinha com quem está saindo do forno das universidades. Só de olhar já dá gosto.

• Redatores Publicitários – Eles têm uma vantagem imensa na Rede se comparados aos jornalistas. Afinal, texto publicitário é 100% persuasão, e é ela quem dita as regras na web.

• Usuários Comuns – É dono de um blog ou de site pessoal.

Como ninguém gosta de fazer feio, os trabalhos costumam ser caprichados, e, por vezes, alcançam o sucesso apenas com o boca-a-boca. Neste processo, é essencial entender como se comporta a informação online.

Em tempo: é a pura verdade que nada supera o talento, a vocação e a experiência.

Os profissionais de Comunicação, sejam de Jornalismo ou Publicidade, estão na dianteira quando o assunto é escrita, seja para a web ou não – afinal, nesta área respira-se (em teoria) redação.

Ainda assim, é bom tomar cuidado…

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, e de sua continuação, ‘Webwriting – Redação e Informação para a web’. Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’

DIREITO & MÍDIA
Gilberto Martins

De quem é a responsabilidade pelos comentários?, 17/04/07

‘Aconteceu no caso do www.imprensamarrom.com.br, aconteceu com diversos portais que hospedam sites, aconteceu com colunas que recebem comentários. Alguém questionando direitos por se sentir atingido por comentários. E a polêmica instaurada sobre até que ponto há responsabilidades, e a quem elas cabem. Aconteceu e continuará acontecendo muito. Em certas situações, especialmente quando os atingidos são políticos ou juízes, a Justiça mandou que os comentários fossem retirados, apelando inclusive para a Lei de Imprensa como fundamentação. Noutras situações, a coisa parece não contar com decisões tão rápidas e incisivas. Como fica esse assunto?

Primeiro, convém separar o joio do trigo. Quem escreve o comentário não necessariamente é quem o hospeda. A responsabilidade de quem escreve é a de quem se responsabiliza pelo exercício da liberdade de expressão, constitucionalmente assegurada no mesmo item (art. 5o , inciso IV) em que é proibido o anonimato nas manifestações. Já a responsabilidade de quem hospeda o comentário é semelhante à de um hotel ou pousada que hospeda visitantes: se ocorre um fato que se torna notório e se mostra inquestionavelmente irregular (ofensivo, abusivo, etc.), o estabelecimento hospedeiro deve tomar uma atitude para interromper ou eliminar o problema. O que não quer dizer que o hospedeiro deve fiscalizar a todo instante o que todos os seus hóspedes estão fazendo ou deixando de fazer.

Assim, a responsabilidade que deriva da lei e da jurisprudência impõe aos hospedeiros um dever mínimo razoável de tomar conhecimento de fatos notórios e de agir reativamente adotando uma dosagem proporcional. Muitos hospedeiros preferem, por via das dúvidas, cercar por outro lado também, o das condições contratuais, fazendo constar em Termos de Uso dos sites ou em rodapés de colunas algumas ressalvas explícitas como ‘A responsabilidade pelo artigo é apenas do colunista’, ou ‘A responsabilidade pelos comentários é apenas de quem os postar’, por exemplo. Em virtude de tais regras contratuais, quem assinar coluna, e quem postar comentários, passa a assumir responsabilidade integral, pelo menos sob a ótica da relação entre contratantes, abstraindo os efeitos perante terceiros e os possíveis pleitos destes últimos.

Parece óbvio, e talvez até seja. Mas como a obviedade pode ofuscar, não custa relembrar essa divisão de responsabilidades. Isso já significa metade do caminho andado.

A outra metade tem que ver com o teor dos comentários que possam ser considerados, legalmente, como problemáticos. Aqui não há fórmula matemática. Cada cabeça, uma sentença. Mas, como sempre, existe um senso comum, que pode ser aferido, por observação, testemunhos, etc. Portanto o critério para discernir se há ou não ofensa é o do contexto social local, aplicado em relação às circunstâncias do caso concreto.

E, finalmente, a questão da relevância. Não é toda grosseria que chega a gerar direito a indenização, ou a exigir a retirada de sua veiculação. Caso contrário desaguaria quase sempre na Justiça a demanda atendida por psicólogos, psicanalistas, confessores, etc. Dano moral, segundo os tribunais, só rende indenização quando transcende o mero aborrecimento, desconforto, constrangimento. E a suspensão de veiculação só é legítima quando não há dúvidas razoáveis de que o conteúdo postado é ofensivo ou abusivo.

Talvez o resumo do resumo desse assunto possa ser de que, como em tudo na vida, comentar (e hospedar) vale a pena quando a alma não seja pequena.

(*) Advogado, formado pela PUC-Rio, já foi gerente jurídico da IBM e atua em direito da informática há 20 anos. É professor de Direito da Informática na PUC/RJ, desde 1996, e na FGV e consultor de entidades federais e regionais representativas do setor de Informática (FENAINFO, ASSESPRO, ABES e SEPRORJ). Colabora, como colunista, nas revistas Security Review e Webdesign e, em 2006, venceu o prêmio de Melhor Contribuição do Setor Privado, concedido pela seção brasileira da International Systems Security Association por seus trabalhos como professor, colunista e palestrante. É Co-autor do projeto de lei de crimes de informática, em fase final de aprovação no Congresso.’

MEMÓRIA / PAULO MATTIUSSI
Odir Cunha

O criativo Paulinho Mattiussi se foi, por Odir Cunha, 17/04/07

‘No começo da semana passada fiquei sabendo pelo Felipe Martinelli – um rapaz que está fazendo um trabalho de pesquisa sobre o programa Balancê da extinta Rádio Excelsior (hoje CBN) – que o jornalista Paulinho Mattiussi, nascido em 25 de janeiro de 1949, havia morrido na segunda-feira, 9 de abril. Paulinho foi o primeiro produtor do Balancê, programa que abandonou em 1982 para comandar a equipe de produção de Luciano do Valle na TV Bandeirantes.

Há algum tempo Paulinho Mattiussi – que há três anos escreveu o livro sobre Osmar Santos – estava fora do mercado, e talvez os mais novos não se lembrem dele. Por isso julguei necessário escrever este pequeno artigo, numa última forma de homenagear um profissional acima da média e um amigo de poucas palavras e grandes gestos.

Um dos maiores responsáveis pelo sucesso estrondoso do Balancê, Paulinho Mattiussi comandava uma equipe que tinha o mítico sonoplasta Johny Black (alicerce de Hélio Ribeiro), a competentíssima produtora Yara Peres, o apresentador genial, para o rádio, Juarez Soares e os humoristas Nelson ‘Tatá’ Alexandre e Carlos Roberto Escova. Havia ainda na produção Luis Carlos de Jesus e a apresentação do programa era dividida entre Juarez, o ‘China’, e o ídolo Osmar Santos, além de Jorge de Souza e Reinaldo Costa.

O Balancê marcou época pela ousadia e era a menina dos olhos de Osmar Santos, o chefe da equipe de esportes do Sistema Globo/Excelsior de Rádio. Não cheguei a ser amigo íntimo do Paulinho. Nunca almoçamos ou fomos tomar uma cervejinha juntos. Não dava tempo. Quando o Balancê terminava, às 14 horas, eu já estava a todo vapor produzindo o programa ‘Partido do Esporte’, que a voz maravilhosa de Braga Junior apresentava às 17 horas pela Rádio Excelsior, e que foi o primeiro programa de rádio a falar exclusivamente de esporte amador (ou seja, todos os esportes, menos o futebol).

Fiquei muito surpreso quando num começo de noite fui chamado da redação da sucursal de O Globo – onde tinha um segundo emprego, como repórter de esportes – para uma reunião às pressas com Osmar Santos, na Rádio Globo. Cheguei e lá não estava apenas o Osmar, mas toda a direção da equipe, com os produtores Edison Scatamacchia e Tim Teixeira.

Muito direto, o Osmar disse que o Paulinho tinha saído para a TV Bandeirantes, mas que antes de ir embora, consultado sobre quem deveria substituí-lo, indicou a mim. A oportunidade dessa indicação revelou-se mais um passo importante na minha carreira, pois seguindo os conselhos de Jonhy Black, enchi tanto o Osmar e o Edison Scatamacchia, que decidiram fazer o Balancê com auditório, o que tornou o programa uma atração para a gente simples e também para os intelectuais, justificando a fama que tem até hoje.

Nunca disse isso, mas, muito agradecido ao gesto generoso do Paulinho, obriguei-me a continuar fazendo a minha parte para manter o programa como o mais premiado do rádio paulista, o que se confirmou com os prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte de 1983 e 84.

Com a apresentação de Fausto Silva, a produção artística da incansável Lucimara Parisi e a ajuda inestimável de César Pereira e Valdir Nogueira, continuamos mantendo o barco à tona. Certamente criamos momentos e fizemos programas dos quais o próprio Paulinho Mattiussi se orgulharia.

Fui um telespectador viciado no Show do Esporte, que durava o domingo inteiro na TV Bandeirantes. E colocou no ar esportes nunca antes transmitidos pela televisão. Como rugby, futebol de salão, snooker e surfe, entre outros.

Paulinho ainda lançou uma revista, a ‘Show do Esporte’, mas, como quase todas as revistas esportivas já editadas no País (e tenho uma grande experiência nisso), não durou muito.

Após a Copa de 1990, Paulinho reencontrou profissionalmente Osmar Santos e Edson Scatamacchia e juntos criaram o ‘Sport Shopping Show’, na TV Record, que fez história como o primeiro programa de televisão a usar ações de merchandising direto.

Em 1992, mudou-se para Curitiba, para criar a primeira emissora de televisão com sede fora do eixo Rio-São Paulo. Entrava no ar a OM, que após dois anos veio a se chamar CNT.

Na emissora paranaense Paulinho acabou lançando gente que hoje faz muito sucesso, como Adriane Galisteu com o programa ‘Ponto G’ e Luciano Huck com o seu ‘Circulando’. Com o fim do projeto na OM/CNT, o dinâmico Paulinho se especializou em marketing político, fazendo grandes campanhas, todas elas vencedoras.

Após se desiludir com a política, procurou trabalho em grandes redações, mas só recebeu propostas que não condiziam com o seu nível profissional. ‘Querem que eu trabalhe como um louco, coordene a editoria geral e ganhe um pau e meio. Você acha que dá, Odir?’, ele me perguntou na última vez em que nos encontramos, durante o torneio de tênis Aberto de São Paulo, no Parque Vila Lobos.

Antes, nos vimos em um evento em homenagem a Osmar Santos. Eu tinha pensando em escrever um livro sobre o grande locutor, já que fui seu redator no tempo em que ele era o ‘Locutor das Diretas’, mas Paulinho teve a idéia primeiro, e me conformei, claro, pois o projeto estava em ótimas mãos. De seu trabalho saiu ‘O milagre da vida’, nas livrarias.

Infelizmente, nunca pude retribuir ao Paulinho a imensa alegria que ele me proporcionou – além do impulso à minha carreira – ao me indicar como seu substituto no Balancê, programa que acabou gerando o Perdidos da Noite e, já bastante descaracterizado e pasteurizado, o atual Domingão do Faustão, ainda baseado na fórmula de música e humor que norteava o Balancê.

Não é comum em nosso meio, o jornalístico, encontrar pessoas tão generosas, que façam o bem sem olhar a quem. Eu mal conhecia o Paulinho, que tinha muito maior afinidade com outros profissionais da equipe. E eu já deveria ser um santista fanático, o que me torna um tanto antipático para quem não me conhece bem. Mas Paulinho enxergou um Odir que, às vezes, nem eu mesmo conseguia enxergar.

Não sei se é apropriado definir o Paulinho Mattiussi como um dos últimos românticos do jornalismo, um sujeito que colocava a beleza do texto e a criatividade acima de tudo. Mas acho que não estaria muito errado se dissesse isso. Porém, estarei totalmente certo se disser que morreu um homem de coração enorme, de quem sua família deve se orgulhar – a esposa Elci Mattiussi, os filhos Sandro e Luciana Mattiussi, também jornalistas, e a filhinha Paola, de apenas seis anos, que, uma pena, não poderá conviver com esse papai genial.

Aos amigos e aos colegas jornalistas eu aconselho que reservem uma oração ou um instante de meditação em homenagem ao grande jornalista, ao homem com coração de menino Paulo Antonio Matiussi. Um homem que tinha o dom cada vez mais raro da generosidade.’

GOVERNO LULA
Milton Coelho da Graça

TV pública com calma e democracia, 20/04/07

‘A discussão sobre a TV pública teve seu calendário alterado, mas obviamente para o bem. O governo havia inicialmente previsto que, em 30 dias, o projeto estaria pronto. Uma previsão açodada e superotimista. Os ministros Franklin Martins e Gilberto Gil foram nesta quinta-feira (19/4) ao Congresso e asseguraram o mais importante para o projeto: que ele seja amplamente debatido por todas as correntes políticas e pela sociedade.

As idéias do governo – não o projeto ainda – serão apresentadas inicialmente a um fórum com representantes de tevês não-comerciais entre 8 e 11/05. ‘No segundo semestre’, assim mesmo, o que significa de 1 de julho a 31 de dezembro, o projeto chegará ao Congresso. Gil e Franklin finalmente anunciaram que haverá um ‘conselho de ‘representantes do governo e da sociedade’ para garantir que a TV pública ‘não seja porta-voz de nenhum governo’.

Exatamente neste Conselho é que reside o perigo de que as claras boas intenções dos dois ministros se transformem em pavimentação do caminho do inferno, como diz a boa sabedoria popular. Já temos um Conselho da Comunicação Social, atrelado ao Senado, e supostamente representativo da sociedade. A boa intenção dos constituintes que queriam, na verdade, fiscalizar o processo de concessões de rádio e tevês, além de zelar pela qualidade da programação em meios eletrônicos, transformou-se num organismo bobo, que, desde sua criação, nunca tomou qualquer medida em relação a esses sonhados objetivos.

Mas estamos tendo um bom começo. Está organizado um calendário realista para o início do debate entre as idéias do governo e as aspirações da sociedade. Tão realista que Franklin prevê um mínimo de três ou quatro anos para a construção da rede de TV pública.

Agora os profissionais de comunicação podem e devem começar a organizar sua própria discussão sobre a questão, não necessariamente apenas através de sua organização sindical, sujeita, como em quase todos os outros países, a influências e controles pelo poder político. Nossa opinião será certamente muito considerada por todos os outros setores da sociedade, mesmo que ela seja controversa, como aparece claramente na amostra dos comentários sobre o tema nesta e outras colunas do Comunique-se.

Aqui a tribuna continuará permanentemente alerta e aberta para o assunto TV pública.

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Boicote idiota mas talvez…

A União Nacional dos Jornalistas Britânicos tomou a estranha decisão na sexta-feira, 13/4, de pedir o boicote dos produtos israelenses.

Jornalistas judeus de todo o mundo se mobilizam – e com toda a razão – na crítica a essa atitude, que, sob alguns aspectos, chega a ser ridícula, até porque seria hoje impossível um boicote de produtos vitais nas áreas da medicina, tecnologia da informação, segurança etc. Israel, por exemplo, em número de patentes na área de TI, só perde para o Vale do Silício, nos Estados Unidos. Como funcionariam os computadores britânicos sem o uso de componentes de origem israelense?

O absurdo é tão grande que me leva a suspeitar de que a decisão da UNJB pode ser uma tentativa desesperada de salvar a vida do jornalista Alan Johnson, da BBC, seqüestrado por terroristas no dia 12 de março, quando saía de seu escritório na faixa de Gaza.

Não havendo uma explicação desse tipo, nossos companheiros britânicos pisaram na bola.

(*) Milton Coelho da Graça, 76, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’

JORNALISMO ESPORTIVO
Marcelo Russio

Sorte nossa que temos Pelé, 17/04/07

‘Olá, amigos. Acompanhando a cobertura um pouco nebulosa sobre o estado de saúde de Diego Maradona, acabei me dando conta do quanto nós, brasileiros, somos felizes por termos Pelé. Não pelas razões politicamente corretas de termos um rei que não bebe, não fuma e não usa drogas. Isso é um assunto particular dele. O nosso é termos como ídolo máximo do esporte alguém que não nos deixa sofrer como os argentinos.

Se não tivéssemos Pelé, provavelmente o nosso maior ídolo no futebol seria Garrincha, um gênio absoluto, e até inconsciente daquilo que podia fazer e do que representava para o povo brasileiro. Se não fosse Pelé, teríamos penado como os nossos vizinhos ao verem seu ídolo máximo definhando em uma cama de hospital, vencido por um vício que ele não controla e levando consigo nossas preces e nossa paixão.

Daria um tango dos melhores, mas meio abrasileirado, cantado em ritmo de samba dos anos 20 (o nosso blues), com direito ao toque único do surdo, cercado pelo silêncio ensurdecedor da multidão chorosa e triste.

Maradona e Garrincha se equivalem em muito mais do que a magia com a bola nos pés. Se equivalem em drama, em sofrimento, em incompreensão de si mesmos, e no fim, que para um já chegou e que para outro se aproxima a passos lentos, dolorosos e sofridos. Enquanto um acabou esquecido, o outro tem seu drama acompanhado via satélite por todos, e in loco pelos apaixonados argentinos, que não arredam pé da frente dos muitos hospitais e clínicas pelos quais seu campeão (deus para muitos) peregrinou, inconformados em ver o seu Pelé morrendo como o nosso Garrincha.

Que o verdadeiro Deus tenha pena dos vizinhos argentinos. Não pelo que sofreram até agora, nem pelo que ainda irão sofrer. Mas sim por eles nunca terem a chance de saber como é bom ser apenas feliz com um ídolo.

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O atacante Fabrício Carvalho, do Goiás, que chegou a abandonar o futebol por causa de problemas cardíacos, fez um gol com a mão no Campeonato Goiano. Até aí, nada de mais, muitos fizeram. Mas ele não só fez, como ainda agradeceu a Deus em uma entrevista pelo árbitro não ter visto. Diante de tamanha desfaçatez, o TJD de Goiás o puniu com uma suspensão.

No ‘Arena SporTV’ desta terça-feira o ótimo Milton Leite disse o que eu gostaria de ter dito se lá estivesse: ‘É um absurdo que esse rapaz agradeça a Deus por ter cometido um ato desonesto que passou despercebido pelo juiz.’

Faço minhas as palavras do Milton, feliz por ver que temos profissionais com a consciência crítica de saber analisar um fato com olhos isentos e opinião correta.

(*) Jornalista esportivo, trabalha com internet desde 1995, quando participou da fundação de alguns dos primeiros sites esportivos do Brasil, criando a cobertura ao vivo online de jogos de futebol. Foi fundador e chegou a editor-chefe do Lancenet e editor-assistente de esportes da Globo.com.’

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Surra de pau mole, 19/04/07

”carregaste bênçãos em teu bornal

e a serpente da maldição

nelas se escondeu

(José Nêumanne Pinto, novo poema.)

Surra de pau mole

A professora Raquel Felau Guisoni, vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e membro (ou ‘membra’?) da União Brasileira de Mulheres (UBM), escreveu artigo na revista Mátria, intitulado Feminismo e o preconceito na língua portuguesa, no qual reclama do ‘machismo’ explícito da concordância nominal. A autora baseia-se no fato de que, havendo numa sala um maior número de mulheres do que de homens, a concordância nominal se faz no masculino plural, como se as mulheres fossem deixadas em segundo plano pela gramática.

O memorável artigo foi lido por José Augusto Carvalho, escritor e professor/doutor em língua portuguesa, que não é membro do Movimento Machista Mineiro, embora tenha nascido em Governador Valadares, e ele, no dizer sempre fescenino de Janistraquis, deu verdadeira ‘surra de pau mole’ na ousada professora, a qual, no entendimento do Mestre, confundiu sexo com gênero e daí nasceu a trapalhada. O texto de José Augusto, cuja íntegra repousa nesta rede avarandada que é o Blogstraquis, merece ser lido por todos e constitui a Nota Dez da semana.

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André Fontenelle

Janistraquis e eu cumprimentamos a revista Época pela contratação do considerado vascaíno André Fontenelle. Este excelente jornalista conhece toda a heróica e valerosa história do Vasco, o maior clube do mundo, só não enxerga isso quem é cego de nascença ou torcedor do Flamengo, o que vem a dar na mesma coisa.

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Cláusula pétrea

Depois de ler e ler, escutar e escutar, e pensar e pensar, Janistraquis perguntou:

‘Considerado, existe algo mais ababosado, abestalhado, alvarinho, apalermado, aparvalhado, apatetado, asneirento, atolambado, atoleimado, babaca, babaquara, basbaque, beldroegas, bestalhão, bobo, boboca, bocó, coió, cretino débil, escroto, estulto, estúpido, idiota, imbecil, incapaz, inepto, lorpa, mama-na-égua, mané, manicaca, marruá, mentecapto, molongó, obtuso, otário, pacóvio, palerma, papalvo, pascácio, paspalhão, paspalho, pateta, patureba, pongó, primário, sambanga, sarambé, tacanho, tapado, toleirão, xexé e zamboa do que uma cláusula pétrea?’

Eis uma acepção de PÉTREO, segundo o Houaiss: que demonstra insensibilidade; duro, desumano. Uma cláusula pétrea, como prevê a Constituição, é, como direi, a mais autoritária e arrogante burrice encontrável no crême de la crême do obscurantismo. Alguma coisa assim como a beirada preta do olho do c… da p.q.p.

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Charme & beleza

O considerado Marcos Evangelista de Macedo, advogado e jornalista em São Paulo (mais advogado do que jornalista, esclarece), despacha de seu escritório no bairro de Moema:

Leio na coluna de Eduardo Ribeiro, sob o título Novidades que chegam com a tecnologia:

‘(…) Duas câmeras instaladas no estúdio acompanham a narração do âncora Heródoto Barbeiro, ampliando as opções de quem já ouve o jornal pela internet.’

Ora, se escutar a ‘metralha’ do Heródoto, que é gago (ele fala como o falecido cantor Nélson Gonçalves), deixa a gente apreensivo, já pensou vê-lo com aquele jeitão de herói de chanchada da Atlântida?!?!?

Janistraquis acha que você comete grande injustiça com Heródoto, ó Evangelista; no olhar sempre alerta de Janistraquis, o veterano aparece com grande charme, beleza e criatividade, principalmente quando se apresenta com a cabeleira meio arroxeada.

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Susto arretado

Embasbacado e boquiaberto diante de novo discurso de Lula na TV, Janistraquis tem certeza de que, em dado momento da fala presidencial, engoliu um mosquito da dengue. Será que a deglutição do aedes aegypti faz o mesmo efeito da picada? Se alguém do C-se puder informar, agradecemos, porque o infeliz telespectador está mais preocupado do que padre com a descriminalização do aborto.

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Para rir

O considerado Mário Lúcio Marinho envia a piadinha que faz sucesso pela internet afora:

Num ônibus, um padre senta ao lado de um sujeito completamente bêbado, que tenta, com muita dificuldade, ler o jornal. Logo, com voz empastada, o bêbado pergunta ao padre:

– O senhor sabe o que é artrite ?

Irritado, o pároco respondeu:

– É uma doença provocada pela vida pecaminosa e desregrada: mulheres, promiscuidade, farras, excesso do consumo de álcool, drogas, fumo e outras coisas.

O bêbado calou-se e continuou com os olhos fixos no jornal.

Alguns minutos depois, achando que tinha sido muito duro com o bêbado, o padre tentou amenizar:

– Há quanto tempo o senhor está com artrite ?

– Eu não tenho isso, não ! Segundo este jornal, quem tem é o Papa!

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Mais maiores

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de cujo varandão debruçado sobre o besteirol é possível ver assessores do governo a preparar o terreiro para as comemorações do Dia do Índio, que decorre hoje, 19 de abril, pois Roldão lia o indefectível Correio Braziliense quando deparou com esta notícia arriada sob o título Bactéria assusta pacientes:

‘Na semana passada, uma nota técnica do Ministério da Saúde chamou a atenção de médicos para o surto e pediu que eles fiquem de olho nos sintomas da doença para que não seja confundida com infecção hospitalar. Ontem, os técnicos do governo federal voltaram a se reunir no Rio com 300 médicos para discutir uma forma de combater o surto. ‘Os maiores casos (sic) ocorrem em pacientes que fizeram endoscopia, cirurgia plástica e procedimentos transcutâneo’, diz a nota.’

Roldão reprovou:

Ora, a redação está capenga; ‘A maioria dos casos’ não é a mesma coisa que ‘Os maiores casos’.

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Gritos permitidos

Prefeito de São Paulo, o linha-dura Gilberto Kassab queria proibir os gritos dos comerciantes nas feiras-livres da cidade. Janistraquis acompanhou a besteira até a autoridade desistir do intento, mas não deixou barato:

‘É interessante, considerado; grito de feirante preocupa Kassab, mas os gritos de desespero das pessoas atacadas nas ruas estão mais que liberados.’

É preciso lembrar também que estão liberadíssimos os esporros de putas, travestis, gigolôs e proxenetas nas esquinas da cidade. Sem contar os bêbados, os loucos e os simplesmente histéricos.

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Zé Nêumanne

Leia no Blogstraquis o novo poema intitulado Gabriel, a Visita, cujo fragmento encima esta coluna. Nêumanne, alma sertaneja a vagar entre as perversidades do mundo, é poeta pra ninguém botar defeito.

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Ingenuidade

Lê-se e escuta-se por aí afora que a Embaixada da França adverte: viajar ao Brasil pode ser mais perigoso do que passar um final de semana em Bagdá. Em sua página na internet, ainda aconselha aos turistas que, em caso de assalto, reservem uma nota de R$ 50 para entregar ao ladrão. Janistraquis achou graça:

‘Considerado, esses franceses são umas criaturinhas ingênuas; acham que se um turista for passear em Copacabana será assaltado apenas uma vez! Ora, ali defronte ao Leme Palace o cara já perde os R$ 50,00; e como é que fica depois, quando ele atravessar a Princesa Isabel e se aproximar da Prado Júnior?’

É verdade. O elemento precisa sair com pelo menos dez notas de cinqüenta e mais uns trocados para doar à molecada que assalta de canivete na mão.

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Vida mansa

Resposta de Janistraquis a uma repórter que lhe perguntou o que gostaria de ser quando crescesse:

‘Sinceramente, viúva de desembargador. Enquanto esperava o dentista, li num exemplar de Veja de dezembro que essa heroína do Judiciário chega a ganhar quase R$ 35.000,00 de pensão!’

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Errei, sim!

‘LOYOLA COLABORA – Para minha honra e gosto, escreve-me o velho e querido amigo Ignácio de Loyola Brandão. Com a mesma generosidade que permeia sua literatura, elogia esta coluna e colabora com nossa humilíssima página.

Loyola, excelente jornalista, confessa que um de seus hábitos é o caderno de anotações no qual dispõe personagens, situações, idéias para títulos de seus livros, desenhos, fotografias, recortes, etc. Ele mandou algumas ‘poesias’ extraídas de nossa Imprensa: Não há caminho impossível (Jornal do Brasil); Aspirados torcem pela chuva (O Globo); Viúva domina por pescoço clássico em 2000 metros, da página de turfe de O Globo.

Janistraquis amou este último e o encaminhou à sua pasta de assuntos preferenciais. (dezembro de 1988)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP) ou moacir.japiassu@bol.com.br).’

CAROS AMIGOS, 10
Eduardo Ribeiro

Dez anos de Caros Amigos, 18/04/07

‘A revista Caros Amigos completou dez anos na semana passada, rara façanha para uma publicação assumidamente de esquerda nesses tempos de globalização e neoliberalismo. Fundada e dirigida por Sérgio de Souza – aos 72 anos, um veterano de redações bem-sucedidas (como Quatro Rodas e Realidade), de experiências alternativas (entre elas Bondinho, Grilo, Fotochoq, Ex e Mais Um) e inovadoras (por exemplo, o jornalismo 24 horas na então Rádio Nacional, hoje Globo/CBN, em 1976/77) -, a publicação é, na realidade, o carro-chefe de um empreendimento mais ambicioso, a Editora Casa Amarela, que também edita fascículos (como Rebeldes Brasileiros e História Imediata) e livros, já com 40 títulos no mercado.

Com circulação mensal, tiragem média de 50 mil exemplares (cerca de 20 mil vendidos em banca) e distribuição nacional, Caros Amigos é hoje um ícone brasileiro do pensamento crítico e independente de esquerda em diversos campos, seja econômico, político, religioso, artístico, esportivo e filosófico. Embora avesso a entrevistas (‘Sou um péssimo entrevistado, pode acreditar’), Sérgio concordou em responder por e-mail a algumas perguntas do editor-executivo Wilson Baroncelli, deste J&Cia, sobre a trajetória da revista. Pela oportunidade do tema e também numa homenagem à luta de Sérgio de Souza pela dignificação da atividade profissional e do próprio jornalismo, esta coluna reproduz a íntegra da entrevista.

Jornalistas&Cia – Qual foi a proposta que levou à criação de Caros Amigos?

Sérgio de Souza – Fazer uma revista cuja redação fosse independente, isto é, tivesse a liberdade absoluta de decidir o que e como publicar as matérias, era um velho sonho. Mas, além disso, o que principalmente nos impulsionou a arriscar a empreitada foi a própria realidade vivida então, 1997, pelo jornalismo brasileiro. Não havia nas bancas uma única revista de crítica aberta ao privatismo e às idéias neoliberais imperantes no governo Fernando Henrique Cardoso e estimuladas pela mídia como um todo. Essa visão crítica foi a proposta do grupo de profissionais que fundou a Caros Amigos.

J&Cia – Ela se mantém ou mudou?

SS – A proposta se mantém. Ao longo desses dez anos de existência, surgiram algumas publicações para concorrer, embora de recursos financeiros limitados – como no nosso caso -, com a imprensa grande, no sentido da informação mesmo, de procurar mostrar que havia jornalistas que não se dispunham a fazer parte do círculo que cultuava o que se convencionou chamar de ‘pensamento único’. Algumas delas morreram, outras sobreviveram, como Caros Amigos, que, em termos de proposta editorial, mantém total independência de qualquer instituição, entidade ou grupo, seja político-partidário, religioso ou empresarial.

J&Cia – O que você aponta como a principal evolução da revista nesse período?

SS – Como o conteúdo se mantém, poderíamos dizer que a evolução se deu na forma, no design de Caros Amigos, que, desde o lançamento, já sofreu duas reformas gráficas, a primeira criada por Rafic Farah; e a segunda, que, aliás, começa exatamente na edição de décimo aniversário, criada por Michaella Pivetti, nossa atual editora de Arte.

J&Cia – Caros Amigos pode ser qualificada como ‘imprensa alternativa’, a exemplo do que foram Opinião ou Movimento?

SS – Não. Por razões óbvias mas pouco observadas por muitas pessoas, algumas destas por distração, digamos, e outras porque lhes é conveniente. As razões óbvias, entre outras, são: ela pertence a uma editora registrada na Junta Comercial; tem seu título, Caros Amigos, registrado no INPI; é membro da ANER; tem periodicidade e chega às bancas do País inteiro religiosamente há 10 anos; tem uma tabela de preços de espaço publicitário; é produzida por profissionais, tanto na área editorial como na comercial e administrativa, numa sede fixa; já foi premiada por várias entidades de reconhecida expressão; e circula nos meios que pensam o País. Por tudo isso, não a considero uma publicação alternativa, mas institucional, como a de qualquer editora grande, melhor dizendo, rica – e é aí que não somos iguais.

J&Cia – Quais foram os principais desafios para manter saudável um veículo independente como esse por tão longo tempo?

SS – Do que me ocorre agora, os principais desafios vêm sendo vencidos, por exemplo, pela competência e a dedicação de toda a equipe da Casa Amarela. Outro exemplo é a crença férrea no projeto, que é não só de uma revista, mas de uma editora empenhada verdadeiramente na promoção do leitor, da juventude principalmente, na defesa da justiça social, da igualdade, enfim, dos preceitos da democracia. Por isso mesmo, a crença na realização, no sucesso, de uma editora brasileira de esquerda. Porém, ainda mais que isso, o que mantém saudável esse veículo independente é a colaboração, de anos e anos, gratuita, da maioria dos que mantêm colunas, artigos e seções na revista. Estou me referindo a textos, fotos e ilustrações. Alguns desses autores colaboram desde o número 1. Um fenômeno comovente, talvez único no jornalismo que conhecemos.

J&Cia – O que ainda está por fazer na revista?

SS – Tivéssemos capital ou mais anunciantes, teríamos mais páginas, mais reportagens, mais colaboradores fixos – quantas cabeças privilegiadas poderiam estar oferecendo ao leitor opiniões da maior valia para a interpretação da realidade social brasileira e mundial, da cultura em geral. Seria uma lista e tanto para juntar-se à já riquíssima que o leitor encontra mensalmente nas páginas de Caros Amigos, modéstia à parte.

J&Cia – Quais são os planos para um horizonte visível?

SS – Os planos incluem uma revista de cultura, quer dizer, de arte e espetáculo, uma espécie de Caderno 2, mas as coisas colocadas sob o nosso ponto de vista, abordando desde a arte circense até a música erudita. Incluem também fascículos da maior valia tanto para o leitor comum quanto para o estudante; livretos de ‘tradução’ do que seja o contexto vivido pelo Brasil no plano sócio-político; ciclos de diálogos/palestras promovidos pela revista; livros de jornalismo e política; e outras tantas iniciativas, porque o que não faltam são idéias. E, também, você sabe, o sonho é livre.’

CRÔNICA
José Paulo Lanyi

Jornalista de si mesmo (ou o irresponsável), 18/04/07

‘Sabe aquelas festas em que as pessoas querem mudar o mundo, depois de comer? Mudar o mundo, depois de beber? Mudar o mundo, depois de beijar, depois de transar, depois de dormir? Pois bem. Mudar o mundo exige algum esforço. Pode ficar para o dia seguinte. Mas é preciso dar o primeiro passo, e isso pode ser feito ali mesmo, entre copos, sorrisos e bandejas.

Mudar o mundo não exige mais do que uma ou duas idéias. Normalmente dos outros. Não se trata de copiar o trabalho alheio, mas de destruí-lo. Nessas festas, é imperioso falar mal de todo mundo, para, em seguida, enaltecer aqueles que nos são caros. Podemos pôr defeito em tudo e em todos, à exceção, por exemplo, do governante dos seus sonhos, aquele que nunca estará tão próximo, ainda que more ao seu lado. O governante dos seus sonhos terá de falar uma língua estrangeira, do presente ou do passado. A menos que seja aquele que caiu do céu, no nosso próprio quintal, só para nos salvar. Chamamo-lo de ‘grande líder’, ‘nosso guia’ ou ‘pai do povo’. Pode ser nativo, isso é secundário, portanto. Importa é que ele é.

O governante dos seus sonhos é um paradoxo. Está presente e ausente ao mesmo tempo. Presente porque inspira, pelo simples fato de ser. Ele é a luz dos nossos caminhos. Ele é o pulsar dos nossos anseios. Com ele, os nossos sonhos estão sempre na garantia. Quebrou um, ele dá outro, e a vida segue. Ele está sempre conosco, isso é um fato tão claro quanto o sol do meio-dia. Mas ele também é um solitário, em sua missão sacrificial. Daí a sua ausência sentida, essa que o obriga às decisões que só um abnegado se disporia a tomar. É nessa solidão que ele se dispõe a matar por todos nós, a prender por todos nós, a roubar por todos nós.

O governante dos seus sonhos é como o jornalista que vive do próprio sucesso (uma espécie de jornalista de si mesmo). Este também está sempre presente, mas, diversamente do avatar político, carece da impermeabilidade. Pode ter-se imposto à opinião pública pelo peso das próprias idéias, ou pelo descaramento persistente. Exemplo: tempos atrás, um deles deu uma entrevista a este portal. Disse que muda de opinião ‘apenas para aporrinhar os outros’; que encontra na polêmica uma oportunidade única de ganhar dinheiro; e que as suas melhores opiniões versam sobre os assuntos que ele menos conhece.

Um jornalista assim é um achado. Não digo que inspire. Nem mesmo que desperte admiração ou reverência. Mas sempre saberemos o que ele fez ou escreveu. Por isso está sempre presente, ainda que, como o nosso governante, sempre distante, cuidando que falemos bem ou mal dele, do topo do curioso papel que reservou a si mesmo. Para isso terá de aporrinhar os outros, ganhar dinheiro com polêmica e discorrer sobre as coisas de que não entende.

O governante dos seus sonhos estarrece, mas é perdoável, antes elogiável, pois aplica, magnânimo, as suas razões de Estado em prol dos seus filhos, prendendo, matando e roubando. Tal tem sido o pensamento dominante… O jornalista de si mesmo estarrece e divide: uns desejam-lhe o escalpo, possivelmente por entenderem que ele gosta de aporrinhar, ganhar dinheiro com polêmica ou se meter a analisar os assuntos que não compreende; outros o incensam, apreciam-lhe as qualidades, como o dom de aporrinhar por aporrinhar, o apreço pela polêmica auto-remunerada, o gosto pela produção de análises de assuntos que não conseguiria alcançar, se honesto fosse.

Nada de nomes. É tudo o que eles querem. A minha palavra é como a sua e de todos aqueles que lhes dão importância: é um salvo-conduto para a perpetuação. Em síntese: quanto mais personalismo, menos pensamento; quanto mais personalismo, maior a doença.

Aqui eles não terão mais nome. Como diria um amigo, chega de bater palma para maluco dançar.

(*) Jornalista, escritor, crítico, dramaturgo, escreveu quatro livros, um deles com o texto teatral ‘Quando Dorme o Vilarejo’ (Prêmio Vladimir Herzog). No jornalismo, tem exercido várias funções ao longo dos anos, na allTV, TV Globo, TV Bandeirantes, TV Manchete, CNT, CBN, Radiobrás e Revista Imprensa, entre outros. Tem no currículo vários prêmios em equipe, entre eles Esso e Ibest, e é membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).’

DIRETÓRIO ACADÊMICO
Carlos Chaparro

A ‘arte’ de fazer multidões, 20/04/07

‘O XIS DA QUESTÃO – Criar um pensamento mágico que não passa pela razão é a lógica das manhas e artimanhas da manipulação, das quais fazem parte os slogans, os gestos e os símbolos, responsáveis pela mediação entre os instintos e as opiniões. Sempre com o apoio de mecanismos de repetição – como Salazar fazia e Cháves faz.

1. Velhas lembranças…

Por pelo menos duas décadas e meia, vivi e trabalhei sob a ditadura salazarista. E a estudei, em suas formas políticas, sociais e policiais de agir, para afirmar e exercer poder absoluto sobre consciências e vontades. Com a violência (explícita e/ou possível) da repressão policial, da censura prévia, do partido único, da aliança quase indestrutível com os mais ricos e da disseminação do medo entre as multidões pobres e desinformadas, Salazar construiu uma ditadura que reinou e resistiu por 45 anos. Assentada em um solidário tripé formado pelo poder policial, pelo poder econômico e pelo poder político do partido único, a ditadura salazarista adquiriu vida própria, sobrevivendo ao próprio ditador.

Como qualquer ditador competente de qualquer tendência ideológica, Salazar foi um fabricante de ‘verdades’ incontestáveis, e as impunha como ‘verdades’ da Pátria, pelas muitas manhas e artimanhas da manipulação e do condicionamento – uma delas, o medo que levava as pessoas à opção pelo silêncio político. ‘Sou apolítico’, era a resposta que mais se ouvia de quem se sentia provocado por alguma pergunta sobre a situação do país.

Ao mesmo tempo em que usava o medo para silenciar politicamente a população, Salazar criava, por mecanismos sub-reptícios de comunicação, o argumento persuasório da unanimidade. Faziam parte desses mecanismos a informação fraudulenta, ou seja, a desinformação, e a criação de símbolos com força e efeitos massivos de mito, com o uso significante e repetitivo de cores, gestos, comportamentos e slogans.

Fazia parte desse aparato manipulador a criação formal de ‘legiões’ civis, uma para crianças, adolescentes e jovens (a Mocidade Portuguesa), outra para adultos (a Legião Portuguesa). Essa face ‘civil’ e ‘patriótica’ do salazarismo desfilava em uniformes esverdeados nos freqüentes eventos públicos ditos ‘cívicos’ e ‘patrióticos’ geradores da imagem pública do regime.

Tudo, em nome da Pátria.

Até a censura prévia tinha belos e patrióticos argumentos na lei que lhe dava força – por exemplo: defender a opinião pública ‘de todos os fatores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum’; e ‘evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade’.

Com tudo isso, criava-se, ou tentava-se criar, um pensamento mágico que não passava pela razão. Essa é a lógica da manipulação, da qual fazem parte os slogans, os gestos, e os símbolos, responsáveis pela mediação entre os instintos e as opiniões. Sempre com o apoio de mecanismos de repetição.

2. …Novas repetições

Sei lá por quê, me vieram à lembrança todos esses cenários do salazarismo quando hoje vi, no Estadão, a impressionante foto da multidão chavista que enchia o imenso ginásio de esportes Poliedro, em Caracas. Milhares de pessoas uniformizadas, amalgamadas na unanimidade da cor vermelha e do gestual do punho erguido. E a multidão se entregava a slogans proclamados como ‘verdades’. ‘Verdades’ em torno das quais se celebram os acordos da adesão ao novo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que reunirá todas as vertentes do chavismo e no qual se entra sob juramento.

Sei que a ‘realidade Chávez’ pouco ou nada tem a ver com a ‘realidade Salazar’.

Chávez foi democraticamente eleito, em eleições acompanhadas de perto por observadores internacionais. Tem e exerce um poder recebido das urnas. E, quer se goste ou não do seu estilo dramaticamente populista, é um líder verdadeiramente forte em seu país. Onde, não sei com que limitações e possibilidades, a oposição continua a existir e a manifestar-se. No próprio dia em que Chávez encheu de uniformes vermelhas o ginásio Poliedro, o partido da oposição, Um Novo tempo, foi às ruas protestar contra a não renovação da concessão de rede RCTV, que estava em mãos de um grupo anti-chavista. E a oposição não marca presença no Congresso porque preferiu boicotar as eleições.

Mas que Hugo Chávez tem jeitos e impulsos de ditador, lá isso tem.

Como se trata de um político de razoável estofo intelectual, não custa a crer que tenha estudado muito bem as artes manipuladores dos grandes ditadores retóricos do século XX – de Hitler a Fidel Castro. Pelas demonstrações que dá, não só estudou tais artes, mas as atualizou, adequando-as à sua realidade e às suas ambições.

Mas, como problema ou como solução, pelo menos por enquanto, Chávez pertence aos venezuelanos. Razão mais do que suficiente para parar por aqui.

(*) Carlos Chaparro é português naturalizado brasileiro e iniciou sua carreira de jornalista em Lisboa. Chegou ao Brasil em 1961 e trabalhou como repórter, editor e articulista em vários jornais e revistas de grande circulação, entre eles Jornal do Commercio (Recife), Diário de Pernambuco, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, Diário Popular e revistas Visão e Mundo Econômico. Ganhou quatro prêmios Esso. Também trabalhou com comunicação empresarial e institucional. Em 1982, formou-se em Jornalismo pela Escola de Comunicação de Artes, da USP. Também pela universidade ele concluiu o mestrado em 1987, o doutorado em 1993 e a livre-docência em 1997. Como professor associado, aposentou-se em 1991. É autor de três livros: ‘Pragmática do Jornalismo’ (São Paulo, Summus, 1994), ‘Sotaques d’aquém e d’além-mar – Percursos e gêneros do jornalismo português e brasileiro’ (Santarém, Portugal, Jortejo, 1998) e ‘Linguagem dos Conflitos’ (Coimbra, Minerva Coimbra, 2001). O jornalista participou de dois outros livros sobre jornalismo, além de vários artigos (alguns deles sobre divulgação científica pelo jornalismo), difundidos em revistas científicas, brasileiras e internacionais.’

MASSACRE NA VIRGÍNIA
Antonio Brasil

A cobertura do massacre nos EUA, 19/04/07

‘E tem gente que ainda duvida do poder do novo jornalismo cidadão.

Apesar de todo o aparato das principais redes de TV americanas, o grande momento da cobertura do massacre na Universidade de Virginia Tech Polytechnic foi a exibição do vídeo produzido pelo celular de um estudante. (ver aqui).

Não se trata mais de meras imagens impessoais captadas e vendidas por ‘cinegrafistas amadores’. Estamos diante de um novo tipo de público para os telejornais: o telespectador-repórter. Ele não se contenta mais em simplesmente assistir aos telejornais. Em grande número, espalhados em verdadeiras brigadas, eles partem em busca das notícias. Tentam compensar suas limitações e deficiências com maior agilidade, coragem e algum ‘faro’ para obter o prêmio máximo: o furo jornalístico.

Agachado junto ao chão, temendo pela própria vida, o estudante Jamal Albarghouti aceitou a convocação do I-Report, (ver aqui), o site de jornalismo participativo da CNN, para registrar a tragédia anunciada. Jamal era freqüentador assíduo desses novos sites e, ao perceber a movimentação da polícia no campus, vislumbrou a oportunidade de fazer jornalismo e ganhar um bom dinheiro.

O resultado foi excepcional. Mais de 1,8 milhões de pessoas viram as imagens. Mesmo ao longe, o vídeo registra a dramática seqüência de tiros do massacre. Pow, pow, pow… cada estampido representa mais um estudante ou professor mortos. Pow, pow, pow. Até esse momento, foram 32 mortos. Em uma cadência mórbida e dramática, os breves intervalos representam armas sendo recarregadas. E mais pow, pow, pow. Contrariando os dogmas sagrados da TV, a ação dramática se desenrola sem imagens. O som diz tudo. Difícil de esquecer. Os pequenos celulares fazem a história do novo jornalismo.

No passado, o grande momento de coberturas semelhantes era a chegada das grandes estrelas do jornalismo, os âncoras das redes de TV.

Dessa vez, a chegada de Katie Couric da CBS, a primeira a transmitir diretamente do campus da Virginia, seguida pelos demais âncoras, foi superada pelo interesse pelo conteúdo dos vídeos de celulares e o depoimento das testemunhas. O trabalho dos jornalistas, ainda no calor dos acontecimentos, é muito difícil. Não se conhecem os fatos ou as razões para o massacre. E não se pode explicar o inexplicável.

Essa não é a primeira vez que os celulares dos telespectadores superam as imagens dos profissionais. Nos atentados de Londres, a BBC também convocou o público a contribuir com a cobertura e também houve uma verdadeira avalanche de vídeos sensacionais produzidos pelos neotelespectadores.

A cobertura de TV passou a depender do público para registrar os grandes eventos. Caras, grandes e pesadas, as TVs do passado chegam sempre atrasadas para mostrar o que já aconteceu. Insatisfeito, os neotelespectadores indicam as alternativas. O futuro aponta uma sinergia cada vez maior entre o jornalista e o público. A diferença ou o espaço sagrado entre ambos se confunde, está quase desaparecendo. Na falta de informações, apela-se para os clichês e as emoções. É difícil explicar o inexplicável.

O Iraque é aqui!

Aqui no Brasil, o JN e demais telejornais seguiram a mesma linha da cobertura tradicional. Frases feitas, o número de mortos, ‘o maior massacre do gênero nos EUA’ eram repetidos ad eternum.

O mais assustador é pensar que matar e morrer se torna quase uma rotina nas escolas dos EUA. A violência faz parte do ‘American Way of Life’ e, ao contrário do que declarou o presidente Bush em cadeia nacional de TV, as universidades americanas não são ‘verdadeiros santuários da paz’.

Lecionei durante quase três anos em uma das maiores universidades dos EUA, a Rutgers do Estado de Nova Jersey. A presença de militares armados era constante nos centros de recrutamento e treinamento de estudantes. Muitos estudantes sabem atirar muito bem e possuem armas. Mas o pior era a presença em sala de aula de veteranos, ex-combatentes recém-chegados do Iraque ou do Afeganistão. Eles eram considerados verdadeiras bombas-relógio, ameaças imprevisíveis, violentas e muito perigosas que poderiam ‘explodir’ a qualquer momento.

Hoje, muitos americanos devem pensar que o Iraque é aqui! A grande ironia da cobertura do massacre na Virginia é a coincidência da publicação no mesmo dia de matéria do Washington Post sobre o Brasil. Em extensa reportagem, o correspondente do jornal americano descrevia os horrores do Rio de Janeiro, uma cidade onde ‘mortes violentas de jovens superam as do Oriente médio’. É sempre mais fácil e cômodo explicar a violência… dos outros.

Após o massacre na Virginia, alguns americanos também devem estar pensando que o Brasil é aqui. De qualquer maneira, segundo o historiador americano Thomas Skidmore em entrevista à rádio CBN, ‘não adianta tentar buscar explicações simplistas e temporárias para esses massacres em escolas americanas. A história e cultura dos EUA sempre foram muito violentas.’ É cada vez mais evidente, no entanto, que a globalização da violência não reconhece nacionalidade, idade, religião ou fronteiras.

Cho Seung-Hui, o estudante sul-coreano de 23 anos que matou friamente 32 pessoas no campus da Universidade da Virgínia era considerado um sujeito quieto e normal. Residente legal nos EUA desde os 8 anos, jamais cometeu qualquer crime. Segundo os últimos informes das agências, ele se preparou com antecedência para o massacre. Comprou com facilidade armas e munição e deixou uma mensagem na Internet. Sabia que ia morrer. Não foi atentado terrorista. Ele não se conformava com a separação da namorada.

Em verdade, desde sempre, o velho ‘terrorismo’ da juventude, da insanidade e do amor não correspondido fazem novas vítimas.

Amar, matar e morrer se confunde nas escolas, nos videogames e nos telejornais via celulares.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’ e ‘O Poder das Imagens’. É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.’

COMUNIQUE-SE
Cassio Politi

Entre Mainardi e Franklin, C-se fica com o populismo, 23/04/07

‘A escolha das palavras fez transparecer que o Comunique-se tomou partido na rixa entre Diogo Mainardi e Franklin Martins. O título ‘Ivanisa Telteroit, esposa de Franklin Martins, comenta coluna de Diogo Mainardi’ (16/04) não condiz com o conteúdo da matéria. O texto diz que Mainardi fez ataques a Franklin Martins. Algumas linhas depois, acrescenta que o articulista obteve munição para seu último texto. Pelo menos, há coerência: munição para atacar.

Um comentário foi categórico: ‘A matéria entra numas de cutucar o Mainardi, em defesa da mulher do outro’. Quer uma prova de que o leitor tem razão? Leia o seguinte parágrafo: ‘Franklin Martins não foi encontrado para comentar o último texto de Mainardi’. Porém, o articulista de Veja nem sequer foi procurado. Seria o caso de segurar a matéria até que todos os lados fossem efetivamente ouvidos. Sim, efetivamente ouvidos, porque as pessoas raramente são encontradas. A redação dá a impressão de que desiste muito facilmente de seus entrevistados. Ou, o que é pior, julga desnecessário ouvir um deles.

‘Esse texto fala, fala, fala e não chega a lugar algum’, comenta outro usuário. Além do blablablá, que por si só é inconveniente num veículo on-line, a reportagem tem uma característica perigosa: a parcialidade*, deliberada e escancarada.

Que o público, em sua maioria, demonstre não gostar do que Mainardi escreve, é compreensível. Assim como seria compreensível se gostasse. Inaceitável é o veículo tomar partido para agradar à platéia.

Caso Attuch

‘Veja publica nota retificando ataque a Leonardo Attuch’ (17/04) trouxe informações corretas, mas derrapou na interpretação. Resumidamente, a matéria destaca uma nota veiculada em Veja na semana passada. A reportagem do Comunique-se cumpriu bem seu papel ao ouvir o jornalista e o advogado da revista. Mas falhou ao sentenciar: ‘o texto atual não contradiz nenhuma informação [da matéria que originou o litígio]’. Como não?

Fico com a avaliação de um leitor. ‘Há uma disparidade enorme entre o primeiro e o segundo texto, inclusive na diagramação’, opina. Ele observa que a retratação está no pé da página 125, em letra miúda, num box de 5 por 11 centímetros. ‘Isso que a Veja fez me parece uma confissão de culpa, que pode resultar numa boa indenização em dinheiro’. Tem razão. Aliás, em 24/01, a revista foi condenada a pagar R$ 17,5 mil a Attuch por danos morais.

O site Consultor Jurídico também teve interpretação diferente da forma como a redação do Comunique-se encarou o novo capítulo do imbróglio. ‘Na nota de retratação publicada esta semana, a revista afirma que Attuch não teve qualquer ligação com a alteração do número de venda de exemplares de seus livros. Além disso, a revista, que já relacionou o nome do jornalista com o caso Kroll, ressaltou que Attuch jamais foi denunciado ou indiciado’, publicou o ConJur.

Agora vai?

Há tempos, recebo reclamação de leitores do mau uso que ocasionalmente se faz da área de currículos do Comunique-se. Tem de tudo: gente que finge oferecer emprego para na verdade pedir; gente que faz propaganda por ali. O caso foi levado, num primeiro momento, para a unidade de pesquisa e atualização. Porém, ficou claro que o problema é ético, mas a solução é técnica: é preciso cortar determinadas funcionalidades para colocar nos eixos os usuários que fazem mau uso da ferramenta. A área técnica prometeu uma reformulação rápida. Aos leitores, fica o pedido de continuar fazendo relatos a este ombudsman.

Em pauta

De tão oportuna, a coluna ‘Direito na Mídia’ da semana passada arrancou elogios e uma curta (e inteligente) troca de opiniões entre os leitores. O autor, o advogado Gilberto Martins, explicou didaticamente as responsabilidades sobre comentários postados em sites como o Comunique-se. O autor prevê que essa questão será muito discutida num futuro próximo.

BandNews FM

Dois leitores discordaram deste ombudsman. Na coluna da semana passada (16/04), afirmei: ‘Com pouco tempo de vida, a BandNews FM já ganhou em várias cidades (São Paulo e Rio de Janeiro, inclusive) notoriedade e audiência suficientes para figurar no rol de grandes veículos’. A medição de audiência de rádio, em geral, é muito controversa. Ambos têm uma leitura diferente da minha: entendem que a BandNews FM não é tão ouvida, como dei a entender. Respeito, claro, suas opiniões.

Continuo, no entanto, firme na posição de que o Comunique-se deva cobrir o mercado mais atentamente, e incluir, sim, a BandNews FM no rol classificado de ‘grande imprensa’. Afinal, a emissora conta com jornalistas como Ricardo Boechat e colunistas como José Simão, Bárbara Gância e Dora Kramer, sem contar os colunistas de outras áreas, também de peso (Paulo Autran e Carlos Lessa, por exemplo).

Sucesso furtado

Não fosse um detalhe, alertado por um leitor, a reportagem ‘Corinthians acusa Lance de roubar contrato’ (20/04) mereceria nota 10. Embora o assunto já tivesse sido abordado pela imprensa durante a semana, o Comunique-se, além de dar nome aos bois, provocou um interessante debate sobre o tema. O deslize em questão é o uso do verbo correto. O contrato não foi roubado: foi furtado.

Cassio Politi é jornalista. Trabalha com Internet desde 1997. Esteve em projetos pioneiros em jornalismo na Web, como sites da Zip.Net, e no site UOL News, do Portal UOL. Ministra cursos de extensão sobre Jornalismo On-Line e Videorreportagem desde 2001. Deu aulas em 25 estados brasileiros para mais de 2 mil jornalistas. Em janeiro de 2007, tornou-se o primeiro ombudsman do Comunique-se, empresa na qual também ocupa o cargo de diretor de Cursos e Seminários.

(*) Correção feita a partir do comentário do leitor José de Souza Castro, postado às 8h51 do dia 23/04/2007.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Folha Online

Veja

Agência Carta Maior

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