Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CADERNO DA CIDADANIA >

Confundindo pandemia com pandemônio

Por Michel Arbache em 11/08/2009 na edição 550

Passado o princípio de pânico ante a pandemia da chamada ‘gripe suína’, o quadro que temos hoje é bem mais tranqüilizador do que o alarmismo advindo dos primeiros casos no México. Pelo que atestam os especialistas, o vírus A (H1N1) não chega a ser tão nefasto como sugeria a sua estranheza inicial. Hoje, sabemos que tanto pelos sintomas quanto pelos óbitos causados pelas complicações da doença (principalmente a pneumonia), a ‘gripe suína’ não é mais grave ou menos grave do que aquela gripe ‘tradicional’ causada pelo vírus conhecido genericamente como ‘influenza sazonal’. Isto, excetuando diversos outros tipos de vírus cuja proliferação é mais intensa no inverno.

Segundo informação do Ministério da Saúde, ainda é cedo para especular sobre os efeitos futuros (mutação, agressividade etc.) do novo vírus, mas o fato é que hoje o vírus A (H1N1) entrou numa espécie de ‘competição’ com a influenza sazonal. Isto significa que, neste inverno de 2009, somadas a gripe comum e a ‘gripe suína’, não temos, em termos relativos, um número muito maior de pessoas gripadas em comparação com o inverno de 2008.

Da mesma forma, neste ano, o número de mortes causadas pelas complicações da gripe não é, na comparação com 2008, algo alarmante. Vale frisar: ‘mortes causadas pelas complicações da gripe’ não é o mesmo que dizer ‘mortes causadas pelo vírus da gripe’. O vírus da gripe, diferente do que alguns setores da imprensa insistem em sugerir, não mata. O que pode matar, isto sim, é a desinformação.

Enfoque dramático

O que temos lido e assistido na imprensa nos últimos dias em relação à nova gripe são enfoques estritamente sensacionalistas que em nada ajudam a preocupação do Ministério da Saúde de transmitir informação e tranquilidade à população. Em vez disso, ocupam o noticiário nacional com as ‘mortes causadas pela gripe suína (sic)’, a correria aos hospitais, a fragilidade do sistema de saúde pública e a revolta da população.

Não seriam tais notícias os fatores fomentadores de toda essa intranqüilidade e caos? É o caso de se questionar: qual a real necessidade de um cidadão comum ser informado que ‘a gripe suína está matando’? Não seria mais sensato ‘bombardear’ a população com dicas sobre a higiene pessoal e hábitos alimentares saudáveis?

Ao que parece, andam confundindo ‘pandemia’ com ‘pandemônio’, com a prevalência deste último. Chegou-se ao cúmulo de o noticiário televisivo mostrar um estádio de futebol com quase toda a torcida usando máscaras para ‘proteção contra a gripe’, como se residisse sensatez em tal providência… Até onde chegará, por parte da mídia, a propaganda da desinformação e estupidez? Cadê o papel social da imprensa?

Nos países mais desenvolvidos em que o A (H1N1) se espalhou, o clima que ora impera é de tranquilidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, um dos primeiros países em que a nova gripe chegou forte (quando então era inverno por lá), o noticiário foi muito mais informativo do que alarmista. Não houve, portanto, o enfoque dramático como este com que a imprensa brasileira tem tratado do caso. O resultado é que a população norte-americana, no geral, continuou levando uma vida normal a tal ponto que, hoje, não há qualquer notícia, qualquer vestígio traumático da passagem da ‘gripe suína’ por lá.

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Professor, Juiz de Fora, MG

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