Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > GUERRA NO RIO 2

Da Vila Cruzeiro à Favela do Batan

Por Ricardo Miranda em 03/06/2008 na edição 488

Sou jornalista há 20 anos. A maior parte do tempo em Brasília, quando conheci
quase todo o país – de Xapuri a Novo Hamburgo, de Corumbá a Vitória – e diversos
lugares do mundo – de Guadalajara à Antártica, de Milão a Assunção. Nos últimos
seis anos, moro no Rio. Sou apaixonado pelo Rio. E, a despeito do mercado
profissional ser bem mais rarefeito do que em Brasília, criei vínculos pessoais
que me enraizaram completamente na cidade. A começar por um filho carioca.


Algum tempo depois de me mudar, comecei a dar aulas numa faculdade particular
da cidade, o que me oxigenou a cabeça e me obrigou a ver minha profissão a
partir de ângulos que eu já não via mais. A vida acadêmica, de um lado, e o fato
de, sob certo aspecto, ainda ser um ‘estrangeiro’ no Rio – nem brasiliense eu
sou, nasci em Minas –, me fazem olhar sempre com estranheza para coisas que
observo no dia-a-dia da minha rotina profissional na cidade.


Repórter com colete à prova de balas? Carros de reportagem blindados? Áreas
de conflito? Cobertura de risco? Não me habituo a ver a convivência promíscua de
repórteres com fontes policiais assim como via com extremo desconforto a vida
desregrada de alguns colegas de Brasília com suas fontes políticas, dentro e
fora das casas do poder. Nunca me habituei a isso, assim como nunca me coloquei
em situações que precisasse usar esses equipamentos e métodos. Nem por isso
deixei de fazer reportagem, jornalismo com J maiúsculo.


Não sou, nem pretendo ser, porta-voz da imprensa, de nenhuma imprensa, de
nenhum outro jornalista que não eu mesmo. Tento até hoje sem sucesso entender a
minha profissão e o destino que escolhi. Essa é muito mais a visão pessoal de
quem convive intensamente nessa trincheira há duas décadas, um ponto de vista
parcial de quem nos últimos tempos dedicou parte de sua vida profissional a
fazer um tipo de jornalismo que, por falta de nome melhor, convencionou-se
chamar de investigativo. O que, a rigor, parece um erro de origem.


‘Jornalismo investigativo é, antes de tudo, jornalismo’, definiu uma vez
Eugênio Bucci. Até porque o jornalismo não prescinde da capacidade de
investigar, estejamos diante de um acidente de trânsito ou de um grande
escândalo financeiro, estejamos cobrindo um concurso de miss ou uma Comissão ao
Parlamentar de Inquérito. O que se fez foi separar o conceito de apuração, termo
mais próximo do jargão jornalístico, daquele de investigação, que remete à
prática policial. Investigativa seria aquela reportagem de mais fôlego, que
exige uma longa e extensa coleta de documentos, entrevistas, imagens, provas.
Mas se a questão é rotular, não deixemos o produto sem embalagem. Vamos explicar
isso direito.


Acima da lei


A idéia que está na cabeça de todo jornalista é simples. A primeira impressão
não é a que fica – há sempre outras que vêm depois. Nem tudo é o que parece – e
de fato, como as aparências enganam! E, claro, onde há fumaça, há fogo – seja
uma fogueira de vaidades ou um incêndio de grandes proporções. Por isso, o
espírito investigativo – que é a lapidação da curiosidade inata a todos nós – é
uma das características mais essenciais ao repórter e faz parte da trinca de
qualidades indispensáveis na profissão, ao lado de um texto de qualidade (maior
patrimônio do jornalista) e de um profundo sentido ético (maior obrigação desse
profissional).


É preciso ter boas fontes, boa apuração, obstinação, persistência, ousadia,
investimento do veículo (inclusive financeiro) e, claro, sorte. Nos tempos de
hoje, adicione a isso intimidade com as ferramentas eletrônicas, atalhos em
cartórios e tribunais e conhecimento de temas específicos como lavagem de
dinheiro e narcotráfico.


O que me incomoda no rótulo ‘jornalista investigativo’ é o sentido de casta
que ele carrega, dando a idéia de pessoas especialmente preparadas, forjadas,
escolhidas, legitimando uma espécie de clã dentro da profissão. Algo como um dom
divino, polido pelas mãos terrenas dos editores nas redações. Sem falar no
perigo para o ego de quem já o tem, muitas vezes, nas alturas.


Já ouvi alguém brincar dizendo que quando um jornalista investigativo vai se
suicidar, ele sobe em seu próprio ego e se atira lá de cima. A carapuça não
serve para a maioria de nós, mas é a cara de algumas pessoas que me ocorrem
agora. E, quando percebemos, o jornalista se torna a estrela e a notícia sua
escada, sua auxiliar, sua coadjuvante. E se a notícia é só o meio para alcançar
um fim, que é o de ter o nome na primeira página ou o rosto na abertura do
telejornal, ela se torna também maleável, moldável ou, em outras palavras,
fraudável.


Essa ética elástica é o defeito, felizmente, de uma minoria. A maioria talvez
padeça apenas daquela busca incansável pela eternidade. ‘O jornalista escreve
para o esquecimento, quando seu sonho seria escrever para a memória e o tempo’,
escreveu certa vez, para a eternidade, o escritor argentino Jorge Luis
Borges.


De qualquer forma, foram ‘investigações’ jornalísticas que ajudaram a mudar a
história recente do país – tendo o seu marco zero nas reportagens que culminaram
com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. E, no atual governo,
ajudando a desvendar casos graves de corrupção no governo Lula. Mas isso não faz
do repórter um investigador, no sentido policial, faz dele tão-somente um ótimo
profissional. Não faz dele um missionário – seja a serviço da causa que for –,
mas apenas alguém que luta para fazer seu trabalho bem-feito. Não faz dele um
cidadão acima da lei, mas alguém que tenta mostrar algo que ninguém mais viu –
ou um ângulo diferente do que todo mundo viu – sem precisar burlar nenhuma regra
ou usar de meios espúrios para chegar ao seu fim.


Contar histórias


Infelizmente, vivemos numa sociedade imperfeita, por isso fazemos um
jornalismo imperfeito. Nós erramos. Eu já errei. Por sorte, aprendi. Algumas
pessoas nunca aprendem. Já vi coisas no jornalismo que fariam alguns de vocês se
comoverem com a devoção de um repórter, com o combate desigual contra interesses
poderosos, com o empenho pessoal para trazer uma verdade que o próprio veículo
duvida existir, com a luta para não desmoronar na cobertura de pequenas e
grandes tragédias do nosso dia-a-dia, com o trabalho muitas vezes comprometendo
a própria vida pessoal diante da paixão que temos pelo ato de escrever, de
informar, e, até, de desfazer injustiças.


Mas já vi coisas vergonhosas, já vi jornalistas mais comprometidos com a
fonte do que com a notícia, já vi donos de jornais mandarem seus repórteres para
campos minados para depois venderem seu trabalho pela melhor oferta, já vi
empresas jornalísticas criarem verdadeiras centrais de furos e depois entregarem
seus repórteres aos leões do circo de processos que se transformou a indústria
da injúria, calúnia e difamação.


Jornalismo, já se escreveu uma vez, é tudo aquilo que conseguimos enfiar
entre um anúncio e outro. É um exagero grosseiro, mas, como todo exagero, é o
reflexo esticado de uma verdade. A onda tecnológica trouxe tempos de mudança no
jornalismo e eles, obviamente, se refletem em tudo o que você lê – na escolha
das manchetes, dos temas, das prioridades. Essa mudança profunda no mercado, com
a internet e as novas tecnologias alterando o perfil do leitor, exigem uma
reforma no papel do jornal. E quando a grande mídia está diante do desafio de
uma reinvenção, os cuidados devem ser redobrados.


Assim como um político não quer ser apeado do poder, os jornais e revistas
querem manter sua influência na sociedade. E estão mudando sua estratégia de
colheita. Há 40 anos, jornais e revistas eram os donos do mundo. Hoje, quando
podemos saber de quase tudo 24 horas antes de sair publicado em qualquer jornal,
quando o espaço entre nós e a notícia foi encurtado de forma frenética, a
necessidade do furo, do escândalo, se ampliou. Como o próprio escândalo diminuiu
seu prazo de validade, o show não pode parar.


Por outro lado, talvez seja o momento ideal de repensar nossa profissão. Ao
prefaciar recentemente o livro Histórias do New York Times, sobre casos
que comoveram os repórteres do jornal mais importante do mundo, o jornalista
Heródoto Barbeiro escreveu:




‘A missão do jornalismo, também, é contar histórias de seres humanos que
possam contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e pacífica.
Não é a de se enterrar na lama do sensacionalismo e divulgar apenas notícias
ruins. (…) O jornalismo está associado à idéia de promoção do bem. Investigar
e contar histórias ajudam os cidadãos a entender melhor e enfrentar o mundo que
os cerca. O que poderia existir de mais compensador em uma profissão?’.


Três vidas


O efeito colateral do jornalismo dito investigativo, com sua busca compulsiva
por novidades, por furos, por documentos exclusivos, por imagens inéditas, é o
que chamam de ‘denuncismo’, onde importa menos a qualidade da denúncia, mas sua
velocidade. Até porque, denunciar muitas vezes tem menos a ver com a busca da
verdade e mais com estratégias deliberadas de mercado. E isso pode gerar
excessos, abusos, aumentar a chance de erro, além do inegável risco para o
profissional.


Essa busca, que no caso do repórter bem-intencionado se confunde com a tal
construção de um mundo melhor, não pode tomar o lugar da responsabilidade, muito
menos – como lembra o jornalista Leandro Fortes no livro Jornalismo
Investigativo
– ‘expor um repórter à sandice de criminosos’.


O caso Tim Lopes não refletiu apenas um grave problema de segurança pública.
A morte de um jornalista investigativo clássico, como era Tim Lopes, deveria
fazer com que todos nós pensássemos até que ponto é legítimo permitir ao
repórter trocar lápis, papel e gravador por colete a prova de balas, carros
blindados e microcâmeras.


O caso que agora nos assalta a consciência, da prisão e tortura de uma equipe
do jornal O Dia, mostra que muita gente não aprendeu a lição mais
elementar. Infiltrar repórteres numa comunidade dominada por bandidos não é só
uma loucura, é irresponsável e criminoso.


Na já histórica ‘Carta
aos jornalistas
‘, distribuída pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Município do Rio, deve-se repetir sem parar:




‘É inacreditável que a tragédia de Tim Lopes (…) não tenha conscientizado
as empresas de que nenhuma denúncia ou prêmio de Jornalismo vale uma vida’.


Quanto mais três vidas. Não só a classe, mas todos os que se interessam pelo
nosso trabalho, devem discutir com profundidade esse modelo de cobertura, o
limite da investigação jornalística e o custo-benefício da ousadia e ambição
profissionais.

******

Jornalista, correspondente do Correio Braziliense no Rio

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