Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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CADERNO DA CIDADANIA > JORNALISMO-CATÁSTROFE

Desgraça e violência são regra, não exceção

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 08/07/2008 na edição 493

Há algum tempo, os telejornais da Rede Globo têm assumido um caráter quase apocalíptico. Quando o país não está a um passo de ficar parado por causa do caos aéreo ou afundar no mais horrendo processo inflacionário, estamos a um palmo da barbárie. Esta semana estamos sendo bombardeados diariamente com os casos de violência cotidiana. A ênfase no grotesco é tão grande que fica parecendo que a desgraça, o perigo e a violência são regras, e não exceções.

Cada vez que me sento em frente à televisão para ver o Bom Dia São Paulo, Bom dia Brasil e o Jornal Nacional me sinto transportado para um cinema. Impossível não comparar o alarmismo exagerado dos responsáveis pelo jornalismo global com os filmes norte-americanos que são distribuídos no Brasil (alguns pela própria companhia).

Inferno na torre: mais uma criança foi jogada pela janela do apartamento. Entretanto, os jornalistas da Globo nunca informam quantos apartamentos existem no país e quantas são as crianças que permanecem na mais absoluta segurança em companhia dos pais. Os bons exemplos, que são a regra, parecem não fazer parte do imaginário jornalístico brasileiro. Por isto mesmo, não vou ficar nem um pouco espantado no dia em que as belíssimas âncoras globais noticiarem, em tom embargado, que crianças começam a sofrer medo de ser jogadas fora ou que um especialista que estudou e descreveu os casos nomeou a epidemia de ‘síndrome do inferno na torre’.

Amálgama de potencialidades

Aeroporto: o caos aéreo rendeu horas e horas do mais típico jornalismo-catástrofe. Ficou parecendo que o país estava parado, que a segurança nacional estava em risco e exigia soluções fardadas. Apesar dos contratempos, não houve desabastecimento e a esmagadora maioria dos brasileiros – que viaja de ônibus, de carro, de jegue ou a pé mesmo – continuou a chegar aos seus destinos.

O dia depois de amanhã: quando tratam do meio ambiente, os jornalistas globais seguem um roteiro realmente catastrófico. Os telespectadores são quase convidados a sair da frente de suas TVs e se refugiar dentro das respectivas geladeiras. O mar vai subir e inundar a orla carioca, as plantações vão secar, bilhões vão morrer afogados de fome ou de sede… e no entanto não há galinha em meu quintal – diria o bom e velho Raulzito. Desde tempos imemoriais, a espécie tem sido obrigada pela natureza a se adaptar a severas mudanças climáticas. Algumas delas foram bastante benéficas, outras não. O movimento das placas tectônicas, que não pode ser atribuída à atividade humana, faz continentes afundarem na água e o fundo do mar se levantar a 8.000 metros de altura. Apesar de bastante ativos, os geólogos não têm sido muito consultados pelos jornalarmistas.

Jason, Freddy & Cia.: a sociologia é ciência há mais de um século e já existem sociólogos que refutam a possibilidade de tipificar de maneira rígida pessoas, grupos ou classes sociais. As condutas dos seres humanos são caóticas – dependem da educação, mas também de inclinações inatas, dos estímulos do meio, do estado psicológico momentâneo etc. Somos como os pombos: rodopiamos à procura de comida e sexo, mas eventualmente trocamos bicadas. Cada um de nós é um amálgama de potencialidades e realizações.

Showrnalismo é deprimente

Dependendo do contexto podemos ser pacíficos, como Gandhi, ou brutais, como Heinrich Himmler, mas muitas vezes somos piores que os santos e bem melhores que as bestas. Apesar das contradições humanas e da riqueza da vida em sociedade, para alguns jornalistas a tentação de tipificar os seres humanos é muito grande. Alguns chegam ao absurdo de lidar apenas com os tipos jornalísticos. Quando isto ocorre, a tarefa do profissional passa a ser procurar pessoas e situações que se encaixem nos tipos jornalísticos que estão na moda e, portanto, possam ser noticiados. E assim, cada matéria passa a ser uma nova versão do tipo previamente definido, como se fosse a seqüência de um filme de terror cujo enredo e personagem principal todos conhecem.

Na quarta-feira (2/7) pela manhã, ao assistir ao Bom Dia Brasil, tive um insight, ou vipassana. A verdadeira atividade de alguns jornalistas não é manter-nos bem informados, mas apenas e tão somente transformar nossas vidas num inferno. A felicidade presente, modesta ou opulenta, é a regra para a esmagadora das pessoas. Mas esta singela regra da vida parece incomodar alguns profissionais, ou simplesmente não ter interesse jornalístico. Assim, os telejornais transformam a exceção em regra e democratizam não a informação, mas a infelicidade.

O showrnalismo é deprimente. A cada telejornal sinto-me como aquele rei que, temendo ser envenenado, passou a tomar arsênico em pequenas quantidades todos os dias. O infeliz tinha a esperança de que estaria prevenindo o pior, mas acabou morrendo em razão do efeito cumulativo das doses que voluntariamente ingeriu.

Prometo solenemente que doravante vou me cuidar. Desligarei a televisão durante os telejornais globais.

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Advogado, Osasco, SP

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