Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > FOLHA DE S. PAULO

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 10/07/2007 na edição 441

05/07/07

Erros acontecem, também no jornalismo.

O melhor caminho para evitar que eles se repitam é entender por que ocorreram.

Como diz um jornalista inspirado, errar é do jogo, mas os erros devem ser novos (quem repete os velhos não aprendeu com eles).

O mais difícil é saber qual o erro mais grave: o de domingo, ao bancar que uma jovem de 16 anos, personagem da primeira página, estava grávida, ou o de hoje, quando, no lugar de uma correção transparente, a Folha publicou um texto que mais esconde do que esclarece seu equívoco.

Na capa, a chamada afirma que James da Silva, a garota com nome masculino, ‘dizia ter confirmado a gestação através de testes de urina’ (‘Exame revela que James, 16, não está grávida’).

Faltou informar que não era só James que afirmava a gravidez; a Folha também.

Repetida um sem-número de vezes no domingo, a (falsa) gravidez não mereceu Erramos. A correção não poderia se resumir à seção, mas também deveria constar dela.

O maior erro do dia é que, em vez de se corrigir claramente, a Folha publicou uma suíte como se não tivesse tropeçado.

A ‘reportagem’ ‘Teste revela que a menina James, 16, não está grávida’ (pág. C5) não apenas não se refere ao erro do jornal, mas ainda canta vantagem: ‘James, como mostrou reportagem da Folha na edição de domingo, foi registrada como menino’.

Sim, a mesma reportagem que disse que James estava grávida.

O texto de hoje afirma que, ‘na reportagem [dominical], a menina dizia ter constatado a gravidez por meio de dois testes de urina, há dois meses’.

A informação é parcial. Eis o que saiu no domingo: ‘‘Quando crescer’, diz a menina que descobriu a gravidez em teste de farmácia, quer ser professora de qualquer coisa’.

Ou seja, a Folha assegurou que James de fato descobriu a gravidez em teste de farmácia. Não se limitou a registrar o relato dela, mas o subscreveu (James não ‘disse que descobriu’, mas ‘descobriu’).

O cotejo das duas edições revela que o jornal acreditou na jovem e resolveu, já que a história era boa, encampar sua versão. Faltou ceticismo. Aos leitores, deu-se no domingo a impressão improcedente de que se fizera algum tipo de checagem, de confirmação.

O texto de hoje: ‘Ela [James] afirmou ainda que não conseguia realizar um exame de ultra-som na rede municipal de saúde porque sua certidão de nascimento, seu único documento, a identifica como sendo do sexo masculino’.

Mais um problema: no domingo, a reportagem da capa de Cotidiano (que continuou no interior do caderno) disse que ‘a gestante não consegue fazer o pré-natal e os exames habituais decorrentes da gravidez’.

A diferença: hoje se fala em ultra-som, no domingo se falou em ‘exames habituais’. Assim, ficaria menos constrangedora a notícia de que James fez, sim, na rede municipal, ‘exames de urina para detectar gravidez no início de abril. O resultado teria sido negativo’.

Mais, no texto de hoje: ‘O mesmo problema a adolescente diz ter enfrentado na rede pública […]’.

De novo, no domingo foi diferente. A Folha divulgou que James enfrentou o problema. Hoje, abre mão da versão, sem admitir que errou.

Seja exatamente qual for ela, a história da jovem James tem aparência de tragédia.

Para o jornal, o trágico não foi errar, mas não assumir que estavam erradas muitas das principais informações do domingo.

Não existe, nem nunca existirá, bom jornalismo feito só de acertos. O reconhecimento dos erros é condição para o jornalismo ser considerado bom.

O ombudsman foi induzido a erro pela reportagem dominical. Ao elogiá-la na crítica de segunda-feira, no entanto, reparei em uma legenda segundo a qual James ‘diz [dizia] que está [estava] grávida’. ‘Por que a legenda pôs em dúvida a informação?’, indaguei.

Talvez porque o fotógrafo ou quem a redigiu tenha notado que poderia não haver gravidez. Com esse olhar, o jornal poderia ter adiado a publicação, até que concluísse uma apuração rigorosa. Por que não tomou os devidos cuidados, já que havia dúvida?

(Aos leitores da crítica na Folha Online: ‘barriga’ é um jargão jornalístico definido pelo ‘Manual da Redação’ como ‘publicação de grave erro de informação. Quando a Folha erra, reconhece o erro. Quando outro veículo de informação erra, a Folha noticia o lapso se este tiver grande importância jornalística’.)

Legenda errada

Fotografia na pág. A6 da edição Nacional (caiu na edição São Paulo) identifica o senador Quintanilha como sendo Almeida Lima.

Título errado

Chamada na pág. C1 da edição Nacional (não está na São Paulo) afirma: ‘Juíza suspende realização do Live Earth em Copacabana; promotores tentam reverter decisão’.

Está errado. A juíza fez o que os promotores pediram. Quem tenta mudar a decisão são os organizadores.

Marchinhas

Afirma a legenda sob o título ‘Musical relembra teatro de revista’: ‘‘Sassaricando’ estréia no Tom Brasil apresentando quase cem marchinhas de Carnaval de Noel Rosa, Braguinha e outros’ (pág. E7).

Na verdade, muitas marchinhas não são de Carnaval, como algumas das que estão no bloco sobre política.

O texto fala sobre mergulho nos anos 1930, 40 e 50. Faltou a década de 60, na qual foram lançadas muitas das canções do espetáculo, como a da cabeleira do Zezé (sucesso do Carnaval de 64, salvo engano).

Crise aérea?

O caderno Turismo conta os encantos de vários destinos, porém não orienta os turistas sobre como superar um dos maiores –ou o maior– obstáculos para que as férias sejam felizes: o inferno nos aeroportos.

Jornalismo de serviço é para fazer isso: serviço. O caderno não instrui, não dá dicas, não alerta –enfim, não ajuda os leitores a sobreviver na crise aérea.

04/07/07

A Folha ofereceu hoje, com larga vantagem, a melhor cobertura sobre o inferno nos aeroportos em pleno mês de férias.

A cobertura bem-sucedida teve, contudo, problemas.

O mais grave ocorreu na edição Nacional (concluída às 21h05). A manchete (‘Governo e empresas entram em atrito sobre crise aérea’) não tratou de nenhum dos três títulos internos de alto de página, mas de um texto editado em uma mísera coluna de Cotidiano (‘Empresas aéreas não aceitam fazer mudanças’).

Na edição São Paulo (0h03), o módulo 100 foi promovido a retranca principal da capa de Cotidiano. A manchete foi mantida.

Mais uma vez, os leitores (no caso, os da edição Nacional) ficaram sem saber que avaliação jornalística está correta: a que escolheu a manchete do jornal ou a que considerou, em Cotidiano, o assunto secundário.

A hora das empresas

A manchete e a capa de Cotidiano (na edição São Paulo, ‘Empresas aéreas e governo entram em atrito’) dão às empresas aéreas a devida atenção. A crise sem fim não tem apenas um culpado, mas vários, entre os quais as empresas.

Duas observações sobre a reportagem.

Primeira: está errado dizer (na abertura) que os atrasos foram ‘provocados por um nevoeiro que fechou o aeroporto de Cumbica’. É evidente que o nevoeiro contribuiu, foi decisivo, mas a bagunça tem razões diversas.

Segunda: o advogado do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias diz que, ‘se o governo determinar que os aviões devem voar cinco horas por dia em vez de 14, a conseqüência é que vai ter avião parado e o preço da passagem vai quintuplicar’.

Quando o jornal ouve uma declaração dessa natureza, tem que pedir ao advogado para detalhar a projeção-ameaça. Se ele disser que não tem como explicar na hora, a Folha deve informar aos leitores que pediu explicação e que o representante do sindicato afirmou não ter como esclarecer de pronto.

Caso contrário, o jornal serve de espaço acrítico para afirmações cujo propósito pode ser pressionar uma das partes (o governo) na disputa de interesses.

Mais: a Folha deveria entrevistar consultores, sindicatos de trabalhadores do setor aéreo, organizações do governo e de defesa dos consumidores para saber se é possível haver impacto tão grande no preço dos bilhetes.

Aparentemente, o advogado blefou, e a Folha limitou-se a divulgar o blefe.

Apurações

A manchete da Folha: ‘Governo e empresas entram em atrito sobre crise aérea’.

Linha-fina sob a manchete de ‘O Globo’: ‘Governo e empresas do setor trocam acusações sobre motivos da crise’.

Abertura de texto de ‘O Estado de S. Paulo’: ‘A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias aéreas decidiram em reunião ontem trabalhar em conjunto para combater o caos aéreo’.

Assassinato no Expresso Oriente

Assim como um crime pode ter vários autores, o caos nos aeroportos tem muitos motivos (e responsáveis). O jornal desconsiderou alguns importantes.

Não vi na cobertura a palavra ‘overbooking’. A venda de mais passagens do que a capacidade dos aviões foi citada (é o tema principal) na coluna de Elio Gaspari em Brasil. Não em Cotidiano.

No quadro ‘Problemas de Cumbica’ (pág. C3) o ‘overbooking’ também foi ignorado. Não existe mais essa prática na aviação civil?

Outro problema não abordado: a escassez de informações aos passageiros, culpa às vezes da empresa, às vezes da Infraero e muitas vezes de ambas.

Também não identifiquei nenhuma referência às diversas posições de check-in vazias nos aeroportos. As empresas poupam ao manter menos atendentes que o necessário, e as filas crescem.

E os controladores? Não têm nenhuma responsabilidade pela atual situação? Se for isso mesmo, o jornal deveria dizer. Em alguns momentos da crise dos últimos meses, eles pareceram servir de bode expiatório (em outros, aparentemente, foram mesmo os protagonistas da crise).

Cobrança

A Folha registrou na reportagem ‘Nevoeiro fecha Cumbica por seis horas’ (pág. C3) que uma família teve que dormir no aeroporto porque a American Airlines adiou um vôo em mais de 24 horas. A empresa teria dito que não havia hotéis com leitos disponíveis perto do aeroporto.

Seria recomendável indagar por que a AA não transportou os passageiros para hotéis distantes.

O texto informou: ‘A Folha não conseguiu contato com a empresa aérea’.

Como assim? Não havia ninguém em posição de check-in? Nem em balcão de venda de ingressos? Nem no telefone de atendimento da companhia? Nem na assessoria de imprensa? Nem no e-mail do Brasil? Nem no e-mail nos EUA? Nem em seus escritórios dos EUA?

O jornal deve se esforçar para ouvir as empresas aéreas. Elas têm o direito de se pronunciar. Os leitores, de conhecer suas versões.

Em terra

É boa a reportagem ‘Grupo se recusa a sair de vôo que não decolou’ e, especialmente, o depoimento do repórter-fotográfico Raimundo Paccó, ‘‘Pensei que ocorreria uma briga’’ (pág. C4).

À Babenco

Bem sacado título do texto-legenda da primeira página, com imagem dos passageiros no avião da TAM que acabou não decolando: ‘Passageiros da Agonia’.

Notícia

É da maior relevância a reportagem ‘Chefe do Cindacta-4, em Manaus, admite que controladores monitoravam vôos em excesso’ (pág. C6).

A afirmação ocorreu em audiência da CPI do Apagão Aéreo. ‘Foi a primeira vez que um oficial reconheceu que os centros de controle não respeitavam uma regra internacional.’

Pelo que vale como notícia instantânea e também pelo relevo histórico, o texto merecia estar no alto da página (o que não ocorreu) e constar da chamada na primeira página.

A volta dos que não foram (leis que não pegam)

O quadro ‘O vai e vem do processo’ (pág. A4) cita dois senadores como membros do PFL. O jornal orienta a Redação a nomear como DEM o velho partido.

Folha versus Folha

Diz o texto ‘Ausente, Renan tentou controlar reunião da Mesa’ (pág. A5): ‘Como a votação [sobre devolver o processo de cassação para o Conselho de Ética] deveria ser aberta, o presidente do Senado teria ficado com medo de perder no plenário’.

Na mesma página, em ‘‘Não arredarei o pé da presidência’, afirma senador’, informa-se: ‘O ex-senador Luiz Otávio (PA) chegou a ir ao seu encontro [de Renan Calheiros] com a informação de que a Mesa havia deliberado mandar o caso para o plenário decidir _uma das hipóteses desejadas por Renan’.

Afinal, Calheiros queria ou não que a votação fosse a plenário? O jornal apresentou dois relatos conflitantes.

Boiada

É boa a reportagem ‘Gado engorda rendimentos de senador’ (pág. A7, sobre o presidente do Conselho de Ética do Senado, Leomar Quintanilha).

Serra e a CPI

A reportagem ‘PSDB tenta barrar CPI da Habitação na Assembléia de SP’ (pág. A11) deveria informar quantas Comissões Parlamentares de Inquérito há em curso. É um dado importante, já que os opositores da comissão falam em ‘ordem cronológica’ dos pedidos de criação de CPIs como obstáculo à sua instalação.

Foi criada a CPI da Nossa Caixa? Que fim levou?

Creio que o título deveria citar o governador Serra. Sua posição anti-CPI tem mais importância jornalística do que os esforços do PSDB para fazer em SP o que condena em Brasília.

Geografia

A Folha prestaria um serviço aos leitores se informasse em que país fica ‘Islamabad’, a cidade cenário do texto ‘Confronto com grupo pró-Taleban deixa 12 mortos em Islamabad’ (pág. A14).

Indústria

Linha-fina sob o título ‘Indústria freia em maio, diz Ipea’, na pág. B5: ‘Produção, a ser divulgada hoje pelo IBGE, deve registrar 2ª queda seguida de 0,1% sobre o mês anterior’.

Pelo que entendi dos resultados anunciados hoje de manhã, a Folha estava mal informada. Não houve queda de 0,1%, mas aumento de 1,3%.

Título do ‘Estado’, que apostou no sentido oposto ao escolhido pela Folha: ‘Analistas vêem indústria em aceleração’.

Tradução

Sei que faz parte da tradição dos setoristas de Fórmula 1 da imprensa brasileira, mas é estranho tratar as equipes da F-1 como ‘times’, a tradução literal do inglês (‘Ferrari denuncia ‘espião da McLaren’’, pág. D1).

O mesmo texto traduz como ‘evidência’ o que é ‘prova’ (‘foi aí que as evidências foram encontradas’).

Papel sobrando

Nos menos de três meses como ombudsman, uma das reclamações recorrentes dos leitores foi relativa à ausência de informações sobre esportes de seu interesse e sobre seus clubes de coração. A Redação muitas vezes justifica com a falta de espaço.

É por isso que impressiona a publicação, às vésperas do Pan, do texto de alto de página ‘Sotaque carioca domina a Vila’ (pág. D3).

Ora, se o Pan é no Rio, o sotaque vai ser gaúcho?

Mas não se trata disso, e sim do crescimento de 12% para 16% da participação de atletas cariocas em comparação com a delegação nacional que foi à última Olimpíada.

Ocorre que, se o critério for esse, o sotaque majoritário será paulistano (19%). Mesmo os paulistanos, com menos de um em cada cinco atletas (desconsiderando o arredondamento), não impõem ‘domínio’ algum.

Há uma estatística sem importância: ‘A cidade [Rio] terá uma representação no Pan 247% maior, bem acima do crescimento geral e da capital paulista, ambos abaixo dos 200%’.

Os números comparam alhos com bugalhos: a delegação olímpica é muito menor que a do Pan, competição com índice técnico muitíssimo mais baixo, à qual podem comparecer mais atletas brasileiros sem expressão internacional.

O tema, batido, das jovens atletas que deixam as suas casas para passar alguns dias na Vila Olímpica também não merecia o destaque que a Folha lhe deu. A não ser que houvesse histórias saborosas para contar. Não foi o caso, pelo contrário.

Vai pegar

A Folha publicou críticas de Neguinho da Beija-Flor sobre a escolha de um roqueiro (são dois, na verdade) para compor o Hino do Pan, mas não ouviu Arnaldo Antunes.

Nei Lopes ‘apontou uma gafe’ na letra, porém o jornal não deu palavra aos compositores.

Foi um erro.

Aposta: com pinta de jingle, o samba-hino do Pan será cantado nas arenas esportivas. Desde que o divulguem.

O jornal fez bem em veicular a composição na Folha Online.

03/06/07

Uma das deficiências jornalísticas mais notadas pelos consumidores de notícias é o abandono de certos assuntos depois de coberturas extensas.

A Folha deu chamada na primeira página e alto de página em Cotidiano (‘Não se enfrenta bandido com rosas, diz Lula’, pág. C3) para declarações do presidente da República sobre a ação policial da semana passada no complexo do Alemão.

O jornal, no entanto, não concedeu título para a informação de que ‘ontem, a Polícia Civil divulgou lista informando que 11 dos 19 mortos na operação policial […] tinham antecedentes criminais’. Essa passagem está solta no meio da reportagem. Não consta do título, da linha-fina, da lupa nem do olho.

Na sexta, o tema –o que, na verdade, aconteceu no alto do morro?– ganhou quatro altos de página na edição São Paulo. Hoje, sumiu.

Outra observação: a construção ‘11 dos 19 mortos […] tinham antecedentes criminais’ é mais apropriada a anúncio oficial. O jornalismo crítico preconizado pela Folha deveria afirmar: oito dos 19 mortos não tinham antecedentes criminais.

A informação é igual, mas o olhar de fiscalizador e questionador do poder é diferente.

Sem indignação

É possível ser objetivo, independente e apartidário sem ser frio. O jornalismo crítico ao qual a Folha se filia deveria ter produzido uma manchete mais forte do que ‘Processo contra Renan no Senado volta à estaca zero’.

A manchete deveria transmitir a indignação necessária sobre a bandalheira que ocorreu ontem no Conselho de Ética (sic), por parte do seu presidente, para salvar Renan Calheiros.

Espelho meu

Manchete da Folha: ‘Processo contra Renan no Senado volta à estaca zero’.

Chamada do ‘Estado’ na primeira página: ‘Manobra deixa caso Renan na estaca zero’.

Título do alto da pág. A4 da Folha, repetindo (o que se deve evitar) fórmula da capa: ‘Nova manobra leva processo contra Renan à estaca zero’.

Título do alto da pág. A4 do ‘Estado’: ‘À revelia de conselho, Quintanilha devolve caso Renan à estaca zero’.

No ar

A primeira página tem três chamadas para assuntos ‘aéreos’: ‘Malha aérea foi para o espaço, avalia presidente da Infraero’; ‘Transponder do jato Legacy foi desligado sem querer, diz FAB’; e ‘Batida em urubus no ar deixa piloto cego de um olho’.

Tem mais: a maior foto mostra o saguão do aeroporto de Cumbica lotado.

Mesmo assim, o jornal não organizou as informações de modo que o leitor percebesse de imediato que os temas das chamadas e da foto se associavam.

Sobrou

Título de alto de página (C8) de Cotidiano: ‘Relatório prevê ‘apagão’ do ensino médio no país’.

Linha-fina: ‘Estudo da Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional de Educação aponta a necessidade de 235 mil professores’.

Não sei se a reportagem valia a manchete, opção do ‘Estado’, mas merecia chamada –que não teve– na primeira página.

Tropa de choque

A carta de Arthur Virgílio, publicada em espaço (Painel do Leitor) que deveria ser exclusivo do ‘leitor comum’, contesta a inclusão do senador em um quadro (na edição dominical) sobre a ‘tropa de choque’ de Renan Calheiros.

Declaração de Arthur Virgílio na pág. A4 de hoje: ‘Chegamos a um ponto que não dá mais. Está ruim para a instituição’.

Outra, na pág. A5: ‘É a marcha da insensatez, é mais uma decisão absurda dessa comédia de equívocos. A crise só se aprofunda, e o que está em jogo é a instituição’.

É possível que o senador esteja indo mais longe do que gostaria. É legítima –não sei se correta– a interpretação do jornal sobre sua posição talvez vacilante ou intermediária.

Mas pareceu uma informação errada a sua classificação como integrante da tropa de choque de Renan Calheiros. A não ser que tenha mudado o conceito de tropa de choque.

Caso Renan

A cobertura de hoje pareceu muito informativa e equilibrada: contemplou exaustivamente os argumentos do senador Quintanilha, presidente do Conselho de Ética; consultou juristas; mostrou os preparativos para reação contra a manobra de Calheiros.

Bom trabalho.

100%? (título versus reportagem)

Afirma o título do alto da pág. A6: ‘Desvios no TO podem superar R$ 20 mi’.

A reportagem informa: ‘Elas [duas ações na Justiça] abrangem 12 obras, orçadas em R$ 20,2 milhões, que teriam sido alvo do esquema’.

Para o título estar correto, o tal esquema teria que ter embolsado 100% do valor das obras. Não é disso que se trata (a acusação parece apontar para desvio de uma parcela, não da totalidade dos recursos).

É preciso corrigir.

À Polanski

É de boa inspiração o título para o pequeno texto-legenda (pág. A14) sobre espécime de tartaruga-gigante, George, o Solitário, que, digamos, prefere ficar na sua: ‘Repulsa ao Sexo’.

Sua excelência

É interessante o texto de alto de página (B9) ‘Venda de iPhone chega a 525 mil unidades’. Como se vê, é um sucesso o novo aparelho da Apple, milhões de americanos querem comprá-lo, Spike Lee entrou na fila, Steve Jobs é mesmo um gênio.

‘Até o final deste ano, o aparelho começa a ser vendido na Europa e chega às lojas asiáticas no primeiro trimestre do ano que vem.’

Como peça de jornalismo de negócios, tudo ok.

Faltou informar o que é essencial, o mais importante para milhares de brasileiros, muitos deles leitores da Folha: quando o iPhone começa a ser vendido no Brasil? Quem comprar o iPhone nos EUA pode habilitá-lo aqui?

O jornal é feito para os leitores. É neles que se deve pensar ao apurar, escrever e editar.

Profissão repórter

A Folha publica hoje novo furo sobre o acidente com o avião da Gol no ano passado: ‘Transponder do jato Legacy foi desligado sem querer, diz FAB’ (chamada da primeira página).

Agora já se sabe, conforme a investigação da Aeronáutica, como o aparelho foi desligado (os pilotos o teriam confundido com o rádio).

A determinação da Folha, em especial de duas repórteres, em esclarecer o maior desastre da aviação do país é exemplar.

Não custa repetir: deveria inspirar o jornal.

Gilberto Gil, ministro de Estado

A pág. E2 exibe sete fotografias da festa junina promovida pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil.

Não informa, porém, onde ocorreu o arraial. Mais precisamente, na casa de quem.

No que diz respeito à fiscalização do poder público, o jornal deveria tratar Gil como trata outros ministros. Mesmo que não haja ilegalidade ou inconveniência, é obrigação dizer quem cedeu a residência para a festa particular de um ministro de Estado.

02/07/07

Na parte superior da primeira página da edição dominical, a Folha estampou ontem, 1º de julho, Camila Pitanga.

No dia 24 de junho, também acima da dobra, Mônica Veloso.

No dia 17, Cláudia Raia.

No dia 10, a modelo Marina Rigueira.

No dia 3, Natália Guimarães (vice no concurso Miss Universo) e Raquel Zimmermann (modelo).

É bem-vinda a idéia de arejar os domingos da Folha, mas a escolha de uma beldade (ou quase) no espaço mais nobre tornou-se previsível e imprimiu um certo aspecto de revista masculina. O jornal ganharia se diversificasse o perfil dos seus personagens de capa.

‘Um Longo Domingo de Noivado’

A grande história do domingo esteve no jornal Extra: o homem que no ano passado eletrizou o país por quase 12 horas, ao tomar um ônibus no qual estava a ex-mulher, na via Dutra, voltou a viver com o alvo de sua ação passional.

A Folha recuperou a história hoje, embora não tenha entrevistado a ex-refém e seu amado. Talvez tivesse sido melhor esperar um contato direto com o casal.

‘Domingo Sangrento’

Ficou boa a reportagem com redações de jovens que moram no complexo do Alemão, dois dias depois da também boa reportagem com fotos feitas por moradores do local.

Desde a sexta-feira a Folha está bem na investigação sobre a ocupação, na quarta, de favelas na área do subúrbio carioca da Penha. O mesmo vigor que deve exigir do Estado o cumprimento de suas obrigações constitucionais, como impor vigorosamente a autoridade em todo o território, deve inspirar a fiscalização jornalística da atividade policial.

É importante saber se os 19 mortos (ou 22, como a Folha cogita) eram ou não traficantes. Mas não custa lembrar: mesmo bandidos devem ser tratados conforme a lei determina. Seja em Guantánamo, em Abu Ghraib ou no complexo do Alemão.

Ainda não se sabe o que aconteceu de fato no alto do morro.

‘Um Sonho de Domingo’

É interessante a reportagem sobre a gestante de 16 anos que não consegue fazer exames por causa do sexo masculino no registro de nascimento (‘James, grávida de 2 meses, precisa provar que é mulher’, capa de Cotidiano).

O melhor é saber que a simples apuração do episódio fez com que o serviço público de saúde, que antes negara atendimento, agendou consulta com o ginecologista. Não é sempre, pelo contrário, que o trabalho jornalístico tem resultados assim.

Não entendi a seguinte passagem: ‘James e o marido, José, que não é marido, é companheiro […]’.

Nunca li nada parecido sobre pessoas de classe média ou ricas. Para essas, morar junto equivale a ser marido e mulher.

Ficou estranha a legenda na pág. C4, segundo a qual James ‘diz que está grávida’. Ora, o jornal sustenta desde a primeira página que ela está mesmo esperando filho. Por que a legenda pôs em dúvida a informação?

‘Domingo Maior’

A Folha trouxe uma reportagem inédita muito boa sobre documentos do Departamento de Estado americano, de 1975, agora liberados. (No primeiro trimestre, o jornal já fizera revelações sobre papéis da diplomacia dos EUA.) Saiu em Brasil.

Mundo publicou boa reportagem sobre o confronto político nos Estados Unidos pelo direito ao acesso a informações históricas e públicas. Acrescentou novidades a respeito dos papéis da CIA liberados na semana passada.

Não entendi por que não se editou tudo junto. A separação das notícias por seções existe para ajudar o leitor. Não há sentido, porém, em afastar as informações que se associam. Haveria mais impacto com a edição conjunta, em quatro altos de página, e o leitor interessado no assunto não teria que se dividir por duas editorias.

‘De repente, num domingo’

A reportagem sobre os documentos do Departamento de Estado (no texto ‘EUA restringiram acordo nuclear brasileiro’, pág. A10) tem uma informação curiosa: a Folha contatou a embaixada dos EUA em Brasília. Em vez de indicar uma fonte diplomática para se pronunciar sobre documentos da diplomacia, a representação americana orientou o jornal a procurar a CIA.

‘Nunca aos Domingos’

Na 15ª chacina do ano em São Paulo, seis pessoas foram assassinadas na entrada da favela do Morro do Piolho. A Folha não publicou o nome de nenhuma delas. Um sétimo baleado ficou gravemente ferido. Não teve o nome citado. Hoje, segunda, o leitor não foi informado se o ferido morreu. A rigor, não foi informado de nada _não há suíte.

Dá para imaginar uma barbárie dessas em Higienópolis ou nos Jardins sem que os nomes fossem relacionados?

Domingada

A reportagem sobre negócios no futebol, nas págs. B13 e B16 tem problemas.

O primeiro é a editorialização do lide em ‘Modelo de negócios impede evolução de times brasileiros’: ‘A vitória do México contra o Brasil na Copa América, na semana passada, teve outras causas além da falta de entrosamento dos jogadores ou das limitações do técnico Dunga’. Não costumo ver referência à ‘limitação’ de empresários e executivos no noticiário de Dinheiro. Os procedimentos que vigoram no jornalismo econômico em geral também devem presidir o econômico-esportivo. Opinião tem espaço próprio no jornal.

A reportagem repete a expressão ‘governança’. Os leitores não são obrigados a saber do que se trata.

O texto ‘Modelo de negócios…’ diz que a Timemania (‘lei de incentivo ao esporte’), ‘segundo especialistas, […] vem sendo encarada como tábua de salvação para as dificuldades financeiras dos times, sem contrapartida’. Só é citado um ‘especialista’.

Na mesma retranca: ‘Para especialistas, a pressão dos patrocinadores é importante na tentativa de profissionalizar o futebol’. Novamente, só um especialista é citado.

Erro em ‘Número de jogadores ‘exportados’ não bate com informações do Banco Central’: há referência a ‘passe mais valorizado’. Faz anos que não existe mais passe de atleta. O passe foi extinto. Direito federativo não pode ser considerado passe.

O mesmo texto diz que ‘especialistas estimam que nos últimos anos a receita de exportação de jogadores tenha superado US$ 1 bilhão’. Não nomeia, contudo, nenhum especialista que banque a cifra.

O tema da reportagem é relevante, mas o resultado deu a impressão de que o jornal serviu de plataforma de divulgação acrítica de um estudo de consultores.

‘Domingo no Parque’

Ficou boa a cobertura da inauguração da principal obra para o Pan, o estádio Engenhão. O jornal conseguiu ser equilibrado. Há duas armadilhas a evitar nos Jogos: o jornalismo oba-oba, que só vê maravilhas, e o jornalismo cri-cri, que só se interessa pelo que é ruim.

Observação: a Folha deveria mesmo lembrar, na abertura do estádio, o seu custo (R$ 380 milhões, até agora…). Mas não precisava repetir três vezes os valores. Ficou cri-cri.

Francis cantou a bola

Paulo Francis contava que o terror dos revisores dos jornais cariocas era uma rua de Copacabana, a Bulhões de Carvalho. Com um só erro em cada palavra, seria um deus-nos-acuda.

A Folha publicou uma correção conhecida, que obteve merecido lugar na educativa, constrangedora e hilariante coletânea de Erramos editada anos atrás: o nome do maestro Eleazar de Carvalho saiu sem o ‘v’.

Na sexta-feira, o fantasma dos velhos revisores voltou a assombrar. Eis o Erramos de sábado: ‘O nome de Lilibeth Monteiro de Carvalho foi grafado incorretamente […]’.

Lugar-comum

Em menos de uma semana, a fórmula foi reeditada em título da Folha: ‘Liberdade quer unir modernidade à tradição’ (pág. Especial C9 do sábado).

Bruxaria

Ficou muito bom o Folhateen especial de hoje sobre o quinto filme de Harry Potter.’

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