Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > INSEGURANÇA PÚBLICA

Crônica de mais uma morte anunciada

Por Luciano Martins Costa em 30/03/2015 na edição 843

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 30/3/2015

A Folha de S. Paulo relembra, dez anos depois, a chacina de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, quando cinco policiais militares assassinaram a tiros 29 pessoas, depois de haverem consumido 63 latas de cerveja. O texto, publicado na edição de segunda-feira (30/3), chama atenção por dois aspectos: a imprensa brasileira não costuma dar muita atenção a crimes que têm como vítimas pessoas sem expressão social ou que não envolvam personagens capazes de mover emoções coletivas; além disso, os jornais não tratam com a devida atenção o problema da violência policial.

O massacre de Nova Iguaçu foi um exemplo da deformação que atinge as polícias militares em muitos estados brasileiros, pela persistência de uma mentalidade que privilegia a ação antes da reflexão e pelos resquícios de uma visão preconceituosa contra os estratos mais desfavorecidos da sociedade. As estatísticas da violência institucional contra negros e mulatos constituem uma nódoa difícil de apagar no trajeto do Brasil em direção à modernidade.

A maior chacina ocorrida no Rio, de que se tem notícia, aconteceu no dia 31 de março de 2005, e teve como antecedente uma reunião de policiais que haviam sofrido sanções disciplinares. Alguns deles eram suspeitos de promover uma escalada de violência na região, com execuções de suspeitos e desafetos: dias antes, dois homens haviam sido degolados e a cabeça de um deles atirada no pátio do quartel da PM em Nova Iguaçu, como resposta à ação do comandante, coronel Paulo César Lopes, que havia punido mais de 60 policiais por desvio de conduta.

Naquela noite, um grupo de PMs que haviam sido punidos reuniu-se num bar e combinou de promover um banho de sangue. Circulando por bairros pobres de Nova Iguaçu, eles atiraram aleatoriamente contra pessoas que encontravam pelo caminho. Depois de fazer dezessete vítimas na Baixada Fluminense, dirigiram-se para o bairro de Cruzeiro, onde executaram mais doze inocentes. Foram disparadas centenas de tiros, que atingiram indiscriminadamente até mulheres, adolescentes e crianças.

Quatro dos cinco principais suspeitos foram julgados, recebendo penas de centenas de anos de prisão. O processo contém detalhes, provas e depoimentos mostrando a conexão entre a violência dos policiais e seu envolvimento com exploradores de jogos clandestinos.

Uma paz precária

Corte para a cena paulista, março de 2015: a imprensa noticia que, pela primeira vez, em uma década, a polícia apreendeu heroína, droga mortal pouco consumida no Brasil. O fato aconteceu na região conhecida como Cracolândia, e dois africanos da Tanzânia teriam sido presos vendendo a droga.

As reportagens publicadas na quinta-feira (26/3) informam que foi iniciada uma ação conjunta com a Polícia Federal e o Ministério Público para evitar que a droga se espalhe. O Globo registrou a declaração oficial da Secretaria de Segurança Pública, segundo a qual “a Cracolândia é uma das regiões mais bem policiadas do Estado” e que “a Polícia Militar dá suporte a agentes sociais e de saúde que atendem os consumidores de drogas”.

Esse é exatamente o limite da ação da imprensa: taxistas, comerciantes, agentes sociais, policiais e outros profissionais que atuam na região contam uma história diferente, que inclui um pacto silencioso entre autoridades, traficantes e até mesmo voluntários ligados a entidades religiosas.

A polícia realmente prende traficantes na Cracolândia, mas muitos têm as algemas destravadas logo depois do viaduto sobre a linha férrea. Há um entendimento generalizado segundo o qual não se pode impedir totalmente o fornecimento de crack aos dependentes, porque com a abstinência eles se tornam agressivos e mais difíceis de controlar.

O problema é que o critério para a decisão do policial produziu uma espécie de pacto entre agentes públicos, voluntários e representantes do crime organizado. Uma espécie de “comitê” da quadrilha conhecida como PCC circula entre os acampados na Alameda Cleveland, organizando o tráfico e evitando que a polícia seja chamada para administrar conflitos.

Há poucos dias, um dos moradores foi “profissionalmente” espancado porque costuma agredir a mulher e fazer escândalo por conta de supostos e reincidentes atos de infidelidade. Está marcado para morrer.

A crônica dessa e de outras mortes anunciadas não parece sensibilizar as redações. Repórteres circulam pela região e de vez em quando recolhem histórias de personagens inusitados, como uma ex-modelo, um empresário caído em desgraça, um jovem de classe média – que, supostamente, na mente do jornalista, não deveriam estar ali.

A Cracolândia é o Brasil.

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