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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CADERNO DA CIDADANIA > LEITURAS DE VEJA

Críticas a faculdades e sindicatos

Por José Alexandre em 03/11/2009 na edição 562

A entrevista das páginas amarelas de Veja (edição nº 2136, de 28/10/2009) é com o secretário da Educação do Estado de São Paulo, Paulo Renato de Souza, dono de uma ótica que se coaduna perfeitamente com o ideário ultraliberalizante do semanário. A entrevista possibilitou ao secretário esmiuçar sua política educacional e defenestrar as principais faculdades de Educação e sindicatos.

Para o secretário, a Educação não tem como seu maior problema a falta de recursos. Estes são apenas mal gerenciados. O problema verdadeiro é o despreparo dos professores. Ora, estes são despreparados porque nas faculdades de Educação do país não aprendem a ensinar, perdem tempo no aprendizado de marxismo e ideologia ultrapassada. Nada que tenha relação com as atividades que os professores devem desempenhar em sala de aula. Didática é o que as faculdades deveriam ensinar, na visão do secretário, pois o conteúdo está nos livros didáticos distribuídos pelo governo federal através do MEC, poderíamos emendar. Assim, professores não precisam ter nenhuma base intelectual, não precisam construir nenhuma visão do mundo na sua formação, seja com base no materialismo histórico ou qualquer outra corrente de pensamento. O professor só precisa ensinar e para tanto precisa ser estimulado.

Concorrer para avançar

Neste sentido, entra o novo plano de carreira do estado de São Paulo que premia o mérito e o talento dos professores. O viés meritocrático preconizado pelo entrevistado é a solução também para a elevada média de ausência dos professores, 30 faltas para cada no ano de 2008. Se a lógica de premiar a assiduidade funcionar, para que desabarrotar as salas de aula que às vezes comportam até 50 alunos? Ou então para que diminuir a jornada dos professores em sala de aula? Elementos que nem são mencionados pelo secretário e na sua ótica não mereceram atenção. Detalhes que não precisam ser levados em conta para que esta profissão seja tornada mais atraente, a ponto de chamar para si os melhores alunos, e para que isto aconteça é necessário premiar talento e esforço.

Outro elemento que prejudica a Educação, de acordo com a pontificação do secretário, é a ação do sindicato da categoria, que se posicionou contra o referido plano de carreira. Uma instituição que não tem ninguém interessado num ensino melhor, mas pessoas ligadas a uma esquerda ortodoxa que não tem nenhuma relevância no país. Podemos inferir, seguindo este raciocínio, que os professores não precisam desta instituição corporativista que prega pela isonomia dos benefícios da categoria no plano de carreira. Precisam, sim, concorrer com seus colegas, alcançar melhores resultados para, por fim, avançar. Um avanço, aliás, que atingirá apenas 20% do contingente docente. Um percentual razoável e que não estrangulará o orçamento e estimulará a concorrência, burocraticamente falando.

Alguém tem que por a mão no bolso

É com gestão moderna e eficiente que os políticos e tecnocratas da estirpe do senhor Paulo Renato de Souza pretendem atacar os principais problemas do ensino público. É muito mais confortável para uma sociedade que nunca considerou importante a Educação, num sentido amplo, que seus dirigentes enveredem na política educacional por este caminho. Um sistema de ensino capaz de formar pessoas intelectualmente autônomas continua não sendo um motivo forte o bastante para uma mobilização de recursos financeiros. Constatação corroborada pela luta de alguns governadores (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará) em não aplicar a Lei 11738/2008, que estabelece um piso mínimo nacional de R$ 950,00 para professores.

A única coisa em que concordamos com o secretário Paulo Renato é que o magistério como profissão precisa ser tornado mais atraente. Situação que não vai se efetivar apenas com políticas meritocráticas de estímulo à competição entre os docentes. Preferimos nos afiliar às idéias de outro economista, Cristovam Buarque, que de certa feita disse: para haver um ensino de qualidade neste país, alguém vai ter que por a mão no bolso.

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Professor de História, Ponta Grossa, PR

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