Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > PROFISSÃO PERIGO

Cresce o número de jornalistas mortos em ação

Por Lucas Bombana em 21/11/2006 na edição 408

É cada vez mais perigoso seguir a profissão de jornalista, principalmente no caso daqueles enviados para cobrir conflitos armados, como no Iraque e no Afeganistão, além de outros locais como a Colômbia e México, onde jornalistas sofrem represálias de traficantes de drogas; ou ainda casos como Cuba e Estados Unidos, onde pouco se camufla a censura à mídia.

Segundo relatório da Federação Internacional de Jornalistas, 2005 foi o ano mais letal para os comunicadores, com 150 mortes contabilizadas, das quais 89 ocorridas durante o cumprimento do dever. Por haver algumas associações organizadas que visam o bem-estar do profissional de jornalismo, os números por vezes se desencontram pela diferença usada nos critérios das instituições.

Os atentados contra jornalistas estão ocorrendo com tamanha freqüência que, no 40º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o papa Bento XVI publicou sua primeira mensagem voltada aos profissionais da mídia: ‘A comunicação autêntica deve basear-se na coragem e na decisão’.

O local que atualmente representa mais perigo à vida dos repórteres é o Iraque. Desde o início da invasão americana, em março de 2003, 86 jornalistas já foram mortos, segundo dados da organização francesa Repórteres Sem Fronteiras – número de mortes entre jornalistas que supera as ocorridas na Segunda Guerra Mundial e nos 20 anos da guerra do Vietnã. Para o grupo francês, o crescimento do número de jornalistas mortos está diretamente ligado a crimes com motivações político-militares, tanto que nos tribunais internacionais os jornalistas não estão sendo obrigados a depor, mesmo quando intimados.

Um ataque direto sofrido por um grupo de jornalistas autônomos, ou não incorporados às tropas militares que cumprem a missão no Iraque, foi numa investida do exército norte-americano contra o Hotel Palestina, em 8/4/2003, em Bagdá, no qual muitos jornalistas estavam hospedados. A informação mais tarde veiculada pelas forças americanas foi a de que o reflexo que as miras das armas usadas pelos rebeldes iraquianos produziam confundiam-se com as das lentes de câmeras fotográficas – daí o equívoco que levou a morte de dois jornalistas, Taras Protsyuk, da agência Reuters, e José Couso, da emissora Telecinco.

Outro ataque patrocinado pelos EUA que gerou protestos de organizações jornalísticas foi à rede de televisão al-Jazira. Foi o terceiro ataque norte-americano a canais de televisão desde 1999, quando a sede da televisão sérvia, em Belgrado, foi bombardeada pela OTAN, causando a morte de 16 pessoas.

O que os americanos alegaram sobre o ataque à al-Jazira foi que a emissora transmitia códigos para as tropas iraquianas se insurgirem contra eles. Robert Ménard, secretário-geral do Repórteres Sem Fronteiras, criticou com veemência o ataque americano, lembrando que os EUA só fazem uso das convenções de Genebra quando diz respeito aos seus soldados: ‘Deviam ter atenção em não deixar no ar a idéia de que alvejarão regularmente qualquer estação de televisão que lhes faça frente’ disse o Ménard.

Tarefa dura

A maioria dos 86 jornalistas mortos no Iraque são nativos, o que levou os Repórteres Sem Fronteiras a criar um fundo de ajuda as famílias, principalmente aquelas em que o parente perdido prestava serviço a canais de comunicação de pequeno porte, que não possuem recursos para ajudar os familiares desamparados.

Numa tentativa de diminuir esse alto índice de mortes de profissionais da mídia, o secretário geral da Federação Internacional de Jornalistas, Aidan White, fez um apelo às tropas anglo-americanas responsáveis pela ocupação, para fornecer proteção também aos jornalistas que não estão incorporados às unidades militares. O White pediu também bom senso por parte dos próprios jornalistas: ‘A pressão competitiva entre as empresas de mídia, para ser o primeiro a dar a notícia, não deve sobrepor-se à necessidade de proteger as pessoas no terreno’, disse, assinalando que os freelances que têm sido os mais vulneráveis em tais situações.

Infelizmente não é só no Iraque que jornalistas têm suas vidas postas em risco. Em 7/11, dois jornalistas alemães foram encontrados mortos no Afeganistão, apesar de o Talibã assegurar que não ataca jornalistas.

Outro local que representa risco aos jornalistas é a América Latina, em especial o México, que desde a posse do presidente Vicente Fox, há seis anos, já contabilizou 23 jornalistas mortos, segundo dados da Federação Latino-americana de Jornalistas (FLAJ). Pela entidade, de janeiro a junho de 2006, nove 9 jornalistas foram mortos em países onde a corrupção de políticos aliados a gangues de narcotraficantes faz do serviço dos profissionais de imprensa uma tarefa árdua. Desde a fundação da FLAJ, em 1976, já passam de 800 os jornalistas mortos na região da América Latina e Caribe.

Memorial de repórteres

Para o Coronel Carbonell, chefe do Centro de Comunicação Social do Exército brasileiro, que esteve na missão de paz no Haiti, os jornalistas brasileiros deixam muito a desejar em relação ao de outros países, tanto em relação à verba para locomoção, contrato de intérpretes e materiais sofisticados, como o próprio conhecimento da área, que segundo o coronel é muito aquém do necessário.

Encontra-se nessa região também a ilha de Cuba, local que gera controvérsias em relação ao trabalho de jornalistas. O grupo Repórteres Sem Fronteiras, que teve seus integrantes expulsos da ilha neste ano, com o aval da ONU, é um dos que mais criticam o governo de Fidel Castro, apontando que, em 2006, ali já foram mortos 18 jornalistas. Acusam também o regime de censurar comunicadores críticos do governo.

Para Salim Lamrani, que escreveu livros sobre o embargo econômico sofrido por Cuba, a RSF, do milionário francês François Pinault, não busca verdadeiramente a liberdade de imprensa, mas apenas perseguir grupos com ideologia distintas da sua, criticando a falta de visibilidade dada a outros casos de censura da imprensa.

De acordo com a Associação Mundial de Jornais, 75 jornalistas foram mortos em em 2006. O Repórteres Sem Fronteiras criou um braço jurídico denominado Rede Damocles, que busca levar aos tribunais os assassinos dos jornalistas, já que a impunidade é motivo de preocupação para que esses números não continuem crescendo. Na cidade francesa de Bayeus, a primeira libertada na Segunda Guerra após o desembarque dos aliados na Normandia, será inaugurado o primeiro Memorial dos Repórteres na Europa, para homenagear os mais de 2.000 jornalistas mortos desde 1944.

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Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero (São Paulo), participante do ‘Projeto Repórter do Futuro – Jornalismo em situações de conflito armado’, promovido pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha em parceria com a Oboré

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