Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA SEXUAL

Crimes sem punição

Por Alberto Dines em 22/03/2010 na edição 581

O circo está armado: a mídia popular, sobretudo a eletrônica, está excitadíssima com o início do julgamento, na segunda-feira (22/3), em São Paulo, do casal Nardoni-Jatobá, acusado de ter jogado a filha-enteada Isabella do 6º andar do edifício onde moravam.


O julgamento de um dos crimes mais horrendos já praticados no país vai estender-se ao longo de cinco dias. Porém, uma sucessão de crimes escabrosos está há anos mantida longe dos holofotes. No domingo (21), finalmente foi para a primeira página dos jornais do mundo inteiro quando o papa Bento 16 pediu perdão pelas violências cometidas por sacerdotes pedófilos na Irlanda. Lamentou as ‘falhas graves’ mas não falou em punir culpados.


Muito constrangidos, os jornalões brasileiros mencionaram a carta do papa sem grande destaque, na parte inferior da primeira página – como se tivessem combinado. Estão combinados.


Laica e secular


Mas a Irlanda é muito longe. Ninguém falou no caso de Arapiraca, em Alagoas, onde um monsenhor de 82 anos assediava sexualmente há oito anos um jovem ex-coroinha.


Esta brutalidade foi desvendada numa cuidadosa reportagem do repórter Roberto Cabrini no programa Conexão Repórter, do SBT, exibido no dia 11 de março (ver aqui).


Chocante, mas não houve qualquer repercussão, como se o resto da mídia, sobretudo os jornalões, tivessem feito um pacto de silêncio. Quem o quebrou foi a edição de Veja desta semana (‘Ferveção em Arapiraca‘, para assinantes).


Esta onda de violências sexuais praticadas por sacerdotes não é nova, não matou ninguém, mas destrói anualmente centenas de vidas, liquida famílias, ofende os que acreditam em Deus – inclusive o sumo pontífice.


A questão da pedofilia, versão criminosa da pederastia, não pode ficar confinada ao âmbito canônico ou teológico. Numa república secular, laica, como a nossa, sacerdotes não podem ficar acima da lei. Assédio a menores é crime. E todos os crimes devem ser investigados pela polícia e encaminhados ao Judiciário. Sem privilégios. Sem a proteção de pactos de silêncio.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/03/2010 Ibsen Marques

    Alfredo, a coisa do clamor popular realmente é lestimável. Eu pensei que as leis e a justiça visassem exatamente o oposto a isso. Pensei que ela deveria ser isenta e livre de paixões, justamente para que ocorresse punição e não vingança. Se assim é, então voltamos ao Estado de Natureza hobbesiano. O julgamento dos Nardoni é uma farsa, a população através do clamor da imprensa (e não o contrário) e a própria imprensa já os condenaram. como evitar que o juri se dispa dos pré-conceitos e desvista-se desse linchamento prévio para promover uma análise à partir do que espuserem a promotoria e a defesa? É por isso que esse vocabulário jornalístico do ‘pretenso agressor, suspeito criminoso etc etc’ que deveria não imputar culpa e julgamento prévio é, na verdade, uma farsa, pois o andamento da notícia é, em si mesmo, condenatório. A justiça fica de mãos atadas e numa situação bastante complicada, porque se restar justo a absolvição dos réus, a população e a imprensa dirão que a a justiça brasileira é falha, justamente porque o veredito não condisse com a condenação prévia da imprensa e da população que, em última instância, baseia-se tão somente na pretença confiabilidade e isenção da nossa imprensa. Depois os réus solicitam segredo de justiça e esse pessoal vem com as acusações de censura de sempre.

  2. Comentou em 22/03/2010 Wendel Anastacio

    É Dinis, meu comentário não tem muito a ver com seu artigo atual, mas como o assunto do dia é as relações Israel X EE.UU, e para não me esquecer, requento meu comentário no seu artigo ‘A importação Indevida de 29/01:
    ‘Também é visivelmente artificial a impressão construída na mídia brasileira de que a administração Barack Obama está sendo um fracasso. O presidente americano está na Casa Branca há cerca de 370 dias, tem no mínimo outros 1460 para completar as mudanças que iniciou’. É Dinis, desde que siga corretamente a cartilha, e não contrarie os interesses dos grupos que o financiou! Caso contrário, tenho sérias dúvidas de que vá cumprir seu mandato, mesmo porque, estes grupos nos EE.UU, hoje perguntam se foi o passo certo.
    Dito isto, transcrevo parte do artigo de Uri Avnery em Carta Capital:
    ‘Todos sabemos que o lobby pró-Israel domina sem limites o sistema político nos EUA. Isso, ou quase isso. Todos os políticos e altos funcionários norte-americanos morrem de medo dele. O menor desvio do roteiro prescrito pelo AIPAC, implica suicídio político’.
    Mas há um ponto fraco na armadura desse Golias político. Como Aquiles no calcanhar, esse descomunal lobby pró-Israel tem um ponto vulnerável o qual, se atingido, pode neutralizar todo o seu poder.
    Assim sendo, mesmo não tendo nada a ver com seu artigo, solicito seus comentários sobre o que foi escrito no artigo csistado!

  3. Comentou em 22/03/2010 Fábio de Oliveira Ribeiro

    No Brasil a impunidade tem sido tão grande e generalizada (vai de políticos corruptos a empresários que corrompem; de propagandas enganosas a jornalistas que recebem propina publicitária; de pedófilos comuns e religiosos a delegados donos de puteiros; de torturadores militares a seus apoiadores na mídia que dizem ter ocorrido uma ‘ditabranda’; de banqueiros que cobram juros criminosos a clientes que popularizam o cheque pré-datado sem fundo na certeza de que não responderão por estelionato; etc e etc…) que os jornalistas não deveriam mais clamar pela PUNIÇÃO dos impunes mas pela LIBERTAÇÃO daqueles poucos foram considerados culpados.

    Se a impunidade é a regra, que seja a regra para todos sem distinção de situação econômica, cor, raça, credo, etc… A punição de uns poucos e impunidade de muitos outros é uma clara demonstração de que a democracia não funciona… ou só funciona ao contrário para o contento dos ‘mais iguais’.

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