Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > FOLHA DE S. PAULO

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 24/07/2007 na edição 443

19/07/07

O horror, o horror

Os leitores da edição São Paulo da Folha, concluída à 0h40, talvez tenham recebido hoje a melhor cobertura da tragédia em Congonhas.

Além da introdução de notícias ausentes na edição Nacional, como ‘Peritos detectaram fumaça, afirma presidente da Infraero’, houve muitas mudanças de edição –para melhor– em comparação com o jornal fechado às 21h30. Por exemplo, em vez de narrar o resgate nas págs. 2 e 3, dedicá-las à apuração das causas do desastre.

Um dos pontos altos foi a capa, comum às duas edições, do caderno especial. Nome por nome dos mortos, o registro taquigráfico do horror.

Houve problemas, e não poucos, como observo a seguir.

Mas as árvores (erros e deficiências) não devem ocultar a floresta (o bom trabalho).

As causas

À medida que novas informações reforçam indícios sobre as causas do acidente, nunca é demais sublinhar: eventualmente, pode haver combinação de vários fatores (falha do avião, erro humano e condições da pista).

Mesmo que a pista não tenha contribuído para o desastre, é legítima, necessária e urgente a investigação jornalística sobre ela e as condições de segurança do aeroporto de Congonhas.

Edição histórica

O espaço dos editoriais hoje é ocupado por apenas um, sobre a tragédia.

O Painel do Leitor é monotemático, sobre o mesmo assunto.

O Painel, idem.

Registro histórico

A TAM alegou, o que me pareceu correto, que não divulgaria para os meios de comunicação a lista de mortos antes de avisar as famílias dos passageiros do vôo 3054.

Era promessa.

Como se viu, boa parte dos parentes tomou conhecimento da relação ouvindo uma rádio de Porto Alegre.

Afirmação sem provas

A chamada da manchete (‘Mortes de tragédia chegam a 192; Infraero cogita falha mecânica’) faz a seguinte afirmação, repetida no caderno especial: ‘No segundo terço da pista, [o avião] acelerou’.

Não há dados que sustentem tal certeza. O que se sabe é que o Airbus-A320 passou pela pista de Congonhas a uma velocidade maior do que a de aterrissagem. Isso se pode bancar.

Que a partir de certo ponto acelerou, (ainda) não. É possível que isso tenha ocorrido, em eventual tentativa de levantar vôo (arremeter). Mas não há como provar, pelo menos por enquanto.

Como disse o brigadeiro Kersul Filho (pág. C3), não se ‘poderia afirmar que o avião acelerava’.

Há certas ilusões de ótica. Por exemplo: na corrida de 100 metros rasos do atletismo, temos a impressão de que os vencedores aceleram ao final. É o contrário: eles desaceleram, mas, se sua vantagem cresce frente ao segundo colocado, nos parece que a velocidade aumentou.

(Desculpem a má comparação; o intuito é reforçar a idéia de que o jornal bancou certeza, digamos, incerta.)

Mais afirmação sem provas

Ao contar o acidente quadro a quadro na pág. C3, afirma-se: ‘Vozes de dentro da cabine da tripulação do avião dizendo ‘vira, vira, vira agora’ são escutadas por controladores da torre de controle’.

Na pág. C2, contudo, o jornal lembra a hipótese, considerada acertadamente por um brigadeiro, ‘de que os gritos tenham partido de tripulantes de outra aeronave que, ao ver a manobra inesperada e trágica do Airbus, tenham involuntariamente [sic] gritado ‘vira, vira’, numa espécie de torcida para que o avião escapasse ileso daquela manobra’.

Fontes diversas testemunham ter ouvido os gritos.

Mas ainda não é possível ter certeza de onde partiram.

‘Leis’ que não pegam – Primeira Página

Circular de dias atrás do consultor de português da Folha vetou o emprego do adjetivo ‘aéreas’ como substantivo.

Mesmo assim, linha-fina da primeira página reincide na impropriedade.

‘Leis’ que não pegam – Editoria

O editorial ‘Para não ser em vão’ denomina como ‘Airbus A-320’ o avião da TAM.

‘Pára-erros’ que circulou ontem determina que se use ‘Airbus-A320’.

A voz pluralista dos leitores

Dezenas de leitores escrevem ao ombudsman opinando sobre o artigo de Francisco Daudt, colunista da Folha, cuja chamada na primeira página é ‘O nome certo do que ocorreu em SP é crime’.

Até a conclusão desta crítica, a ampla maioria o criticou com veemência. Um leitor se disse ‘enojado’.

Houve leitores que o elogiaram. Um afirmou se ‘sentir com a alma lavada’.

Padronizar – O horário

Depois dos horários diversos citados ontem, a Folha fixa hoje 18h50 como o momento do acidente.

Sugiro mudança: o vídeo do aeroporto de Congonhas que exibe a aterrissagem fracassada do Airbus da TAM registra o horário de 18h51 (pelo menos foi o que tive a impressão de ver na TV).

Detalhe? Pode ser. Nos eventos de relevo histórico, porém, se recomenda zelar ainda mais pela precisão.

Padronizar – O equipamento

Além de ‘Airbus-A320’, a Folha também usou hoje ‘Airbus-320’.

Seria melhor adotar uma só fórmula.

Padronizar – Velocidade

Na pág. C3, a retranca principal diz que a Infraero calculou em 168 km/h a velocidade do avião ao fim da pista.

A linha-fina fixou 167 km/h.

Continuação

Poucos verbos são tão anti-jornalísticos como ‘continuar’.

Título do alto da pág. C2: ‘Acidente da TAM continua sem explicação’.

Não é bem assim

Linha-fina do alto da pág. C2: ‘Empresa e Infraero não descartam nenhuma hipótese para causa do maior acidente aéreo do país; busca por corpos prossegue’.

Aqui, se exagera. Não está descartada a hipótese de o avião não ter tocado no solo?

Considera-se a hipótese de ter entrado um urubu em cada motor?

Ou seja: se investigam várias hipóteses, o que não é a mesma coisa de ‘não descartar nenhuma’.

Fecha ou não?

A reportagem ‘Pista agora será fechada quando chover’ (pág. C4) não esclarece se a medida atingirá também a pista auxiliar de Congonhas. Mesmo que ela não seja atingida pela decisão, é necessário informar.

Tradução

Parece sem sentido uma frase em reportagem da pág. C4 (‘Para federação, governo preferiu buscar culpados’): ‘‘Quantas pessoas serão mortas antes que governantes brasileiros parem com a experiência viva da FAB (Força Aérea Brasileira) na segurança do público que viaja?’, pergunta, na nota, o presidente da Ifatca, Marc Baumgartner’.

Experiência viva?

A Folha lê a Folha?

Diz a reportagem ‘Procuradoria pede interdição de Congonhas’, na pág. C10: ‘O primeiro pedido de intervenção, feito em ação civil protocolada em janeiro pelos mesmos procuradores, foi negado pelo juiz federal substituto da 22ª Vara Federal Cível de São Paulo, Ronald de Carvalho Filho’.

Título da pág. C5 da edição da Folha de 6 de fevereiro de 2007: ‘Juiz barra Fokker e Boeing em Congonhas’.

Quem era o juiz? O próprio Carvalho Filho.

Titulo da pág. C1 da Folha em 7 de fevereiro: ‘Interdição em Congonhas irá afetar 40% dos vôos’.

Faltou dizer

A Folha acerta em comparar o índice de acidentes aéreos entre os governos Lula e FHC.

Faltou, no entanto, um item: o número de desastres e mortes em proporção ao de passageiros.

Nesse caso, a desvantagem funesta de Lula pode ser superada pelo antecessor.

Triste confronto.

Também faltou dizer

A boa reportagem ‘Pista foi liberada após lobby de empresas’ (pág. C11) afirma: ‘Dirigentes da Infraero e da Anac já mencionaram a existência de lobby de autoridades que não aceitariam se deslocar até Guarulhos para embarcar’.

Fica a pergunta: quem são as autoridades? Que episódios ocorreram?

Co-pilotos

O texto ‘TAM isenta Airbus-A320 e defende tripulação a bordo’ (pág. C5) destaca tema da coletiva dos executivos da empresa, a hipótese de o co-piloto ter tentado a aterrissagem, e não o piloto.

Observo: é fato, como a TAM informou, que o procedimento de um piloto comandar a decolagem e outro o pouso é padrão na aviação.

No célebre acidente com um Boeing da Varig no começo dos anos 1970, nas cercanias do aeroporto de Orly, quem executou a aterrissagem foi o co-piloto.

Aquele pouso é tido como um dos mais brilhantes da história da aviação civil. Os passageiros (menos um) morreram por asfixia (houve incêndio a bordo), e não pelo impacto com o solo.

Exemplar

Fez muito bem a Folha em chamar a atenção para um aspecto da entrevista da companhia: ‘A preocupação com a imagem da TAM esteve presente durante toda a entrevista, de uma hora e meia. A logomarca não aparecia em lugar algum’.

Isso é jornalismo crítico.

Em compensação…

Na pág. B2, foi lamentável a publicação de análise unilateral, sem contraditório, de dois professores da Coppe/UFRJ: ‘TAM não deve sofrer prejuízo de imagem’.

O jornal tinha obrigação de buscar uma opinião diferente, oferecendo aos leitores posições plurais que ajudassem a formar juízo.

Crianças, grávidas, tricoteiras

Os jornalistas que produziram as quatro páginas –emocionantes e inesquecíveis– sobre as vítimas da tragédia podem se orgulhar do trabalho que fizeram.

Onde está Lula? – Desequilíbrio

A reportagem ‘Presidente não telefonou para Serra e Kassab’ (pág. C17) deveria ter ouvido –pelo menos tentado– o Palácio do Planalto.

Ela só traz a versão dos governantes do Estado de São Paulo e de sua capital.

Por outro lado, o jornal não esclarece por que o presidente sumiu -e não telefonou para o governador e o prefeito. Por causa de um terçol? É isso mesmo? Ou teme ter a imagem associada ao caos aéreo e à tragédia de Congonhas? Por que o ministro Waldir Pires não deu entrevista ontem?

O que está por trás do silêncio? Falta apurar bastidores.

Jornalismo – Casa de ferreiro

A reportagem ‘Jornalista da Folha é preso ao fotografar local’ (pág. C12) não esclarece informações essenciais que costumam constar de notícias sobre não-jornalistas.

Policiais militares detiveram um fotógrafo da Folha porque ele alegadamente ‘violara o cordão de isolamento no galpão da TAM, ‘atrapalhando os serviços do Corpo de Bombeiros’ no local’.

O que o fotógrafo tem a dizer?

E o jornal? Afinal, seu profissional violou o cordão e atrapalhou os serviços?

A polícia afirma que o fotógrafo colocou em ‘risco sua própria vida’.

É verdade? Por que o jornal não informa?

É claro que truculência policial e atitudes anti-democráticas devem ser condenadas.

Mas a Folha precisa contar o que de fato aconteceu. A reportagem sobre o incidente não obedece aos padrões consagrados ao noticiar fatos com a participação de quem é estranho ao jornal.

Jornalismo – Uma lição

Fez muito bem a TV Cultura em não exibir as imagens de uma mulher caindo do alto do prédio da TAM, por considerá-las demasiadamente chocantes.

Erramos – Gol

O acidente com o avião da Gol ocorreu em setembro do ano passado, e não em outubro, como informa erradamente o texto principal da pág. C3 (‘Para FAB, única certeza é que avião estava muito veloz após tocar o solo’).

Erramos – comandante

A reportagem ‘Brincalhão, piloto tinha sido promovido havia apenas um mês’ (pág. C9) afirma que um comandante trabalhava havia dez anos na TAM. Na coletiva de ontem, a empresa afirmou que ele ingressou em 1987.

Erramos – Faculdade

A mesma retranca diz que o piloto de 21 anos que acompanhava a tripulação ‘havia concluído há três anos o curso de ciências aeronáuticas na PUC-RS’.

Ele terminou o curso em instituição de ensino superior aos 18 anos de idade?

Enfim

Evidenciam-se interesses em manter Congonhas funcionando com o mesmo movimento e nas condições de segurança atuais, ótimas, na opinião da TAM, da Infraero, das ‘autoridades’.

Não faltam interesses em abandonar o aeroporto e promover novas construções a serem festejadas pelas empreiteiras.

O critério da Folha deve ser, creio, se guiar pelos interesses dos usuários, dos moradores das proximidades de Congonhas e do país, que precisa de segurança no ar e de instalações aeroportuárias que lhe permitam se desenvolver.

Forfait

Devido a viagem, só volto a escrever esta crítica diária na terça-feira 24 de julho.

18/07/07

Por quê?

O maior desafio do jornalismo na tragédia suprema da aviação brasileira é duplo: identificar as causas do acidente com o Airbus A320 da TAM e investigar o contexto em que ele ocorreu.

Há muitas hipóteses para o avião vindo de Porto Alegre ter atravessado a av. Washington Luís, ao lado do aeroporto de Congonhas, e ter batido em um prédio, provocando a morte de cerca de 200 pessoas em São Paulo. Entre elas:

a) Falha humana (responsável pela maioria dos acidentes aéreos, conforme as estatísticas internacionais). Nesse caso, o piloto poderia ter feito um pouso ‘longo’, além da área costumeiramente indicada por faixas brancas (não me lembro se em Congonhas é assim). Em uma pista de menos de 2 km de extensão, ao constatar que não conseguiria parar a aeronave, teria tentado ‘arremetê-la’.

b) Falha do avião.

c) Problema da pista, molhada, com volume de água capaz de provocar aquaplanagem e derrapagem como a de um dia antes, segunda-feira, com aeronave da Pantanal.

É possível que haja combinação de vários fatores e que eventual erro humano não tenha sido apenas um.

O jornal faria bem se fosse abrangente e plural ao relacionar as possíveis causas do acidente. Não cabe à Folha sentenciar.

Não transformemos conjecturas em verdades, antes de as caixas pretas serem analisadas, se é que serão encontradas, e em que condições.

Uma das maiores deficiências de coberturas de acidentes aéreos decorre do escasso conhecimento técnico dos jornalistas.

Os quase dez meses de crise aérea, contudo, deixaram lições. Uma delas reafirma uma velha lei do jornalismo: quanto mais perguntas forem feitas, maiores são as chances de se obter respostas.

Uma pergunta essencial: como seria possível evitar o acidente?

Trato do contexto em notas separadas, abaixo.

O imbróglio judicial

Considero nesta crítica a edição da Folha concluída às 2h10 de hoje.

Manchete: ‘Airbus da TAM com 176 atravessa via, bate e explode em Congonhas’.

O caderno especial ‘Tragédia em Congonhas’ circulou com dez páginas, mais seis de Cotidiano. Título da capa: ‘Avião da TAM com 176 bate em prédio e explode’.

Levando em conta as duras condições de produção, com o acidente no começo da noite, o jornal fez, creio, um bom trabalho.

Uma das principais omissões pode ser corrigida na edição de amanhã: reconstituir as idas e vindas do confronto judicial do começo do ano, no qual o Ministério Público Federal pediu o fechamento da pista principal de Congonhas (a mesma na qual pousou ou deveria pousar anteontem o avião da TAM) em dias de chuva, para alguns aviões.

De memória, sujeita a engano, lembro que um juiz federal de primeira instância concedeu liminar para o fechamento, mas um juiz do Tribunal Regional Federal a cassou. A liminar, contudo, não contemplava os Airbus da TAM, mas, centralmente, os Boeings da Gol.

É um episódio interessante a recuperar, mostrando os argumentos das partes e as convicções dos magistrados.

Por que o A320 estava fora da lista do MPF?

O alerta dos controladores

Título do alto da pág. C6: ‘Piloto foi alertado, dizem controladores’.

Título do alto da pág. C7: ‘Controladores dizem ter pedido fechamento de pista’.

São duas informações relevantes. Valeria um esforço para buscar comprovação do que ainda é somente versão.

A segunda reportagem conta que os controladores de vôo teriam pedido a interdição da pista principal de Congonhas em dias de chuva, depois que o avião da Pantanal derrapou anteontem.

‘Oficiais da Força Aérea e autoridades da Infraero (estatal que administra os aeroportos) negaram o pedido por entender que não havia perigo’, diz o texto da Folha.

Se isso for verdade, e as condições da pista tiverem contribuído para a tragédia, é fato grave.

Gravações

O ‘Jornal da Globo’ veiculou gravações de conversas de controladores de vôo de Congonhas com pilotos de diversos aviões, nas horas que antecederam a tragédia. Elas mostram que tanto os controladores avisaram os comandantes sobre as condições perigosas da pista, como os comandantes transmitiram tal impressão aos controladores.

Por que a pista principal não foi interditada?

A gravação

Se a pista principal de Congonhas é mesmo monitorada em vídeo, as imagens devem esclarecer se o Airbus chegou a pousar ou em que ponto tentou aterrissar.

A Infraero e a pista principal

Por que a Infraero liberou a pista principal de Congonhas antes que ela recebesse as ranhuras para escoamento da chuva, elemento para conferir maior segurança a um piso inseguro?

Que empreiteira fez a reforma? Quanto custou (o jornal informa hoje o valor de R$ 20 milhões)? Recebeu todo o pagamento antes de completar a obra?

A Infraero e o aeroporto

É importante comparar quanto a Infraero investiu, nos últimos anos e décadas, em obras para aumentar a segurança dos vôos em Congonhas e quanto torrou para construir o centro comercial em que o aeroporto se transformou.

A Infraero e o Santos Dumont

O jornal prestaria um serviço aos leitores se informasse por que a Infraero liberou a inauguração da nova ala do Santos Dumont antes que ela estivesse pronta.

Anteontem houve um incêndio no prédio novo do aeroporto do Rio.

A Anac e a malha

A impressão generalizada de que há excesso de vôos em Congonhas não provocou uma intervenção da Agência Nacional de Aviação Civil para desafogar o tráfego no aeroporto. Por quê?

Reafirmo sugestão anterior: talvez reportagem com o perfil dos principais executivos da Anac, descrevendo suas trajetórias e relações com as companhias aéreas, ajude a responder.

Aviação civil-militar

O controle militar da aviação civil brasileira, prática estranha a países desenvolvidos e democráticos, volta a ser posto em xeque.

Não custa lembrar: o presidente da Infraero é um brigadeiro.

As empresas aéreas

Não faltarão comunicados de pesar da TAM pela tragédia. Cabe o jornal contar qual foi a posição da empresa e de suas concorrentes nas discussões sobre a transferência de vôos de Congonhas para os aeroportos de Cumbica e Viracopos nas semanas que antecederam a desgraça.

Em Congonhas se fatura mais?

TAM, 11 anos depois

Onze anos depois da tragédia com o Fokker da TAM, também na vizinhança de Congonhas, como ficaram as ações que as famílias das vítimas moveram contra a companhia?

Nove meses, quase dez

O Painel lembra que, em quase dez meses de crise aérea, depois da tragédia com o Boeing da Gol, o governo não mudou um só comando importante no setor.

A Folha deveria investigar a inépcia –pelo menos isso– da administração federal. São ‘federais’ a Anac, a Infraero, a Força Aérea, o Ministério da Defesa.

Fiscalizar o poder é agora, como sempre, uma função essencial do jornalismo.

Congonhas

Um raio-x do aeroporto ajudaria o leitor a formar opinião sobre o que fazer com Congonhas.

Se o acidente tivesse acontecido em Cumbica haveria chances de evitar a catástrofe?

Transparência

Em momento como esse, não faltam ‘especialistas’ em busca de holofotes. Em muitos casos, são consultores das companhias aéreas, de governos ou têm interesses no mercado de aviação.

É importante informar aos leitores as conexões dos técnicos consultados.

Tragédia e política

O jornal também deveria tomar cuidado com os confrontos políticos que se exacerbam: governistas que recusam a fiscalização da administração federal e oposicionistas que buscam faturar a qualquer preço com o acidente.

Razão e sensibilidade

É o momento de contar a tragédia. A história de uma só pessoa pode ser mais comovente do que o acúmulo de números e dados.

Mas que ninguém esqueça: mais importante que qualquer reportagem é o respeito às pessoas que sofrem.

Há limites na abordagem aos que choram, à sua privacidade e à sua dor.

17/07/07

O filho de FHC

Na pág. A4, a Folha publica declarações do governador Roberto Requião sobre o filho de Fernando Henrique Cardoso fruto de relação extraconjugal do ex-presidente.

Parole, parole, parole

Os apupos ao presidente da República estão na manchete (‘Lula se diz ‘triste’ com vaias no Pan’), nas colunas de opinião e notas, em artigo de Tendências/Debates, no Painel do Leitor, em reportagens –em todas as bocas e penas.

A cobertura da Folha tem uma limitação –fundamenta-se, exclusivamente, nas declarações de personalidades. O noticiário de hoje é útil à análise sobre o dito jornalismo declaratório.

As reportagens se concentram na pág. A6, cujo título do alto é ‘Lula se diz triste e insinua armação em vaias’.

Diz a Folha: ‘A reportagem do site do PT ressalta que a venda de ingressos do Pan é responsabilidade da Prefeitura do Rio’.

Faz bem o jornal em divulgar a versão petista. Mas por que não esclarece se ela corresponde ou não à verdade? Para isso, seria necessário ir a campo, apurar.

O jornal, também acertadamente, estampa declarações de Cesar Maia sobre a distribuição de ingressos para a abertura do Pan.

Por que a Folha não informou se as afirmações do prefeito são corretas? O leitor fica sem saber se deve ou não acreditar nos números.

É razoável publicar que o ‘prefeito do Rio nega ter organizado claque’. Mais importante seria bancar: organizou ou não.

Lê-se que Sérgio Cabral disse: ‘Foi uma parte do público situado à esquerda da Tribuna [de Honra], muito bem localizado, que [começou a vaiar e]depois contaminou uma outra parte’.

Foi isso mesmo? O que a numerosa equipe da Folha presente à cerimônia de sexta-feira tem a informar aos leitores?

O jornal teria ajudado os leitores a formar opinião se tivesse entrevistado pessoas que estiveram no Maracanã.

De acordo com testemunhos diversos, reportagens e a impressão deixada pela transmissão da TV, foi uma multidão que vaiou Lula, não um grupinho.

Não é por isso que o jornal não deve investigar o que houve e dar aos leitores mais informações do que a profusão de declaratório, vitaminado com o programa radiofônico do presidente.

Tempo, tempo, tempo

Fez bem o jornal em lembrar reação do então presidente Fernando Henrique Cardoso a manifestantes que o vaiavam em 1998 (‘FHC recomenda humildade a Lula; Serra aponta frustrações’, pág. A6): ‘[São] desesperados que não têm a mínima educação necessária’.

Anúncio do COB

O Comitê Olímpico Brasileiro publica nos jornais, inclusive na Folha, anúncio de apoio/desagravo ao presidente Lula.

Tem interesse público saber quanto a entidade desembolsou. Não custa lembrar que o primeiro brasileiro medalhado com o ouro no Pan contou que recebe apoio mensal de míseros R$ 600.

Outra questão: o COB, pelo menos via Lei Piva, é beneficiário de recursos federais. É legal empregar essa verba em anúncio que pode ser interpretado como propaganda do chefe do Executivo?

Faltou dizer

Título do alto da capa de Dinheiro: ‘Ex-dirigente da Receita é alvo de ação do Ministério Público’.

Título da retranca de ‘outro lado’: ‘Ex-dirigente do fisco diz que não há ilegalidades’.

A repetição da fórmula ‘ex-dirigente’ é detalhe.

Creio que o problema maior foi a omissão sobre quem era o presidente da República quando Everardo Maciel chefiou a Receita.

Cavalo-de-pau

Linha-fina que acompanha o título ‘Avião derrapa na nova pista de Congonhas’ (pág. C5): ‘Chovia no momento do incidente, que fechou o aeroporto por 20 minutos; nenhum dos 21 passageiros e 4 tripulantes se feriu’.

‘Incidente’?

Picante

Estou longe de flertar com o moralismo, mas talvez o caderno do Pan esteja rompendo o limite da ousadia e cedendo à vulgaridade.

Manchete da capa de ontem: ‘Porrada’.

Frase de hoje na contracapa: ‘Falam que é um esporte de viadinho […]’. (O correto é ‘veadinho’).

Na edição Nacional, há uma foto dispensável de detalhe anatômico da jogadora de vôlei Larissa.

Leitores têm reclamado.

Quadro de medalhas

A primeira página publica hoje um quadro de medalhas direto e claro, de acordo com o critério adotado pelo jornal: por ordem de ouros.

A capa do caderno do Pan, contudo, mantém a fórmula híbrida (considera tanto o total de medalhas, incluindo prata e bronze, como somente as de ouro).

Até por ser uma unidade informativa condensada, um resumo do quadro, o caderno deveria simplificar, sem confundir (o leitor há de se perguntar por que o Canadá, com mais medalhas, está atrás de Cuba).

Crítica de mídia

É uma pena que, subvertendo sua boa tradição, a Folha não esteja publicando crítica/crônica sobre as transmissões televisivas de um grande evento esportivo como o Pan.

Novo Guga?

Uma arte mostrando as contusões de Daiane dos Santos nos últimos anos seria mais esclarecedora do que a reportagem principal da pág. D2, ‘Nova lesão faz Daiane ser cortada da decisão’.

Falta uma informação essencial sobre as perspectivas da ginasta: sua idade.

O jornal compra a versão da atleta: ‘O argumento de Daiane a respeito da freqüência das lesões tem um respaldo de peso. De acordo com Martha Karoly, chefe da comissão técnica do time dos EUA…’.

Por que não se comparou a idade da brasileira com a das meninas da equipe americana no Pan?

Mais espírito crítico teria ajudado a cobertura.

Esqueçam o que escrevemos

A Folha deu um passo, para usar um eufemismo, arriscado: fazer o balanço do desempenho do Brasil na ginástica artística antes de a maioria das medalhas ser distribuída (‘De potência, Brasil vira aprendiz no Pan’, pág. D2).

Esse problema é pequeno em comparação com outro, grave, o maior erro jornalístico do dia. Trecho: ‘Com força máxima, a modalidade perdeu a chance de obter os ouros inéditos e esperados’.

Como assim? O Brasil foi prata em equipes, no masculino e no feminino.

O pior: no sábado, ao apresentar a competição, a Folha disse exatamente o contrário, no prognóstico sobre as duas equipes. Falou de ‘um inédito título dos Jogos Pan-Americanos que parece distante’.

Na linha-fina do sábado: ‘Sem favoritismo ao ouro por equipes […]’.

Antes, o jornal dizia uma coisa.

Agora, para bater forte, mudou até as previsões.

Ingressos e bagunça

A reportagem ‘Público sofre com ingressos ‘numerados’’ (pág. D4) poderia ampliar o foco: ontem muitas pessoas que buscavam comprar bilhetes, ainda disponíveis, não conseguiam nos sites credenciados da internet.

Os cambistas continuam a operar, à margem da lei.

A venda de ingressos é um dos piores aspectos da organização do Pan.

Estragos da chuva

Um dos maiores problemas da organização do Pan foi a construção do campo para o beisebol.

Com a chuva forte que caiu ontem, o gramado ficou imprestável, e as competições sofreram novos cancelamentos (que já haviam ocorrido devido à falta de luz natural, que era facilmente previsível).

Obsessão

No balanço sobre os assuntos mais enfadonhos do período que antecedeu o Pan, ocupa lugar de gala a chatérrima disputa na Justiça para definir a equipe brasileira do hipismo. A Folha deu um destaque exagerado ao tema.

Hoje bate o seu recorde: concede alto de página do caderno, em página ímpar, para a reportagem ‘Justiça muda time de saltos novamente’ (pág. D5). Valia no máximo nota de pé de página.

Isso em plena realização dos Jogos, com mil e uma histórias fascinantes de triunfos e fracassos para contar.

Exemplo de pauta: como é disputar uma competição e ter apenas uma finalização contra 62 dos adversários no hóquei sobre a grama (no jogo Argentina 19 x 0 Brasil)?

As retrancas sobre vôlei de praia masculino, vôlei de praia feminino e vôlei de quadra feminino, somadas, não tiveram o mesmo espaço que recebeu a decisão judicial sobre o hipismo.

Badminton

Ao contrário do que dizem a linha-fina e a legenda da contracapa do caderno do Pan, não haverá hoje final na modalidade, mas semifinais, como informa corretamente a reportagem.

16/07/07

Vaias sem manchete

O presidente da República viveu na abertura do Pan o momento mais constrangedor em quatro anos e meio de governo.

Os escândalos, numerosos e graves, como o do Mensalão, não produziram, em público, a reação irritada de Lula como sexta-feira no Maracanã.

Não sei se as vaias expressam inflexão em sua popularidade ou se terão conseqüência política de monta. Possivelmente, não.

Mas foi a primeira vez, em 15 edições dos Jogos, que o chefe de governo e Estado não consegue declarar aberta a competição, em virtude dos apupos.

As vaias foram o grande assunto no fim de semana e hoje no Painel do Leitor.

Foram o grande assunto dos colunistas da Folha.

Foram o grande tema das manifestações dos leitores que procuraram o ombudsman.

A Folha, contudo, preferiu manchetar no sábado: ‘TCU planeja investigação de contratos da Petrobras’. Não era essa a notícia principal da véspera, mas as vaias históricas ao presidente, que tiveram chamada em destaque, mas secundária na primeira página.

(Esta crítica, quase monotemática, é um esforço de análise sobre a cobertura da largada do Pan.)

Não é bem assim: manchete versus reportagem

Um motivo a mais para manchetar as vaias é o fato de a manchete de sábado não ser fiel à reportagem que supostamente a fundamenta.

Eis o começo da chamada da primeira página: ‘O ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, disse que pedirá auditoria para apurar o esquema de fraudes em licitações da Petrobras, revelado pela PF, na próxima plenária do TCU, prevista para a quarta-feira’.

Ou seja: o TCU não planeja, quem planeja propor auditoria é um dos seus membros.

Se um ministro propusesse o fim do tribunal, o jornal não titularia ‘TCU planeja o seu próprio fim’.

Quem planeja a auditoria é um ministro. Se o plenário aceitar a proposta, pelo que entendi, é que o procedimento será instaurado.

Vaias e contexto

Não faltaram lembranças, no fim de semana, para a tirada de Nelson Rodrigues: o Maracanã vaia até minuto de silêncio.

Acrescento outra recordação. Ainda na ditadura militar, quando se falava em popularidade de governantes, João Saldanha costumava desafiar: se é assim, por que o presidente não vai ao Maracanã e tem o nome anunciado diante do estádio lotado?

O PT é fraco no Rio.

O Rio foi a terra de Carlos Lacerda, cujo eleitorado sobreviveu à sua morte há três décadas. Os de alma lacerdista, em parte apoiadores de Cesar Maia, não gostam de Lula.

O Rio sempre deu muitos votos à esquerda. Parcela desses eleitores, desiludida, votou em Heloísa Helena para presidente em 2006. Houve áreas da zona sul em que a candidata do PSOL recebeu mais de um quinto dos sufrágios. Esse eleitorado também não gosta de Lula.

O Rio foi o grande palco de Leonel Brizola. Os brizolistas não gostam de Lula.

O perfil dos presentes ao Maracanã não é propriamente o de beneficiários do programa Bolsa Família.

Esse contexto ajuda a explicar as vaias, embora não se descarte –e valeria investigar– um plano de adversários para humilhar o presidente.

Vaias sem bastidor

Não li na Folha reportagem de maior fôlego sobre como Lula e seus assessores avaliaram as vaias.

Não me refiro às declarações sobre ‘armação’, como as feitas pelo ministro do Esporte, mas a bastidores.

Não me lembro de ter visto o presidente com o semblante tão contrariado como na sexta-feira.

A Folha avisou

Atenta, a Folha bem que avisou na sexta-feira (pág. D2): ‘[…] Luiz Inácio Lula da Silva assistirá à cerimônia. Se o público que for ao Maracanã repetir a ação da torcida presente no ensaio, ele pode ouvir vaias da arquibancada. ‘Isso não atrapalhará a festa. Sempre é difícil um político ser aplaudido no Maracanã. Há uma desconfiança justa da população. No momento, qualquer político brasileiro merece ser vaiado’, declara Stein’ [Luiz, diretor da festa].

Se a Abin ao menos lê jornal, Lula tinha idéia do que o esperava.

Uma bela capa

Ficou ótima a capa do caderno do Pan de sábado com o trocadilho ‘Lula vai ao Pan… Pan vaia Lula’.

O caderno do ‘Estado’ deu a notícia no pé da penúltima página. O do ‘Globo’, na pág. 10.

É uma pena que só a edição São Paulo tenha sido feliz assim. Na edição Nacional, a capa, fria, foi dedicada à apresentação do dia dos ginastas brasileiros.

É esta a edição que chegou ao Rio, sede da competição.

Erro e (falta de) transparência

Título do alto da segunda página do caderno do Pan na sexta: ‘Abertura terá Pelé e é comparada ao Titanic’.

‘Lupa’: ‘Organização do evento tentou manter segredo, mas o ex-jogador irá acender a pira olímpica, ponto alto da cerimônia no Maracanã’.

Lide: ‘A 15ª edição dos Jogos Pan-Americanos será aberta oficialmente hoje em megaevento que terá Pelé como uma das atrações principais. E que, por sua grandiosidade, foi batizado de Titanic. O ex-jogador irá acender a pira olímpica, ponto alto da cerimônia, ao som de temas relacionados a futebol’.

Sublide: ‘Era um dos mistérios guardados pela organização. No ensaio geral de anteontem, uma voluntária assumiu seu papel’.

Como se viu, Joaquim Cruz acendeu a pira.

Não havia lógica política, a considerar os interesses do COB e de Carlos Arthur Nuzman, em transformar a festa em evento futebolístico.

Pior do que a ‘barriga’ foi a recusa da Folha em reconhecer o seu erro e informar por que Pelé esteve longe do Maracanã.

Trecho da edição de sábado (‘Abertura carnavalizada empolga o Maracanã’, pág. D3): ‘[…] após o ex-corredor Joaquim Cruz, campeão olímpico em Los Angeles-1984, e não Pelé, como chegou a ser cogitado, acender a pira’.

Como assim, ‘chegou a ser cogitado’? Quem bancou a informação foi a Folha, na sexta.

O jornal deveria ser transparente.

E informar aos leitores quem foi a fonte que o induziu a erro.

Por que a Folha preserva fontes off que causam prejuízos aos leitores?

Uma questão institucional

A Folha não deveria desconsiderar o prejuízo à sua imagem ao circular no Rio com a edição Nacional durante o Pan.

No sábado, competidores de todo o continente, a cartolagem internacional, milhares de turistas, jornalistas vindos de todo o planeta, os leitores cariocas que durante eventos de porte procuram se informar com mais curiosidade sobre o esporte –todos acharam que, na ótica do jornal, apresentar a ginástica era mais importante do que noticiar a vaia a Lula. (Como dito, na edição São Paulo mudou).

No domingo, os leitores não souberam que na véspera as ginastas conquistaram prata em equipe e ganharam a capa do caderno, com outros medalhistas; não receberam a cobertura da estréia do vôlei feminino; perderam o furo sobre a deserção de um atleta cubano; além de receber uma capa, mais do que fria, infeliz (mais comentários abaixo).

Na Copa de 98, quando as facilidades tecnológicas estavam muito aquém das de hoje, a Folha providenciou a sua impressão no centro de imprensa em Paris.

Agora, em uma cidade a 400 km de distância, o jornal circula sem alguns dos principais eventos da véspera, ocorridos à noite, e sem a concepção final, bem melhor que a concluída por volta das 21h.

O cavalo sumiu

A enorme fotografia da amazona Luiza Almeida, na primeira página de sábado, cortou por inteiro (ou 99,9%) o cavalo no qual ela está montada.

Quem financia é o contribuinte

Título de sexta (pág. D2): ‘Lula, principal financiador do Pan, deve ser ‘figurinha fácil’ no evento’.

É um erro dar ao presidente crédito que deve ser da União.

O jornalismo, a quem cabe fiscalizar a administração para que o público não se misture com o privado, não deve incentivar confusões como essa.

Folha versus Folha

O jornal faria bem se uniformizasse sua apuração.

Na sexta, informou, sobre Lula: ‘Está previsto, também, que ele entregue a primeira medalha brasileira –com boas chances de ser para Poliana Okimoto– na maratona aquática, amanhã’.

No domingo, como Lula não entregou a medalha à nadadora na véspera, a Folha afirmou: ‘Mas ele [Lula] já tinha descartado essa possibilidade no meio da semana. ‘Não é a minha festa’, dissera, na quarta-feira. Isso foi antes das vaias na abertura’.

Jornalismo crítico e doping

O jornal está de parabéns pela cobertura que fez do anúncio do doping da jogadora de vôlei Jaqueline. Uma coisa é relatar a versão da atleta, sobre um certo chá anticelulite. Outra é subscrever o seu relato, o que a Folha, acertadamente, não fez, por mais verossímil que ele possa parecer.

Não há elementos, por enquanto, que esclareçam o episódio.

Jornalismo crítico e boas idéias

Ficaram boas as reportagens ‘Cama quebra na Vila e faz atletas dormirem no chão’ (pág. D6 do sábado); ‘Brasileira critica a organização’ (pág. D5 do sábado); ‘No Pan, América se mostra mais democrática’ (pág. D4 da sexta); ‘Atletas do Brasil querem crescer e aparecer’, (pág. D4 do sábado);

Muito boa: ‘Longe do gol – Portão de ferro separa barracos da favela Belém-Belém do Engenhão, o mais vistoso estádio construído para o Pan-Americano, em bairro antigo e decadente do Rio’ (pág. D7 do domingo).

Jornalismo oba-oba

Faltou no noticiário sobre as medalhas do Brasil informar o nível técnico das disputas.

Contra quem os brasileiros competiram? Contra atletas sem expressão internacional, marginais em Olimpíadas, ou concorrentes de primeira linha?

As medalhas de prata por equipe em ginástica foram obtidas contra as equipes principais estrangeiras ou segundos e terceiros times?

E no taekwondo e outras modalidades?

É dever do jornal deixar claro se uma eventual medalha de bronze (ou um 10ºlugar) foi recebida em prova de alto nível técnico ou, mesmo jogando água no chope do oba-oba, se uma de ouro saiu em confronto com atletas fracos.

Furo!

Ganhou destaque em toda a mídia o furo da Folha sobre a deserção de um jogador cubano de handebol.

Jornalismo cricri

Chamada na primeira página de sábado: ‘Festa era para dar errado. Mas não é que deu certo?’.

Título interno (pág. D2): ‘Com tudo para dar errado, deu certo’.

Li o texto e não entendi por que ‘era para dar errado’.

Mais cricri

O relato sobre a festa de abertura –sem contar o noticiário sobre as vaias– consumiu 33 linhas.

Uma reportagem sobre pessoas na praia que não deram pelota à cerimônia valeu inacreditáveis 114 linhas.

A Folha teria feito bem melhor se usasse seu espaço para esclarecer se alguma vez houve abertura de Pan com a dimensão e a qualidade da do Maracanã e se ela se igualou às de Olimpíadas.

Sem deixar de citar o custo do evento, como o jornal fez corretamente.

Põe cricri nisso

O maior equívoco editorial da Folha até agora no Pan foi a capa da edição Nacional de domingo, ‘PANES’.

Lide: ‘Trapalhadas arranharam a organização dos Jogos Pan-Americanos do Rio no primeiro dia de disputas de medalhas’.

Ora, isso era o mais importante do balanço do dia anterior? Claro que não.

O sábado não foi marcado pelos problemas de organização no Pan, mas pelo fato de que, no essencial, as coisas funcionaram, a despeito dos problemas.

Na edição São Paulo, o que antes era o destaque da capa foi reduzido a uma merecida nota de 18 linhas.

O Manual e a Justiça

Linha-fina na pág. D8 de sábado: ‘Juiz acata denúncia do Ministério Público, acusa presidente Alberto Dualib de lavagem de dinheiro e pede prisão de Kia’.

Justiça não acusa, mas julga.

Justiça não pede prisão, mas ordena.

Mais uma vez, esta crítica diária recomenda a leitura do verbete ‘acusações criminais’ do ‘Manual da Redação’, nas págs. 155 e 156.

Primeira página, segunda

Ficou muito boa a primeira página da Folha de hoje, segunda-feira. Há um problema, existente também no caderno do Pan: o emprego de dois critérios combinados no quadro de medalhas causa confusão. Se o espaço é pequeno, há mais motivos para considerar somente o critério consagrado na Folha: medalhas de ouro, e não o total.

O jornal deve resistir ao ufanismo que tentará plantar o critério do total de medalhas, somando também as de prata e bronze, a fim de que o Brasil apareça mais acima na tabela.

Fraque

É de uma sobriedade exagerada o título para a conquista da seleção sobre os seus novos fregueses: ‘Brasil, mais uma vez, supera Argentina’.

Sugestão de leitura

Quem estiver em busca de um sorriso não deveria deixar de ler a boa reportagem ‘Promoção de absorvente ‘lota’ Estados Unidos x Venezuela’ (pág. D7 de hoje).

Espaço

No sábado, o caderno do Pan circulou com pouco mais de 11 páginas e meia de espaço editorial (descontando a publicidade). O ‘Globo’, com pouco mais de nove páginas e meia. O ‘Estado’, com 11 páginas.

No domingo, a Folha teve de novo pouco mais de 11 páginas e meia. O ‘Globo’, pouco mais de 12 páginas e meia. O ‘Estado’, nove páginas e meia.

Com as finais da Copa América e da Liga Mundial de vôlei e a crise do Corinthians, era necessário que o caderno do Pan (mais Esporte) tivesse as páginas que teve.

Com o avanço das competições de esportes coletivos e o incremento da distribuição de medalhas, inclusive para o Brasil, tende a crescer o interesse pelos Jogos.

Bom começo

Minha impressão é de que, a considerar o produto final, a edição São Paulo, a Folha começou bem o Pan.

A considerar a edição Nacional, começou mal.

Jornal nacional

Ficou boa a reportagem ‘Prostitutas e mendigos voltam ao Pelourinho’ (pág. C8 do domingo).

Pequena contribuição ao Erramos

A considerar a seção Erramos de domingo e de hoje, por dois dias a Folha não publicou informações erradas.

Não é bom que o jornal dependa apenas das observações dos leitores e dos comentários do ombudsman para se corrigir.

A Redação deveria ter a iniciativa, ser o primeiro checador de informações.

Alguns erros dos últimos dias:

a) A chamada da primeira página da edição Nacional do sábado informa que a ‘Abertura dos Jogos vai custar R$ 50 milhões’. Como diz a reportagem, esse é o custo aproximado do conjunto das cerimônias de abertura, encerramento, entrega de medalhas e outras.

b) Ao contrário do informado na pág. A7 do sábado, Carlos Lamarca foi morto em 1971, e não 1972.

c) Ao contrário do que informou a reportagem ‘Doping deixa time alerta com cosméticos’ (pág. D7 do sábado), a jogadora Jaqueline foi informada na quinta-feira sobre o resultado do exame, e não na sexta.’

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