Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA URBANA

Destino de mãe negra do Brasil

Por Carmen Maria Baptista Corrêa em 13/03/2007 na edição 424

Hoje é um dia muito triste, minha mente está vaga, anestesiada, ainda não me dou conta do que aconteceu, creio que morri, é como se eu desejasse parar o tempo, meditar, encaixar as peças do quebra cabeça e salvar aquilo que se perdeu. A morte de um filho é o silêncio da palavra, ausência de gesto e a falência do projeto de continuidade. A reminiscência se apresenta carregada de dor e a esperança se lança no futuro vazio. Pergunto onde errei, na memória desfila o dia do nascimento, o afeto passado no alimento, o aniversário de um ano, o primeiro dia de aula, o choro ao deixá-lo na escola e a promessa ao tentar protegê-lo de todos os males e perigos. Para mãe o amor e amparo a um filho é para sempre, para um filho, sempre é tempo demais.

Em julho, meu filho enviou-me um e-mail, iríamos superar as adversidades e seríamos favorecidos com o surgimento de um novo período; em dezembro, aquele filho estava irreconhecível. Vivi um sentimento pleno em todos os sentidos de impotência e desamparo próprio do mundo adulto. Minha alma intoxicada se atualizava na dor e sobrevivia impregnada na perplexidade. Travava uma batalha, resistia ao contato com o socialmente construído, o sentimento de rejeição, desprezo e a culpa me obrigaria a enfrentar as manobras defensivas represadas por anos. Vinha do enterro de um filho idealizado.

A dor é surda e anônima. Na banca de revistas paro e, aturdida, sou absorvida pelas fotos de Edna Ezequiel estampadas nas primeiras páginas dos jornais, o retrato colorido da mulher trazia em preto e branco um olhar impenetrável de mãe entorpecida e fixa no nada. Alana, sua filha de 13 anos, foi vítima de uma bala perdida na troca de tiros entre polícia e ladrão. Não basta a tragédia, a notícia transforma a mãe em co-autora: simplória faxineira, permitiu a saída da criança de casa depois de um tiroteio. Afinal, é rotineira para habitantes das favelas cariocas a incursão da polícia à procura de criminosos.

Dados estatísticos

A dor incógnita prenuncia a despedida de meu filho, não da reafirmação de seu processo de identidade: o momento é delicado, o caminho traçado sugere um rompimento definitivo com a vida e meu peito se aperta. Mãe negra do Brasil partilha a intercessão, paga tributo de leis irrevogáveis. A bala alcança seu alvo no ventre quando a criança negra sofre a negação de sua identidade e memória. A adolescente negra engravida, vive a experiência materna e perde seu filho na precariedade de políticas públicas de saúde, na ausência de um ensino de qualidade assegurado pela Constituição, no desemprego, nas improváveis condições de moradia.

O destaque oferecido à matéria no jornal é relevante – é na sobra do espaço não preenchido que a notícia chega ao ápice, efetiva-se o rito de passagem da infância e da adolescência não mais existentes, o que permite sua redução a dados estatísticos. Entre os filhos vítima de bala nunca perdida estavam Adriele Medeiros Nobre, de 9 anos, morta na favela do Jacarezinho, no Rio, quando brincava ao lado do trabalho do pai; Jessé Veríssimo Arivaldo, 6 anos, andava de bicicleta e foi baleado em Vigário Geral; Rennan da Costa Ribeiro, de 3 anos, foi morto durante um tiroteio entre mocinho e bandido na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré; Carlos Henrique Ribeiro da Silva, de 11 anos, morto com um tiro de fuzil da cabeça; Gabriel de Barros dos Santos, 6 anos, morto com um tiro na cabeça no Morro do Zinco, em meio a um confronto corriqueiro de PMs e traficantes.

As amostras dos dados mais tarde serão analisados e possibilitarão a formulação de uma pesquisa realizada por um doutor especialista em violência e patrocinada por um conselho financiador, porta aberta às futuras vítimas que ainda não fazem parte dos dados estatísticos.

Flores mortas

A sensação de tragédia e fatalidade é assustadora e dolorosa. Não se trata mais no medo do fracasso, e sim de sua concretização. Emerge a ascensão da culpa e o pesadelo se configura na finalização definitiva de um modo de vida que é o destino de mãe negra do Brasil.

A sociedade clama pela não-violência, mas não recordo de qualquer mobilização no Parlamento que vislumbre uma mudança de lei em função dessas mortes. Rememoro movimentos preocupados com a integração física de seus pares (classe média alta) e com o seu patrimônio. Não surgiu manifestação popular que se preocupasse em homenagear crianças negras e pobres com missa na Igreja da Candelária construída por náufragos e palco de solenidades da alta sociedade brasileira.

Quando a comunidade ousa se rebelar, a polícia mete o pau para terminar com o motim. Em São Paulo, a cidade mais poderosa do Brasil, um empresário cogita a fabricação de colete para as crianças. Meninos negros e pobres não usarão coletes, são recepcionados e surpreendidos com bala perdida e presença de ‘caveirão’. Direitos humanos de mãe negra do Brasil é a experiência com o final inevitável de seus filhos.

As crianças não mais serão livres para expressar características do comportamento infantil ao brincarem de casinha, telefone, massinha, desenho de folha de papel e empurrar cadeira – foram ceifadas do mundo da fantasia e privadas de seus processos de constituição.

Alana, aos 13 anos, seria uma futura mulher negra, já ensaiava seu papel social, levava sua irmã para a creche, experimentava o papel de babá, foi submetida a uma circunstância trágica e se defrontou com um desafio muito maior do que sua resistência.

Edna Ezequiel, mulher, faxineira, mãe negra de mais alguns filhos, todos na escola, e as mães das comunidades de classes populares que perderam seus filhos vivem a experiência da Grande Mãe, das flores mortas. As folhas se desprendem das árvores e a terra está gélida, impedida de germinar.

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Professora, Rio de Janeiro, RJ

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