Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CADERNO DA CIDADANIA > CASO THALES FERRI SCHOEDL

Delírios jornalísticos na Rádio Bandeirantes

Por José Paulo Lanyi em 10/12/2008 na edição 515

Como eu adiantara neste Observatório, no artigo ‘Absolvição do promotor condenado pela mídia‘, que apresentou a distorção, obrigo-me a retomar, com a devida análise, o caso do ‘pseudofuro’ jornalístico alardeado pela Rádio Bandeirantes em São Paulo.


Ao gravar o off de sua entrevista com o promotor Thales Ferri Schoedl, veiculada na segunda-feira (1/12/2008), o repórter Pedro Campos permitiu-se dizer o seguinte:




‘Durante os quatro anos que se passaram, Thales não concedeu entrevista. O promotor rompeu o silêncio neste fim de semana em uma entrevista exclusiva à Rádio Bandeirantes’.


Trata-se de uma desinformação gravíssima, e é sobre isso que vamos pensar agora. Ao fulcro do problema: a afirmação de que o promotor não havia sido entrevistado ‘durante os quatro anos que se passaram’ é falsa. A primeira entrevista de Schoedl fora publicada por este Observatório em 23 de outubro de 2007, com manchete no portal iG, que manteve o artigo na home por várias horas, ao longo de um dia e meio. O promotor também seria ouvido pela revista Época, em fevereiro de 2008.


O silêncio dos culpados


Alertada por este articulista, a assessoria da emissora respondeu que avisaria a redação. À essa altura, a rádio já havia colocado o seu bloco na rua. Milhares de internautas receberiam esta mensagem sobre o furo-frankenstein:




‘Thales Ferri Schoedl fala com exclusividade à Rádio Bandeirantes


Promotor fala à imprensa pela primeira vez desde 2004


São Paulo, 1 de dezembro de 2008 – O promotor Thales Ferri rompeu o silêncio e concedeu entrevista exclusiva à Rádio Bandeirantes no último fim de semana. É a primeira entrevista dele à imprensa desde os acontecimentos na praia de Bertioga, em 30 de dezembro de 2004, quando o promotor matou a tiros o jogador de basquete Diego Mendes Modanez e feriu o universitário Felipe Siqueira Cunha de Souza’.


No site da rádio também se podia ler (e ouvir):




‘Promotor Thales Ferri fala com exclusividade à RB


Pela primeira vez o promotor Thales Ferri Schoedl fala à imprensa sobre o episódio ocorrido há quatro anos na Riviera de São Lourenço, no litoral norte de SP’.


Apesar do novo artigo neste portal, de todos os avisos de que tudo não passava de uma rematada balela e, claro, de mau jornalismo, a redação e o departamento de divulgação da emissora persistiram na papagaiada. A farsa foi ‘bancada’, em uma prova inequívoca da indiferença de determinados profissionais pela verdade.


Vale a pena ser o primeiro?


Pioneirismo, liderança, primazia, é tolice negar a admiração do ser humano por aqueles que chegam na frente. No jornalismo, esse impulso psicológico é traduzido pela valorização de expressões como ‘entrevista exclusiva’, ‘exclusividade’ ou ‘furo de reportagem’. Noticiar o que nenhum outro conseguiu é, em tese, uma demonstração de investimento em reportagem, de persistência pela busca da informação, de talento, de competência. Logo se verificam os resultados práticos: aumento do interesse do público, ou seja, da audiência e do prestígio e, no plano comercial, das verbas publicitárias.


Tranqüilizo o leitor, não pretendo escrever um manual de auto-ajuda. Uma vez proferidas as obviedades do parágrafo anterior, cumpre dizer o principal. Há, no jornalismo, quem se deixe obcecar pelo ‘furo’, em detrimento de quaisquer considerações, como o zelo pela própria consciência, o respeito pelo público e o apreço pelos seus colegas de outros veículos. Troca-se tudo, inclusive a credibilidade, que se deveria pretender perene, por um momento vazio e, não afetemos admitir o contrário, indecoroso.


Erros são comuns a todos nós. Na cobertura do Caso Thales Schoedl, por desconhecimento, cheguei a escrever:




‘Cumpriria, para melhor informar, mergulhar no processo criminal 118.836.0/0-00, que hoje compreende cerca de 1.500 páginas e cujos trechos ora publico com triste e alarmante exclusividade’.


No mesmo dia da publicação, contudo, sem que ninguém me houvesse censurado, apressei-me a me corrigir, no espaço de comentários:




José Paulo Lanyi , São Paulo-SP – Jornalista
Enviado em 2/10/2007 às 5:47:06 PM
É preciso dizer que encontrei agora na internet dois espaços que publicaram alguns testemunhos desse caso: o blog ‘Ronda Paulistana‘, no Globo Online, e o ‘Blog do Promotor‘. Pode ser que haja outros. De qualquer forma, essa é a minoria da minoria. É muito pouco, quase risível, infelizmente, diante da desinformação reinante.


Lesa-verdade


Há, contudo, ‘crimes de lesa-verdade’. Em 28 de novembro, portanto três dias antes da veiculação da entrevista pela Rádio Bandeirantes, eu obtivera duas informações:


1. A emissora entrevistaria o promotor;


2. O repórter Pedro Campos tinha conhecimento da entrevista publicada por este Observatório.


Nesse mesmo dia, por e-mail, relatei o que soubera aos editores deste portal.


É mesmo gargalhante conceber o fato de que o repórter da emissora ignorava as entrevistas anteriores. Ele acompanhava o caso e desde muito batalhava por ouvir o promotor, que se recusava a concedê-la. Não foram poucos os que tentaram produzi-la, sem sucesso. O temor era o de sempre: a defesa sugeria a leitura dos autos, mas raros jornalistas se dedicavam a cumprir o seu dever.


Como este articulista foi, conforme os advogados, o primeiro a requerer a cópia do processo, tornou-se uma espécie de ‘referência’ (concordo, é muito pouco, em terra de cego…). Em outras palavras se dizia: se quiser cobrir o caso com responsabilidade, faça como o seu colega que entrevistou o acusado e, ao menos, leia o processo.


A salvação da lavoura


É de se perguntar, também, se um repórter alucinado por uma entrevista não teria, necessariamente, indagado às suas fontes, aos seus colegas da Bandeirantes (inclusive aos seus sapientíssimos chefes) ou de outros veículos, ao Google ou ao Oráculo de Delfos: ‘Afinal de contas, esse sujeito, que considero a salvação da minha lavoura, foi ou não entrevistado um dia?’ Alguém teria respondido. Se não os citados, o próprio promotor.


Diante do desfecho que testemunhamos, o conhecimento da entrevista publicada um ano antes altera o estatuto da distorção: da culpa para o dolo, do erro para a mentira.


Quantos trocariam um caráter por um furo jornalístico que milhares de pessoas já sabiam, de pronto, ser impossível, por fantasioso?


Minha resposta é: antes de a emissora ser avisada do vexame, ao menos um. Depois disso, como persistisse a impropriedade, se bem que lucrativa, sugiro recorrermos a uma calculadora.


Do detalhe à informação revolucionária, a regra, em muitas redações, tem sido a de mentir, omitir e distorcer.


O jornalismo brasileiro está na UTI. E eu sou o Dr. Pangloss.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/12/2008 Edison Filho

    Sr Marcelo Ramos, eu, meu pai e meu avô temos porte de arma, sendo que eles foram inclusive militares e sempre andaram armados. Se eu dissesse a algum deles que puxei minha arma na rua porque um engraçadinho mexeu com a minha namorada e ‘meu brio’, eu ia apanhar muito deles e com razão. Pois isso é coisa de moleque sem brio algum. E pior, coisa de frouxo, que precisa de arma pra mostrar masculinidade.

    A primeira coisa que você aprende quando faz um curso de tiro para tirar o porte é a ter responsabilidade. Pela sua segurança e pela de terceiros. Pergunte a alguém que tenha feito esse curso e seja uma pessoa mentalmente sã o que ela faria na situação do promotor. NINGUÉM teria feito o que ele fez. É básico: se você está armado, você evita briga ao invés de entrar nela. Você só usa a arma SE FOR ATACADO, não ‘ofendido’. Pergunte à advogada que escreveu aqui o significado de homicídio por motivo fútil. Tipo: ele me chamou de corno e eu meti bala nele. Igualzinho o promotor.

    Ele não tinha nada que arriscar sua vida e a de sua namorada, foi COVARDE e só teve sorte, pois algum dos pit-boys que estava ali podia estar armado também. No momento em que ele puxou a arma o cara poderia ter-lhe pregado chumbo sem dó e ainda matado sua namorada por engano, e ainda assim seria absolvido com justiça por legítima defesa, igualzinho ele foi. Só queria ver vcs o defenderem daí.

  2. Comentou em 12/12/2008 Marco Antônio Leite

    Cara Vanessa, a verdadeira legitima defesa era dos jovens aja vista que o Felipe tentou desarmar o promotor de competência duvidosa. Os advogados de defesa acabaram por inverter a legitima defesa em favor do Thales, com isso o espírito de corporativismo, numa situação inusitada os 23 iguais absolveram o réu.

  3. Comentou em 11/12/2008 Samuel Lima

    O jornalista José Paulo Lanyi agora discute a primazia do furo neste caso. Concordei com sua apreciação crítica sobre a cobertura do caso, até o momento em que Lanyi usou um dos gêneros nos nobres do jornalismo (A Entrevista) para respaldar sua tese de que o promotor matou o rapaz (e feriu outro) em ‘legitima defesa’. Há uma controvérsia pública sobre a questão, independentemente de qualquer apreciação crítica que se possa fazer da cobertura. O que escrevi neste espaço em seu artigo anterior e reitero é o seguinte: Lanyi faça uma entrevista com a família do rapaz assassinado (se possível com as mesmas perguntas dóceis), com o sobrevivente e/ou outras testemunhas. Um outro jornalista entrou neste canal alegando que eu não havia ‘captado’ o ‘espírito e/ou objetivo’ de seu artigo. É uma estultice, claro. O que não fecha, meu caro, é que você escreve um inusitado artigo usando, para reforçar seu ponto de vista sobre a suposta inocência do promotor um recurso jornalístico dos mais nobres, Em nome do bom jornalismo, que defendes com ênfase – com a qual concordo – faça isso. Esta história não tem um lado só. Por último, se a cobertura da mídia é um lixo, não me recomendem como fonte do ‘outro lado’.

  4. Comentou em 11/12/2008 Marco Antônio Leite

    Marcelo, você é um grande piadista, para não dizer um momo sem graça. Quem repete sempre a mesma ladainha é o senhor, pois teima em defender a impunidade da escol do momento. Não estou defendendo a grande imprensa, estou apenas mostrando que ser sofista não acrescenta absolutamente nada, seu caso especifico. Se a imprensa disse que o promotor é culpado, ela não errou, mas nessa história quem cometeu um erro grotesco foi você, pois teima em dizer que o Thales foi vítima e, não réu no assassinato do jovem indefeso. Feliz festa para você e família? De fato o comentário que vossa senhora citou é duplicata, mas como mantenho meus comentários em arquivo, equivoquei-me e, voltei a postá-lo, peço escusas pelo equivoco. Abraços socialistas?

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