Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > JUSTIÇA & DEMOCRACIA

Corrupção a céu aberto

Por Luciano Martins Costa em 04/07/2012 na edição 701

Comentário para o programa radiofônico do OI, 4/7/2012

 

As imagens, bastante exploradas pela televisão, nas quais o prefeito de Palmas, no Tocantins, negocia com o bicheiro Carlos Cachoeira alguma ajuda financeira em troca de participação em seu futuro governo, são o retrato da falência do sistema eleitoral que fundamenta a democracia brasileira.

Sem sutilezas, as cenas demonstram que o sistema representativo da República é uma farsa: desde o lançamento das candidaturas, organizações como a que é comandada pelo bicheiro de Goiás se responsabilizam pelas campanhas, oferecendo consultoria para todas as necessidades dos partidos até o dia da posse. Depois, vem a cobrança.

No caso de Raul Filho, que se elegeu pelo Partido dos Trabalhadores em Palmas, os diálogos são exemplares: o então candidato pede ajuda de qualquer tipo, e acaba aceitando a oferta de um show para animar seu comício. O preço seria, claro, o superfaturamento de algum serviço público. Mais claro, mais transparente, não poderia ser.

Salvo esquemas mais sofisticados, como os acordos tácitos do instituto criado pela indústria de construção civil em São Paulo para financiar seus candidatos prediletos à prefeitura e à Câmara Municipal, essa é a realidade da política em todo o país.

Raciocínio primário

A rigor, não se pode chamar isso de política. Na verdade, trata-se da apropriação do poder público por interesses privados, um tipo de negócio particular como qualquer outro, com a diferença de que a conta é paga pelos cofres públicos.

No caso do bicheiro Cachoeira, o fato agravante é que o dinheiro que financia candidatos vem de atividades ilegais. E não se pode descartar, por exemplo, a possibilidade de que até mesmo o lucro do narcotráfico esteja sendo devidamente lavado em operações desse tipo.

Em São Paulo, já houve o caso de um candidato a deputado federal bancado diretamente pela organização criminosa conhecida como Primeiro Comando da Capital, cuja principal fonte de renda é o tráfico de drogas.

A tranquilidade com que se negocia a participação de bandidos no financiamento de campanhas eleitorais torna perfeitamente factível a suspeita de que a liberdade de ação dos traficantes em muitas cidades brasileiras tenha sido negociada como parte dessas alianças.

Observe-se, por exemplo, como a operação das Forças Armadas na cidade paulista de Pirassununga em busca de ladrões de munições, levou o PCC a eliminar os suspeitos, para evitar que a operação militar continuasse a prejudicar seus negócios com drogas.

Embora oficialmente o poder dessa sigla não seja reconhecido pelas autoridades paulistas (ver, neste Observatório, “PCC e imprensa, o enigma e o tabu”), quem controla a segurança pública fora das zonas urbanas privilegiadas é o crime organizado, não a polícia.

Na quarta-feira (4/7), a imprensa noticia como fato corriqueiro que a organização criminosa tenha “solucionado” o mistério do furto de munições simplesmente matando os suspeitos. Depoimentos de moradores dessas localidades ocupadas temporariamente por soldados do Exército e da Polícia Militar revelam o horror a que são submetidas essas famílias diariamente. Não é mera coincidência que, durante a ocupação, a criminalidade nesses bairros de Pirassununga tenha caído a zero. Mas não há referencia na imprensa à evidente necessidade de manter o policiamento nesses locais, para evitar que o narcotráfico volte a estabelecer seu domínio.

Ora, é raciocínio primário ponderar que, se controlam a rotina dessas comunidades, os criminosos organizados podem muito bem definir os resultados de eleições.

A democracia sob risco 

O episódio envolvendo Carlos Cachoeira com o prefeito de Palmas pode ter vindo a público por iniciativa do próprio bicheiro, como um aviso de que teria muito ainda a mostrar, quem sabe envolvendo alguns de seus acusadores.

Então, perguntaria o leitor, “estaria tudo dominado?”

É bem possível que sim, mas a sociedade, a imprensa e os partidos políticos – mesmo aqueles profundamente contaminados pelo esquema Cachoeira – precisam colocar um limite nessa negociata, sob pena de todos acabarem perdendo.

Mas não basta escancarar e expurgar da política o esquema chefiado pelo bicheiro goiano. A sucessão de escândalos envolvendo financiamento de campanhas eleitorais está minando a credibilidade do próprio regime democrático no momento em que o Brasil consegue produzir o fenômeno da mobilidade social massiva.

Sabe-se que a segunda e terceira gerações das famílias que ascendem da pobreza tendem a se tornar mais conservadoras. Com as instituições políticas minadas pela corrupção, uma sociedade conservadora e pouco educada se torna terreno propício à ação de aventureiros populistas, para risco da própria democracia.

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