Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > ESTADO E JORNALISMO

Desafios no Brasil democrático

Por Victor Gentilli em 31/05/2006 na edição 383

A humanidade vive um momento admirável. Acompanha com perplexidade, pela internet, pela TV, a imponentes transformações. Uma história inteiramente nova, uma história nunca antes conhecida ou narrada parece estar se desenrolando, noção esta, segundo Hannah Arendt, inextricavelmente ligada à idéia de revolução. Os homens defrontam-se permanentemente com conflitos, movimentos coletivos, impulsos e crises.


Numa velocidade espantosa, o mundo fica cada vez menor e mais complexo. Verdades estabelecidas e certezas inquestionáveis submetem-se à dúvida e tudo vai se tornando incerto e inseguro. Os pensamentos relativistas, irracionais e niilistas tornam-se mais presentes. Ouve-se, com freqüência nunca ouvida antes, afirmações de que o jornalismo morreu ou está prestes a morrer.


Embora os fenômenos humano-sociais ainda sejam passíveis de compreensão pela ciência, a complexidade cria a falsa ilusão relativista. As possibilidades de difusão de informações ampliam-se em proporções impressionantes. Já no século passada, James O’Connor observava que a quantidade de informações e imagens oferecidas em uma hora pela TV é superior àquela que as gerações precedentes poderiam registrar durante uma existência inteira.


A televivência


Hans Magnus Enzensberger, já na década de 70 do século passado observava que as quarentenas de informações como as decretadas pelo nazismo e pelo fascismo só são possíveis às custas de uma consciente regressão industrial. Mas, o que vemos é um permanente avanço tecnológico. A censura estatal, que o Brasil vivia quando Enzensberger formulava, hoje é tecnologicamente inviável: as sociedades de industrialização e tecnologias avançadas dependem de um livre intercâmbio de informações.


As informações difundidas pelos meios de comunicação da contemporaneidade permanecem sempre manipuladas e, muitas vezes, distorcidas e enviesadas. Mas se apresentam, hoje, como a única forma de inserção de cada pessoa no mundo cotidiano concreto. Neste sentido, ela é indispensável ao homem moderno. O acesso ao mundo e a tudo o que ele oferece é hoje possível somente pela mediação proporcionada Meios de Comunicação de Massa.


Quando a democracia representativa começou a insinuar-se como forma de organização política – não se completaram sequer dois séculos – o representado era, sempre, procurado pessoalmente pelo candidato a representante. Alguém aqui, hoje, cogita de escolher o candidato ao governo depois de conversas pessoais com cada um deles? Este, digamos, é o exemplo político do fenômeno em que a vivência é substituída pela televivência. Cada vez mais, vivencia-se à distância. O conhecimento, enfim, muda de natureza: sabe-se muito mais do mundo; conhece-se muito menos o mundo.


Escolhas ampliadas


O Estado-nacional, forma de organização social produzida durante o renascimento para romper e superar a representação funcional medieval, apresenta seus primeiros sintomas de esgotamento, incapaz de fazer frente aos problemas novos suscitados pelo desenvolvimento das modernas sociedades de massas.


Esta nova circunstância produz um salto nos processos sociais de integração, fazendo-o elevar-se de um patamar mais baixo para outro mais alto (das tribos às nações e agora, ao mundo). Com isso, os homens se descobrem mais estranhos ainda em relação às fontes diretas de poder. Decisões que afetam, a vida de cada indivíduo são tomadas em ambientes assépticos, distantes das possibilidades de interferência pessoal.


Para Norbert Elias, ‘o indivíduo perde, sobretudo, chances de poder, vê diminuir suas possibilidades de influência direta nos fatos que dizem respeito a eles e seus semelhantes’. Elias apenas aprofunda uma discussão cuja origem remonta ao final da II Guerra Mundial, quando Max Horkheimer observara que o futuro do indivíduo depende cada vez menos de sua própria prudência e cada vez mais das disputas nacionais e internacionais entre os colossos do poder’.


As possibilidades de interferência se reduzem, mas as escolhas se ampliam. O cotidiano da vida contemporânea é, como nunca antes em tal magnitude, definido pelas amplas alternativas de opções. Integra o campo potencial da escolha a marca do sabonete, a carreira profissional, o presidente da República, a grife do jeans, o livro, o gosto musical, a cor dos olhos, o sabor do sorvete, o vereador, o programa de TV.


Razão crítica


A consagração da escolha, da possibilidade de cada um dizer sim ou não diante de cada oferta representa – é preciso que se diga isso com todas as letras e se reconheça tal circunstância em todas as suas implicações – a incorporação da lógica do mercado na vida cotidiana em todas as suas dimensões. Exemplo dramático e inescapável: hoje, o único espaço disponível e possível para a difusão de idéias antimercado é a disputa de mercado no mercado de idéias.


Cada escolha singular implica infinitas recusas. As possibilidades são, sempre, extraordinariamente maiores que o potencial de disponibilidade material e a dimensão temporal de uma existência singular. É impossível que alguma pessoa possa adquirir e fruir o universo. O homem vive mobilizado a adequar-se face a convivência com a recusa. Tudo é possível ao homem-genérico-humanidade, mas a consciência da finitude do homem-singular indivíduo se evidencia. A angústia se dissemina.


Como observa Jean Lacouture, o que caracteriza o mundo convulsionado e comunicante em que vivemos não é o fato de que toda crise nos deixa em palpos de aranha, mas o fato de que esses acontecimentos sejam logo levados ao conhecimento da opinião pública, afligindo-a, projetando-a na angústia. O estar no mundo torna-se cada vez mais complexo e difícil.


O domínio de uma razão crítica que ofereça alguma forma de cognoscibilidade ao mundo concreto, mesmo que precária, capaz de oferecer uma mínima transparência ao mundo real e situar o homem neste turbilhão da vida contemporânea passa a ser uma exigência do homem das cidades. Para Lacouture, é essa imediação da comunicação que impõe o desenvolvimento da história imediata, sinais de bruma de uma sociedade alucinada por informações e no direito de exigir inteligibilidade histórica próxima. É preciso tornar este mundo habitável e compreensível por todos, na medida do possível.


Atividade pública


A compreensão da necessidade da informação como uma necessidade social é hoje um fato inquestionável: não há como se viver sem o estabelecimento de uma ligação com o meio-ambiente, a comunidade, a sociedade, o grupo social. A busca do máximo de informação possível é, sim, uma circunstância dada que conforma a vida cotidiana contemporânea.


Pois bem! O jornalismo é a atividade que se ocupa basicamente da difusão de informações no mundo moderno, isto é, da constante sintonização com a atualidade, do provimento daquela orientação básica indispensável para as decisões cotidianas, desde as mais elementares até as mais complexas.


O jornalismo é fundamental para a vida do homem moderno; para que ele se localize no mundo, em seu país em sua cidade; situe-se diante do conjunto de circunstâncias que o cerca, organize sua vida a partir do volume de oportunidades que lhe são oferecidas, tome suas decisões e faça suas escolhas a respeito dos assuntos que lhe interesse.


O jornalismo, portanto, é uma atividade essencialmente pública – nos dois sentidos que Norberto Bobbio dá à expressão. É uma atividade que se refere a fatos, eventos e acontecimentos não-privados. É uma atividade que, por definição, nega o segredo. Tira do campo do secreto tudo aquilo que se refere ao campo não-privado. Jornalismo é serviço público. Um dos poucos, ou o único serviço público que deve manter-se o mais afastado possível do Estado. Até aqui, já passei de mil palavras. De sete mil caracteres digitados. Já é hora de contar histórias.


Hits da época


Muito cedo, decidi ser jornalista na vida. Tinha 13 anos, estávamos em 1967 e eu iniciaria minha vida pública, claro que não sabia. Procurado pelo então foca Celso Ming, curtia e me divertia com o Colégio de Aplicação, que dias antes tinha sido tomado pelos alunos. Na época, o ensino dividia-se em primário, ginásio e colegial. O Colégio de Aplicação que era na prática uma escola-laboratório para professores e estudantes da então chamada Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo borbulhava enquanto a roda da história, para usar uma expressão de Elio Gaspari, girava. Os estudantes fizeram uma greve contra a demissão do diretor Clóvis da Silva Bojikian, uma figuraça. Hoje ele é um dos altos dirigentes de uma empresa moderna, que fora pioneira, ainda nos anos 1980, na modernização dos métodos gerenciais. Clovis fora inovador demais, e o secretário de Educação da época demitiu-o. Em protesto fizemos nossa primeira greve.


Iniciada a greve, que exigia a volta do diretor demitido, reuníamos diariamente na parte da frente do colégio. Certo dia, no final da tarde, fomos cercados pela Polícia. Sem outra alternativa, ‘fugimos para dentro’ e entramos no Colégio. Numa rápida assembléia, garotos de 11 a 17 anos decidimos que não mais sairíamos de lá até que o diretor voltasse. Criamos comissões, organizamos grupos para as mais diferentes tarefas e o Colégio tornou-se nosso território, com nome pomposo: TERRITÓRIO LIVRE DOS ESTUDANTES DO COLÉGIO DE APLICAÇÃO.


Na minha lembrança, havia muito mais cultura do que política. Montamos uma rádio que nos mantinha permanentemente informados e tocava os hits da época. Organizamos campeonato de xadrez, um grupo improvisou uma peça teatral com um nome bastante sugestivo: Roqueu e Julieta, e com apoio dos estudantes da USP e dos nossos pais, recebíamos mantimentos, colchões, roupas etc. O colégio virou um verdadeiro acampamento. A rádio tocava os hits da época: o debate que viria opor o rock à MPB – o eixo da polêmica seria o uso de guitarras na música popular brasileira – ainda esperava por 1969 para se instalar no país. Ainda esperaríamos dois anos para curtir ou vaiar a renovação ou revolução tropicalista que ainda estava por vir.


A vida lá dentro


Rolling Stones, Beatles, Chico Buarque – que ganhara um festival com A Banda – e uma pitada de Geraldo Vandré compunha o nosso repertório. Confrontando lembranças há coisas que conferem e outras que se contrapõem a outras lembranças. Como todos sabem, a memória é seletiva.


Já tínhamos uns dois ou três dias que estávamos lá. A porção do Colégio onde ficavam a secretaria, a diretoria, a sala de professores, o atendimento ao público ficava bem defronte ao portão principal. Éramos crianças, mas não irresponsáveis. Estas partes ficaram intactas. Apenas o corredor que permitia o acesso às salas de aulas, tinha algum movimento. Por dentro, uma placa ostensiva e esclarecedora informava: TERRITÓRIO LIVRE DOS ESTUDANTES DO COLÉGIO DE APLICAÇÃO. E logo abaixo, quase no mesmo tamanho de letra, na minha memória: PERMITIDO O ACESSO APENAS DE ESTUDANTES E JORNALISTAS. A menção a jornalistas fascinou aquele garoto de ainda 13 anos.


Era 1967. O conturbado ano de 1968 estava se iniciando para nós. Menino, mal iniciara a puberdade, tinha uma gostosa sensação de que era importante. Claro que era falsa. Importantes eram os líderes que nos comandavam: o hoje banqueiro Pérsio Arida, o hoje colega na UFBA Marcos Palácios. Importantes e astutos: embora na época o debate fosse outro, aquela placa já indicava claramente que desejávamos o apoio da sociedade, então chamada de ‘opinião pública’ pelos conservadores e de ‘povo’ pelos mais à esquerda. A expressão ‘sociedade civil’ ainda era uma ilustre desconhecida. Queríamos a adesão popular, evidente.


Para mim, éramos heróis. Quando Celso Ming me encontrou, junto com um amigo, Milton César Azevedo, fiz minha estréia no jornalismo. Eu era uma fonte. Contei como era nossa vida lá dentro, expliquei que a demissão do professor Clóvis era um absurdo e claro, ingenuamente cagüetei meus próprios pais. Afirmei que tinha excelente diálogo em casa e que meus pais apoiavam e me estimulavam a participar. A verdade não era bem essa, mas pegou bem. E no dia seguinte lá estávamos, meu colega e eu, explicando em matéria de página inteira na Folha de S. Paulo como era a vida lá dentro.


Veio 1968


Daqueles dias em diante nunca mais sequer cogitei qualquer outra profissão. Queria ser jornalista na vida. Queria contar ao povo o que acontecia na cidade, no estado, no país, explicar o que estava acontecendo com o mundo, que estava prestes a fervilhar em todo canto. Na França, na então Tchecoslováquia, no México, no Brasil, o ano de 1968 estava por vir e fazer o mundo tremer. E desafiar os jornalistas a explicar o que acontecia.


Foram poucos dias. Logo depois, agora num final de tarde, o DOPS e a Guarda Civil invadem o Colégio e nos tiram de lá com violência excessiva. Éramos, na enorme maioria, crianças. A Folha de S. Paulo deu chamada na primeira página, claro. A Folha da Tarde , do mesmo grupo, faz da invasão policial a manchete de edição do dia seguinte. Como são as coisas… O diretor de redação da Folha da Tarde era o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, que pouco mais tarde seria conhecido como Frei Betto.


Na minha imaginação, a cidade inteira se indignou. Eu vivi uma experiência marcante e inesquecível. E, se já tinha tomado a decisão, convenci-me, definitivamente: queria ser jornalista na vida. Veio 1968, fizemos uma nova greve exatamente nove meses depois daquela. Conseguimos a adesão de vários colégios de São Paulo. Chegamos a fazer uma passeata só de secundaristas pelo Centro da Cidade. Novo destaque nos jornais do dia seguinte. Mais uma confirmação da profissão que escolhera para minha vida.


Copa e tortura


Em 13 de dezembro de 1969 veio o AI-5 e a ditadura parou de fingir-se e assumiu-se. Nos primeiros momentos, todos sabiam das prisões, da censura, mas com a exceção do O Estado de S. Paulo que publicou um editorial de leitura obrigatória para qualquer estudante de Jornalismo, os jornais amansaram. Instituições em frangalhos, o título do último texto livre que o jornal consegue fazer circular


Opinião pública? Parcela expressiva da oposição assaltava bancos, seqüestrava embaixadores, cometia loucuras de todo tipo. Até perceber que eram quase unanimemente rejeitados, achavam que tinham o apoio do povo. Do outro lado, bastava a censura para impedir que a população soubesse das coisas mais brutais do regime.


Ora, ainda menino, nem chegara aos 15 anos, gostava de ler O Estado de S. Paulo, jornal que meu pai lia religiosamente. E, a caminho do ponto de ônibus, com alguma freqüência comprava algum outro jornal para ler enquanto aguardasse ou se conseguisse viajar sentado. Este vício do qual jamais me livraria já se instalara em mim. Não passava um dia sem minha dose diária de jornal.


De 1969 a 1973, o país que se via ganhava a Copa do Mundo, seus atletas brilhavam em vários esportes e muito poucos brasileiros sabiam que outros brasileiros sofriam torturas e humilhações indescritíveis. O destino dos desaparecidos políticos até hoje é desconhecido. Os arquivos da repressão até hoje são inacessíveis ao brasileiro. O Estado brasileiro, tão desigual, não sabe preservar sua história.


Combatendo a ditadura


A Biblioteca Nacional, hoje nas mãos do nosso colega Muniz Sodré, foi dilapidada em obras pelo dirigente que o antecedeu. Poderia arrolar mais e mais exemplos do descaso brasileiro com a história. O caso da Biblioteca Nacional é emblemático, pois é o órgão do Estado responsável pela guarda e conservação de todos os jornais brasileiros. A grande maioria dos jornais – se apresentasse nomes certamente a platéia se surpreenderia – não tem a preocupação de enviar regularmente os exemplares para a guarda e conservação no acervo. Espero que Muniz Sodré não apenas dê um puxão de orelhas nestes relapsos, como também exija que os atrasados sejam todos encaminhados.


Hoje temos uma safra de biógrafos de primeira linha. A grande maioria é de jornalistas. Aqui e acolá um historiador. Não há um único que não tenha se embrenhado na Biblioteca Nacional procurando refazer a história de vida de pessoas num verdadeiro garimpo em jornais.


Pois vamos ao tema da palestra: hoje, se cada um cuidasse exclusivamente de suas atribuições, o jornalismo seria absolutamente livre e ao estado caberia apenas a guarda e conservação destes nos seus arquivos. Vejamos como transcorre a história daqui para a frente.


Foi no auge deste período terrível da história brasileira que, aos 17 anos, tornei-me uma pessoa de esquerda, ingressei numa organização clandestina e comecei a batalhar na militância política. Claro, só havia uma única coisa a fazer: combater e denunciar a ditadura militar.


Jornais e censura


Distribuía jornais do Partido Comunista a uns poucos amigos de confiança estrita e, a um grupo bem maior, um panfleto que fazia o maior sucesso. Era mimeografado, um sistema de impressão não apenas anterior ao computador, mas à difusão das fotocopiadoras. O jornal se chamava Notícias Censuradas e se limitava a informar, com matérias de dois ou no máximo três parágrafos, as notícias que o governo, gestor do Estado, proibia os jornais de divulgarem. Eis o Estado, por intermédio do regime militar, limitando ações dos jornais.


Faço um relato pessoal porque, como em boa medida acompanhei as mudanças que se deram nestas últimas décadas, entendi que seria interessante ver como eu via as coisas na época e como a entendo hoje.


Neste período, aqui em São Paulo, O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde faziam o maior sucesso. O grupo Folhas editava vários jornais, nenhum de maior expressão. Eles obtiveram do governo do estado de São Paulo uma mina de ouro. O direito de explorar a estação rodoviária de São Paulo, que ficava em frente à Estação Sorocabana, onde hoje fica a primorosa Sala São Paulo. A Rodoviária era já naquela época apertada, mal localizada, mas os jornais do grupo jamais fizeram uma única crítica. Os jornais eram bem fraquinhos. Aquela Folha de S. Paulo em que eu me iniciara no jornalismo continuava a mesma. A Folha da Tarde mudara: se antes do AI-5 era um jornal de esquerda, comandada por Frei Betto e com uma equipe de jornalistas interessante, depois passa a ser comandada por policiais ligados ao esquema de repressão política. Mudou o quadro político, mudou também o jornal. Até porque boa parte daquela equipe de jornalistas ou tinha vida clandestina ou já estava nos cárceres da repressão.


Folha sem editorial


O conservadorismo de O Estado de S. Paulo não chamava muita atenção. Um ou outro editorial chocava, mas nos anos de 1972 e 1973, principalmente, o jornal optou por denunciar a censura do Estado no Estado e no Jornal da Tarde. O primeiro publicava trechos de Os Lusíadas, de Camões, nos espaços das matérias cortadas pelos censores. O Jornal da Tarde publicava receitas culinárias: a maioria não resultava em prato algum. Ainda hoje recordo-me de uma página inteira de receitas estranhas, sob o título no alto: ‘As especialidades do Alfredo’. Nem todos compreendiam, mas era claro que o jornal se referia ao então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid.


O grupo da família Mesquita enfrentava o Estado (governo) porque tinha tradição e credibilidade. Cláudio Abramo, que saíra em 1963 do jornal O Estado de S. Paulo, onde na década de 1950 comandara uma reforma magnífica, era, desde 1966 ou coisa assim, consultor de Octávio Frias de Oliveira. Num dado momento, passa a ser responsável pelo setor de produção do jornal Folha de S. Paulo. E em 1974, assume a secretaria de redação e inicia uma reforma histórica no jornal.


Primeiro, cria a página 2. Acreditem: a Folha de S. Paulo não tinha editoriais. Um correspondente em Brasília que mandava um artigo diário, a cada dia era publicado numa página diferente. Em essência, essa página 2 é semelhante à página 2 de hoje, com três artigos, um de Brasília (de Rubem Azevedo Lima), um do Rio de Janeiro (de Alberto Dines), que fora contratado para montar e dirigir a sucursal do Rio de Janeiro do jornal, e uma de São Paulo. Acima, uma charge, à esquerda, editoriais. E à direita uma coluna com colaboradores fixos.


Encomenda do governo


Poucas semanas ou meses depois, ainda em 1974, é criada a página três, a op-ed, tradicional no jornalismo americano, como a página oposta aos editoriais. Esta página, em boa medida, inaugurou a participação de intelectuais e acadêmicos na imprensa brasileira. Antes, essa participação era mais restrita. Claro, antes considere-se antes de 1964,


Com uma equipe de repórteres e uma estrutura noticiosa boa, a Folha começa a ser vista como um jornal importante e de fato, passa a concorrer com O Estado de S. Paulo. Nos setores mais politizados da população, em 1975 a Folha já é vista com mais freqüência debaixo do braço dos estudantes universitários. Substituía o Estadão ou o JT, que, curiosamente, perderam seu charme com o fim da censura prévia que ganha no seu centenário, em janeiro de 1975.


O que só viríamos a saber, publicamente, em 2003, é que a mudança da Folha se deu por encomenda do governo do general Geisel, pouco antes de assumir. Em março de 1974, o general Golbery chama Octávio Frias de Oliveira e o estimula a fazer da Folha um concorrente do Estado. Esta foi a origem da reforma que transformou a Folha no jornal respeitável de hoje. Um pedido do governo. Uma orientação de estado. Octávio Frias acedeu, convocou Cláudio Abramo e o projeto vingou. Foi Otavio Frias Filho, em seu depoimento à CPDOC da FGV, que tornou pública esta informação, particularmente depois da publicação do livro Eles mudaram a imprensa. Muitos desconhecem que esta reforma da Folha foi paralisada em 1977. E que uma nova reforma se iniciaria em 1984, muito distinta desta primeira, agora sob o comando de Otávio Frias Filho, filho do velho Octávio Frias de Oliveira.


História e jornalismo


Uma crônica de Lourenço Diaféria, no 7 de setembro de 1977 desagradou os militares. No dia seguinte, o espaço onde a coluna era publicado diariamente saia em branco: o colunista estava preso. E a Folha, sem tradição e ainda sem a credibilidade de hoje, em outras palavras sem força política, sofre uma dura retaliação. Colunas são suspensas, muitas mudanças retrocedem. Alberto Dines deixa de publicar a coluna ‘Jornal dos Jornais’, origem do Observatório da Imprensa. E Cláudio Abramo é sumariamente demitido do cargo e vai ser correspondente em Londres.


Claro, tudo o que aconteceu com o jornal se deu a pedido do governo.


Governo que mudaria de características no dia 12 de outubro. Pouco mais de um mês depois do 7 de setembro. Exagerado, Elio Gaspari chega a dizer no seu livro que a ditadura começou a acabar ali. Mas foi a primeira e única vez na história que um presidente demite um ministro do Exército.


Certamente todos se lembram que Lula ficou caladinho quando o general Francisco Albuquerque lançou aquela nota indigna sobre Vladimir Herzog. Mas Geisel demite o general Frota e a operação é bem sucedida. Se o jornalismo, a história ou a vida tivesse alguma coerência, Cláudio Abramo seria chamado de volta. Afinal fora o esquema Frota que o derrubara. O velho Frias manteve Boris Casoy, que fora chamado às pressas para substituir Abramo.


A história e o jornalismo pode não ter lógica nem coerência. Mas as ironias estão sempre presentes. Este Boris Casoy que substituiu Cláudio Abramo porque o governo da época o demitiu, perdeu agora o seu telejornal porque o governo de agora o demitiu. Não avançamos muito, infelizmente.

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Jornalista, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e integrante da Rede Nacional de Observatórios da Imprensa (Renoi)

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